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quarta-feira, março 22

 

A participação dos leigos numa Igreja Comunhão (II)

A concepção de Igreja como comunhão, assumida ainda de forma hesitante pelo Vaticano II, foi sendo aprofundada, desde então. Na Exortação Apostólica Christifideles Laici - Vocação e Missão dos Leigos na Igreja e no mundo - o Papa João Paulo II resumia-a assim:

" A comunhão dos cristãos tem por modelo, fonte e meta, a própria comunhão do Filho com o Pai, no dom do Espírito Santo: unidos no vínculo amoroso do Espírito, os cristãos estão unidos ao Pai" (CL 18).

O modelo da comunhão eclesial é, pois, a comunhão trinitária. É a partir da Trindade, como Deus único, mas constituído por três pessoas, distintas e complementares, que se entende a comunhão entre os membros da Igreja.
E como funciona esta Igreja comunhão? Partindo das palavras de S. Paulo, na sua Carta aos Coríntios, João Paulo II fala de uma " comunhão orgânica":

"A Comunhão eclesial apresenta-se como uma comunhão orgânica, análoga à de um corpo vivo e operante: ela, de facto, carateriza-se pela presença simultânea da diversidade e da complementaridade das vocações e condições de vida, dos ministérios, carismas e responsabilidades. Graças a essa diversidade e complementaridade, cada fiel leigo está em relação com todo o corpo e dá-lhe o seu próprio contributo" (CL 20)

Ao entrar no teceiro milénio, João Paulo II dirigiu-se a toda a Igreja, na sua Carta Apostólica "Novo Millenio Ineunte" - À entrada do Novo Milénio - para se interrogar sobre a renovação nascida do Vaticano II e sobre a necessidade de assumir, com novo impulso, a sua missão evangelizadora. Aí dizia claramente:

"Fazer da Igreja a casa e a escola da Comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milénio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo" (NMI 43)

A comunhão não é, portanto, uma opção possível entre várias, mas uma urgência de fidelidade aos desígnios de Deus. Não é uma modernice inventada agora, nem resulta de uma simples necessidade de adaptação às novas sensibilidades; ela faz parte da natureza mais profunda da Igreja. É caso para dizer que, no milénio que começa, ou a Igreja é comunhão, ou não é nada!
Aprofundando esta idéia, o João Paulo II chamava a atenção para um perigo: o desejo de mudar as estruturas, rejeitar modelos, inventar novas formas, métodos e iniciativas, numa linha de acção promotora da comunhão, sem antes amadurecer uma espiritualidade de comunhão. Segundo ele " seria errado deixar-se levar por tal impulso".

"Antes, é preciso promover uma espiritualidade de Comunhão, elevando-a ao nível de princípio educativo em todos os lugares onde se forma o homem e o cristão, onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os agentes pastorais, onde se constroem as famílias e as comunidades" (NMI 43)

Ou seja, a para a Igreja se fazer, de facto, comunhão, é necessário, antes de mais, cultivá-la como valor, ao nível da formação humana, intelectual, espiritual. Antes de querer concretizar comunhão, há que sentir e ser comunhão.
Para melhor percebermos o que é a espiritualidade de comunhão, João Paulo II enunciou quatro das suas características:

"Espiritualidade da comunhão significa, em primeiro lugar, ter os olhos do coração voltados para o mistério da Trindade" (NMI 43)

Já o tinhamos dito: o modelo e a fonte da comunhão é a Trindade, a relação de amor que flui entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A segunda característica decorre desta:

"Espiritualidade da comunhão significa também a capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo Místico, isto é, como um que faz parte de mim, para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para lhe oferecer uma profunda e verdadeira amizade" (NMI 43)

A comunhão nunca nos isola do outro, nunca nos separa dos homens, como se fosse apenas entre mim e Deus. Essa comunhão com o divino só existe quando se expressa e se vive na comunhão com o outro, que é Deus vivo diante de mim, corpo do Corpo, um comigo. Isto leva à terceira característica:

"Espiritualidade da comunhão é ainda a capacidade de ver, antes de mais nada, o que há de positivo no outro, para o acolher e valorizar como dom de Deus: um dom para mim, como o é para o irmão que directamente o recebeu" (NMI 43)

O outro não é quem eu tenho de suportar por caridade, para obter a salvação. É dom de Deus para mim. Acolhê-lo não é uma obra de caridade, mas alguma coisa pela qual eu devo agradecer. Por último, diz João Paulo II:

"Por fim, espiritualidade da comunhão é saber criar espaço para o irmão, levando 'os fardos uns dos outros' (Gal 6, 2) e rejeitando as tentações egoístas que sempre nos ameaçam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes" (NMI 43).

É este caminho espiritual que é necessário fazer para que a comunhão exista realmente. De pouco servirão os instrumentos exteriores de comunhão, se não forem precedidos deste "entranhamento" da comunhão nos corações dos homens. Esses instrumentos revelar-se-iam como estruturas sem alma, máscaras de comunhão, e nada mais.
Mas também não se pode ficar por aqui! Depois disto, é urgente o empenhamento na valorização e desenvolvimento dos sectores e instrumentos que servem para assegurar e garantir a comunhão.
João Paulo II começava por, como era inevitável, apresentar como dois serviços específicos de comunhão o Ministério Petrino e a Colegialidade Episcopal, ou seja, Papa e Bispos. Continua falando dos presbíteros e dos diáconos. Sempre numa perspectiva de serviço à comunhão. Ainda assim, é preciso dizê-lo, os ministérios ordenados continuam a ter um relevo destacado nesta eclesiologia de comunhão. Mas o que importa notar, é que a relação entre todos os membros da Igreja se alterou substancialmente. Já não temos uma Igreja dividida em duas, Clero e Leigos, mas uma Igreja que funciona como um corpo: cada membro com funções diferentes, mas todos iguais em dignidade e todos a trabalhar em função de um objectivo comum.

(Continua)
Manuel Vieira (NO ADRO)
Comments:
Gostei. Parece-me que esta espiritualidade de comunhão devia entrar nas nossas catequeses e formações.

É curioso que, se partirmos desta espiritualidade, as consequências na nossa vida serão imensas, sem termos que pôr a ética à frente. O cristianismo devia conduzir a uma vida exigente, mas onde a ética fosse a consequência do amor e não a exigência à priori.
 
Ao comentário anterior, de CA, parece-me que subjaz uma legítima interpretação do texto.Ele, o comentário, é uma vocação Protestante. O texto, como ainda "continua", aguardará por verificação. Mas uma coisa pedia-lhe que esclarecesse: o que quer dizer Trindade?
 
...
 
CA,
Agora só falta tornar isto realidade... :)

Caro Bruno,
Desculpe, mas acho que näo percebo o seu post...
 
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