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quarta-feira, maio 3

 

O mal maior

Os bispos portugueses (e não a "Igreja" ou os "padres", como muitos escreveram) disseram que o preservativo "é um mal menor". Não é. É um bem acessório*. Afinal, a Igreja, ou melhor, os estudantes do Movimento Católico de Estudantes escreviam assim, já em Setembro de 1993:

«Contracepção
A distinção entre métodos contraceptivos naturais e artificiais surge-nos como pouco válida, quer científica quer moralmente. Maior confusão se estabelece quando o mesmo discurso redutor é aplicado sem mais a situações como a SIDA, nos tempos em que esta atinge proporções incontroláveis, não se dando conta de que o preservativo ocupa um estatuto próprio no campo da prevenção das doenças sexualmente transmissíveis.
Parece-nos, enfim, que por trás do discurso oficial da Igreja nesta matéria se encontra ainda o não reconhecimento de um valor próprio ao prazer que resulta da relação sexual, o qual então só seria tolerável em função da procriação num quadro matrimonial.»

Agora, quase 13 anos - e duras reuniões, entre os jovens do MCE e os bispos - depois, o episcopado português entreabre a porta a algumas ideias defendidas nesse
Documento sobre Moral Sexual, como a do combate à sida e outras doenças transmitidas por via sexual, um flagelo que atinge proporções únicas (não por causa da Igreja Católica, como agora é moda dizer-se, mas, admitamos, sem a forte ajuda pedagógica que teria sido possível com o trabalho pastoral das comunidades em todo o mundo...).

Mas há uma parte que continua esquecida, neste "mal menor" agora defendido pelos bispos portugueses: a do «não reconhecimento do valor próprio do prazer que resulta da relação sexual», como se escrevia em 1993. Esperemos mais 13 anos, para um bem maior. Como aqui já defendi, «a Igreja permanece quase imutável na sua forma de olhar o corpo e a sexualidade. Hoje, a valorização positiva do prazer e do sexo continua a ser tabu para o clero e, muitas vezes, vergonha para os leigos. No Verão quente, a Igreja continua a vestir roupas de Inverno e a discutir o sexo dos anjos.»

Nada mudou, pouco se fez e o discurso aparentemente revigorante dos bispos portugueses, com direito a manchetes e aberturas de telejornais, choca no óbvio: o bem acessório da declaração da semana passada esquece que o prazer para a Igreja-oficial-hierárquica continua a ser o mal maior. Ficamos mal.


* - bem, do Lat. bene, s. m., utilidade; benefício; acessório, do Lat. accessoriu, adj., que anda anexo e acompanha o principal; secundário.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

Comments:
Ideias arejadas são sempre bem-vindas! Parabéns!
 
Caro Miguel Marujo.

Penso que a ideia ascética é que o prazer, enquanto intensificação das afecções da pessoa, a fecha nela própria. É uma questão de espiritualidade, e não de sexualidade ou moral social.

A relação entre a ascese e a incarnação não são no entanto pacíficas.

Um abraço.

PS: Também não percebo a distinção ética entre contracepção natural e artificial. E nunca ninguém ma soube explicar.
 
É a primeira vez que comento neste blog, que descobri recentemente.
Faço-o rapidamente para dar o meu ponto de vista sobre a diferença entre contracepção natural e artificial, que julgo ser importante. Tenho pena que pouca gente a saiba explicar.

Usar os métodos naturais para evitar uma gravidez não será o mesmo, moralmente, que usar um preservativo? Não, não é. O fim é o mesmo mas o meio não é.
Nós somos um todo, corpo e espírito. A relação sexual (e estamos a vê-la à luz do pensamento cristão) consiste numa doação total do nosso ser, corpo e espírito, a quem amamos. É isso que distingue o amor sexual do amor platónico.
Com a regulação da fertilidade através dos métodos naturais, eu estou a dizer à minha mulher que a aceito na sua totalidade, corpo e espírito, e essa aceitação inclui a sua fertilidade. Nunca nego essa fertilidade nem a tento "encapuçar", esconder, ou apagar. Ela está lá. Não é um defeito nem um flagelo que precisa de ser tratada com medicamentos químicos, ou tapada com tubos de latex. Quando a minha mulher está numa fase fértil, não o vejo como um contratempo, mas como uma fase natural e belíssima de uma pessoa saudável. Se não nos convém engravidar nessa altura, evitaremos a relação sexual, se não o fizermos, o potencial fruto que daí vier não será um erro, um furo no plástico, ou uma falha química... será o fruto de uma relação natural numa fase fértil.

A contracepção artificial, apesar de procurar o mesmo fim, trata a fertilidade como um defeito, como algo que impede a relação e a união do casal. Numa relação superficial isso pode passar despercebido, mas numa relação aprofundada e vivida a três (eu, ela e Deus) poderá ter efeitos negativos.
Como reageria eu se a minha mulher me pedisse para colocar um capuz na cabeça quando fazemos amor? Ou para amputar um braço, porque atrapalha... então porque razão devo eu pedir que ela "ampute" mesmo que temporariamente, a sua fertilidade de forma química? Ou eu tapar a minha com um pedaço de plástico?

Há muito a dizer sobre as outras questões levantadas no post. A posição do MCE parece-me bastante superficial, mas já me estou a alongar. Peço desculpa pelo tamanho do comentário, é difícil abordar este assunto com brevidade.
Deus vos guarde a todos.
 
Boa tarde Miguel,
Compreendo algumas das tuas preocupações...
Mas, sinceramente, da proibição do presevativo ou de encará-lo como um mal menor não me parece que se possa deduzir tão rapidamente uma condenação do prazer!

meu caro no name saint:
talvez fosse bom referir que a regulação através de métodos naturais está condicionada por diferentes reacções do organismo.
Há organismos que, tendo em conta o actual ritmo de vida, ou outras circunstâncias, têm uma enorme dificuldade em fazer um bom uso desses métodos. Só isto já dá que pensar...
 
Não era minha intenção ser anónimo, especialmente visto que mais ninguém o é. Uso este nick num blog onde já todos me conhecem. Por isso, e nem que fosse por uma questão de cortesia, apresento-me. O meu nome é Filipe d'Avillez.
Zé Maria, (Pe. Zé Maria?), é verdade o que diz... mas também há organismos que são alérgicos ao Latex, há organismos que por o mais diversos motivos não podem utilizar métodos químicos... tudo isso dará que pensar com certeza.
É verdade também que muitas das pessoas que julgam que têm dificuldades a esse nível (cíclos irregulares etc) de facto não têm, ou eventualmente terão problemas facilmente corrigiveis com tratamentos fáceis. (Problemas aliás que deviam ser corrigidos, pois podem resultar de desiquilibrios hormonais, mas que de outra forma dificilmente seriam descobertos...). Há muito mito à volta dos métodos naturais, que seria dissipado facilmente com um pouco de estudo.
Abraços,
Filipe
 
Caro No Name Saint.

Be, eu a resposta do magistério romano já conhecia (não sou assim tão preguiçoso na minha busca de respostas, mesmo a perguntas que não me tiram o sono...:)

Não percebo em quê que "evitar a relação sexual" é apagar menos a fertilidade do que a contracepção artificial. E não é o uso de termos como "tubos de latex" que me esclarecem... Quanto à analogia com a "amputação", é pura retórica: usar óculos também não é arrancar os olhos...

Abraço.
 
Meu caro,
Usar óculos não é arrancar os olhos, porque nós usamos óculos para corrigir um defeito. Vemos mal, usamos óculos para ver bem. Usar essa analogia é o oposto do que eu estava a tentar dizer.
Na mulher, a sua fertilidade não é uma anomalia nem um defeito. Quando uma mulher usa a pílula está a suprimir quimicamente uma característica natural e saudável.
Penso que a diferença é evidente.

Quando eu e a minha mulher estamos juntos eu aceito-a como um todo, não a peço para deixar nada à porta, nem ela a mim. Numa fase fértil em que decidimos em consciência que não é uma fase propícia para ter um filho, essa é uma decisão que respeita a nossa fertilidade, que se recusa a tratá-la como um acessório a ser descartado quando não dá jeito. Viver, nesses dias a abstinência é simultaneamente um exercício de responsabilidade e de respeito pelo outro.

Será esta a "resposta do magistério da igreja"? talvez. Mas antes disso é a minha, é a forma como eu vivo o amor em casal.
Lamento se continua a pensar que o que eu escrevo aqui é "Pura retórica". Para mim as diferenças parecem bastante óbvias. Se não lhas consegui transmitir (já nem peço para o convencer, apenas transmitir uma opinião válida) terei falhado de alguma forma.
Abraços,
Filipe
 
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
 
Apaguei por erro de formulação no parêntesis do respeito, e fica assim:

Caro No Name Saint (rima melhor com Mácula do que Filipe ;)

Antes de mais, não considero que o que aqui escreveu seja pura retórica. Referia-me à condenação por artificialidade dos métodos contraceptivos, quando o mesmo argumento não é usado para outras situações… O problema está, como se sabe, na sexualidade, e não na artificialidade… Se a minha analogia não lhe agrada (os míopes são defeituosos…) condenem-se os binóculos ou os óculos escuros… Aliás, a crispação que geralmente se patenteia neste tipo de conversas tem precisamente a ver com a intimidade da sexualidade, como penso ser evidente.

A do magistério não tinha que ver com uma inexplícita indicação de não ser a sua… Foi tão só para dizer que essa argumentação já a conhecia – tenho evidentemente o catecismo católico na minha biblioteca…

É o argumento da contracepção artificial ser um fechamento à vida e a mútua doação dos esposos, e a abstinência não, que me escapa. Também não significa – de modo algum – que você falhou, que raio… Sendo este um tema quente, naturalmente que dialoguei várias vezes e com diferentes pontos de vista acerca de tal… Suspeito que é a noção de respeito (pressupondo que não ter relações sexuais é respeitar mais o outro na sua totalidade do que tê-las com contraceptivos) que eu não compreendo claramente.

Há uns tempos eu disse, num net-diálogo: “Eu entendo a questão da contracepção no sentido místico. Há uma tradicional analogia entre a fusão da alma com Deus, assim como da relação intra-trinitária em Deus – com o amor conjugal. Ora, tanto na fusão mística como na intra-trinitária não é pensável retenção alguma. Se Deus usasse contraceptivos, não haveria criação. Não me parece haver hipótese de a contracepção ser um bem, uma positividade religiosa.”

Põe-se o problema da relação entre a ética e a mística, assim como entre esta e a biologia – a analogia directa parece-me perversa.

A ascese é uma categoria espiritual, não é uma categoria ética (claro que depende do sentido que se dão às palavras, mas penso que se percebe o que quero dizer…) nem de técnica de planeamento da fertilidade.

Ou seja, continuo a não perceber os argumentos de condenação ética.

Obrigado pelos seus esclarecimentos, e não tem nada que lamentar (quero dizer, da minha parte).

Abraço
 
tendo mais a ver o dilema preservativo/não preservativo como uma posição em concreto sobre ponderação de valores

de um lado teríamos assim uma estratégia que valorizaria o eu (o prazer de cada um dos parceiros da relação sexual) em detrimento do outro (o serviço à vida) - a estratégia do preservativo

do outro lado teríamos uma estratégia que valorizaria o serviço à vida e os valores de "treino" do auto-sacrifício do eu para que este possa estar mais apto ao serviço ao outro e à vida - a estratégia dos métodos naturais

não sei

talvez a posição da igreja não traduza um equilíbrio adequado entre os valores do eu e os valores de um projecto de vida

talvez o preservativo possa traduzir em muitos casos esse equilíbrio adequado

talvez
 
Caro Timshel.

Huum, percebo… Mas o problema ético põe-se na redução do acto sexual ao “prazer de cada um dos parceiros”, o que é incoerente com o entendimento do acto sexual enquanto doação… Ou seja, não percebo como é que o uso contraceptivo anula a doação… E não percebo como é que a distinção métodos natural/não-natural corresponda respectivamente a uma abertura à vida e a um seu fechamento…

Talvez, talvez... ;) Os valores e sua respectiva execução são um berbicacho doutrinal...

Abraço.
 
A interpretação que o Filipe faz é apenas de uma parte da Igreja. Na verdade trata-se de uma interpretação construída precisamente para justificar a posição da Humanae Vitae. Ora há uma grande parte da Igreja (leigos, casais, sacerdotes, bispos, teólogos, etc.) que não se reconhece nesta interpretação. O que me parece errado é apresentá-la como se fosse a única possível dentro da Igreja Católica.

Neste aspecto o Vítor tem toda a razão: "O problema está, como se sabe, na sexualidade, e não na artificialidade..." Em nenhuma outra área do comportamento natural humano se tentou dar a cada acto uma tão grande carga simbólica que garanta que só pode ser feito de determinada maneira. Quem o quiser fazer é livre de o fazer. Os métodos naturais têm muitas vantagens (a par das desvantagens, como referia o Zé Maria). Mas retorcer tanto o significado da sexualidade e a ética a ponto de permitir uns métodos e não outros parece-me um verdadeiro beco sem saída ético e teológico, de onde haverá necessidade de fazer marcha atrás mais cedo ou mais tarde.

Diz o Timshell:
"de um lado teríamos assim uma estratégia que valorizaria o eu (o prazer de cada um dos parceiros da relação sexual) em detrimento do outro (o serviço à vida) - a estratégia do preservativo"

Um dos papéis da ralação sexual e do prazer no casal é reforçar a união do casal e esta é uma obrigação do matrimónio e um verdadeiro serviço à vida, independentemente da possibilidade ou não da gravidez. Em contrapartida manter a possibilidade de uma gravidez pode ser uma irresponsabilidade grave ou um acto de egoísmo.
 
Filipe

Parece-me que quando não lhe convém engravidar e está na fase fértil você não rejeita apenas a fertilidade da sua esposa mas todo a possibilidade de relacionamento físico completo, incluindo a fertilidade desse momento! Se eu usasse o seu tipo de raciocínio diria que há mesmo uma rejeição mais profunda do que aquela que quer imputar aos outros métodos.

A única forma de doação total seria dar-se, em qualquer momento, independentemente da fase do ciclo.
 
Insisto num aspecto, que acho sair reforçado pelas intervenções lúcidas de CA (e espero não as estar a sublinhar abusivamente em defesa da minha tese): «o bem acessório da declaração da semana passada esquece que o prazer para a Igreja-oficial-hierárquica continua a ser o mal maior». O que digo é que continua a existir uma clara incapacidade de Roma e CEP e alguns sectores da Igreja dissociarem a relação sexual da procriaçaõ. O que mantenho é que o prazer é parte integrante de uma relação a dois, que se quer criadora de vida. E gerar vida, não é apenas procriar: é também a descoberta mútua dos corpos pelo casal. E, aqui, peço desculpa, a Igreja-hierárquica continua a querer amputar-nos o corpo. O preservativo, disse-o, é acessório.
 
Pois é, caro Miguel, a relação entre a dimensão procriativa e a dimensão "unitiva" ou do prazer na relação sexual é mesmo o pano de fundo de todo este problema: no Magistério, não pode haver uma sem a outra, por isso...
Quanto aos métodos naturais, derivam de um conceito na teologia moral que é o de "lei natural" que, muitas vezes (Deus me perdoe) é mais valorizado que o Evangelho (cruzes, Credo).
Última: as novidades sobre o preservativo, nos próximos tempos devem ser 0 (zero). Aposto com quem quiser...
 
Estive a ler a parte II da Humanae Vitae que contém os princípios doutrinais.

Em primeiro lugar a dimensão unitiva não é definida pelo prazer mas pelo facto de as relações sexuais estarem destinadas a "exprimir e a consolidar a sua união", isto é, a união matrimonial do casal (independentemente de haver ou não qualquer prazer).

Em segundo lugar, as dimensões unitiva e procriativa estão necessariamente unidas no matrimónio católico, o que se exprime no rito manifestando a disposição de receber os filhos das mãos de Deus.

Mas a Humanae Vitae exige "que qualquer acto matrimonial deve permanecer aberto à vida" e especifica:

"É, ainda, de excluir toda a ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento das suas conseqüências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação."

O que causa dificuldades é que, para o autor da encíclica, adiar um acto sexual, para que não haja fecundação, parece não caber na proibição anterior. Por outro lado não se descortina um argumento credível para que apenas neste caso se exijam todas as finalidades acto a acto. Se eu como uma pastilha elástica sem açúcar também uso um acto destinado por Deus a alimentar-me, o mastigar, "destruindo o seu significado e a sua finalidade".

Finalmente é interessante ver que tudo isto não tem que ver com áreas ligadas especificamente à fé cristã mas sim com leis morais válidas para todos os homens:

"Mas, chamando a atenção dos homens para a observância das normas da lei natural, interpretada pela sua doutrina constante, a Igreja ensina que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida."

Assim Paulo VI escreve:

"Nós pensamos que os homens do nosso tempo estão particularmente em condições de apreender o caráter profundamente razoável e humano deste princípio fundamental."

Hoje é óbvio que nem sequer os católicos estão convencidos da validade moral deste princípio e os homens do nosso tempo acham isto simplesmente tolo, quando não criminoso (como nos casos da SIDA). O ponto 17 da encíclica pretende convencer melhor os "homens rectos" não necessariamente cristãos, mas com argumentos tão frouxos que, a serem aceites, poderiam ser usados para condenar o que quer que fosse, pois referem apenas a possibilidade do mau uso da contracepção.

Só a obstinação vaticana em insistir que está a interpretar correctamente a lei natural nos seus documentos pode manter este equívoco que está a descredibilizar profundamente a Igreja no mundo actual.
 
De todos os comentários que vi aqui, houve um que me causou particular confusão:
«Na verdade trata-se de uma interpretação construída precisamente para justificar a posição da Humanae Vitae.»
Esta não será uma forma um pouco maliciosa de apresentar a questão? É que dá a ideia de que o Papa se sentou à mesa para escrever uma encíclica, e depois quando se deparou com o que tinha escrito decidiu que era melhor inventar uma argumentação teológica para que fizesse, mais ou menos sentido, para que meia dúzia de patos como eu não ficassem confusos perante aquilo que estavam a ler.
Ninguém põe a hipótese de ter sido ao contrário? Que a encíclica tenha surgido para apresentar uma teologia que se vinha a formar na Igreja desde a altura em que surgiram diversas questões novas como, precisamente, a contracepção.

Quanto aos outros comentários sobre a eventual falta de diferença (se não mesmo maior gravidade moral) em não ter relações sexuais em períodos férteis v. utilização de contraceptivos... quando eu e a minha mulher decidimos que, por não querermos/podermos, em consciência, engravidar naquele momento, e que por isso não vamos ter relações naquele periodo, não passamos a dormir em quartos separados nem coloco a minha mulher numa arca frigorífica "até que aquilo passe". Não é nessas noites que vou sair com os amigos e volto para casa a cambalear...
Será que não há outras formas de viver a intimidade em casal? Namorar como fazíamos antes de casar... (sim eramos um desses casais pré-históricos que se casou virgem...). Será a união sexual a única capaz de fortalecer o casal?

Há aqui uma grande diferença de visões. Há a visão negativista que vê uma igreja à rasca com as invenções modernas, a agarrar-se ao que puder para tentar não afogar num mar de evidências modernas. Depois há uma visão mais positiva da igreja, que se fascina com a forma como esta, através dos seus fiéis e leigos, encontrou maneiras científicas e válidas para contornar problemas reais que existiam e que faziam sofrer muitos casais.
Sim, é verdade que havia casais em que, tragicamente, um novo filho era visto como um peso e não como uma benção. Sim, é verdade que muitos deles se encontravam entre a espada e a parede, pois apesar dessas dificuldades, amavam a igreja não queriam desobedecer às suas indicações.
Perante esta situação havia a resposta simples: ignorar as indicações do magistério. Felizmente houve quem acreditasse que teria que haver outra solução, que tornasse possível conciliar as duas realidades. Foi aí que surgiu o verdadeiro e espantoso avanço na investigação dos métodos naturais.
Há problemas com a forma como a Igreja fala desta questão? Há. Por exemplo, podia-se interpretar a ideia da relação sexual sempre aberta à vida, como uma proibição de ter relações fora do período fértil. Não me parece que isso seja a intenção do documento, e por isso merecia estar melhor explicado.
Eu, por exemplo, colocaria noutros termos, como já escrevi aqui. Que qualquer relação sexual devia aceitar o outro no seu todo enquanto é uma doação total, e logo não deve nunca negar ou tratar como uma coisa negativa a fertilidade quer de um quer do outro.
Que a teologia por detrás e que resulta de a Humanae Vita precisa de ser trabalhada e explicada melhor, sem dúvida... mas não é por esses detalhes que toda ela deve ser ignorada e descartada como mais uma dose de balelas daquela "pequena e retrógrada parte da igreja" que não nos inclui a "nós, modernos e esclarecidos."
Cumprimentos a todos.
 
Caro No Name Saint.

Não me revejo em nenhuma das visões indicadas. Cuidado com os retratos-robots, e com as simplificações dicotómicas. Isso já faz o jornalismo que baste. São sérias demais as coisas aqui em jogo, para esse tipo de codificação clubista a preto e branco. É um tipo de classificação que anula a clareza e não clareza dos argumentos, assim como as expressões cristãs e outras que estejam em diálogo, e que põe uma conflitualidade (os modernos e os tradicionalistas) que raramente corresponde aos argumentos e vivências em jogo, e até às intenções de quem fala.

Um abraço.
 
A discussão está muito boa. Parabéns ao Miguel pelo texto e aos comentadores anteriores, pelos lúcidos e honestos comentários.

Não vou acrescentar muito ao que já foi dito, pego para já numa última interpelação do Filipe:

"dá ideia de que o Papa se sentou à mesa para escrever uma encíclica, e depois quando se deparou com o que tinha escrito, decidiu que era melhor inventar uma argumentação teológica para que tivesse sentido..."

eu não sei como é que os papas escrevem as encíclicas, devem com certeza, ouvir vários especialistas, várias opiniões... só que me parece, é que o leque das opiniões, tocam todas no mesmo tom.
Por esta discussão, se vê que há opiniões válidas, honestas e que põem em questão a moral da Igreja, sobre estes temas.


O Filipe fala nos benefícios e eficácia dos "métodos naturais", eu estou farta de ver "resultados" dos tais métodos. Não são nada confiáveis, mesmo em mulheres de períodos regulares, temos de ter em conta o tempo de vida dos espermatozóides e os malvados, por vezes, são tão falsos como os donos :)

A Igreja (Magistério) tem uma verdadeira fobia ao prazer e tudo faz para o minimizar, para o relevar. Aqui valeria o lema não o idolatrar mas também não o diabolizar ou menosprezar. Faz parte de nós, pronto!

Se o Filipe e a sua mulher (não a ouvimos a ela)se dão bem com esse método, óptimo! Querer ou pretender que todos os casais, mesmo católicos, usem os mesmos meios é uma imposíção que não é justa nem realista.
Sei muito bem as dificuldades de um método desses, não ousaria propô-lo a ninguém. Nós não nascemos para sermos heróis, mas para nos cumprirmos como pessoas, frágeis, pecadoras, confiantes na misericórdia de Deus, não nos nossos heroísmos.
 
Vitor, não te estava a incluir nem a ti, nem a ninguém em particular nesses "retratos robot", estava, aliás a chamar atenção para o perigo de assim pensar...
Quando se escreve
"A interpretação que o Filipe faz é apenas de uma parte da Igreja."
Não é preciso um grande salto para se perceber que se está a falar de duas facções. Com um bocado de má vontade isso lê-se "A interpretação que o Filipe faz é apenas de uma parte da Igreja, nomeadamente a parte que mais desligada da realidade..."
A discussão tem corrido bem até aqui e não é minha intenção azedá-la, por isso que fique bem claro que não estou a acusar o CA de ter escrito essa frase com essa intenção, antes que a frase facilmente se empresta a essa interpretação e pode ser entendida dessa forma por quem tiver a tal má vontade.
Porém, também não julgo ser mania da perseguição constatar que se tem manifestado em alguns dos comentários aqui a ideia de que andam uns velhos desligados da realidade em Roma a escrever sobre coisas que não percebem, que apenas são seguidos por meia dúzia de fundamentalistas que se consideram, erradamente, a verdadeira igreja.

MC,
Também não li aqui a opinião do seu marido, mas não deixarei de valorizar a sua por isso. Saberá, contudo, que eu dificilmente poderia utilizar os métodos naturais sem a colaboração da minha mulher...
Eu também sei de muita boa gente que é fruto de preservativos furados ou de esquecimentos de pílulas. O que eu duvido muito é que você conheça tanta gente assim que tenha nascido apesar dos seus pais terem tentado evitar gravidezes utilizando CORRECTAMENTE os métodos naturais que se conhecem e que se ensinam hoje. Não estou, obviamente, a falar de contas e, e coisas afins.
Deixando o plano do teológico e entrando por momentos no estatístico, saberá, certamente, que a OMS (religiosamente insuspeita) atribui aos métodos naturais uma eficácia de 98%.
Para clarificar, quando me refiro a métodos naturais estou a falar dos métodos de auto-observação, sinto-térmicos. Talvez seja necessário clarificar.
Peço desculpa se o tom desta última frase parece arrogante, não é essa a intenção.

Não posso deixar de comentar uma das suas últimas afirmações:
"Nós não nascemos para sermos heróis."
Concordo. Nascemos para sermos santos, e isso é muito mais que mero heroísmo.

Cumprimentos,
Filipe
 
Filipe e MC

O facto de a Humanae Vitae colocar esta questão no domínio da lei natural significa que a proibição da contracepção não devia ser uma especificidade da revelação cristã mas sim algo como o "não matar" ou o "não roubar" que são aceites, de um modo ou de outro, por todos os povos. Assim se explicam as observações da H.V.:
"Nós pensamos que os homens do nosso tempo estão particularmente em condições de apreender o caráter profundamente razoável e humano deste princípio fundamental."
"Os homens retos poderão convencer-se ainda mais da fundamentação da doutrina da Igreja neste campo (...)"

Em primeiro lugar é estranho que um suposto mandamento absoluto da lei natural seja compreeensível por tão poucas pessoas, com especial destaque para o relativamente pequeno número de católicos que aceita bem este ensinamento e para o facto de as outras igrejas cristãs aceitarem a contracepção.

Em segundo lugar, tendo em conta o modo como ele é apresentado, não é para heróis nem santos. Se eu não mato não sou herói nem santo. Apenas não faço algo muito mau. A confirmar-se a visão ortodoxa sobre a contracepção, que a classifica como algo intrinsecamente mau, toda a sociedade estaria a fazer algo muito mau e só uma pequena minoria dos católicos não seria gravemente pecadora. Note-se o contraste com algo que é genuinamente reconhecido por quase todos como mau: o aborto. Em geral nem os defensores da despenalização dizem que o aborto é bom, mesmo quando defendem que a mulher teria direito ao aborto.

Resumindo: Deus teria estabelecido uma lei natural que quase ninguém sente ou reconhece como natural e que precisa de heroísmo ou santidade para ser cumprida. Mesmo os cristãos não católicos não teriam sido informados por Deus sobre tal lei dada a todos os homens.

Tudo isto faz-me lembrar a história daqueles dois pais babados no juramento de bandeira do filho. Dizia ela para ele: Vê lá tu, no meio daqueles soldados todos, só o nosso filho é que vai com o passo certo.
 
Filipe

eu estava a pedi-las quando falei da sua mulher e levei o respectivo troco. Aceito :)

Sei muito bem que não há nenhum método 100% seguro ou eficaz. Seriamente, duvido dos 98%. Sei de uma gravidez (devem haver muitas mais) que aconteceu, por causa da longevidade dos espermatozóides, que boicotou o sistema todo. Passou a ser assunto de brincadeira na família.
Não podemos comparar o facto de uma mulher se esquecer de tomar a pílula e toda a "insegurança" que um método "natural" comporta.
E já agora porque é que a pílula não pode ser considerado um método natural? Eu sei as respostas do catecismo, como diz o Vítor.:)

Há uma coisa que eu valorizo nos chamados métodos naturais. Eles exigem a colaboaração do casal, não são apenas da "responsabilidade" da mulher. A maioria dos métodos estão "às costas" da mulher, com os riscos e desvantagens que comportam. Mas é a vida.

Somos chamados a ser santos, mas não nascemos santos.E a santidade será o nosso "prémio" na Glória. Até lá, vamos pedindo misericórdia.
Não foi inocente a minha chamada de atenção para o heroísmo, acho que a Igreja peleja mais por isso do que pela santidade. Vendo a santidade como eu a aponto.

Cumprimentos, também
M. Conceição
 
Tens razão CA

Eu estou a dar a volta por outro lado. Mas é para chegar aí :)Porque isso serve para a contracepção e não só.

Eu até nem devia perder tempo com estas coisas. A mim, já não me afectam nada, e para os mais novos, fazem tanta falta como a viola no enterro. Sejamos francos, das novas gerações, quem é que ainda liga a isto?

Filipe, atenção, isto não é nada pessoal. Já a meu tempo, defendi com unhas e dentes, o mesmo que diz.
 
de facto tenho dúvidas sobre a distinção entre métodos naturais e métodos artificiais

em ambos os casos (mais ou menos sofisticadamente) as pessoas usam a inteligência com que Deus as dotou para um determinado fim que é não procriarem

e aqui é que me parece que se encontra a chave do problema

(como sempre) penso que é na ponderação de valores e no equilíbrio entre esses valores (equilíbrio esse que se vai realizar fundamentalmente na nossa consciência) que pode surgir a resposta

quando a inteligência humana (seja pelos métodos naturais seja pelos métodos artificiais) é utilizada apenas para o bem-estar e o prazer de cada um sem pensar nos valores da vida e do outro e, podendo deste modo seguir uma linha nos termos da qual os filhos são um incómodo e portanto vamos arranjar as coisas de maneira a nao termos filhos, tal é profundamente negativo

por outro lado, em termos caricaturais, se se considerasse de modo absoluto o valor da vida, a inteligência humana deveria calcular os períodos férteis de modo a que a cada relação sexual correspondesse uma alta probabilidade de filhos que poderia chegar aos vinte ou mais na vida de um casal

deve ser a consciência de cada um que, independentemente do método anticoncepcional adoptado, deverá decidir um equilíbrio entre o respeito para com os valores da vida por um lado, e, por outro, o risco de ameaçar a felicidade de muita gente por incapacidade de gerir de modo equilibrado uma dada situação

onde se situa este meio termo?

é impossível de dizer em abstracto

existem pessoas muito avançadas no caminho da santidade que serão capazes de gerir muito bem uma relação em que não fazem quaisquer esforços no sentido de não procriar, conseguindo ser felizes e fazer felizes mais de uma dezena de filhos

mas existem outras que não são capazes (por razões subjectivas mas também objectivas) de alcançar um mínimo de felicidade para si e para os seus filhos nessas condições

cada casal deverá em consciência encontrar o equilíbrio neste conflito de valores, nunca se esquecendo que o amor e o respeito pela vida são so critérios fundamentais pelos quais se devem reger
 
Concordo com o que o Timshel escreveu, e parece-me uma boa oportunidade para esclarecer aqui uma coisa que pode não ter ficado bem compreendida.
Eu não pretendo aqui impor uma visão e muito menos uma prática (como se tal fosse possível neste campo!). Sempre aprendi que o mais importante neste campo é o casal conhecer as diversas opções que tem e escolher em consciência e livremente, o caminho que quer tomar. Isto em relação a métodos de evitar gravidezes que não atentem contra a vida (penso que não vale a pena entrar em detalhes, ninguém mencionou esses outros métodos aqui, penso que seremos todos da mesma opinião sobre eles).
Não estou aqui a agitar a bandeira da verdadeira santidade e único caminho católico, a pedir que todos me sigam, se não arriscam a perdição eterna.
No curso em que eu primeiro aprendi mais a sério sobre os MN, o médico que falou connosco começou por dizer, em tom de aviso que não estava ali para ensinar "os métodos da igreja", esclarecendo que "A maioria dos católicos que eu conheço não os usam, e a maioria das pessoas que conheço que os usam, não são católicas." Isso quer, obviamente dizer muita coisa.

O argumento sobre a lei natural é convincente, não tenho qualquer resposta para ele. Acredito que seja possível um mal generalizar-se a tal ponto, mesmo sendo contrário à lei natural, que apenas uma minoria dos homens o reconhece como um mal, mas não pretendo incluir a utilização de contraceptivos nesse lote. Não sei.
O mais que posso dizer é que, nesse ponto, haverá sim uma falta de empatia entre o magistério e a vasta maioria dos fiéis, o que não deixa de ser curioso, reparem:
A teologia por detrás do HV e desta posição do magistério é algo complexa, não digo que é incompreensível, mas é preciso alguma vontade de aprender para chegar lá, e nem isso garante que se concorde com ela, como estamos a ver nesta discussão.
Uma das críticas que ouço mais vezes e com a qual mais concordo é a de a Igreja tratar os fiéis leigos como crianças, incapazes de compreender as coisas complexas. "É não porque não... não vale a pena pensar muito nisso, nós já pensámos por si." compreendem certamente aquilo que estou a dizer.
Não deixa de ser irónico que o próprio magistério tenha partido do pressuposto que todos os homens são capazes de compreender, naturalmente, um ensinamento que, de facto, não é assim tão simples de alcançar.
Fico portanto, sem resposta para o(?) CA neste campo. Mal de mim se pensasse ter as respostas todas.
Evidentemente, a minha aceitação da vantagem dos métodos que a igreja recomenda não é afectada por esses argumentos. Nunca me senti à vontade a dizer que a contracepção é um mal intrínsico, não sinto que seja sequer uma linguagem muito vantajosa em termos argumentativos... Sei de casais que dormem em camas separadas, não o considero um mal intrínsico, mas também não acho que seja o melhor caminho para uma relação saudável e forte.

Quanto à pílula não poder ser considerada um método natural, julgo que qualquer método que artificialmente anule a fertilidade de qualquer membro do casal deve, por isso mesmo ser considerada anti-natural, da mesma maneira que seria anti-natural eu eliminar, definitiva ou temporariamente, qualquer função perfeitamente saudável do resto do meu corpo.

O mais importante neste campo, e eu sempre aprendi desta forma, é que as escolhas sejam feitas com o máximo de informação e sempre no sentido de fortalecer o casal, pois só um casal forte e unido poderá alcançar a santidade dos dois membros. O que se passa hoje em dia, e disso é que tenho pena, é que essa escolha raramente é livre pois tende a ser apresentada como uma escolha entre métodos seguros e praticamente infalíveis (o que é falso) e métodos arcaicos, totalmente falíveis e medievais (igualmente falso). Assim não há uma escolha livre.

Tinha medo de ter sido arrogante ou agressivo na forma como escrevi ontem, e hoje esperava respostas inflamadas. Fico muito contente por tal não se ter verificado. É bom e raro poder discutir estes assuntos civilizadamente. Obrigado!
Cumprimentos,
Filipe
 
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