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quarta-feira, maio 31

 

A universalidade do amor

No ponto 25 da sua primeira encíclica, o Papa Bento XVI conclui:

"Chegados aqui, registemos dois dados essenciais tirados das reflexões feitas:

a) A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros. Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de actividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência.

b) A Igreja é a família de Deus no mundo. Nesta família, não deve haver ninguém que sofra por falta do necessário. Ao mesmo tempo, porém, a caritas-agape estende-se para além das fronteiras da Igreja; a parábola do bom Samaritano permanece como critério de medida, impondo a universalidade do amor que se inclina para o necessitado encontrado «por acaso» (cf. Lc 10, 31), seja ele quem for. Mas, ressalvada esta universalidade do mandamento do amor, existe também uma exigência especificamente eclesial — precisamente a exigência de que, na própria Igreja enquanto família, nenhum membro sofra porque passa necessidade. Neste sentido se pronuncia a Carta aos Gálatas: «Portanto, enquanto temos tempo, pratiquemos o bem para com todos, mas principalmente para com os irmãos na fé» (6, 10)."


Nos termos da primeira conclusão, ser Igreja implica, simultânea e cumulativamente, o "anúncio da Palavra de Deus", a "celebração dos Sacramentos" e o "serviço da caridade".

O Papa sublinha, relativamente a este último dever, que o exercício da caridade "não é uma espécie de actividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência".

Nos termos da segunda conclusão, o Papa sublinha duas exigências fundamentais.

Por um lado, a caridade implica que, no mundo, "ninguém que sofra por falta do necessário". "A parábola do bom Samaritano permanece como critério de medida, impondo a universalidade do amor que se inclina para o necessitado encontrado «por acaso»".

Por outro lado, "ressalvada esta universalidade do mandamento do amor, existe também uma exigência especificamente eclesial", a de que "na própria Igreja enquanto família, nenhum membro sofra porque passa necessidade".

De facto, de um cristão deve esperar-se que se preocupe em atender as necessidades do outro desconhecido que encontra por acaso ou que se encontra a dez mil quilómetros de distância. Mas, esse mesmo cristão que se preocupa com as necessidades dos desconhecidos não deve deixar a sua família morrer à fome...

Timshel (TIMSHEL)

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quarta-feira, maio 24

 

De novo a Justiça e a Caridade

No ponto 26 da sua primeira Encíclica, o Papa Bento XVI revisita o nascimento do capitalismo e as objecções à caridade:

"Desde o século XIX, vemos levantar-se contra a actividade caritativa da Igreja uma objecção, explanada depois com insistência sobretudo pelo pensamento marxista. Os pobres — diz-se — não teriam necessidade de obras de caridade, mas de justiça. As obras de caridade — as esmolas — seriam na realidade, para os ricos, uma forma de se subtraírem à instauração da justiça e tranquilizarem a consciência, mantendo as suas posições e defraudando os pobres nos seus direitos. Em vez de contribuir com as diversas obras de caridade para a manutenção das condições existentes, seria necessário criar uma ordem justa, na qual todos receberiam a sua respectiva parte de bens da terra e, por conseguinte, já não teriam necessidade das obras de caridade. Algo de verdade existe — devemos reconhecê-lo — nesta argumentação, mas há também, e não pouco, de errado. É verdade que a norma fundamental do Estado deve ser a prossecução da justiça e que a finalidade de uma justa ordem social é garantir a cada um, no respeito do princípio da subsidiariedade, a própria parte nos bens comuns. Isto mesmo sempre o têm sublinhado a doutrina cristã sobre o Estado e a doutrina social da Igreja. Do ponto de vista histórico, a questão da justa ordem da colectividade entrou numa nova situação com a formação da sociedade industrial no século XIX. A aparição da indústria moderna dissolveu as antigas estruturas sociais e provocou, com a massa dos assalariados, uma mudança radical na composição da sociedade, no seio da qual a relação entre capital e trabalho se tornou a questão decisiva — questão que, sob esta forma, era desconhecida antes. As estruturas de produção e o capital tornaram-se o novo poder que, colocado nas mãos de poucos, comportava para as massas operárias uma privação de direitos, contra a qual era preciso revoltar-se."

O que é particularmente interessante neste excerto é a similitude entre o capitalismo desregulado do século XIX e a nova desregulamentação mundial do capitalismo provocada pela globalização.

Como resultado das lutas dos trabalhadores e das doutrinas democratas-cristãs, sociais-democratas e outras correntes de esquerda, o capitalismo foi lentamente, ao longo do século XX mas sobretudo no período posterior à segunda guerra mundial, sendo regulado nos vários países industrializados. Esta regulação conduziu a uma série de medidas sociais e ambientais que implicavam uma redistribuição da riqueza e uma contenção do poder do capital.

Contudo, com a globalização acentuada que se verificou no fim do século XX e que se acentua cada vez mais, a tecnologia, o capital, as mercadorias, os factores de produção, deslocam-se agora com extrema facilidade de um país para o outro.

O capital que, no século XX, se encontrava contido nas fronteiras nacionais de alguns estados industrializados do ocidente, pode agora circular livremente por todo o mundo em busca dos países mais vantajosos. Ora, para o capital, os países mais vantajosos são muitas vezes os menos regulamentados em termos sociais e ambientais (obviamente o conceito de redistribuição da riqueza é um pesadelo para o capital).

A globalização desregulamentada a que assistimos é uma revisita, em termos mundiais, do capitalismo selvagem do século XIX, uma nova fonte de desigualdades sociais. Em todo o mundo se aprofunda de modo gritante um fosso entre os mais ricos e os mais pobres.

Por isso as palavras do Papa são tão actuais.

Timshel (TIMSHEL)

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quarta-feira, maio 17

 

A doutrina social da Igreja

O ponto 27 da primeira Encíclica do Papa Bento XVI é uma súmula dos antecedentes da doutrina social católica:

"Forçoso é admitir que os representantes da Igreja só lentamente se foram dando conta de que se colocava em moldes novos o problema da justa estrutura da sociedade. Não faltaram pioneiros: um deles, por exemplo, foi o Bispo Ketteler de Mogúncia († 1877). Como resposta às necessidades concretas, surgiram também círculos, associações, uniões, federações e sobretudo novas congregações religiosas que, no Oitocentos, desceram em campo contra a pobreza, as doenças e as situações de carência no sector educativo. Em 1891, entrou em cena o magistério pontifício com a Encíclica Rerum novarum de Leão XIII. Seguiu-se-lhe a Encíclica de Pio XI Quadragesimo anno, em 1931. O Beato Papa João XXIII publicou, em 1961, a Encíclica Mater et Magistra, enquanto Paulo VI, na Encíclica Populorum progressio (1967) e na Carta Apostólica Octogesima adveniens (1971), analisou com afinco a problemática social, que entretanto se tinha agravado sobretudo na América Latina. O meu grande predecessor João Paulo II deixou-nos uma trilogia de Encíclicas sociais: Laborem exercens (1981), Sollicitudo rei socialis (1987) e, por último, Centesimus annus (1991). Deste modo, ao enfrentar situações e problemas sempre novos, foi-se desenvolvendo uma doutrina social católica, que em 2004 foi apresentada de modo orgânico no Compêndio da doutrina social da Igreja, redigido pelo Pontifício Conselho «Justiça e Paz». O marxismo tinha indicado, na revolução mundial e na sua preparação, a panaceia para a problemática social: através da revolução e consequente colectivização dos meios de produção — asseverava-se em tal doutrina — devia dum momento para o outro caminhar tudo de modo diverso e melhor. Este sonho desvaneceu-se. Na difícil situação em que hoje nos encontramos por causa também da globalização da economia, a doutrina social da Igreja tornou-se uma indicação fundamental, que propõe válidas orientações muito para além das fronteiras eclesiais: tais orientações — face ao progresso em acto — devem ser analisadas em diálogo com todos aqueles que se preocupam seriamente do homem e do seu mundo."

O que mais se salienta neste ponto é a plausibilidade da alternativa que representa o "sonho humano" que se concretiza na doutrina social católica, na sua aplicação prática no dia-a-dia e nos seus postulados políticos, face à "utopia científica" cheia de certezas sobre o futuro histórico que se concretizou no marxismo e no desmoronar ensurdecedor das suas realizações.

Como diz o Papa, "o marxismo tinha indicado, na revolução mundial e na sua preparação, a panaceia para a problemática social: através da revolução e consequente colectivização dos meios de produção — asseverava-se em tal doutrina — devia dum momento para o outro caminhar tudo de modo diverso e melhor. Este sonho desvaneceu-se. Na difícil situação em que hoje nos encontramos por causa também da globalização da economia, a doutrina social da Igreja tornou-se uma indicação fundamental, que propõe válidas orientações muito para além das fronteiras eclesiais: tais orientações — face ao progresso em acto — devem ser analisadas em diálogo com todos aqueles que se preocupam seriamente do homem e do seu mundo."

Finalmente sublinhe-se, para todos aqueles que se encontram interessados nas problemáticas da doutrina social da Igreja, que, como o Papa aqui indica, "em 2004 foi apresentada de modo orgânico no Compêndio da doutrina social da Igreja, redigido pelo Pontifício Conselho «Justiça e Paz»."

Aqui se pode encontrar o discurso do Cardeal Renato Raffaele Martino aquando da apresentação deste documento na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em 21 de Junho de 2005.

Timshel (
TIMSHEL)

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Cova da heresia

A 13 de Maio fui a uma quinta no Lumiar conversar com um grupo de pessoas sobre o que move as gerações novas, a convite das irmãs dominicanas. E ali se desempoeirou ideias e preconceitos, também sobre a sexualidade e o corpo, sobre a educação e a festa, o "nós" e o "eles".

Lá longe, o reitor do Santuário de Fátima voltou a atacar o sexo, o prazer, o divórcio. Como pano de fundo, uma imensa tarja no recinto anunciava "Guardai castidade". Leiamos melhor o que escreveu Luciano Guerra (a partir de uma notícia da Lusa, via
PortugalDiário): «A castidade é uma urgência» numa sociedade com «multiplicação das ligações, simultâneas e sucessivas».
Segundo este responsável, esta «multiplicação de ligações» vai gerando «situações de semi-prostituição, em todos os meios sociais».
«Faz-se a apologia do divórcio, desprezando os inocentes, atirados para a valeta, revoltados, deprimidos, acabando na droga, no álcool, na cadeia, no desemprego permanente, no fracasso escolar», escreve no editorial do jornal «A Voz da Fátima», órgão oficial do Santuário, na edição de sábado, 13 de Maio.
Aproveitando o tema anual do Santuário de Fátima, «Guardar castidade», o reitor daquele templo mariano avisa que «exagerando a liberdade entre sexos, desde a idade mais precoce, e fora do matrimónio, banaliza-se o amor esponsal, criam-se vícios, multiplicam-se conflitos, foge-se às tarefas árduas».
«A esterilidade instala-se no individuo, na família e no trabalho», escreve, sustentando que «os europeus, que se preocupam seriamente com a sustentabilidade da segurança social, começam também a perceber que está em risco a existência da população que a sustenta».
«O nosso primeiro problema talvez não seja a falta de dinheiro, a baixa produtividade, o fracasso escolar, a corrupção», considera o reitor do Santuário, para quem é a «ambição» a raiz dos problemas, «e o primeiro entre eles é a perversão do amor», o que acontece «quando o sexo se torna uma droga».
«Guardar castidade» é o tema anual do Santuário, que desde há seis anos começou uma reflexão sobre os Dez Mandamentos. A peregrinação deste 13 de Maio foi subordinada à questão «Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo?».
[sublinhados nossos]

Apetece-me eu pedir: guardai castidade nos vossos pensamentos. Não há pachorra para alguma Igreja que insiste na diabolização do mundo!
Alguma Igreja devia perceber que o sexo é bom!
Alguma Igreja devia perceber que o prazer é bom!
Alguma Igreja devia perceber que o divórcio por vezes é uma solução!
Alguma Igreja devia perceber que está na hora de deixar o discurso miserabilista do sofrimento — e carregar na tecla da esperança.
Alguma Igreja devia viver e ser feliz e deixar os outros viverem e serem felizes.

Esta alguma Igreja não é toda a Igreja. Nem é a maioria, como confirmou uma sondagem do Correio da Manhã que revelou o óbvio: que o preservativo não choca os católicos, é um bem acessório e não um mal menor. Mas também a comunicação social podia descobrir essa outra
Igreja que não diaboliza o que não tem de ser diabolizado.

Eu por mim prefiro enaltecer o nosso corpo como templo do Espírito Santo no prazer, na felicidade da sexualidade, na alegria da descoberta do Outro, na alteridade das relações. Ámen.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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quarta-feira, maio 10

 

Justiça e caridade

O Papa Bento XVI, no ponto 28 da sua primeira Encíclica, tece algumas importantes considerações sobre a justiça e a caridade:

"Para definir com maior cuidado a relação entre o necessário empenho em prol da justiça e o serviço da caridade, é preciso anotar duas situações de facto que são fundamentais:

a) A justa ordem da sociedade e do Estado é dever central da política. Um Estado, que não se regesse segundo a justiça, reduzir-se-ia a uma grande banda de ladrões, como disse Agostinho uma vez: «Remota itaque iustitia quid sunt regna nisi magna latrocinia?». Pertence à estrutura fundamental do cristianismo a distinção entre o que é de César e o que é de Deus (cf. Mt 22, 21), isto é, a distinção entre Estado e Igreja ou, como diz o Concílio Vaticano II, a autonomia das realidades temporais. O Estado não pode impor a religião, mas deve garantir a liberdade da mesma e a paz entre os aderentes das diversas religiões; por sua vez, a Igreja como expressão social da fé cristã tem a sua independência e vive, assente na fé, a sua forma comunitária, que o Estado deve respeitar. As duas esferas são distintas, mas sempre em recíproca relação.

A justiça é o objectivo e, consequentemente, também a medida intrínseca de toda a política. A política é mais do que uma simples técnica para a definição dos ordenamentos públicos: a sua origem e o seu objectivo estão precisamente na justiça, e esta é de natureza ética. Assim, o Estado defronta-se inevitavelmente com a questão: como realizar a justiça aqui e agora? Mas esta pergunta pressupõe outra mais radical: o que é a justiça? Isto é um problema que diz respeito à razão prática; mas, para poder operar rectamente, a razão deve ser continuamente purificada porque a sua cegueira ética, derivada da prevalência do interesse e do poder que a deslumbram, é um perigo nunca totalmente eliminado.

Neste ponto, política e fé tocam-se. A fé tem, sem dúvida, a sua natureza específica de encontro com o Deus vivo — um encontro que nos abre novos horizontes muito para além do âmbito próprio da razão. Ao mesmo tempo, porém, ela serve de força purificadora para a própria razão. Partindo da perspectiva de Deus, liberta-a de suas cegueiras e, consequentemente, ajuda-a a ser mais ela mesma. A fé consente à razão de realizar melhor a sua missão e ver mais claramente o que lhe é próprio. É aqui que se coloca a doutrina social católica: esta não pretende conferir à Igreja poder sobre o Estado; nem quer impor, àqueles que não compartilham a fé, perspectivas e formas de comportamento que pertencem a esta. Deseja simplesmente contribuir para a purificação da razão e prestar a própria ajuda para fazer com que aquilo que é justo possa, aqui e agora, ser reconhecido e, depois, também realizado.

A doutrina social da Igreja discorre a partir da razão e do direito natural, isto é, a partir daquilo que é conforme à natureza de todo o ser humano. E sabe que não é tarefa da Igreja fazer ela própria valer politicamente esta doutrina: quer servir a formação da consciência na política e ajudar a crescer a percepção das verdadeiras exigências da justiça e, simultaneamente, a disponibilidade para agir com base nas mesmas, ainda que tal colidisse com situações de interesse pessoal. Isto significa que a construção de um ordenamento social e estatal justo, pelo qual seja dado a cada um o que lhe compete, é um dever fundamental que deve enfrentar de novo cada geração. Tratando-se de uma tarefa política, não pode ser encargo imediato da Igreja. Mas, como ao mesmo tempo é uma tarefa humana primária, a Igreja tem o dever de oferecer, por meio da purificação da razão e através da formação ética, a sua contribuição específica para que as exigências da justiça se tornem compreensíveis e politicamente realizáveis.

A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela pela via da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre requer renúncias também, não poderá afirmar-se nem prosperar. A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela política. Mas toca à Igreja, e profundamente, o empenhar-se pela justiça trabalhando para a abertura da inteligência e da vontade às exigências do bem.

b) O amor — caritas — será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem. Sempre haverá sofrimento que necessita de consolação e ajuda. Haverá sempre solidão. Existirão sempre também situações de necessidade material, para as quais é indispensável uma ajuda na linha de um amor concreto ao próximo. Um Estado, que queira prover a tudo e tudo açambarque, torna-se no fim de contas uma instância burocrática, que não pode assegurar o essencial de que o homem sofredor — todo o homem — tem necessidade: a amorosa dedicação pessoal. Não precisamos de um Estado que regule e domine tudo, mas de um Estado que generosamente reconheça e apoie, segundo o princípio de subsidiariedade, as iniciativas que nascem das diversas forças sociais e conjugam espontaneidade e proximidade aos homens carecidos de ajuda. A Igreja é uma destas forças vivas: nela pulsa a dinâmica do amor suscitado pelo Espírito de Cristo. Este amor não oferece aos homens apenas uma ajuda material, mas também refrigério e cuidado para a alma — ajuda esta muitas vezes mais necessária que o apoio material. A afirmação de que as estruturas justas tornariam supérfluas as obras de caridade esconde, de facto, uma concepção materialista do homem: o preconceito segundo o qual o homem viveria «só de pão» (Mt 4, 4; cf. Dt 8, 3) — convicção que humilha o homem e ignora precisamente aquilo que é mais especificamente humano."



O Papa Bento XVI começa por definir o dever central da actividade política: "a justa ordem da sociedade e do Estado". Toda a política que defenda que uma sociedade ou um Estado "que não se regesse segundo a justiça, reduzir-se-ia a uma grande banda de ladrões".


As esferas da fé e da política "são distintas, mas sempre em recíproca relação".


A política e a fé tocam-se porque "a política é mais do que uma simples técnica para a definição dos ordenamentos públicos: a sua origem e o seu objectivo estão precisamente na justiça, e esta é de natureza ética". De facto, "a razão deve ser continuamente purificada porque a sua cegueira ética, derivada da prevalência do interesse e do poder que a deslumbram, é um perigo nunca totalmente eliminado."


O Papa esclarece a seguir alguns pontos sobre a doutrina social católica: "esta não pretende conferir à Igreja poder sobre o Estado; nem quer impor, àqueles que não compartilham a fé, perspectivas e formas de comportamento que pertencem a esta. Deseja simplesmente contribuir para a purificação da razão e prestar a própria ajuda para fazer com que aquilo que é justo possa, aqui e agora, ser reconhecido e, depois, também realizado."


Claro que "não é tarefa da Igreja fazer ela própria valer politicamente esta doutrina". A Igreja apenas "quer servir a formação da consciência na política e ajudar a crescer a percepção das verdadeiras exigências da justiça e, simultaneamente, a disponibilidade para agir com base nas mesmas, ainda que tal colidisse com situações de interesse pessoal."


O Papa acrescenta "que a construção de um ordenamento social e estatal justo, pelo qual seja dado a cada um o que lhe compete, é um dever fundamental que deve enfrentar de novo cada geração. Tratando-se de uma tarefa política, não pode ser encargo imediato da Igreja. Mas, como ao mesmo tempo é uma tarefa humana primária, a Igreja tem o dever de oferecer, por meio da purificação da razão e através da formação ética, a sua contribuição específica para que as exigências da justiça se tornem compreensíveis e politicamente realizáveis."


Nunca confundindo o papel da Igreja católica com o papel dos católicos enquanto sujeitos políticos, o Papa sublinha que "a Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela pela via da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre requer renúncias também, não poderá afirmar-se nem prosperar. A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela política. Mas toca à Igreja, e profundamente, o empenhar-se pela justiça trabalhando para a abertura da inteligência e da vontade às exigências do bem."


O Papa conclui que o amor é insubstituível pois O amor "será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa. Não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem. Sempre haverá sofrimento que necessita de consolação e ajuda. Haverá sempre solidão." Não é função do Estado (nem tal seria possível) amar ou substituir-se totalitariamente a todas as iniciativas particulares: "não precisamos de um Estado que regule e domine tudo, mas de um Estado que generosamente reconheça e apoie, segundo o princípio de subsidiariedade, as iniciativas que nascem das diversas forças sociais e conjugam espontaneidade e proximidade aos homens carecidos de ajuda."


"A afirmação de que as estruturas justas tornariam supérfluas as obras de caridade esconde, de facto, uma concepção materialista do homem: o preconceito segundo o qual o homem viveria «só de pão» — convicção que humilha o homem e ignora precisamente aquilo que é mais especificamente humano."

Timshel (
TIMSHEL)

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quarta-feira, maio 3

 

Ainda sobre as relações entre justiça e amor

No ponto 29 da sua primeira Encíclica, o Papa Bento XVI conclui a reflexão sobre as relações entre a justiça e a caridade empreendidas nos pontos anteriores. Diz ele:

"Deste modo, podemos determinar agora mais concretamente, na vida da Igreja, a relação entre o empenho por um justo ordenamento do Estado e da sociedade, por um lado, e a actividade caritativa organizada, por outro. Viu-se que a formação de estruturas justas não é imediatamente um dever da Igreja, mas pertence à esfera da política, isto é, ao âmbito da razão auto-responsável. Nisto, o dever da Igreja é mediato, enquanto lhe compete contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças morais, sem as quais não se constroem estruturas justas, nem estas permanecem operativas por muito tempo.

Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem justa na sociedade é próprio dos fiéis leigos. Estes, como cidadãos do Estado, são chamados a participar pessoalmente na vida pública. Não podem, pois, abdicar «da múltipla e variada acção económica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o bem comum». Por conseguinte, é missão dos fiéis leigos configurar rectamente a vida social, respeitando a sua legítima autonomia e cooperando, segundo a respectiva competência e sob própria responsabilidade, com os outros cidadãos. Embora as manifestações específicas da caridade eclesial nunca possam confundir-se com a actividade do Estado, no entanto a verdade é que a caridade deve animar a existência inteira dos fiéis leigos e, consequentemente, também a sua actividade política vivida como «caridade social».

Caso diverso são as organizações caritativas da Igreja, que constituem um seu opus proprium, um dever que lhe é congénito, no qual ela não se limita a colaborar colateralmente, mas actua como sujeito directamente responsável, realizando o que corresponde à sua natureza. A Igreja nunca poderá ser dispensada da prática da caridade enquanto actividade organizada dos crentes, como aliás nunca haverá uma situação onde não seja precisa a caridade de cada um dos indivíduos cristãos, porque o homem, além da justiça, tem e terá sempre necessidade do amor."


O Papa sublinha que, no âmbito da construção de uma sociedade justa, compete à Igreja "contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças morais".

O Papa sublinha igualmente o dever dos "fiéis leigos" de "participar pessoalmente na vida pública", nomeadamente através "da múltipla e variada acção económica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o bem comum». Por conseguinte, é missão dos fiéis leigos configurar rectamente a vida social".

O Papa acrescenta seguir uma importantíssima mensagem: "Embora as manifestações específicas da caridade eclesial nunca possam confundir-se com a actividade do Estado, no entanto a verdade é que a caridade deve animar a existência inteira dos fiéis leigos e, consequentemente, também a sua actividade política vivida como «caridade social»."

O Papa prossegue uma distinção importante entre justiça e amor quando refere que "a Igreja nunca poderá ser dispensada da prática da caridade enquanto actividade organizada dos crentes, como aliás nunca haverá uma situação onde não seja precisa a caridade de cada um dos indivíduos cristãos, porque o homem, além da justiça, tem e terá sempre necessidade do amor."


Timshel (TIMSHEL)

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A Natureza Humana

O tema da natureza do ser humano é um dos que tem recebido uma vasta cobertura nas religiões do mundo. Estas apresentam profundas divergências relativamente a esta matéria. O que se segue é uma tentativa de resumir os ensinamentos.

A natureza do ser humano na teologia cristã clássica está fortemente ligada à doutrina do pecado original. Esta doutrina sustenta que desde que Adão e Eva pecaram no Jardim do Éden, a humanidade possui uma natureza pecadora inata que tem sido transmitida de geração em geração. Como consequência, os seres humanos estão inerentemente num estado de alienação e afastamento de Deus.

Por contraste, no Islão existe uma atitude mais positiva em relação à natureza humana. O pecado de Adão não é considerado como tendo sido transmitido ao longo das gerações. Segundo o Alcorão, Deus criou o homem, “soprando nele o seu espírito” e fazendo-o superior às outras criaturas, de tal forma que até aos anjos foi ordenado que se curvassem perante ele. Os seres humanos são os representantes (khalifa) de Deus na terra. Têm porém uma propensão inata a certas características malignas como a luxúria e a ganância, mas é-lhes ordenado por Deus que se oponham a estas tendências, sendo o paraíso a recompensa do sucesso.

Na Fé Bahá’í considera-se que os seres humanos têm uma natureza dupla. Possuem uma natureza espiritual, que é a sua verdadeira identidade. Enquanto estão neste mundo, a sua tarefa é aperfeiçoar os seus atributos espirituais na maior medida possível. Os seres humanos também possuem uma natureza animal, que funciona para satisfazer as suas necessidades físicas; se permitirem que esta faceta domine a sua natureza espiritual, então cometem actos malignos. Através da educação e disciplina espiritual (tais como os ensinamentos trazidos pelos fundadores e profetas das religiões mundiais), os seres humanos conseguem controlar a sua natureza animal e desenvolver a sua verdadeira identidade espiritual.

Para os sistemas religiosos que acreditam na Realidade Absoluta, os seres humanos apenas possuem uma realidade relativa ou contingente. Na verdade, a aparente realidade do mundo físico é, de facto, ilusória. O real é a Realidade Absoluta que está encoberta por este mundo. Se os seres humanos puderem ver as coisas como elas na realidade são, veriam que existe apenas uma Realidade que “é”. Tudo o resto, (incluindo a noção humana de possuir uma identidade separada do absoluto) tem apenas uma realidade ilusória ou relativa. No Budismo Mahayana, a realidade do ser humano é idêntica à de Shunyata, a Realidade Absoluta. No Adaita Vedanta, esta verdade esta verdade torna-se real quando os seres humanos compreendem que o Atman (a realidade interior de cada pessoa) é idêntica à de Brahman (a Realidade Absoluta) (…)

No Budismo Theravada, os seres humanos são compósitos (skandhas) de forma corpórea, sensações, percepções, consciência e formações mentais. Todas estas são transitórias (anitya) e não têm essência (anatman). Todas conduzem ao desejo (trishna) e consequentemente ao sofrimento. No Budismo Mahayana, a iluminação consiste em ver o vazio (shunyata) no âmago de todos estes skandhas.

No pensamento Confucionista, os seres humanos são essencialmente bons, mas necessitam de orientação e educação para mostrar a sua bondade inerente. Esta bondade inerente é demonstrada na plenitude quando seres humanos instruídos participam e melhoram a ordem política e social.

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pag. 204-205


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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O mal maior

Os bispos portugueses (e não a "Igreja" ou os "padres", como muitos escreveram) disseram que o preservativo "é um mal menor". Não é. É um bem acessório*. Afinal, a Igreja, ou melhor, os estudantes do Movimento Católico de Estudantes escreviam assim, já em Setembro de 1993:

«Contracepção
A distinção entre métodos contraceptivos naturais e artificiais surge-nos como pouco válida, quer científica quer moralmente. Maior confusão se estabelece quando o mesmo discurso redutor é aplicado sem mais a situações como a SIDA, nos tempos em que esta atinge proporções incontroláveis, não se dando conta de que o preservativo ocupa um estatuto próprio no campo da prevenção das doenças sexualmente transmissíveis.
Parece-nos, enfim, que por trás do discurso oficial da Igreja nesta matéria se encontra ainda o não reconhecimento de um valor próprio ao prazer que resulta da relação sexual, o qual então só seria tolerável em função da procriação num quadro matrimonial.»

Agora, quase 13 anos - e duras reuniões, entre os jovens do MCE e os bispos - depois, o episcopado português entreabre a porta a algumas ideias defendidas nesse
Documento sobre Moral Sexual, como a do combate à sida e outras doenças transmitidas por via sexual, um flagelo que atinge proporções únicas (não por causa da Igreja Católica, como agora é moda dizer-se, mas, admitamos, sem a forte ajuda pedagógica que teria sido possível com o trabalho pastoral das comunidades em todo o mundo...).

Mas há uma parte que continua esquecida, neste "mal menor" agora defendido pelos bispos portugueses: a do «não reconhecimento do valor próprio do prazer que resulta da relação sexual», como se escrevia em 1993. Esperemos mais 13 anos, para um bem maior. Como aqui já defendi, «a Igreja permanece quase imutável na sua forma de olhar o corpo e a sexualidade. Hoje, a valorização positiva do prazer e do sexo continua a ser tabu para o clero e, muitas vezes, vergonha para os leigos. No Verão quente, a Igreja continua a vestir roupas de Inverno e a discutir o sexo dos anjos.»

Nada mudou, pouco se fez e o discurso aparentemente revigorante dos bispos portugueses, com direito a manchetes e aberturas de telejornais, choca no óbvio: o bem acessório da declaração da semana passada esquece que o prazer para a Igreja-oficial-hierárquica continua a ser o mal maior. Ficamos mal.


* - bem, do Lat. bene, s. m., utilidade; benefício; acessório, do Lat. accessoriu, adj., que anda anexo e acompanha o principal; secundário.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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