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quarta-feira, junho 28

 

O serviço do amor ao próximo na estrutura fundamental da Igreja

O Papa Bento XVI continua, no ponto 21 da sua primeira encíclica, a sua resenha histórica sobre a relação entre a caridade e a Igreja:

"Um passo decisivo na difícil busca de soluções para realizar este princípio eclesial fundamental torna-se patente naquela escolha de sete homens que foi o início do ofício diaconal (cf. Act 6, 5-6). De facto, na Igreja primitiva tinha-se gerado, na distribuição quotidiana às viúvas, uma disparidade entre a parte de língua hebraica e a de língua grega. Os Apóstolos, a quem estavam confiados antes de mais a «oração» (Eucaristia e Liturgia) e o «serviço da Palavra», sentiram-se excessivamente carregados pelo «serviço das mesas»; decidiram, por isso, reservar para eles o ministério principal e criar para a outra mansão, também ela necessária na Igreja, um organismo de sete pessoas. Mas este grupo não devia realizar um serviço meramente técnico de distribuição: deviam ser homens «cheios do Espírito Santo e de sabedoria» (cf. Act 6, 1-6). Quer dizer que o serviço social que tinham de cumprir era concreto sem dúvida alguma, mas ao mesmo tempo era também um serviço espiritual; tratava-se, na verdade, de um ofício verdadeiramente espiritual, que realizava um dever essencial da Igreja, o do amor bem ordenado ao próximo. Com a formação deste organismo dos Sete, a «diaconia» — o serviço do amor ao próximo exercido comunitariamente e de modo ordenado — ficara instaurada na estrutura fundamental da própria Igreja."

Sublinhe-se que os homens encarregados pela Igreja da redistribuição dos bens "não devia realizar um serviço meramente técnico de distribuição: deviam ser homens «cheios do Espírito Santo e de sabedoria». Quer dizer que o serviço social que tinham de cumprir era concreto sem dúvida alguma, mas ao mesmo tempo era também um serviço espiritual".

Tratava-se com efeito, na opinião do Papa, "de um ofício que realizava um dever essencial da Igreja, o do amor bem ordenado ao próximo". O serviço do amor ao próximo exercido comunitariamente e de modo ordenado ficara instaurado na estrutura fundamental da própria Igreja.

Timshel (TIMSHEL)

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quarta-feira, junho 21

 

Ainda a caridade: de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades

No ponto 22 da sua primeira encíclica, o Papa Bento XVI escreve:

"Com o passar dos anos e a progressiva difusão da Igreja, a prática da caridade confirmou-se como um dos seus âmbitos essenciais, juntamente com a administração dos Sacramentos e o anúncio da Palavra: praticar o amor para com as viúvas e os órfãos, os presos, os doentes e necessitados de qualquer género pertence tanto à sua essência como o serviço dos Sacramentos e o anúncio do Evangelho. A Igreja não pode descurar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra. Para o demonstrar, bastam alguns exemplos. O mártir Justino († por 155), no contexto da celebração dominical dos cristãos, descreve também a sua actividade caritativa relacionada com a Eucaristia enquanto tal. As pessoas abastadas fazem a sua oferta na medida das suas possibilidades, cada uma o que quer; o Bispo serve-se disso para sustentar os órfãos, as viúvas e aqueles que por doença ou outros motivos passam necessidade, e também os presos e os forasteiros. O grande escritor cristão Tertuliano († depois de 220) conta como a solicitude dos cristãos pelos necessitados de qualquer género suscitava a admiração dos pagãos. E, quando Inácio de Antioquia († por 117) designa a Igreja de Roma como aquela que «preside à caridade (agape)», pode-se supor que ele quisesse, com tal definição, exprimir de qualquer modo também a sua actividade caritativa concreta."


O Papa Bento XVI faz aqui, de um modo discreto e subtil, a afirmação da validade de um princípio formulado de um modo particularmente feliz por Karl Marx na "Crítica do Programa de Gotha": "De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades".

Com efeito, atente-se na formulação adoptada pelo Papa: "As pessoas (...) fazem a sua oferta na medida das suas possibilidades (...) para sustentar (...) aqueles que por doença ou outros motivos passam necessidade".

Timshel (TIMSHEL)

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quarta-feira, junho 14

 

O Papa continua a reflectir sobre a caridade de um ponto de vista da história da Igreja

No ponto 23 da sua primeira encíclica, o Papa Bento XVI escreve:

"Neste contexto, pode revelar-se útil uma referência às estruturas jurídicas primitivas que tinham a ver com o serviço da caridade na Igreja. Em meados do século IV ganha forma no Egipto a chamada «diaconia», que é, nos diversos mosteiros, a instituição responsável pelo conjunto das actividades assistenciais, pelo serviço precisamente da caridade. A partir destes inícios, desenvolve-se até ao século VI no Egipto uma corporação com plena capacidade jurídica, à qual as autoridades civis confiam mesmo uma parte do trigo para a distribuição pública. No Egipto, não só cada mosteiro mas também cada diocese acabou por ter a sua diaconia — uma instituição que se expande depois quer no Oriente quer no Ocidente. O Papa Gregório Magno († 604) fala da diaconia de Nápoles. Relativamente a Roma, as diaconias são documentadas a partir dos séculos VII e VIII; mas naturalmente já antes, e logo desde os primórdios, a actividade assistencial aos pobres e doentes, segundo os princípios da vida cristã expostos nos Actos dos Apóstolos, era parte essencial da Igreja de Roma. Este dever encontra uma sua viva expressão na figura do diácono Lourenço († 258). A dramática descrição do seu martírio era já conhecida por Santo Ambrósio († 397) e, no seu núcleo, mostra-nos seguramente a figura autêntica do Santo. Após a prisão dos seus irmãos na fé e do Papa, a ele, como responsável pelo cuidado dos pobres de Roma, fora concedido mais algum tempo de liberdade, para recolher os tesouros da Igreja e entregá-los às autoridades civis. Lourenço distribuiu o dinheiro disponível pelos pobres e, depois, apresentou estes às autoridades como sendo o verdadeiro tesouro da Igreja. Independentemente da credibilidade histórica que se queira atribuir a tais particulares, Lourenço ficou presente na memória da Igreja como grande expoente da caridade eclesial."

O Papa sublinha que embora as actividades caritativas da Igreja estejam documentadas desde o século VII, "naturalmente já antes, e logo desde os primórdios, a actividade assistencial aos pobres e doentes, segundo os princípios da vida cristã expostos nos Actos dos Apóstolos, era parte essencial da Igreja".

Não conhecia esse episódio da memória da Igreja associado ao diácono Lourenço mas a impressão que este episódio me provocou leva-me a concordar sem dúvida com o Papa: a figura do diácono Lourenço "mostra-nos seguramente a figura autêntica do Santo". Em vez de entregar os donativos recebidos dos cristãos às autoridades civis, distribuiu-os por aqueles a quem esses donativos eram destinados: os pobres.

Timshel (TIMSHEL)

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quarta-feira, junho 7

 

A importância da caridade desde os primeiros tempos da Igreja

O ponto 24 da primeira encíclica de Bento XVI contém, a propósito da caridade, uma interessante reflexão sobre o imperador Juliano:

"Uma alusão merece a figura do imperador Juliano o Apóstata († 363), porque demonstra uma vez mais quão essencial era para a Igreja dos primeiros séculos a caridade organizada e praticada. Criança de seis anos, Juliano assistira ao assassínio de seu pai, de seu irmão e doutros familiares pelas guardas do palácio imperial; esta brutalidade atribuiu-a ele — com razão ou sem ela — ao imperador Constâncio, que se fazia passar por um grande cristão. Em consequência disso, a fé cristã acabou desacreditada a seus olhos uma vez por todas. Feito imperador, decide restaurar o paganismo, a antiga religião romana, mas ao mesmo tempo reformá-lo para se tornar realmente a força propulsora do império. Para isso, inspirou-se largamente no cristianismo. Instaurou uma hierarquia de metropolitas e sacerdotes. Estes deviam promover o amor a Deus e ao próximo. Numa das suas cartas, escrevera que o único aspecto do cristianismo que o maravilhava era a actividade caritativa da Igreja. Por isso, considerou determinante para o seu novo paganismo fazer surgir, a par do sistema de caridade da Igreja, uma actividade equivalente na sua religião. Os «Galileus» — dizia ele — tinham conquistado assim a sua popularidade. Havia que imitá-los, senão mesmo superá-los. Deste modo, o imperador confirmava que a caridade era uma característica decisiva da comunidade cristã, da Igreja."

Esta passagem suscita-me duas reflexões. A primeira é a importância do exemplo. Com efeito foi por causa do terrível exemplo de alguém que se fazia passar por cristão (o imperador Constâncio) que o imperador Juliano abandonou o cristianismo. Embora o exemplo de alguém em concreto nada diga sobre a exactidão ou a bondade das ideias e valores em que esse alguém se diz inspirar (é possível encontrar bons exemplos e maus exemplos em pessoas de todas as crenças), o poder pedagógico do exemplo é fortíssimo e qualquer pessoa que acredite em Cristo deverá ter sempre isso em conta.

A segunda reflexão que esta passagem me suscita é relativa à afirmação de Juliano nos termos da qual "o único aspecto do cristianismo que o maravilhava era a actividade caritativa da Igreja". Tenho que admitir que compreendo perfeitamente Juliano. Sem a mensagem de amor sem limites (expressa nomeadamente no mandamento "Ama os teus inimigos") o cristianismo seria simplesmente mais uma religião igual a tantas outras. Mas não deixa de ser curioso que a prática da caridade enquanto simples comportamento desligado de qualquer fundamentação religiosa, embora formalmente muito sedutor (porque estando aparentemente apenas ligado à consciência individual de cada um) tenda normalmente à extinção. De facto, são praticamente inexistentes as organizações privadas de solidariedade social de cariz ateu.

Timshel (TIMSHEL)

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Um papa que grita a Deus

Hoje resolvi vir aqui fazer companhia ao meu amigo Timshel e, como ele tem vindo a fazer, vim falar um bocado sobre aquele que acreditamos ser neste momento o vigário de Cristo na Terra, aquele que devemos acreditar ter sido escolhido pelo próprio Espírito Santo actuando como que num Pentecostes revivido nas mentes purpuradas dos cardeais eleitores.
Devo confessar que há um ano e picos, quando soube da eleição do Cardeal Ratzinger, vi nela muito mais o resultado duma sábia, longa e paciente estratégia de afirmação pessoal do que a emanação da Luz Divina. Houve ali um momento, na missa pro eligiendo pontifice presidida pelo próprio futuro papa, em que escutei muito mais um programa de papado do que a invocação humilde do Espírito Santo. Aliás não devo ter sido o único a achar que o Cardeal Ratzinger estava logo aí a condicionar irreversivelmente o andamento do conclave: uns dias depois vi uma fotografia extraordinária do Cardeal Martini escutando nessa missa as palavras do seu colega. O rosto dele parecia estar mesmo a enegrecer de revolta contida e impotente. Olhando aquela expressão do seu rosto patrício, fiquei a imaginá-lo como um senador da antiga Roma escutando César aceitando os seus poderes de ditactor.
Mas como sempre, estas nossas opiniões são, mais do que qualquer outra coisa, alimento para o nosso próprio orgulho, vanitas vanitatum et omnia vanitas. Pois se mesmo existindo essa tal estratégia de poder, que não posso sequer saber se existiu, não poderá ela mesma ter sido mais um instrumento do Espírito Santo, não o único, nem sequer o principal? Será que o facto de se querer realmente ser Papa, torna alguém um pior instrumento da vontade de Deus? Um pior servidor desta nossa comunidade de crentes? Logo na altura tive estas dúvidas e, como tal e como se isso interessasse a alguém, quis dar ao Papa Bento XVI o meu benemérito benefício da dúvida.
Devo dizer que eu, como muitos outros, fui assistindo ao primeiro ano de papado com um optimismo crescente. Não gostava e não gosto de o ouvir, pelo seu histrionismo particular, mas tenho gostado e muito de ler escrito aquilo que ele diz. Gostei da encíclica, que tem feito o deleite aqui do Timshel, gostei do conteúdo e da forma e, sobretudo, da própria ideia de a fazer.
Mas foi no Domingo anterior ao de Pentecostes que tive pela primeira vez a percepção forte de que, sim senhor, efectivamente, ao fim e ao cabo, o Paráclito compareceu mesmo na Capela Sistina.
Falo obviamente da coisa espantosa que aconteceu na visita papal à Polónia, mais propriamente a Auschwitz. Sinceramente, eu penso que a coisa passou um bocado despercebida ao nosso jornalismo, tirando claro está o António Marujo. E passou também despercebida à blogosfera, até mesmo à nossa teosfera. Pois foi mesmo uma coisa espantosa. Quem melhor captou o sentido profundo daquilo que o papa Bento XVI fez e disse naquele lugar, foi Bénard da Costa, o homem que saiu da Igreja Católica na Nacional 1 quando viu passar o papa Paulo VI dirigindo-se a Fátima e a Salazar que lá o esperava. Como o Público, manhosamente, limita os links mesmo a coisas assim, de interesse público, vou ter que transcrever aqui o que escreveu Bénard da Costa, pois ele alinha sumptuosamente tudo aquilo que eu penso sobre o que se passou:

É verdade que, a 28 de Maio, o "Papa alemão" celebrou missa, diz-se que para 900 mil pessoas, em Cracóvia. Mas a imagem que irá ficar desta visita não será por certo a de um homem de branco que sabia possível – ou que acreditava possível – a libertação dos seus compatriotas. Bento XVI já não chegou nem como libertador nem como arauto dessa libertação, da qual aliás, pela sua própria nacionalidade, dificilmente seria o símbolo vibrante que o seu antecessor pôde ser. Agora, a imagem do Papa foi sobretudo a imagem de um homem só, na terrível solidão de Auschwitz. Se, de 1979, recordamos, primordialmente, a festa e a explosão de alegria a custo contida, de 2006 recordaremos, mais do que o Papa em Cracóvia, o Papa em Auschwitz. Nas nossas memórias futuras, não o veremos, como João Paulo II, imerso na multidão, mas sozinho e inclinado, no pórtico do que simbolicamente assinala o maior horror que a humanidade conheceu.
(...)
Porque, depois daqueles momentos em que o Papa rezou sozinho, levemente agitado pelo vento, junto ao muro dos fuzilamentos, as palavras supremas de Bento XVI foram aquelas em que disse (cito dos jornais): "Num lugar como este, as palavras falham. No fim, só pode haver um terrível silêncio, um silêncio que é um sentido grito dirigido a Deus: porquê, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar isto? Onde estava Deus nesses dias? Por que esteve Ele silencioso? Como pôde permitir esta matança sem fim, este triunfo do demónio?"
Que o Vigário de Cristo na Terra – ou aquele que crê e que muitos crêem ser o Vigário de Cristo na Terra – se dirija a esse mesmo Cristo, Deus Nosso Senhor, para Lhe perguntar por que ficou silencioso, onde estava, como tolerou aquilo, é talvez o que de mais ousado e abissalmente radical me lembro de ter ouvido da boca de um Papa.
(...)
Em Maio de 2006, em Auschwitz, a questão veio do próprio Centro e a terrível pergunta sobre o silêncio de Deus foi a terrível palavra de um Papa. Mas não podemos dizer que foi Bento XVI o mais terrível interrogador. Dois mil antes dele, na Cruz, Aquele que ele representa interpelou Deus – que Ele também era – da mesma maneira: "Eli, Eli, lamma sabachtani?" ("Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?"). E nunca ninguém encontrou resposta para essa pergunta impossível, em que o próprio Deus se sentiu abandonado pelo próprio Deus. A quem, ou com quem, falava Jesus Cristo na Cruz? Quem O ouvia ou quem O não ouvia? Quem não O podia ouvir ou quem não O queria ouvir? E a nossa única fuga perante estas terríveis questões é a que consiste em responder que todas elas são vazias de sentido, pois que nada que se diga sobre Deus pode ter sentido. Como escreveu Simone Weil: "Caso de contraditórios verdadeiros. Deus existe, Deus não existe. Qual o problema? Tenho a absoluta certeza que Deus existe, no sentido em que tenho a absoluta certeza que o meu amor não é uma ilusão. Mas tenho a absoluta certeza que Deus não existe, no sentido em que tenho a absoluta certeza que nada de real se assemelha ao que posso conceber quando pronuncio esse nome. Só que o que não posso conceber não é uma ilusão."
E foi ainda Simone Weil quem sobre o mal ("o triunfo do demónio" como lhe chamou o Papa) escreveu o que ainda mais me faz deter: "Quando se ama Deus através do mal enquanto tal, ama-se verdadeiramente a Deus." Ou: "Amar Deus através do mal como tal. Amar Deus através do mal que se execra, execrando esse mal. Amar Deus como autor do mal que estamos a execrar."

Transcrevi isto aqui, para que todos os aqui vem se possam, como eu, compenetrar ainda um pouco mais da importância do gesto e, mais do que ele, da palavra. Gestos como este já tinham havido por outros papas. Palavras assim não, penso que nunca. Visto de fora poderá parecer estranho mas nada pode fortalecer mais a minha fé, em Deus e na Igreja, do que ver um papa, este papa sobretudo, interpelar assim Deus pelo Seu silêncio, diante de nós, diante de toda a gente.
João Paulo II foi um grande papa e foi sem dúvida um santo. E, decididamente, foi um místico. Durante a sua vida, desde cedo, sentiu em si e na sua sua vontade a presença da vontade de Deus. Fez sua aquela que sentiu ser a Sua vontade. E no triunfo da missão que sentiu ter-lhe sido confiada, viu algo incomum: o triunfo espetacular da vontade de Deus. Durante toda a sua vida pareceu sentir ter sempre presente não só a Sua vontade mas também o Seu apoio, um apoio que apenas alguns daqueles que regressaram do limiar da morte conseguem sentir. E esse apoio foi ele encontrá-lo na devoção a Maria, de cujo amor e auxílio terá tido uma percepção quase sensorial. De tal forma que encontrou em Fátima e no seu putativo segredo um lugar para si próprio. Mais tarde, no fim, penso eu que a terrível agonia de João Paulo II não veio apenas do enorme sofrimento físico, veio também, talvez sobretudo, da descoberta dos enormes perigos e incertezas inerentes à nova ordem mundial que ele tanto ajudou a formar. E das terríveis dúvidas que isso certamente lhe trouxe.
Já Ratzinger parece-me ter muito pouco de místico. Ele é sim um teólogo, um filósofo. Talvez me engane mas penso que descobriu e redescobriu Deus sem Ele nunca lhe ter falado. O seu caminho não é mariológico mas sobretudo ontológico. E parece-me rever nele algo de Sto.Anselmo de Cantuária, aquele que dizia:

Senhor,
Não pretendo conhecer a Tua essência,
nem conhecer todos os Teus atributos,
pois a tanto a minha inteligência não pode aspirar.
O que desejo é compreender a Tua Verdade,
esta Verdade na qual crê o meu coração,
esta Verdade que o meu coração ama.
Não busco compreender para crer,
mas creio, sim, para compreender.
Creio, porque se não cresse,
não chegaria nunca a compreender
e, meu Deus, como quero compreender-Te!


E, sentindo-me satisfeito por nos tempos que correm termos connosco um papa teólogo, depois de termos tido um papa místico, chego então ao meu ponto, aquele do Espírito Santo, a inteligência de Deus em nós. Pois é precisamente agora, desde aquele Domingo em Auschwitz, que sinto finalmente o meu e nosso papa ungido por Ele. Escolhido por Ele, que é o que isso quer dizer.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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Sacrifício e Desprendimento

O conceito de Sacrifício ocupa um lugar proeminente nas religiões do mundo. Nas religiões mais antigas, o conceito de oferecer qualquer coisa de valioso à Divindade assentava na ideia de que tudo Lhe pertencia e era um sinal de obediência de nossa parte. Uma parte significativa da mais antiga literatura religiosa que possuímos, incluindo a Bíblia Hebraica e os Vedas, consiste em instruções e hinos para rituais associados com o sacrifício. O exemplo paradigmático associado ao sacrifício (o acto de abdicar de algo valioso em obediência à Divindade) nas religiões ocidentais é o desejo de Abraão em sacrificar o seu filho, conforme as instruções de Deus. (...)

Nas principais religiões não-teístas, o sacrifício também é importante. Todo o esforço é feito para garantir o favor dos espíritos para que mana [o poder] esteja sempre disponível. Os sacrifícios são o método mais comum para conseguir a aprovação. Assim, o sacrifício é uma expressão de homenagem a um Ser (ou seres) mais elevado ou mais poderoso, e também uma expressão de agradecimento. Por exemplo, nos momentos de aflição ou perigo, uma expressão comum disto inclui o sacrifício de algo valioso à Divindade (uma oferenda propiciadora). Alternativamente o voto pode ser feito para que se o perigo for evitado, o sacrifício será oferecido mais tarde. O sacrifício também pode ser parte de uma súplica onde se antecipa um favor da Divindade. Estas expressões de sacrifício existem nos dias actuais nas religiões populares: em aldeias africanas sacrificam-se animais em nome de uma pessoa que se encontra doente e na Tailândia fazem-se ofertas aos espíritos pedindo prosperidade.

No entanto, com o passar do tempo, em muitas comunidades religiosas a ênfase mudou para uma forma mais metafórica. O sacrifício que agora é feito assenta é o sacrifício do ego (os seus desejos, vontades e ideias pré-concebidas); não é um sacrifício dos bens. O objectivo é agradar a Deus ou progredir espiritualmente (ou ambas as coisas). (...) Esta espécie de transacção é frequentemente conceptualizada como uma situação em que algo efémero é dado em troca por algo que tem um valor permanente. Obviamente que um pessoa religiosa acredita que aquilo que oferece vale menos do que aquilo que recebe.

O corolário desta noção "mais elevada" de sacrifício é o "desprendimento" ou a "auto-negação". O sacrifício envolve um desprendimento do ego em relação aos seus desejos e apego às coisas deste mundo. Esta purga espiritual, a morte de uma vida centrada no ego, é considerada como sendo um pré-requisito essencial para o progresso espiritual. Estes conceitos ocupam um lugar central nas principais religiões mundiais e existe muita literatura sobre o assunto. Nesta literatura, o ser humano individual é descrito como ganancioso e centrado em si próprio, por natureza. Como tal, existe um medo inato e uma dúvida relativamente à religião quando esta afirma que é melhor desprendermo-nos e tornarmo-nos menos egocêntricos. Em particular, as religiões pedem que a pessoa abdique do controlo que sente ter sobre a sua própria vida; este controlo deve ser entregue a um líder religioso (um guru ou um sheikh, por exemplo), ou à essência de um ensinamento religioso, permitindo que este domine o coração e o ser de um indivíduo. Existe um conflito no indivíduo entre o desejo dos benefícios espirituais perceptíveis de uma vida espiritual e o medo de perder o controlo da sua vida. Após algum tempo este conflito é resolvido com o "salto da fé" e o compromisso num "novo caminho". Isto é experimentado como uma libertação, um alívio ou uma descoberta.

EXCERTOS DAS SAGRADAS ESCRITURAS SOBRE DESPRENDIMENTO

Cristianismo
Certo chefe perguntou-lhe então: «Bom mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?» Respondeu-lhe Jesus...: «Ainda te resta uma coisa: vende tudo quanto tens, distribui o dinheiro pelos pobres e terás um tesouro nos Céus. Depois, vem e segue-Me». Quando isto ouviu ele entristeceu-se pois era muito rico. Vendo-o assim, Jesus exclamou: «Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Sim, é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus» (Lc 18:19, 22-25)

Islão
Maldito seja o vil caluniador, que acumula riquezas e as conta!
Pensa que as suas riquezas o tornam imortal. Não, em verdade, ele será lançado num tormento esmagador (Alcorão 104: 1-4)

Fé Bahá'í
Ó Filho do Ser!
Não te ocupes com este mundo, pois com o fogo testamos o ouro e com o ouro pomos à prova os Nossos servos.
Ó Filho do Homem!
Tu queres o ouro, e Eu desejo que dele te libertes. Tu julgas-te rico por possuí-lo, e Eu reconheço a tua riqueza por estares santificado acima dele. Por Minha vida! É este o Meu conhecimento e aquilo é a tua fantasia; como pode Minha vontade estar em harmonia com a tua?
(Bahá'u'lláh, Palavras Ocultas, do árabe, 55-56)

Taoismo
Fama ou integridade: qual é mais importante?
Dinheiro ou felicidade: qual é mais valioso?
Sucesso ou falhanço: qual é mais destrutivo?
Se procuras os outros para te realizares, nunca te realizarás verdadeiramente.
Se a tua felicidade depende de dinheiro, nunca estarás feliz contigo próprio.
Contenta-te com o que tens; regozija-te com a forma como as coisas são.
Quando perceberes que nada falta, todo o mundo te pertencerá.
(Tão Te Ching, 44)

Budismo
A riqueza destrói o louco que não procura o Além. Devido à ganância pela riqueza, o louco destrói-se a si próprio como se fosse o seu próprio inimigo.
(Dhammapada, 355)

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pag. 225-228

Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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