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quarta-feira, maio 24

 

De novo a Justiça e a Caridade

No ponto 26 da sua primeira Encíclica, o Papa Bento XVI revisita o nascimento do capitalismo e as objecções à caridade:

"Desde o século XIX, vemos levantar-se contra a actividade caritativa da Igreja uma objecção, explanada depois com insistência sobretudo pelo pensamento marxista. Os pobres — diz-se — não teriam necessidade de obras de caridade, mas de justiça. As obras de caridade — as esmolas — seriam na realidade, para os ricos, uma forma de se subtraírem à instauração da justiça e tranquilizarem a consciência, mantendo as suas posições e defraudando os pobres nos seus direitos. Em vez de contribuir com as diversas obras de caridade para a manutenção das condições existentes, seria necessário criar uma ordem justa, na qual todos receberiam a sua respectiva parte de bens da terra e, por conseguinte, já não teriam necessidade das obras de caridade. Algo de verdade existe — devemos reconhecê-lo — nesta argumentação, mas há também, e não pouco, de errado. É verdade que a norma fundamental do Estado deve ser a prossecução da justiça e que a finalidade de uma justa ordem social é garantir a cada um, no respeito do princípio da subsidiariedade, a própria parte nos bens comuns. Isto mesmo sempre o têm sublinhado a doutrina cristã sobre o Estado e a doutrina social da Igreja. Do ponto de vista histórico, a questão da justa ordem da colectividade entrou numa nova situação com a formação da sociedade industrial no século XIX. A aparição da indústria moderna dissolveu as antigas estruturas sociais e provocou, com a massa dos assalariados, uma mudança radical na composição da sociedade, no seio da qual a relação entre capital e trabalho se tornou a questão decisiva — questão que, sob esta forma, era desconhecida antes. As estruturas de produção e o capital tornaram-se o novo poder que, colocado nas mãos de poucos, comportava para as massas operárias uma privação de direitos, contra a qual era preciso revoltar-se."

O que é particularmente interessante neste excerto é a similitude entre o capitalismo desregulado do século XIX e a nova desregulamentação mundial do capitalismo provocada pela globalização.

Como resultado das lutas dos trabalhadores e das doutrinas democratas-cristãs, sociais-democratas e outras correntes de esquerda, o capitalismo foi lentamente, ao longo do século XX mas sobretudo no período posterior à segunda guerra mundial, sendo regulado nos vários países industrializados. Esta regulação conduziu a uma série de medidas sociais e ambientais que implicavam uma redistribuição da riqueza e uma contenção do poder do capital.

Contudo, com a globalização acentuada que se verificou no fim do século XX e que se acentua cada vez mais, a tecnologia, o capital, as mercadorias, os factores de produção, deslocam-se agora com extrema facilidade de um país para o outro.

O capital que, no século XX, se encontrava contido nas fronteiras nacionais de alguns estados industrializados do ocidente, pode agora circular livremente por todo o mundo em busca dos países mais vantajosos. Ora, para o capital, os países mais vantajosos são muitas vezes os menos regulamentados em termos sociais e ambientais (obviamente o conceito de redistribuição da riqueza é um pesadelo para o capital).

A globalização desregulamentada a que assistimos é uma revisita, em termos mundiais, do capitalismo selvagem do século XIX, uma nova fonte de desigualdades sociais. Em todo o mundo se aprofunda de modo gritante um fosso entre os mais ricos e os mais pobres.

Por isso as palavras do Papa são tão actuais.

Timshel (TIMSHEL)
Comments:
Esperemos que esta encíclica faça algo mais do que ocupar uma folha de papel...
o Papa está actual, mas esperemos que ajude a mudar esta sociedade capitalista num mundo "capitalista mais social"... e de preferência sem dogmas a Ratzinger...
 
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