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quarta-feira, julho 12

 

Família e famílias

Todos têm uma família. Mesmo um solitário na cidade deve sentar-se no esconso de uma qualquer tasca a espreitar o seu Benfica. Já o Papa tem a mais fácil das famílias: enorme, gigante, um mar de gente que tem um lar, a que chama a Casa do Pai, mas que acaba por não arreliar muito. Não deixa a louça por lavar, não chega tarde a casa, não grita nem amua, não acorda com remela. Quer dizer: faz isto tudo, mas longe das janelas do Vaticano.

A família de todos os dias, do quotidiano, das arreliações e dos aconchegos, essa, por opção o Papa deixou-a para trás. Mas ainda bem que assim é: se todos gostassem do amarelo, o que seria do azul?! O que me incomoda é que Bento XVI venha do púlpito da sua casa serena defender a família, que é um-pai-uma-mãe-e-filhos-quantos-forem. Indissolúvel. Também acho, mas acho para mim. Quando casei, assumi que é assim que quero viver. Com ela, para ter filhos, queremos ter filhos, os que conseguirmos, e a vivermos todos os dias para sermos felizes. Mas não quero impor esta vida assim a quem não for feliz assim. O Papa ao falar daquela família esquece muitas outras famílias. E nestas, muitas famílias de cristãos. O Papa ao falar assim esquece que devemos incluir antes de excluir. Mais: a família, núcleo essencial das nossas comunidades, deve ser também espaço de inclusão. E se nela persistir a violência, que sentido fará mantê-la indissolúvel?

Hoje, numa realidade em que as famílias se constituem de formas tão diversas (pais divorciados, filhos que convivem com padrastos e madrastas e irmãos do "outro lado", pais solteiros, famílias homossexuais com filhos naturais e adoptivos,...), mais valia fazer o discurso onde se falha tantas vezes. Mesmo nas melhores famílias, nas famílias de todos os dias. O discurso da inclusão, do amor. Tenho ideia que há dois mil anos um tipo que incomodou consciências e se deu com os pecadores lhes disse precisamente isto. Sem defesas dogmáticas. Essas, deixo para o Buffon.


[Declaração escusada de interesses: sim, tenho familiares e amigos divorciados, recasados, pais e mães solteiros, pais homossexuais, filhos e filhas que têm "meios irmãos" e os consideram irmãos de sangue.]

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]
Comments:
Um belo post, cheio de fraternidade e de amor pelo próximo. Mas infelizmente as coisas não são assim tão simples. Parece-me!
Em primeiro lugar parece-me que a casa do Papa será tudo menos serena, pelo menos no sentido em que o diz. Segundo, a maior parte dos casais divorciados parece-me a mim que o são, não por questões de violência. Será por razões que o Papa entendeu por bem denunciar e criticar, pelo menos aos católicos, porque estes também se divorciam! Quanto à inclusão julgo que sim, mas temo que não é isso porque lutam os lobies que por aí pululam, mas isso levaria-nos muito longe na discussão.
Quanto aos divorciados estou plenamente de acordo que jamais deveriam ser impedidos de celebrar os sacramentos quaisquer que fossem e quaisquer que fossem as suas culpas, se é que as têm!
 
Na minha família tenho um alcoólico, pai de duas filhas que cresceram a vê-lo assim, sempre, caído pelos cantos, ausente. Não havia violência, havia uma tristeza enorme.
A mãe (e mulher) aguentou 15 anos de casamento, de visitas às tascas para o levar, de idas ao hospital por acidentes, de buscas nocturnas nas valetas para ver em qual ele estava caído. Católica fervorosa custou-lhe virar as costas. Mas que vida estava ela a dar às filhas?
Dois anos depois está com uma pessoa que, neste espaço de tempo, deu mais carinho, atenção e educação às filhas do que o homem que lhe prometeu amor e respeito eternos.
É só uma história caro anónimo, como tantas outras. Pense nisso antes de condenar...
 
"Segundo, a maior parte dos casais divorciados parece-me a mim que o são, não por questões de violência."

Este é talvez o busílis da questão da Família, vista pelo prisma do divórcio.
Seria bom que houvesse estudos, sérios e repetidos, que assentassem se o divórcio é "mais" necessidade ou "mais" futilidade.
Ao anónimo, "parece" que é mais futilidade. Ao traquinas, nem tanto.

É claro que podemos sempre estabelecer que a liberdade individual é, em último caso, sagrada. Mas esse é um passo mais difícil de dar...

A mim "parece-me" que quem se divorcia por necessidade não pode, seja por que motivo for, impedido de o fazer.
 
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