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quarta-feira, março 29

 

A participação dos leigos numa Igreja Comunhão (III)

Como vimos anteriormente, antes do Concílio Vaticano II, os leigos eram a "multidão dos fiéis", aquele resto que aparecia no final da autodefinição piramidal da Igreja. A tradicional concepção começava com Jesus Cristo e o seu representante na terra, o papa, seguindo-se os bispos, os sacerdotes e religiosos.

Essa poderosa hierarquia confundia-se com a Igreja. Se alguém se referisse à Igreja, era a hierarquia que queria significar. Os fiéis constituíam aquele rebanho obediente e dependente, cabendo-lhes nada mais que acolher orientações, normas e mandamentos impostos pela autoridade religiosa, como condição para a salvação.

O poder de perdoar ou não perdoar pecados, de admitir cristãos submissos ou excluir da Igreja cristãos desobedientes, reduzia os leigos a simples coadjuvantes da acção da Igreja, sem voz nem voto. O que lhes cumpria fazer, além de obedecer, era ajudar o clero em funções subalternas. Afinal, eram leigos, ou seja, não tinham conhecimentos nem competência para desempenhar funções importantes na missão da Igreja. Só a hierarquia tinha acesso a uma formação teológica adequada. A própria leitura da Bíblia não era recomendada aos leigos. Deter o conhecimento podia ser perigoso...

Divergir era excluir-se ou arriscar-se a ser excluído da Igreja. E... "fora da Igreja não há salvação" - afirmava a doutrina oficial. Era a certeza do inferno. Por isso, o melhor era manter-se obediente, limitar-se a uma religiosidade infantil e bem comportada, ir à missa aos domingos, confessar-se ao sacerdote cada vez que desobedecido algum mandamento ou orientação disciplinar da Igreja, comungar uma vez por ano e dormir tranqüilo. O importante era estar dentro da Igreja, única oportunidade e caminho para a salvação.

Mas aconteceu o Concílio. Uma profunda reviravolta nas antigas concepções eclesiológicas que ainda hoje permanece mal assimilada. Na Lumem Gentium, a Igreja autodefine-se como Povo de Deus, o conjunto dos cristãos que aderiram ao Projeto de Deus, exercendo funções, ministérios e serviços, cada qual segundo o seu carisma e vocação, todos igualmente importantes, dotados de igual dignidade, com responsabilidades próprias na missão comum de anunciar e fazer presente o Reino de Deus, aqui e agora, "assim na terra como no céu".

O capítulo IV da Lumen Gentium define assim os leigos:

"Por leigos entendem-se todos os cristãos que não são membros da sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Baptismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no Mundo" (LG 31).

Assume-se, portanto, que a Missão é comum a todos e a todos diz respeito. E assume-se, sobretudo, esta coisa fantástica: pelo baptismo, cada cristão torna-se participante, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo. Parecem palavras sem grandes consequências práticas, mas nelas reside o fundamento para grande parte das mudanças, no que ao papel dos leigos diz respeito. Não esqueçamos que decorre daqui o tríplice múnus até então detido em exclusivo pelo clero: santificar, anunciar e governar. Agora, é reconhecida aos leigos uma participação nas dimensões pastoral, profética e de governo, na Igreja.
Naturalmente, isto não quer dizer que a todos sejam confiados, de forma indiferenciada, os mesmos ministérios e serviços. Mas as diferenças inserem-se na lógica da tal comunhão orgânica e não em termos de direitos ou de maior ou menor dignidade. De facto, o mesmo documento resume assim a relação entre leigos e hierarquia:

"Ainda que, por vontade de Cristo, alguns sejam constituídos doutores, dispensadores dos ministérios e pastores em favor dos demais, reina, porém, a igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à actuação, comum a todos os fiéis, em favor da edificação do Corpo de Cristo. A distinção que o Senhor estabeleceu entre os ministros sagrados e o restante Povo de Deus, contribui para a união, já que os pastores e demais fiéis estão ligados uns aos outros por uma vinculação comum: os pastores da Igreja, imitando o exemplo do Senhor, prestem serviço uns aos outros e aos fiéis; e estes dêem alegremente a sua colaboração aos pastores e doutores. Deste modo, todos testemunham, na variedade, a admirável unidade do Corpo Místico de Cristo" (LG 32).

A lógica que preside a esta concepção eclesiológica é a lógica do serviço. Seja qual for o ministério, função ou carisma, ele deve ser desempenhado numa atitude de serviço a todos os outros membros do corpo. Seja Papa, bispo, presbítero, diácono ou leigo, cada cristão é chamado ao serviço.
Convém esclarecer, qual é, na perspectiva conciliar, a natureza da vocação laical: "Por vocação própria, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus", diz-nos a Lumen Gentium, no nº 31. Isto quer dizer que os "leigos são especialmente chamados a tornarem a Igreja presente e activa naqueles locais e circunstâncias em que só por meio deles ela pode ser o sal da terra" (LG 31). Ou seja, o lugar próprio dos leigos, o seu "ministério" primeiro, poderiamos dizer, é serem "sal da terra" e "luz do mundo", testemunhando o Evangelho no seu trabalho, na sua família, nos âmbitos sociais, políticos, económicos e culturais em que se movem.
Isto não impede, de forma nenhuma, que os leigos possam ser "chamados, por diversos modos, a uma colaboração mais imediata no apostolado da hierarquia, (...) tendo ainda a capacidade de serem chamados a exercer certos cargos eclesiásticos, com finalidade espiritual", como nos diz a Lumen Gentium, no nº 33.
De uma forma ou de outra, todas as formas de participação se inserem numa dinâmica de serviço, na construção da Igreja-comunhão.
Com estes três artigos sobre o lugar dos leigos na eclesiologia de comunhão, pretendia fazer uma breve síntese sobre o actual entendimento do magistério sobre o que é a Igreja e a consequente concepção de laicado.
Se alguém teve paciência para ler tudo, certamente chegou à mesma conclusão que eu: a nível teórico não há grandes objecções a levantar. Infelizmente este é um dos males crónicos da Igreja: a uma sólida e coerente doutrina nem sempre corresponde uma praxis equivalente. Basta olhar para as nossas comunidades cristãs para percebermos que esta conversa toda se resume a isso mesmo: conversa. E repare-se que não estamos a falar de propostas nascidas na última trovoada; o Vaticano II foi há mais de 40 anos. Se calhar o problema é esse: já faz falta outro...

Manuel Vieira (NO ADRO)
Comments:
Parabéns pelo trabalho e pelo último parágrafo.
 
Para quê outro?
Para repetir aquilo que já está estabelecido nos documentos do Concilio Vaticano II ou de Paulo VI e João Paulo II?
Vale a pena ocupar milhares de bispos para repetirem a doutrina já elaborada?
Ou pretende um novo concilio como simples campanha de markting a determinadas posições doutrinais?
Os fieis para ocuparem determinados lugares têm de ter formação. Será que conseguem tempo para se formarem do ponto de vista religioso, actividade não lucrativa, na competitiva sociedade em que vivemos?

Cam
 
Mas quanto ao resto, excelentes posts.

Cam
 
MC,
Muito obrigado :)

Cam,
Essa é uma visäo imobilista das coisas em que näo me revejo. Quando começou o Vaticano II muitos faziam comentários semelhantes. As novidades superaram as expectativas da maioria.
O Espírito sopra quando menos se espera... E há questöes em que, se se criassem condiçöes para uma reflexäo profunda, talvez houvesse muitas novidades. Parece-me que que anda por aí muita opiniäo subterrânea que só näo vem à luz "porque näo vale a pena"...
Eu acho que vale.
 
Não será convocado um concilio para contornar a posição do Papa sobre a ordenação de mulheres, contracepção, ordenação de casados e outros assuntos sobre os quais "anda por aí muita opiniäo subterrânea".
Nem adiantaria de nada, o concilio não decide nada sem o Papa aprovar.

Cam
 
Olha, gostei do seu texto!
Talvez, nao sei, vc esteja falando de uma realidade europeia, onde a participaçao dos leigos deixa a desejar. Eu venho de uma realidade brasileira, onde graças a Deus, ao interesse de muitos bispos, padres e de todos os leigos (nao nos sentimos diminuidos por sermos leigos),temos uma grande participaçao na vida da Igreja, somos Igreja e participamos, somos uma Igreja viva. Espero q vc continue incentivando outras pessoas também a assumirem seu papel na Igreja, afinal todos fazemos parte do corpo mistico de Cristo. Obrigado pelo seu artigo, o COncilio Vaticano II é uma riqueza e precisa ser conhecido!
Rodrigo Luiz
 
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