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quarta-feira, março 1

 

O Amor gratuito

Também li a encíclica. Se fosse católico, seguramente teria-a lido de forma diferente, a procura de orientação, de acordo com o seu propósito declarado. Não o sendo, tenho consciência que ela não se me dirige. Mas li-a por curiosidade sobre o novo Papa, de como o antigo Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, se exprime agora no seu novo cargo. E como tantos, fiquei agradavelmente surpreendido, o novo Papa soube despir o papel anterior, e em vez de controlar, chamar à disciplina e de excluir, produziu com esta encíclica um documento que visa o contrário, a abertura e a inclusão. O que saúdo muito.

Revejo-me na sua mensagem central: É porque Deus me ama, posso e devo construir uma relação amante para com o mundo.
Apesar de não me ver capaz de afirmar o quer que seja sobre Deus, não me é estranho o Seu amor. Não sei nada nem imagino como se possa saber mais acerca Dele, mas o Seu amor é uma evidência que me calhou, como calha àlguns por sorte, à nascença e foi reforçada pela experiência da vida.

Sem querer negar a legitimidade do autor de escolher o tema e de colocar a énfase nuns aspectos em detrimento de outros, estranhei todavia como a encíclica criteriosamente contorna um aspecto central da doutrina cristã, quase o fazendo esqueçer por completo. Se não fosse indício inignorável a reiteração da necessidade da purificação do amor, em si nada surpreendente no discurso dum Pontifice, mas neste caso estranhamente mal sustentada por uma elaboração antropológica apresentada no texto, essa omissão podia mesmo ter passado despercebido. Conclui o Papa da experiência desumanizante do eros nos ritos de fertilidade, da “prostituição” das respectivas sacerdotizas pela geral ausência de um eros que visa o ser humano enquanto indivíduo nas culturas não bíblicas, em contraste com a sua presença como padrão nas culturas do Livro, para evocar o grande (se)não que a Igreja afecta ao eros. O apresentado não é muito convincente. Lembro só que as hetairas, as prostitutas oficiais na cultura e religião grega, foram entre todas as mulheres as mais respeitadas, livres e influentes, ou seja, mais humanas e pessoas completas. Muito longe da imagem da escrava sexual que é aqui é apresentada. E se eventualmente admito que elas e o seu estatuto sozinho não são contraprova bastante da afirmação de que o eros nem sempre se fez acompanhar da dignidade individual, é incontornável a verdade de que a instrumentalização do eros para fins alheios ao indivíduo foi traço comum de todas as culturas desta época e não só, tanto da grega como da bíblica. Como ao contrário acho, embora admitindo-me aqui sem perícia nestas matérias, que o “amor puro” para com um indivíduo não foi uma invenção da cultura de Moises, mas muito mais velho.

De onde vem então essa sujidade de que o homem tem de limpar-se? Para que essa necessária purificação? Bom, como (ex-)cristão que se lembra dos ensinamentos mais elementares da catequese, esta resposta é mais do que óbvia: Pois advem do pecado original!
Diz o Papa que o Amor que Deus tem para nós é uma “oferta misteriosa e gratuita”. Compreendo esta ideia, que se constroi em torno do espanto e da gratidão de estar vivo - e não a sofrer. Esta sensação que se assemelha à confiança e gratidão da criança que se sabe amado pelos pais, é o fundamento também da minha religiosidade. E é esta gratidão que faz nascer em mim a vontade de retribuir a Graça recebida, faz nascer o desejo de ser boa pessoa. Mas quererá o Papa dizer que nascemos no estado da Graça? O que aprendi na igreja, diz muito o contrário! Pode ser que como envangélico isso me foi ensinado com mais énfase, mas quanto sei, o pecado original é um conceito universal do critianismo. Dou de barato que ele não foi abandonado pelo Papa Bento XVI, mesmo que nesta encíclica não a refere uma única vez, num contexto que para isso convidava.

Eu, que não sou cristão, acho muito bem não focar-se no pecado original, num conceito que já fez muito mal, embora que é de levar muito a sério, como representação duma verdade humana sentida como elementar. Pois o estar perdido, sem remédio e incapaz de se elevar por esforço próprio é uma experiência tão elementar como o estado de Graça da criança que se sabe amada, e infelizmente muito mais frequente. E esta experiência é a outra porta para o sentimento religioso. Ao lado do espanto e da gratidão nas nossas horas claras, há o desejo desesperado de redenção, de salvação nas nossas horas mais negras. Que nós leva a supor que ela existe. Achar necessário que ela existe. E que nos leva a procurar caminhos para alcançá-la. Estes caminhos são diferentes para os católicos e os evangélicos. Como se sabe, para os evangélicos só há a Fé, e mesmo ela não pode nada, sem a Sua Graça. O católico pode e deve fazer algo mais.

Aqui então senti uma lacuna, uma omissão na encíclica. Se realmente o Amor é uma oferta gratuita de Deus, eu posso ser levado a querer de retribuir, e amá-lo a Ele e o meu próximo. Mas farei-o de livre vontade, sem obrigação.
Mas sabemos, e o Papa deixa entendê-lo na encíclica, que na doutrina da Igreja isto não é o caso. Tenho o dever de amar Deus e o meu próximo. E isto é uma diferença de fundo. Pois o Amor assim deixa de ser oferta e gratuito. É condicionado. Exige contrapartidas. É um Trade-off. Não há almoços grátis.
Mas devia haver.

“Recentemente pensei sobre se devia aceitar ou desejar algo de Deus: Irei ponderá-lo muito bem, pois onde passava a ser quem recebe de Deus, ficaria abaixo Dele como o seu criado ou servo; e Ele seria um Senhor através do seu dar; e assim as coisas não deviam estar entre nós no reino do céu.”
Meister Eckhart


Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)
Comments:
Lutz

Dizes:

"Aqui então senti uma lacuna, uma omissão na encíclica. Se realmente o Amor é uma oferta gratuita de Deus, eu posso ser levado a querer de retribuir, e amá-lo a Ele e o meu próximo. Mas farei-o de livre vontade, sem obrigação.
Mas sabemos, e o Papa deixa entendê-lo na encíclica, que na doutrina da Igreja isto não é o caso. Tenho o dever de amar Deus e o meu próximo. E isto é uma diferença de fundo. Pois o Amor assim deixa de ser oferta e gratuito. É condicionado. Exige contrapartidas. É um Trade-off. Não há almoços grátis.
Mas devia haver."

A liberdade de adesão a Cristo é um valor fundamental para toda a Igreja Católica (e, penso eu, nomeadamente para este Papa). Dizer que "tenho o dever de" é simplesmente dizer que existe o Bem e existe o Mal e que não é indiferente escolher um ou o outro (senão seria o relativismo mais puro). Mas a escolha é apenas do domínio da consciência de cada um de nós. "Tu podes" é um "tu deves mas não és obrigado a fazer".

Julgo que existem numerosos exemplos na doutrina cristã (e mesmo na encíclica) do que acabei de dizer mas por agora não tenho tempo para mais. Espero voltar a este tema (idem - falta de tempo - para a questão do pecado original, questão que também me suscita algumas dúvidas).
 
Por isso acredito (e esta é talvez a minha mais profunda crença na fé cristã) que o Amor é oferta e é gratuito. Não é condicionado. Não exige contrapartidas. Não é um Trade-off.

A grande mensagem de Cristo é precisamente:

HÁ ALMOçOS GRÁTIS.

E a parábola da multiplicação dos bens que são (re?)distribuídos é apenas mais um exemplo particularmente emblemático.
 
corrigendum:

(talvez um acto falhado freudiano)

onde está escrito "bens" no anterior comentário, deve-se ler (?) "pães"
 
Lutz,
Pelo que conheço de Eckhart (pouco mais do que o «Sobre o desprendimento») não me parece ser ele o mais indicado para esplanar o Amor humano como imagem do Amor de Deus. Eckhart, na sua procura de Deus, segue outros caminhos. Um exemplo: «Enalteço o desprendimento acima de toda a misericórdia, uma vezue esta nada mais é do que o homem saír de si mesmo para se dirigir às misérias de seus semelhantes, o que acaba entristecendo-o. O desprendimento está livre disso permanecendo em si mesmo e não sedeixando entristecer.(...)Examinando todas as virtudes não encontro nenhuma que seja tão sem mácula e que una tanto a Deus quanto o desprendimento.»
Sinceramente não encontro aqui senão algo que me é familiar: o tremendo orgulho do asceta. O Amor de Deus em nós tal como Cristo nos ensinou é muito superior a isto. Acho eu.
 
uma vezue não: uma vez que
 
Timshel:
Também sou, não te surpreenderá, acerrimo defensor dos almoços grátis.
Mas também acredito que o amor recebido não faz sentido se não me leva a amar. Até diria: O amor recebido leva-me obrigatóriamente a amar. Nota que o obrigatóriamente refere-se mais a uma esp+ecie de lei da natureza. (Lei que aliás já não acho tão universal como achava quando era mais novo. Mas não entendo que se pode revogá-lo.)
No fundo, a questão de que vem primeiro, o amor que recebo ou o amor que dou, é um pouco como a da galinha e do ovo, e quase poderiamos achá-la fútil, se não houvesse essa pequena nuance que acaba de ser tão importante!
Sabemos que o amor que damos é recompensa em sí, ou seja, é nos devolvido mesmo por vezes não por quem amamos, mas então por Deus. Já estou outra vez a falar Dele que não existe! Mas as vezes preciso de referí-lo para me fazer entender....
A nuance. A nuance importante é que todo o amor só é credível se é mesmo grátis, e uma boa parte de falta de crédito da Igreja é a demasiado visível expectativa de que o ofertado com o amor se mostra grato, ou obrigado (obliged). Não quero faltar a justiça a muitos dentro da Igreja que praticam genuinamente o Amor generoso, mas a falta de confiança de muitos para com a Igreja tem efectivamente a sua origem num sentimento de que "ela quer algo de mim em troca".
Não é um problema dos evangelhos. É evidente que Jesus ama sem reclamar gratidão. O que o distingue aliás, muito pela positiva, do seu pai.
 
José:
Bem visto! O Meister Eckhart é mais do que uma referência do Amor uma referência da Liberdade, é não escondo que é isto que me tanto atrai nele! Acredito, no entanto, que essas duas coisas andam ligado, e que a liberdade é uma excelente condição em que se pode amar...

O "orgulho do asceta". Hmm. Percebo que ele passa essa ideia. Disseste orgulho em lugar de soberba? Contudo, estou do seu lado. Não vejo nenhuma entidade, seguramente não uma instituição social como a Igreja, a que reconheço autoridade sobre a sua religiosidade. Foi este o seu escândalo aliás, que custou-lhe a paz do fim da sua vida.
 
Lutz

Julgo que a problemática que o José levantou vem dar alguma luz também ao nosso problema.

Acho que é sobretudo um problema de moods (e subsequentes preconceitos). Onde vês obrigações eu vejo possibilidades. A liberdade só faz sentido se encerrar a possibilidade do Bem. Mas ninguém nasce ensinado. Dizer a alguém que deve praticar o bem (como faz a igreja) não me parece ser nenhuma espécie de autoritarismo serôdio. Julgo que grande parte de interpretações incorrectas da postura da Igreja resultam de uma espécie de sentimento de exacerbado e emocional anti-autoritarismo. Se calhar a Igreja tem (ou teve) culpas no cartório por esse sentimento de revoltado anti-autoritarismo. Mas, repito, a liberdade enquanto simples exercício de individualismo sem ter nada que ver com o meu irmão é a liberdade de escolha do mal. E admito (e acho recomendável) que a Igreja diga que não devemos exercer a liberdade nesse sentido. A Igreja não se quer substituir à nossa liberdade. Eu pelo menos não lho permito (e felizmente que cada vez vejo menos membros da Igreja a quererem-se substituir à minha liberdade). A Igreja recomenda caminhos; não os impõe.

Um outro problema é o da retribuição do amor de Deus. Deus é transcendente. A retribuição do seu amor não é um mecanismo de troca idêntico ao existente entre os humanos. A retribuição do amor de Deus é o nosso amor grátis (parece contraditório mas não penso que o seja).
 
Blog interessante, voltarei para ler com mais calma!
 
Olá! Estou divulgando o meu blog : http://ilustrada-ppg.blogspot.com/ e meu site: http://www.ilustrada.ppg.br/ Ajude a divulgar a arte! Desde já agradeço! Conto com o seu apoio! Abraços !
 
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