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sexta-feira, dezembro 8

 

Evangelho social

Nota: o Carlos Cunha é o meu amigo mais antigo da blogosfera. Foi com ele que pela primeira vez abdiquei do anonimato sem rosto dos blogues e almocei um dia para nos conhecermos melhor. Não foi certamente por acaso. Partilho com ele muita coisa: uma Fé insatisfeita mas estruturante, uma certa visão do mundo e da vida, um pessimismo esperançado a meias com um optimismo reticente, uma heterodoxia que gosta das coisas no seu lugar, uma iconoclastia conservadora, um certo prazer em se ser diferente do estereótipo que nos querem colar na testa, os engarrafamentos no IC-19 ouvindo a música que se reserva para essa solidão, uma série de coisas mais. Discordamos na generalidade e surpreendemo-nos muitas vezes ao concordar na especialidade. Eu vejo nele um comuna às direitas, daqueles como deve ser. Mas adiante. Escreveu esse meu estimado amigo na Terra da semana passada uma versão apócrifa e capciosa dum belo trecho dos Evangelhos. Pois eis uma outra coisa que eu partilho com o Carlos: também eu sei fazer disso. Cá vai.

Naquele tempo, encontrava-se Jesus no campo, a olhar os lírios, quando d'Ele se acercaram Pedro, João e os restantes discípulos do costume. Ao vê-l'O cabisbaixo e de sobrancelhas franzidas, os discípulos entreolharam-se e Pedro, enchendo-se de coragem, perguntou a Jesus: «Senhor, porque estais triste?». Ao que Jesus, fazendo um gesto circular com a mão direita para que se sentassem em Seu redor, retorquiu: «Em verdade vos digo que olhava para estes campos, onde florescem os lírios, em que as aves cantame em que toda a Criação exulta ao Pai». Ainda mais surpreendidos, os discípulos interrogavam-se interiormente sobre qual a causa da tristeza e irritação de Jesus, e João perguntou: «Senhor, queres descansar um pouco?». Suspirando, disse Jesus: «Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos; sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar».E reparando que os discípulos continuavam sem nada compreender, disse: «Bem-aventurados os olhos que vêem o que vós vedes. Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram».
Tendo-se acercado deles muitos homens e mulheres, para escutarem o que dizia Jesus, levantou-se um certo judeu de Alexandria, que ensinava semiótica helenística no Liceu de Cesaréia e, para O experimentar, disse: «Mestre, que farei para herdar a vida eterna?»
Perguntou-lhe Jesus: «Que está escrito na Lei? Como lês tu?»
Respondeu-lhe aquele: «Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo».
Tornou-lhe Jesus: «Respondeste bem; faze isso, e viverás».
Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: «E quem é o meu próximo?»
Jesus, prosseguindo, disse: «Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de salteadores, os quais o despojaram e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. Casualmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e vendo-o, passou de largo. De igual modo também um levita chegou àquele lugar, viu-o, e passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão; aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse-lhe: "Cuida dele; e tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar”. Qual, pois, destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?»
Respondeu o professor: «O levita, Mestre. Pois o samaritano, indivíduo sem cultura, que da Lei só conhece os 5 livros da Torah, esse ignorante ao ajudar o homem vítima dos salteadores, só fez atenuar a revolta que este deveria sentir perante as sevícias que lhe foram infligidas por uns salteadores que são também eles vítimas da opressão que se abateu sobre este povo que vive enganado pensando ter sido o escolhido. Foi escolhido sim por esta casta de saduceus que se aliaram ao imperialismo romano para o oprimirem fazendo-o pensar que é Deus que o castiga por um lado e o consola por outro. O samaritano, ao praticar uma caridade pontual, atenuando uma dor legítima, está a contribuír para atrasar a revolta contra esta sociedade que o oprime também a ele, pobre tolo que é. Já o levita, embora membro da casta opressora, esse sim é que teria interesse em amparar o pobre homem. Se não o fez e não sendo ele estúpido, pois os levitas nunca o são, suspeito que esse levita guarda no segredo do seu coração a semente da revolta contra os seus iguais, o desejo duma sociedade sem levitas nem samaritanos, sem vítimas nem salteadores, sem oprimidos nem opressores, sem romanos imperialistas nem lacaios saduceus. Ao negar o auxílio ele estava certamente a querer aumentar o desespero daquele homem, por forma a que ele se liberte das peias da doce ilusão com que o dominam. Está assim a ajudar à sementeira da revolução que trará finalmente o fim da injustiça e a verdadeira irmandade entre os homens.”

O professor calou-se, esperando um momento pela resposta de Jesus que o escutou sempre fixando nele o olhar penetrante e calmo. De repente, Jesus aproxima-se em silêncio do professor e beija-lhe os lábios exangues, sem mais dizer. O professor tem um sobressalto, mexe os lábios mas afasta-se de Jesus que lhe diz: "Vai e faz como quiseres". E Jesus deixa-o ir, nas trevas da cidade. O professor vai-se, o beijo queimou-lhe o coração, mas persiste na sua idéia.*

* plágio de Dostoievski (d´O Grande Inquisidor)

José [GUIA DOS PERPLEXOS] - 27 de Outubro de 2004

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