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quarta-feira, abril 5

 

Chamamento

Meu olhos abriam-se como bocas sedentas de tudo devorar e continuava a caminhar, agora na solidão e extensa morte dos outros, o vazio. O oceano arfava como se me quisesse engolir, imenso e assustador, a palavra.
Apenas o odor violento do meu corpo apodrecido me situava no espaço e no tempo, aqui nesta vida, uma circunstância.
E caminhava, nu e esperançoso, imóvel, o corpo aclarando-se por dentro como se uma luz crescesse no centro do meu ser. Rejuvenescia sem dor, e sem esquecimento. As feridas rejuvenescem.
Os olhos, era como se estivessem agora selados, e sangrentos, subitamente.
Parei todo o movimento e fiquei frente ao mar que se estendia à minha frente como uma respiração insustentável. E do mesmo modo que à formiga transcende o imenso ser humano, também eu me quedava perante aquele ser que eu não entendia, espantado e respeitoso. O céu nascia com ele sempre que adormecesse. A minha estrutura de entendimento não abarca a tua inteligência, perdoa-me a tentativa, sou um fragmento de vento, e nada parecia responder-me ou existir, continuava humano e falível, sabedor de não-aceitação. Pouco fluente, como todos, sistematizado, projecto: humano, conjugação de forças vitas específicas. Todo eu sou uma mentira biológica. Perdoa-me como se me aceitasses, como se revelasses aquilo que me não é.
E então o céu moveu-se, deslocou-se num arrastamento, como a dor desértica tornando-se canto ou a árvore curvar-se e a areia levantar-se água, inaudível som que invade a pele como uma queimadura. De olhos feridos, podia perceber, infindos movimentos cruzando-se dentro de mim receptáculo, o som habitava-me da pele para dentro, vento e sangue, percorrendo-me em dissolução animada, serena e aceite violação. Não rodava, a imobilidade era total como o pico da constatação ou da pedra atirada ao ar, algo a crescer dentro e percepcionado de fora: Eu era o objecto e olhava-me.
Abri-me no céu numa expansão transformada, a luz que se reúne numa visão esférica, global, e se anula sem negação.
...
Ele ergueu-se, de olhos fechados e sangrentos, o corpo liquefazendo-se em merda plasmática. Era o céu abrindo-se, a fenda da união, o ponto de intersecção, o horizonte. O mel escorria da noite quebrada, gotejando fenda abaixo, golfando. Sufoco. A multiplicidade é unidade. Sueste. De fogo nas veias. Ele ergueu-se em conjunto e gritou. O mel cobria o oceano, acumulava-se em vagas na areia. O horizonte dourado e material, o pensamento. Porosamente, expandi-me até não poder mais, abri-me sol gelado e desci à terra. As suas mãos tocaram-me.
...
Te reúnes, como um levantamento. Meus olhos que se tentam abrir, escuro odor. Ergo qualquer coisa, membros, tocos, mãos, algo que toque. Como uma curva ascendente, um suspiro de tensão. Ergo-me. É como uma estrela gelatinosamente despontando do céu, do rasgo. Raios brancos e vidrados e quietos, uma flor esticada no ar. Pequeno e dissolvido, o arco ascendente, um quedar assustado de atenção. Eu toquei, e todo estremeci na reconstituição, a forma possuindo-me como um desejo, estabelecendo-me. O estado da forma é a manifestação que nos expõe ao contacto e nos faz existir no tempo, nascer e morrer. A matéria livre tornada matéria formada, perecível. Equacionada como um destino ou uma condenação. A estrela de gelo. Eu existo. O nada tornou-se coisa e a Possibilidade Total circunstanciou-se. A estrutura no infinito vazio, subliminando-o. – Não-ser é ser-se tudo, é existir em tudo o que não se é, como o zero e a abstracção. Toquei o primeiro abrir de olhos e gritei.
...
O que desce tu recebes. E dentro dos olhos o mar abre-se. A planta moveu-se. Ferida. Os olhos. Abri-los. A forma. Criada. Temporal. Caminhar. A contagem começou, decrescente.
...


Vítor Mácula (SER CRISTÃO)
Comments:
Algo que nos agarra sem nos tocar. Como uma simples proposta que demasiado se impõe. A luta de uma resilência interior. A aceitação e a opção. A alegria que transborda.
 
Caro/a LA.

Que transborda, sim, e até a tristeza invade. Ou então sopas ;)

Abraço.
 
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