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quarta-feira, junho 7

 

Um papa que grita a Deus

Hoje resolvi vir aqui fazer companhia ao meu amigo Timshel e, como ele tem vindo a fazer, vim falar um bocado sobre aquele que acreditamos ser neste momento o vigário de Cristo na Terra, aquele que devemos acreditar ter sido escolhido pelo próprio Espírito Santo actuando como que num Pentecostes revivido nas mentes purpuradas dos cardeais eleitores.
Devo confessar que há um ano e picos, quando soube da eleição do Cardeal Ratzinger, vi nela muito mais o resultado duma sábia, longa e paciente estratégia de afirmação pessoal do que a emanação da Luz Divina. Houve ali um momento, na missa pro eligiendo pontifice presidida pelo próprio futuro papa, em que escutei muito mais um programa de papado do que a invocação humilde do Espírito Santo. Aliás não devo ter sido o único a achar que o Cardeal Ratzinger estava logo aí a condicionar irreversivelmente o andamento do conclave: uns dias depois vi uma fotografia extraordinária do Cardeal Martini escutando nessa missa as palavras do seu colega. O rosto dele parecia estar mesmo a enegrecer de revolta contida e impotente. Olhando aquela expressão do seu rosto patrício, fiquei a imaginá-lo como um senador da antiga Roma escutando César aceitando os seus poderes de ditactor.
Mas como sempre, estas nossas opiniões são, mais do que qualquer outra coisa, alimento para o nosso próprio orgulho, vanitas vanitatum et omnia vanitas. Pois se mesmo existindo essa tal estratégia de poder, que não posso sequer saber se existiu, não poderá ela mesma ter sido mais um instrumento do Espírito Santo, não o único, nem sequer o principal? Será que o facto de se querer realmente ser Papa, torna alguém um pior instrumento da vontade de Deus? Um pior servidor desta nossa comunidade de crentes? Logo na altura tive estas dúvidas e, como tal e como se isso interessasse a alguém, quis dar ao Papa Bento XVI o meu benemérito benefício da dúvida.
Devo dizer que eu, como muitos outros, fui assistindo ao primeiro ano de papado com um optimismo crescente. Não gostava e não gosto de o ouvir, pelo seu histrionismo particular, mas tenho gostado e muito de ler escrito aquilo que ele diz. Gostei da encíclica, que tem feito o deleite aqui do Timshel, gostei do conteúdo e da forma e, sobretudo, da própria ideia de a fazer.
Mas foi no Domingo anterior ao de Pentecostes que tive pela primeira vez a percepção forte de que, sim senhor, efectivamente, ao fim e ao cabo, o Paráclito compareceu mesmo na Capela Sistina.
Falo obviamente da coisa espantosa que aconteceu na visita papal à Polónia, mais propriamente a Auschwitz. Sinceramente, eu penso que a coisa passou um bocado despercebida ao nosso jornalismo, tirando claro está o António Marujo. E passou também despercebida à blogosfera, até mesmo à nossa teosfera. Pois foi mesmo uma coisa espantosa. Quem melhor captou o sentido profundo daquilo que o papa Bento XVI fez e disse naquele lugar, foi Bénard da Costa, o homem que saiu da Igreja Católica na Nacional 1 quando viu passar o papa Paulo VI dirigindo-se a Fátima e a Salazar que lá o esperava. Como o Público, manhosamente, limita os links mesmo a coisas assim, de interesse público, vou ter que transcrever aqui o que escreveu Bénard da Costa, pois ele alinha sumptuosamente tudo aquilo que eu penso sobre o que se passou:

É verdade que, a 28 de Maio, o "Papa alemão" celebrou missa, diz-se que para 900 mil pessoas, em Cracóvia. Mas a imagem que irá ficar desta visita não será por certo a de um homem de branco que sabia possível – ou que acreditava possível – a libertação dos seus compatriotas. Bento XVI já não chegou nem como libertador nem como arauto dessa libertação, da qual aliás, pela sua própria nacionalidade, dificilmente seria o símbolo vibrante que o seu antecessor pôde ser. Agora, a imagem do Papa foi sobretudo a imagem de um homem só, na terrível solidão de Auschwitz. Se, de 1979, recordamos, primordialmente, a festa e a explosão de alegria a custo contida, de 2006 recordaremos, mais do que o Papa em Cracóvia, o Papa em Auschwitz. Nas nossas memórias futuras, não o veremos, como João Paulo II, imerso na multidão, mas sozinho e inclinado, no pórtico do que simbolicamente assinala o maior horror que a humanidade conheceu.
(...)
Porque, depois daqueles momentos em que o Papa rezou sozinho, levemente agitado pelo vento, junto ao muro dos fuzilamentos, as palavras supremas de Bento XVI foram aquelas em que disse (cito dos jornais): "Num lugar como este, as palavras falham. No fim, só pode haver um terrível silêncio, um silêncio que é um sentido grito dirigido a Deus: porquê, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar isto? Onde estava Deus nesses dias? Por que esteve Ele silencioso? Como pôde permitir esta matança sem fim, este triunfo do demónio?"
Que o Vigário de Cristo na Terra – ou aquele que crê e que muitos crêem ser o Vigário de Cristo na Terra – se dirija a esse mesmo Cristo, Deus Nosso Senhor, para Lhe perguntar por que ficou silencioso, onde estava, como tolerou aquilo, é talvez o que de mais ousado e abissalmente radical me lembro de ter ouvido da boca de um Papa.
(...)
Em Maio de 2006, em Auschwitz, a questão veio do próprio Centro e a terrível pergunta sobre o silêncio de Deus foi a terrível palavra de um Papa. Mas não podemos dizer que foi Bento XVI o mais terrível interrogador. Dois mil antes dele, na Cruz, Aquele que ele representa interpelou Deus – que Ele também era – da mesma maneira: "Eli, Eli, lamma sabachtani?" ("Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?"). E nunca ninguém encontrou resposta para essa pergunta impossível, em que o próprio Deus se sentiu abandonado pelo próprio Deus. A quem, ou com quem, falava Jesus Cristo na Cruz? Quem O ouvia ou quem O não ouvia? Quem não O podia ouvir ou quem não O queria ouvir? E a nossa única fuga perante estas terríveis questões é a que consiste em responder que todas elas são vazias de sentido, pois que nada que se diga sobre Deus pode ter sentido. Como escreveu Simone Weil: "Caso de contraditórios verdadeiros. Deus existe, Deus não existe. Qual o problema? Tenho a absoluta certeza que Deus existe, no sentido em que tenho a absoluta certeza que o meu amor não é uma ilusão. Mas tenho a absoluta certeza que Deus não existe, no sentido em que tenho a absoluta certeza que nada de real se assemelha ao que posso conceber quando pronuncio esse nome. Só que o que não posso conceber não é uma ilusão."
E foi ainda Simone Weil quem sobre o mal ("o triunfo do demónio" como lhe chamou o Papa) escreveu o que ainda mais me faz deter: "Quando se ama Deus através do mal enquanto tal, ama-se verdadeiramente a Deus." Ou: "Amar Deus através do mal como tal. Amar Deus através do mal que se execra, execrando esse mal. Amar Deus como autor do mal que estamos a execrar."

Transcrevi isto aqui, para que todos os aqui vem se possam, como eu, compenetrar ainda um pouco mais da importância do gesto e, mais do que ele, da palavra. Gestos como este já tinham havido por outros papas. Palavras assim não, penso que nunca. Visto de fora poderá parecer estranho mas nada pode fortalecer mais a minha fé, em Deus e na Igreja, do que ver um papa, este papa sobretudo, interpelar assim Deus pelo Seu silêncio, diante de nós, diante de toda a gente.
João Paulo II foi um grande papa e foi sem dúvida um santo. E, decididamente, foi um místico. Durante a sua vida, desde cedo, sentiu em si e na sua sua vontade a presença da vontade de Deus. Fez sua aquela que sentiu ser a Sua vontade. E no triunfo da missão que sentiu ter-lhe sido confiada, viu algo incomum: o triunfo espetacular da vontade de Deus. Durante toda a sua vida pareceu sentir ter sempre presente não só a Sua vontade mas também o Seu apoio, um apoio que apenas alguns daqueles que regressaram do limiar da morte conseguem sentir. E esse apoio foi ele encontrá-lo na devoção a Maria, de cujo amor e auxílio terá tido uma percepção quase sensorial. De tal forma que encontrou em Fátima e no seu putativo segredo um lugar para si próprio. Mais tarde, no fim, penso eu que a terrível agonia de João Paulo II não veio apenas do enorme sofrimento físico, veio também, talvez sobretudo, da descoberta dos enormes perigos e incertezas inerentes à nova ordem mundial que ele tanto ajudou a formar. E das terríveis dúvidas que isso certamente lhe trouxe.
Já Ratzinger parece-me ter muito pouco de místico. Ele é sim um teólogo, um filósofo. Talvez me engane mas penso que descobriu e redescobriu Deus sem Ele nunca lhe ter falado. O seu caminho não é mariológico mas sobretudo ontológico. E parece-me rever nele algo de Sto.Anselmo de Cantuária, aquele que dizia:

Senhor,
Não pretendo conhecer a Tua essência,
nem conhecer todos os Teus atributos,
pois a tanto a minha inteligência não pode aspirar.
O que desejo é compreender a Tua Verdade,
esta Verdade na qual crê o meu coração,
esta Verdade que o meu coração ama.
Não busco compreender para crer,
mas creio, sim, para compreender.
Creio, porque se não cresse,
não chegaria nunca a compreender
e, meu Deus, como quero compreender-Te!


E, sentindo-me satisfeito por nos tempos que correm termos connosco um papa teólogo, depois de termos tido um papa místico, chego então ao meu ponto, aquele do Espírito Santo, a inteligência de Deus em nós. Pois é precisamente agora, desde aquele Domingo em Auschwitz, que sinto finalmente o meu e nosso papa ungido por Ele. Escolhido por Ele, que é o que isso quer dizer.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)
Comments:
Essas palavras do Papa foram, de facto, inesperadas mas muito significativas. Durante dias me ecoaram na cabeça... E hoje tive o prazer de descobrir este seu texto. Obrigado
 
A minha gratidão pelo seu texto. Ando a reflectir nele há uma série de dias e responde a muitas das minhas perplexidades.
 
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