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quarta-feira, março 29

 

Jesus, esse cagão

Esta tarde, nas urgências do Centro de Saúde do Barreiro, enquanto esperava pela minha vez para inventar uma caganeira com que sacasse ao médico uma justificação de falta para apresentar no trabalho (ontem fui copomemorar a passagem do Porto à final da Taça de Portugal), li o seguinte parágrafo de «A Busca Intermitente», do Eugène Ionesco:

«Toda e qualquer criança (depois o adulto habitua-se) pôde pensar que o papá e a mamã cagavam; que os professores cagavam; que os amigos dos pais também cagavam, todos os dias; e, não sendo todos os dias, era pior, era a horrível, a pavorosa, a angustiante prisão de ventre; que os santos cagavam; que até o próprio Jesus Cristo…»

Cagava, não acrescentou o velhadas do Ionesco, sentindo a morte à perna, não fosse o Diabo tecer-lhe um lugar na sua teia: o Inferno.

O Jesus Cristo cagava. E se cagava, também comia. Porque quem caga, caga o que come. E se come é porque tem fome. (O contrário, quem tem fome é porque come, é que nem sempre é verdade. Cf. Cesariny, Avenida Almirante Reis).

Que o Jesus Cristo cagava, é um facto que deve provocar indigestões, náuseas, cólicas, vómitos, diarreias mesmo, a quem gosta de o pintar como um outro ser que não seja um ser humano.

Quando o Jesus Cristo falava num outro reino, reportava-se ao reino clandestino, das emoções e das paixões; esse reino localizado no nosso interior, de que andamos distraídos com merdas mundanas e a que regressamos quando respondemos afirmativamente a apelos, chamamentos do nosso íntimo; a esse modo de viver, ou de não viver, a que o Bocage chamou de evaporação e o Santo Agostinho de exílio.

Mas regressemos às expressões populares. A boca do povo costuma dizer: «quem tem cu tem medo.»

Assim sendo, o Jesus Cristo tinha medo. Mas o medo, ou ter medo, não é uma experiência exclusiva dos medricas. (Estes, aliás, tendem a afastar-se dos possíveis lugares onde fantasmas e espectros habitam).

Mas há medos e medos. Existe o medo do desconhecido, do escuro (e dentro do escuro, há os que têm medo do próprio escuro ou do que no escuro se esconde), da morte. Essa experiência pode ser um fascínio, uma autêntica obsessão. E resultar em vivências poéticas, místicas. As ciências, a filosofia, todas as escolas ao serviço do conhecimento (embora as escolas, as propriamente ditas, não estarem propriamente a incitar os alunos a procurar conhecimento) evoluem na medida em que se expõem ao risco de olhar nos olhos o desconhecido, de enfrentar o medo cara à cara.

Mas há também o medo imposto pelo respeito, pela deferência elevada à opressão. Não se trata duma sensação de cortar a respiração; antes de amordaçar a garganta. Foi para que o Jesus e os seus contemporâneos não se borrassem mais de medo que ele enfrentou o poder instituído.

Por isso, caríssimos Ionescos, não tenham pudor em ejacular com a vossa caneta que o Jesus Cristo cagava. Outro ponto de vista que não este só pode ser o ponto de vista de olho do cu.


Vitor Vicente (CANTO ESCURO)
Comments:
Alô Vítor Vicente.

Boa malha.

Se assim não fosse, o Deus da verdade teria fingido ser humano (curioso conceito, não é?;) já o li esparramado em diversos livros nihil obstat).

Se assim não fosse, não haveria comunhão entre a malta e Deus.

Se assim não fosse, estávamos abandonados na assustada finitude.

Se assim não fosse, a encarnação seria uma falácia, e estaríamos enfiados – num meio buraco!


Abraço.
 
«Nem mais»; ou sem mácula, Vitor.

um abraço.
 
És bom em Teologia,temos merda!
 
Caro Anónimo.

Que merda?... A de sempre ou outra?... E qual dos vítores (eh eh eh) é bom em teologia? Por mim e desde já rechaço veementemente tal autoridade e responsabilidade! Irra, é que senão… dá merda ;) Que raio, nesta sociedade de técnicos e sabedores, já não pode um quixote dizer nada que o encarteiram logo… (A autoria e (i)responsabilidade de pretender ver em simultâneo moinhos e gigantes na mesma coisa, é evidentemente deste Vítor…:)

Abraços sanchopensados!
 
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