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quarta-feira, março 15

 

A participação dos leigos numa Igreja Comunhão (I)

Um dos temas que, de vez em quando, aparece no debate da blogosfera católica prende-se com o papel e o lugar dos leigos na Igreja. Com este texto, dividido em três partes, a publicar sucessivamente aqui na Terra da Alegria, pretendo apenas fazer uma breve síntese sobre sobre a actual concepção do Magistério sobre o tema. Não pretendo, portanto, dizere nada de novo. Apenas situar o tema.Para entender a participação dos leigos na vida da Igreja importa, antes de mais, compreender o que se entende por leigos e por comunhão.O que é isso de Igreja-Comunhão?Não é nada de novo, naturalmente. Já estava tudo previsto e devidamente esclarecido na mensagem deixada por Jesus Cristo. Acontece que, na Igreja, se passa o mesmo que noutros âmbitos da História dos homens: o tempo vai acrescentando coisas, interpretando e reinventando, até que as idéias originais ficam soterradas debaixo das camadas de pó que os séculos vão deixando... Foi o que aconteceu ao entendimento da Igreja como COMUNHÃO.Para termos disto uma idéia, não resisto a citar um parágrafo da Encíclica "Vehementer", de Pio X, publicada há precisamente um século, em 1906:

"A Igreja é, por essência, uma sociedade desigual, ou seja, que compreende duas categorias de pessoas: os pastores e o rebanho; os que ocupam um posto nos diferentes graus da hierarquia e a multidão dos fiéis. E estas categorias são de tal modo distintas uma da outra que só no corpo pastoral (ou seja, a hierarquia) reside o direito e a autoridade necessárias à promoção e direcção de todos os membros para o fim da sociedade. Quanto à multidão, não tem outro direito senão o de se deixar conduzir e, qual rebanho manso, seguir os seus pastores". ( Pio X, Vehementer, 1906)

A Igreja dividia-se, portanto, em ensinadores e ensinados, em celebrantes e assistentes (e quando digo assistentes não quero dizer participantes...), em governantes e submissos; por outras palavras, em clérigos e leigos. Embora a Igreja abarcasse todos os baptizados, na prática instituiu-se uma separação clara entre clero e leigos. O clero tinha o poder de governar, de anunciar e de santificar, enquanto os leigos tinham a obrigação, e sublinho obrigação, de ser governados, de receberem o anúncio e de se santificarem, pelo cumprimento escrupuloso das directivas eclesiásticas. Eram portanto duas as Igrejas: para um lado os eleitos para a dignidade dos ministérios e, para outro, a massa anónima dos fiéis que, quando muito podiam ser chamados a servir os ministros nas suas necessidades.
Não é que o conceito de comunhão não existisse. A santidade, objectivo de todos os cristãos, sempre se entendeu como a comunhão com Deus. Mas esta comunhão, quando muito, era vertical, entre o homem e Deus. A idéia de comunhão horizontal, entre os homens, como expressão viva da comunhão com Deus e a igual dignidade de todos estava muito esquecida.
A idéia de Igreja subjacente a isto era a de uma Sociedade, hierarquizada, onde o poder escorria directamente de Deus para o topo da pirâmide.
A História ajuda a perceber como se chegou a esta concepção eclesial: foi no séc. XI, para marcar as distâncias em relação aos poderes políticos da época, que a Igreja se meteu por esta via, com dolorosas consequências que se estenderam por nove séculos.
Foi preciso o Concílio Vaticano II para lançar mãos à obra, limpar o pó e as teias de aranha, para se voltar a descobrir o brilho dos conceitos evangélicos. Não se inventou uma nova Igreja; apenas se redescobriu a beleza original da Igreja Fundada por Jesus Cristo.
A eclesiologia de comunhão é uma das idéias centrais e fundamentais do Concílio. Aí se assumiram as evidências maiores do Projecto de Deus na Revelação Bíblica: o Cristocentrismo Trinitário, a centralidade do Reino de Deus, com a abertura e o serviço a todas as causas pela vida e pela justiça no mundo humano, a igual dignidade de todos os membros da família humana, a igualdade básica de todos os baptizados.
A Constituição Dogmática "Lumen Gentium" (ou Luz dos Povos), é o documento conciliar que nos fala da Igreja.Logo no primeiro capítulo, é-nos dito que "a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano".
Mas é no segundo capítulo do documento que a idéia de comunhão é explicitada, ao apresentar a Igreja como Povo de Deus: "Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em Povo que o conhecesse na verdade e o servisse santamente" (LG 9).
E que Povo é este? Diz-nos a Lumen Gentium: "É condição deste Povo a dignidade e a liberdade dos Filhos de Deus, em cujos corações o Espírito Santo habita, como num templo. A sua lei é o novo mandamento, o de amar assim como o próprio Cristo amou. Por último, tem por fim o Reino de Deus". Este Povo, continua a Lumem Gentium, foi "estabelecido por Cristo como comunhão de vida, de caridade e de verdade" (LG 9).
Ou seja: o mistério da Igreja concretiza-se num Povo de Deus que é o Corpo de Cristo, habitado pelo Espírito, vínculo de comunhão de todos os membros, que são fundamentalmente iguais, embora cumpram diversidade de serviços, com variedade de formas de vida e carismas que enriquecem a comunhão e a unidade ao serviço do Reino, na Igreja e em toda a humanidade. A constituição primária da Igreja é a nossa condição básica de crentes baptizados em Cristo, pelo Espírito.
(continua)

Manuel Vieira (NO ADRO)

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