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quarta-feira, julho 19

 

O amor a Deus e o amor ao próximo: um único mandamento

Nesta metodologia que aqui adoptei de acompanhar do fim para o princípio a primeira encíclica do Papa Bento XVI, obviamente que surgem em muitas circunstâncias as conclusões antes das premissas o que é por vezes vagamente insatisfatório (a vantagem deste modo é que pode conduzir o "insatisfeito" para o texto original - precisamente algo que gostaria que acontecesse). O ponto 18 que hoje se transcreve é precisamente um desses casos.
"Revela-se, assim, como possível o amor ao próximo no sentido enunciado por Jesus, na Bíblia. Consiste precisamente no facto de que eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer. Isto só é possível realizar-se a partir do encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Então aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo. O seu amigo é meu amigo. Para além do aspecto exterior do outro, dou-me conta da sua expectativa interior de um gesto de amor, de atenção, que eu não lhe faço chegar somente através das organizações que disso se ocupam, aceitando-o talvez por necessidade política. Eu vejo com os olhos de Cristo e posso dar ao outro muito mais do que as coisas externamente necessárias: posso dar-lhe o olhar de amor de que ele precisa. Aqui se vê a interacção que é necessária entre o amor a Deus e o amor ao próximo, de que fala com tanta insistência a I Carta de João. Se na minha vida falta totalmente o contacto com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e não consigo reconhecer nele a imagem divina. Mas, se na minha vida negligencio completamente a atenção ao outro, importando-me apenas com ser «piedoso» e cumprir os meus «deveres religiosos», então definha também a relação com Deus. Neste caso, trata-se duma relação «correcta», mas sem amor. Só a minha disponibilidade para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor é que me torna sensível também diante de Deus. Só o serviço ao próximo é que abre os meus olhos para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama. Os Santos — pensemos, por exemplo, na Beata Teresa de Calcutá — hauriram a sua capacidade de amar o próximo, de modo sempre renovado, do seu encontro com o Senhor eucarístico e, vice-versa, este encontro ganhou o seu realismo e profundidade precisamente no serviço deles aos outros. Amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis, constituem um único mandamento. Mas, ambos vivem do amor preveniente com que Deus nos amou primeiro. Deste modo, já não se trata de um «mandamento» que do exterior nos impõe o impossível, mas de uma experiência do amor proporcionada do interior, um amor que, por sua natureza, deve ser ulteriormente comunicado aos outros. O amor cresce através do amor. O amor é «divino», porque vem de Deus e nos une a Deus, e, através deste processo unificador, transforma-nos em um Nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja «tudo em todos» (1 Cor 15, 28)."
Este é um dos pontos em que é mais manifesto o sentido do título da encíclica, "Deus é Amor". Quando o Papa refere que "eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer", define a essência de Deus e a essência do Amor. É no encontro com essa essência, "no encontro íntimo com Deus", um encontro que é "comunhão de vontade", que "aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo". É então que me dou realmente conta do Outro, "conta da sua expectativa interior de um gesto de amor, de atenção", e é então que o "vejo com os olhos de Cristo e posso dar ao outro muito mais do que as coisas externamente necessárias: posso dar-lhe o olhar de amor de que ele precisa".

O Papa sublinha em seguida a "interacção que é necessária entre o amor a Deus e o amor ao próximo". O outro sem Deus é apenas isso, o outro. Mas Deus sem o Outro é simples formalismo sem substância. Adoramos um embrulho de Deus e somos indiferentes ao conteúdo do embrulho.
Nas palavras do Papa, "só a minha disponibilidade para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor é que me torna sensível também diante de Deus. Só o serviço ao próximo é que abre os meus olhos para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama". E o Papa refere o exemplo dos Santos e nomeadamente (e com a frequência que nele é habitual) o de Teresa de Calcutá, "a sua capacidade de amar o próximo, de modo sempre renovado, do seu encontro com o Senhor eucarístico e, vice-versa", o "seu realismo e profundidade".

E em seguida o Papa diz algo aparentemente revolucionário: não há dois mandamentos (em que um prescreve amar a Deus e o outro amar o próximo) mas um único: "amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis, constituem um único mandamento". Jesus Cristo já tinha dito o mesmo.
E o Papa conclui: "O amor é «divino», porque vem de Deus e nos une a Deus, e, através deste processo unificador, transforma-nos em um Nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja «tudo em todos» ".

Timshel [TIMSHEL]

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quarta-feira, julho 12

 

Um Deus chamado Abba

"Em dez anos, o nosso conhecimento sobre o computador e respectivos programas mudou radicalmente; em decénios, o conceito sobre Deus pouco muda na nossa vida. Não será isto, quando muito, surpreendente?" Esta é uma das pequenas provocações com que José Luis Cortés nos brinda na introdução do seu livro Um Deus chamado Abba.

O livro - foi publicada entre nós no início deste ano - nasceu de uma série de desenhos encomendados por uma editora ao longo de vários anos. Estes desenho agora compilados são acompanhados vários textos explicativos e frases provocadoras, que não nos deixam indiferentes.

O autor começa por desmontar uma série de ideias infantis e distorcidas que muitas pessoas têm sobre o criador: "Quer Deus exista, quer não, o que não pode mesmo existir são certas imagens de Deus que alguns apregoam por aí, e que a maioria das pessoas interiorizou, sem se aperceber, de uma forma ou de outra."(p.12) E adverte o leitor: "Deus não é um ancião como eu o pinto, não tem barba, nem aquele triângulo na cabeça (...); não está num céu cheio de nuvens e os anjos não andam por ali com asas de frango." (p.9)

O livro não pode deixar de incomodar o crente acomodado, e até incomodar alguma hierarquia religiosa: "Não tenho medo nenhum de que me digam que disparando contra as falsas imagens de Deus podemos atacar a boa fé das pobres pessoas, ou a fé ingénua de tanta gente simples... Sobre essa fé ingénua e essa ingenuidade foram edificadas muitas fortunas e até algumas carreiras eclesiásticas."(p.14)

O livro não é um tratado de teologia; poderia ser melhor descrito como um convite a uma reflexão pessoal sobre o conceito e a experiência que cada um de nós tem sobre Deus. E apesar de ter sido escrito por um católico para uma audiência católica, a grande maioria das reflexões pessoais do autor facilmente encontram paralelo na experiência religiosa de pessoas de todas as religiões (substitua-se a palavra "igreja" por "comunidade religiosa").

Para aguçar o apetite por este livro aqui ficam alguns dos desenhos do autor.









Marco Oliveira [Povo de Bahá]

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Família e famílias

Todos têm uma família. Mesmo um solitário na cidade deve sentar-se no esconso de uma qualquer tasca a espreitar o seu Benfica. Já o Papa tem a mais fácil das famílias: enorme, gigante, um mar de gente que tem um lar, a que chama a Casa do Pai, mas que acaba por não arreliar muito. Não deixa a louça por lavar, não chega tarde a casa, não grita nem amua, não acorda com remela. Quer dizer: faz isto tudo, mas longe das janelas do Vaticano.

A família de todos os dias, do quotidiano, das arreliações e dos aconchegos, essa, por opção o Papa deixou-a para trás. Mas ainda bem que assim é: se todos gostassem do amarelo, o que seria do azul?! O que me incomoda é que Bento XVI venha do púlpito da sua casa serena defender a família, que é um-pai-uma-mãe-e-filhos-quantos-forem. Indissolúvel. Também acho, mas acho para mim. Quando casei, assumi que é assim que quero viver. Com ela, para ter filhos, queremos ter filhos, os que conseguirmos, e a vivermos todos os dias para sermos felizes. Mas não quero impor esta vida assim a quem não for feliz assim. O Papa ao falar daquela família esquece muitas outras famílias. E nestas, muitas famílias de cristãos. O Papa ao falar assim esquece que devemos incluir antes de excluir. Mais: a família, núcleo essencial das nossas comunidades, deve ser também espaço de inclusão. E se nela persistir a violência, que sentido fará mantê-la indissolúvel?

Hoje, numa realidade em que as famílias se constituem de formas tão diversas (pais divorciados, filhos que convivem com padrastos e madrastas e irmãos do "outro lado", pais solteiros, famílias homossexuais com filhos naturais e adoptivos,...), mais valia fazer o discurso onde se falha tantas vezes. Mesmo nas melhores famílias, nas famílias de todos os dias. O discurso da inclusão, do amor. Tenho ideia que há dois mil anos um tipo que incomodou consciências e se deu com os pecadores lhes disse precisamente isto. Sem defesas dogmáticas. Essas, deixo para o Buffon.


[Declaração escusada de interesses: sim, tenho familiares e amigos divorciados, recasados, pais e mães solteiros, pais homossexuais, filhos e filhas que têm "meios irmãos" e os consideram irmãos de sangue.]

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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A caridade da Igreja como manifestação do amor trinitário

Tal como no post da semana passada, relativo ao ponto 20 da primeira encíclica do Papa Bento XVI, também o título deste post é o título da secção que contém um único ponto, o ponto 19, cujo conteúdo é o seguinte:

"«Se vês a caridade, vês a Trindade» — escrevia Santo Agostinho. Ao longo das reflexões anteriores, pudemos fixar o nosso olhar no Trespassado (cf. Jo 19, 37; Zc 12, 10), reconhecendo o desígnio do Pai que, movido pelo amor (cf. Jo 3, 16), enviou o Filho unigénito ao mundo para redimir o homem. Quando morreu na cruz, Jesus — como indica o evangelista — «entregou o Espírito» (cf. Jo 19, 30), prelúdio daquele dom do Espírito Santo que Ele havia de realizar depois da ressurreição (cf. Jo 20, 22). Desde modo, se actuaria a promessa dos «rios de água viva» que, graças à efusão do Espírito, haviam de emanar do coração dos crentes (cf. Jo 7, 38-39). De facto, o Espírito é aquela força interior que harmoniza seus corações com o coração de Cristo e leva-os a amar os irmãos como Ele os amou, quando Se inclinou para lavar os pés dos discípulos (cf. Jo 13, 1-13) e sobretudo quando deu a sua vida por todos (cf. Jo 13, 1; 15, 13).

O Espírito é também força que transforma o coração da comunidade eclesial, para ser, no mundo, testemunha do amor do Pai, que quer fazer da humanidade uma única família, em seu Filho. Toda a actividade da Igreja é manifestação dum amor que procura o bem integral do homem: procura a sua evangelização por meio da Palavra e dos Sacramentos, empreendimento este muitas vezes heróico nas suas realizações históricas; e procura a sua promoção nos vários âmbitos da vida e da actividade humana. Portanto, é amor o serviço que a Igreja exerce para acorrer constantemente aos sofrimentos e às necessidades, mesmo materiais, dos homens. É sobre este aspecto, sobre este serviço da caridade, que desejo deter-me nesta segunda parte da Encíclica."

"Toda a actividade da Igreja é manifestação dum amor que procura o bem integral do homem". Deus procura a felicidade do homem. Não apenas de algumas pessoas mas de todas as pessoas. Como dizia o Papa Bento XVI há uns anos, ainda então Cardeal Ratzinger, o impulso primordial do homem é o seu desejo de felicidade, de uma vida com sentido, plena. A moral é a doutrina da vida feliz, da vida com sentido – o desenvolvimento, por assim dizer, das regras para a felicidade. Esta tendência inata no homem relaciona-se com as bem-aventuranças de Jesus, que libertam o conceito de felicidade de todas as banalizações e lhe conferem a sua verdadeira profundidade e, desta forma, mostram o vínculo entre o bem absoluto, o bem na pessoa – Deus – e a felicidade (discurso de 9 de Outubro de 2002).

O Papa sublinha ainda neste ponto 19 que "é amor o serviço que a Igreja exerce para acorrer constantemente aos sofrimentos e às necessidades, mesmo materiais, dos homens."

Timshel (TIMSHEL)

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quarta-feira, julho 5

 

A caridade como dever da Igreja

O ponto 20 da primeira encíclica do Papa Bento XVI marca o início de uma secção cujo título é precisamente o deste post. Nele o Papa refere:

"O amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever antes de mais para cada um dos fiéis, mas é-o também para a comunidade eclesial inteira, e isto a todos os seus níveis: desde a comunidade local passando pela Igreja particular até à Igreja universal na sua globalidade. A Igreja também enquanto comunidade deve praticar o amor. Consequência disto é que o amor tem necessidade também de organização enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado. A consciência de tal dever teve relevância constitutiva na Igreja desde os seus inícios: «Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos de acordo com as necessidades de cada um» (Act 2, 44-45). Lucas conta-nos isto no quadro duma espécie de definição da Igreja, entre cujos elementos constitutivos enumera a adesão ao «ensino dos Apóstolos», à «comunhão» (koinonia), à «fracção do pão» e às «orações» (cf. Act 2, 42). O elemento da «comunhão» (koinonia), que aqui ao início não é especificado, aparece depois concretizado nos versículos anteriormente citados: consiste precisamente no facto de os crentes terem tudo em comum, pelo que, no seu meio, já não subsiste a diferença entre ricos e pobres (cf. também Act 4, 32-37). Com o crescimento da Igreja, esta forma radical de comunhão material — verdade se diga — não pôde ser mantida. Mas o núcleo essencial ficou: no seio da comunidade dos crentes não deve haver uma forma de pobreza tal que sejam negados a alguém os bens necessários para uma vida condigna."

É significativo que o Papa refira na sua primeira encíclica essa célebre passagem do Evangelho: «Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos de acordo com as necessidades de cada um».

Referi aqui há duas semanas que quem formulou pela primeira vez o princípio comunista "De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades" foi Karl Marx na "Crítica ao programa de Gotha". Enganei-me. Quem formulou pela primeira vez tal princípio afinal foi o Evangelho.

Mas outras lições interessantes se podem tirar deste ponto. Que "a Igreja também enquanto comunidade deve praticar o amor" e que "o amor tem necessidade também de organização enquanto pressuposto para um serviço comunitário ordenado" pois o "amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever antes de mais para cada um dos fiéis, mas é-o também para a comunidade eclesial".

Daqui decorre, embora o Papa não o refira expressamente neste ponto, que os cristãos devem, nas suas opções políticas, escolher políticas de amor, políticas de caridade, políticas que exijam uma intervenção fortemente redistributiva por parte do Estado. Pois também as suas opções políticas podem (ou não) traduzir opções de amor ao próximo.

O Papa sublinha que a comunhão "consiste precisamente no facto de os crentes terem tudo em comum, pelo que, no seu meio, já não subsiste a diferença entre ricos e pobres". O Papa acrescenta contudo, numa expressão enigmática que pode ser interpretada como de subliminar descontentamento, que "com o crescimento da Igreja, esta forma radical de comunhão material não pôde ser mantida".

O Papa acrescenta todavia, com veemência, que "no seio da comunidade dos crentes não deve haver uma forma de pobreza tal que sejam negados a alguém os bens necessários para uma vida condigna".

Timshel (TIMSHEL)

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