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quarta-feira, julho 5

 

A caridade como dever da Igreja

O ponto 20 da primeira encíclica do Papa Bento XVI marca o início de uma secção cujo título é precisamente o deste post. Nele o Papa refere:

"O amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever antes de mais para cada um dos fiéis, mas é-o também para a comunidade eclesial inteira, e isto a todos os seus níveis: desde a comunidade local passando pela Igreja particular até à Igreja universal na sua globalidade. A Igreja também enquanto comunidade deve praticar o amor. Consequência disto é que o amor tem necessidade também de organização enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado. A consciência de tal dever teve relevância constitutiva na Igreja desde os seus inícios: «Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos de acordo com as necessidades de cada um» (Act 2, 44-45). Lucas conta-nos isto no quadro duma espécie de definição da Igreja, entre cujos elementos constitutivos enumera a adesão ao «ensino dos Apóstolos», à «comunhão» (koinonia), à «fracção do pão» e às «orações» (cf. Act 2, 42). O elemento da «comunhão» (koinonia), que aqui ao início não é especificado, aparece depois concretizado nos versículos anteriormente citados: consiste precisamente no facto de os crentes terem tudo em comum, pelo que, no seu meio, já não subsiste a diferença entre ricos e pobres (cf. também Act 4, 32-37). Com o crescimento da Igreja, esta forma radical de comunhão material — verdade se diga — não pôde ser mantida. Mas o núcleo essencial ficou: no seio da comunidade dos crentes não deve haver uma forma de pobreza tal que sejam negados a alguém os bens necessários para uma vida condigna."

É significativo que o Papa refira na sua primeira encíclica essa célebre passagem do Evangelho: «Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos de acordo com as necessidades de cada um».

Referi aqui há duas semanas que quem formulou pela primeira vez o princípio comunista "De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades" foi Karl Marx na "Crítica ao programa de Gotha". Enganei-me. Quem formulou pela primeira vez tal princípio afinal foi o Evangelho.

Mas outras lições interessantes se podem tirar deste ponto. Que "a Igreja também enquanto comunidade deve praticar o amor" e que "o amor tem necessidade também de organização enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado" pois o "amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever antes de mais para cada um dos fiéis, mas é-o também para a comunidade eclesial".

Daqui decorre, embora o Papa não o refira expressamente neste ponto, que os cristãos devem, nas suas opções políticas, escolher políticas de amor, políticas de caridade, políticas que exijam uma intervenção fortemente redistributiva por parte do Estado. Pois também as suas opções políticas podem (ou não) traduzir opções de amor ao próximo.

O Papa sublinha que a comunhão "consiste precisamente no facto de os crentes terem tudo em comum, pelo que, no seu meio, já não subsiste a diferença entre ricos e pobres". O Papa acrescenta contudo, numa expressão enigmática que pode ser interpretada como de subliminar descontentamento, que "com o crescimento da Igreja, esta forma radical de comunhão material não pôde ser mantida".

O Papa acrescenta todavia, com veemência, que "no seio da comunidade dos crentes não deve haver uma forma de pobreza tal que sejam negados a alguém os bens necessários para uma vida condigna".

Timshel (TIMSHEL)

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