<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, maio 17

 

Cova da heresia

A 13 de Maio fui a uma quinta no Lumiar conversar com um grupo de pessoas sobre o que move as gerações novas, a convite das irmãs dominicanas. E ali se desempoeirou ideias e preconceitos, também sobre a sexualidade e o corpo, sobre a educação e a festa, o "nós" e o "eles".

Lá longe, o reitor do Santuário de Fátima voltou a atacar o sexo, o prazer, o divórcio. Como pano de fundo, uma imensa tarja no recinto anunciava "Guardai castidade". Leiamos melhor o que escreveu Luciano Guerra (a partir de uma notícia da Lusa, via
PortugalDiário): «A castidade é uma urgência» numa sociedade com «multiplicação das ligações, simultâneas e sucessivas».
Segundo este responsável, esta «multiplicação de ligações» vai gerando «situações de semi-prostituição, em todos os meios sociais».
«Faz-se a apologia do divórcio, desprezando os inocentes, atirados para a valeta, revoltados, deprimidos, acabando na droga, no álcool, na cadeia, no desemprego permanente, no fracasso escolar», escreve no editorial do jornal «A Voz da Fátima», órgão oficial do Santuário, na edição de sábado, 13 de Maio.
Aproveitando o tema anual do Santuário de Fátima, «Guardar castidade», o reitor daquele templo mariano avisa que «exagerando a liberdade entre sexos, desde a idade mais precoce, e fora do matrimónio, banaliza-se o amor esponsal, criam-se vícios, multiplicam-se conflitos, foge-se às tarefas árduas».
«A esterilidade instala-se no individuo, na família e no trabalho», escreve, sustentando que «os europeus, que se preocupam seriamente com a sustentabilidade da segurança social, começam também a perceber que está em risco a existência da população que a sustenta».
«O nosso primeiro problema talvez não seja a falta de dinheiro, a baixa produtividade, o fracasso escolar, a corrupção», considera o reitor do Santuário, para quem é a «ambição» a raiz dos problemas, «e o primeiro entre eles é a perversão do amor», o que acontece «quando o sexo se torna uma droga».
«Guardar castidade» é o tema anual do Santuário, que desde há seis anos começou uma reflexão sobre os Dez Mandamentos. A peregrinação deste 13 de Maio foi subordinada à questão «Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo?».
[sublinhados nossos]

Apetece-me eu pedir: guardai castidade nos vossos pensamentos. Não há pachorra para alguma Igreja que insiste na diabolização do mundo!
Alguma Igreja devia perceber que o sexo é bom!
Alguma Igreja devia perceber que o prazer é bom!
Alguma Igreja devia perceber que o divórcio por vezes é uma solução!
Alguma Igreja devia perceber que está na hora de deixar o discurso miserabilista do sofrimento — e carregar na tecla da esperança.
Alguma Igreja devia viver e ser feliz e deixar os outros viverem e serem felizes.

Esta alguma Igreja não é toda a Igreja. Nem é a maioria, como confirmou uma sondagem do Correio da Manhã que revelou o óbvio: que o preservativo não choca os católicos, é um bem acessório e não um mal menor. Mas também a comunicação social podia descobrir essa outra
Igreja que não diaboliza o que não tem de ser diabolizado.

Eu por mim prefiro enaltecer o nosso corpo como templo do Espírito Santo no prazer, na felicidade da sexualidade, na alegria da descoberta do Outro, na alteridade das relações. Ámen.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]
Comments:
Não tinha lido o original do artigo que citas, mas estive no Santuário dia 12 à noite e as meditações lidas em voz alta durante o terço não variavam muito, em tom, desse texto.
O facto de serem lidas com aquela voz de padre de Vigeu (ao melhor estilo de Diácono Remédios) não ajuda...
É pena. Um ano de reflexão sobre este mandamento poderia ser utilizado de forma positiva, para realçar a beleza da fidelidade, a castidade no sentido de auto-controlo, de utilização saudável dos dons fantásticos que Deus nos deu, tal como a sexualidade e até a nossa saúde.
Por curiosidade, lembro-me de uma discussão que tive com um amigo, em que eu defendia ser falta de castidade ele não se conseguir controlar ao ponto de não fumar durante uma prova de vinhos...

Não se deve diabolizar o mundo, concordo, mas também não vejo razão para diabolizar ainda mais o texto do reitor do santuário.

"Alguma Igreja devia perceber que o sexo é bom!
Alguma Igreja devia perceber que o prazer é bom!"

Não li nada no texto que indicasse o contrário, a não ser que a denúncia de uma cultura que valoriza cada vez mais o sexo como mera fonte de prazer imediato, seja o mesmo que dizer que o sexo é mau. Não julgo que seja.

"Alguma Igreja devia perceber que o divórcio por vezes é uma solução!"

Este é um tema complicado, mexe muito com as experiências pessoais das pessoas. Na minha opinião, em vez de se dizer apenas que o divórcio pode ser ou não solução, deve-se confrontar a nossa igreja (ocidental e latina) com as doutrinas das igrejas orientais e bizantinas sobre este assunto. É uma forma de tirar o debate do campo de batalha "secularismo v. religião" e colocá-la no campo teológico onde poderá haver mais à vontade para a discutir.

"Esta alguma Igreja não é toda a Igreja. Nem é a maioria, como confirmou uma sondagem do Correio da Manhã que revelou o óbvio: que o preservativo não choca os católicos, é um bem acessório e não um mal menor."

Não julgo que o exemplo seja o melhor. É necessário dar voz aos fiéis e pensar a igreja como um todo. A discussão que mantivemos noutro post sobre contraceptivos pareceu-me um bom exemplo de como se podem discutir bem estes assuntos, mas, num assunto tão complexo, guiar-nos por sondagens parece-me fraco. Já vi muitas sondagens que indicam que a maioria dos católicos nem julga necessário ir à missa uma vez por semana... seguindo o teu exemplo, deveríamos criticar "alguma igreja" que continua a nadar contra a corrente nesta área e a insistir nessa prática?
Cumprimentos,
Filipe
 
O prazer, do ponto de vista moral, não é bom nem mau. É indiferente.

António Maria
 
Caro Miguel Marujo.

O problema é que essa Igreja inclui o magistério romano e a maioria dos bispos. Qual é o seu entendimento da sucessão apostólica?

Esta questão da sucessão dá-me cabo da pinha :)

Um abraço.
 
Enviar um comentário

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?