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quarta-feira, abril 19

 

KÖZSÖNÖM!



Retomo um breve relato de há dias. A missa do lava-pés ouvi-a em húngaro, numa das mais belas igrejas que visitei até hoje - Mátyás templom, em Budapeste. Não percebi quase nada: apenas a cadência da oração, o Jezsus vivido ou o ámen universal. Na longa celebração, a estranheza da língua cuidou do tempo de outro modo. Com um coro, como nunca ouvi numa igreja portuguesa - a música tornada contemplação, e não um acrescento pop para arregimentar jovens. E depois o silêncio e a luz.

Lá fora, escurecia também. Mas os vitrais reflectiam cores de vida, para o interior da igreja, para o interior do templo de cada um. E do tempo de todos.

O tempo, por aqui, deixa marcas. Indeléveis, físicas. Como a da torre de Madalena, que resistiu às guerras que abriram fendas nos homens e romperam corações nos edifícios. Ao lado, uma janela (na foto) esventrada, enorme, deixa ver o que está do outro lado, é o outro lado. Metáfora de uma cidade de cruzamentos e cruzadas, em que as últimas parecem hoje ceder aos primeiros: nas esplanadas, o linguarajar indecifrável dos magiares mistura-se, bebe-se, saboreia-se com línguas de quem os visita e desvela.

Por estes dias de Páscoa, o belo e o indizível mostram-se assim, quase inexplicáveis. Ou talvez não. Como, em Sete Palmos de Terra, o diálogo do filho (que nunca seria o "pródigo" da parábola) com o pai, que ele e nós, telespectadores, sabemos já morto:
«Tens uma dorzinha. Mas estás vivo! O que é uma dorzinha comparada com isso!», diz-lhe o pai. «Não pode ser assim tão simples...», responde o filho. «É assim tão simples», remata o pai.

É assim, simples. Como naquela missa de lava-pés, celebrada em húngaro.


Miguel Marujo [
CIBERTÚLIA]
Comments:
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
 
Nem mais!
Quem me dera ter lido este "post" no próprio dia em que o escreveu... já que não é legítimo lamentar não o ter lido antes (por evidentes razões cronológicas). Teria sido muito reconfortante e belíssima ajuda para desatar alguns daqueles nós que atamos sem saber muito bem como, e que, às vezes, um olhar diferente, um reposicionamento em relação à vida, uma nova perspectiva pode desfazê-los ou começar a desatá-los.
É mau quando desvalorizam as nossas angústias; é bom quando as desdramatizam e simplificam; é óptimo quando encontramos alguém que fala a nossa “linguagem”, ainda que num idioma desconhecido...
Obrigada
 
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