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quarta-feira, março 1

 

O silêncio como forma de expressão do amor?

O ponto 38 da primeira Encíclica do Papa Bento XVI oferece-me algumas dúvidas. Passo a transcrevê-lo para depois expor sumariamente as minhas interrogações.


"É certo que Job pôde lamentar-se com Deus pelo sofrimento, incompreensível e aparentemente injustificado, presente no mundo. Assim se exprime ele na sua dor: «Oh! Se pudesse encontrá-Lo e chegar até ao seu próprio trono! (...) Saberia o que Ele iria responder-me e ouviria o que Ele teria para me dizer. Oporia Ele contra mim o seu grande poder? (...) Por isso, a sua presença me atemoriza; contemplo-O e tremo diante d'Ele. Deus enervou o meu coração, o Omnipotente encheu-me de terror» (23, 3.5-6. 15-16). Muitas vezes não nos é concedido saber o motivo pelo qual Deus retém o seu braço, em vez de intervir. Aliás Ele não nos impede sequer de gritar, como Jesus na cruz: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste? » (Mt 27, 46). Num diálogo orante, havemos de lançar-Lhe em rosto esta pergunta: « Até quando esperarás, Senhor, Tu que és santo e verdadeiro?» (Ap 6, 10). Santo Agostinho dá a este nosso sofrimento a resposta da fé: «Si comprehendis, non est Deus – se O compreendesses, não seria Deus». O nosso protesto não quer desafiar a Deus, nem insinuar n'Ele a presença de erro, fraqueza ou indiferença. Para o crente, não é possível pensar que Ele seja impotente, ou então que «esteja a dormir» (cf. 1 Re 18, 27). Antes, a verdade é que até mesmo o nosso clamor constitui, como na boca de Jesus na cruz, o modo extremo e mais profundo de afirmar a nossa fé no seu poder soberano. Na realidade, os cristãos continuam a crer, não obstante todas as incompreensões e confusões do mundo circunstante, «na bondade de Deus e no seu amor pelos homens» (Tt 3, 4). Apesar de estarem imersos como os outros homens na complexidade dramática das vicissitudes da história, eles permanecem inabaláveis na certeza de que Deus é Pai e nos ama, ainda que o seu silêncio seja incompreensível para nós."

O problema do sofrimento aparentemente injustificado existe e, pessoalmente, penso que nada pode legitimá-lo. O facto de ele parecer ser incompreensível não é uma razão para que eu não faça (ou não tente fazer) uso da razão que Deus me concedeu. Ora essa razão diz-me que o conceito de omnipotência tal como ele é compreendido pelos humanos é logicamente impossível (o exemplo clássico que é dado é o facto de Deus ser incapaz de criar uma pedra que Ele próprio não consiga levantar).

Dificilmente é compatível com a ideia de um Deus que é Amor a ideia de um Deus omnipotente que criou também o sofrimento. Porque existe sofrimento totalmente injustificado: de entre vários exemplos, basta citar certas doenças infantis que conduzem necessariamente à morte no meio do maior sofrimento.

Um Deus incompreensível no seu comportamento com os homens é o "Deus" dos ateus.

Nem concordo com a mistura entre erro, fraqueza e indiferença no quadro dos atributos que não são inerentes a Deus. Se não acredito que Deus erre, e muito menos que seja indiferente, já associo a fraqueza (ou certos tipos de fraqueza) a uma virtude e não a um defeito. Acreditaria mais facilmente num Deus omni(m)potente que num Deus omnipotente.

Já estou sim inteiramente de acordo com o Papa quando diz que "os cristãos continuam a crer, não obstante todas as incompreensões e confusões do mundo circunstante, «na bondade de Deus e no seu amor pelos homens»".

Mas a última frase deste ponto é enigmática. Diz o Papa que, os cristãos "apesar de estarem imersos como os outros homens na complexidade dramática das vicissitudes da história, eles permanecem inabaláveis na certeza de que Deus é Pai e nos ama, ainda que o seu silêncio seja incompreensível para nós." Ainda que.


Timshel (TIMSHEL)

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