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quarta-feira, março 22

 

Anjos sem demónios

«– Aos Illuminati – disse ele, a voz mais grave – e aos homens de ciência, deixem que lhes diga uma coisa – e fez uma pausa. – Vocês ganharam a guerra.
O silêncio espalhara-se agora pelos recônditos mais profundos da capela. Mortati ouvia a batida desesperada do seu próprio coração.
As engrenagens estão em movimento há muito tempo – disse o camerlengo. – A sua vitória foi inevitável. Nunca antes isto ficou tão evidente quanto neste momento. A ciência é o novo Deus.
O que ele está dizendo!, pensou Mortati. Será que enlouqueceu? O mundo inteiro está escutando isso!

Medicina, comunicações eletrónicas, viagens espaciais, manipulação genética, são estes os milagres sobre os quais agora falamos às nossas crianças. São estes os milagres que alardeamos como prova de que a ciência nos trará as respostas. As histórias antigas de concepções imaculadas e mares que se abrem são agora irrelevantes. Deus tornou-Se obsoleto. A ciência venceu a batalha. Nós rendemo-nos. – Um rumor de confusão e perplexidade agitou a capela.
Mas a vitória da ciência – acrescentou o camerlengo, com a voz mais intensa – custou-nos caro. Custou muito caro para cada um de nós.
Silêncio.

A ciência pode ter aliviado os sofrimentos das doenças e dos trabalhos enfadonhos e fatigantes, pode ter proporcionado uma série de aparelhos engenhosos para nossa conveniência e distração, mas deixou-nos num mundo sem deslumbramento. Os nossos crepúsculos foram reduzidos a comprimentos de ondas e frequências. As complexidades do universo foram desmembradas em equações matemáticas. Até o nosso amor-próprio de seres humanos foi destruído. A ciência proclama que o planeta Terra e seus habitantes são um cisco insignificante no grande plano. Um acidente cósmico – e aqui o camerlengo fez uma pausa. – Até a tecnologia que nos promete unir, pelo contrário, só nos divide. Cada um de nós está hoje eletronicamente ligado ao globo inteiro e, entretanto, todos nos sentimos sós. Somos bombardeados pela violência, pela divisão, pela desintegração e pela traição. O cepticismo passou a ser uma virtude. O cinismo e a exigência de provas para tudo converteram-se em pensamento esclarecido. Alguém ainda se admira que as pessoas hoje se sintam mais deprimidas e derrotadas do que em qualquer outra ocasião da história do homem? Será que existe alguma coisa que a ciência considere sagrada? A ciência procura respostas usando fetos não-nascidos como material de pesquisa. A ciência até se atreve a reorganizar nosso DNA. Despedaça o mundo de Deus em parcelas cada vez menores em busca de significados e só encontra mais perguntas.

Mortati assistia a tudo cheio de assombro. O camerlengo falava de modo quase hipnótico agora. Possuía um vigor físico nos movimentos e na voz que Mortati jamais presenciara em um altar do Vaticano. As suas palavras saíam impregnadas de convicção e de tristeza.
A velha guerra entre a ciência e a religião está encerrada – disse o camerlengo. – Vocês venceram. Mas não venceram honestamente. Não venceram fornecendo respostas. Venceram redirecionando nossa sociedade de um modo tão radical que as verdades que outrora víamos como diretrizes agora parecem inaplicáveis. A religião não tem capacidade para acompanhar isto. O crescimento científico é exponencial. Alimenta-se de si mesmo como um vírus. Cada novo avanço abre caminho para outros novos avanços. A humanidade levou milhares de anos para evoluir da roda para o carro. E apenas décadas do carro para o espaço. Actualmente, calculamos por semana o progresso científico. Estamos girando fora de controle. O abismo entre nós aprofunda-se sem parar e, à medida que a religião vai ficando para trás, as pessoas vêem-se num vazio espiritual. Imploramos pelo sentido das coisas. E, acreditem, imploramos de facto. Vemos OVNIS, frequentamos médiuns, procuramos contacto com os espíritos, experiências extracorpóreas, uso do poder mental – todas essas idéias excêntricas têm um verniz científico, mas são descaradamente irracionais. São o grito desesperado da alma moderna, solitária e atormentada, deformada pelo seu próprio esclarecimento e pela sua incapacidade de aceitar que haja sentido em qualquer coisa que seja estranha à tecnologia.
(...)
O tom do camerlengo ficou mais veemente.
– A ciência, dizem vocês, vai salvar-nos. A ciência, digo eu, destruiu-nos. Desde o tempo de Galileu que a Igreja vem tentando diminuir o ritmo da marcha implacável da ciência, às vezes por meios equívocos, mas sempre com intenções benéficas. Ainda assim, as tentações são grandes demais para o homem resistir. Previno-os, olhem em torno de si. As promessas da ciência não foram mantidas. As promessas de eficiência e simplicidade resultaram apenas em poluição e caos. Somos uma espécie despedaçada e frenética, seguindo um caminho que leva à destruição.

O camerlengo fez uma pausa prolongada e então olhou para a câmara com uma expressão penetrante.
– Quem é esse deus-ciência? Quem é esse deus que oferece poder a seu povo, mas nenhuma estrutura moral para lhe dizer como usar este poder? Que tipo de deus dá fogo a uma criança, mas não a avisa sobre seus perigos? A linguagem da ciência não vem com diretrizes sobre o bem e o mal. Os livros científicos explicam-nos como criar uma reação nuclear, mas não têm nenhum capítulo discutindo se é uma boa ou má idéia.

– À ciência, quero dizer o seguinte: a Igreja está cansada. Estamos exaustos de tanto tentar ser uma diretriz para o mundo. Os nossos recursos estão esgotados por sermos a voz do equilíbrio enquanto vocês se atiram de cabeça na vossa busca por chips menores e lucros maiores. Nem perguntamos por que vocês não se controlam, pois como poderiam? O vosso mundo anda tão depressa que, se pararem por um instante que seja para reflectir sobre as implicações dos seus actos, alguém mais eficiente pode ultrapassá-los num piscar de olhos. Por isso, vocês vão em frente. Promovem o aumento das armas de destruição em massa, mas é o Papa quem tem de viajar pelo mundo suplicando aos líderes que tenham prudência. Clonam criaturas vivas, mas é a Igreja que tem de lembrar a necessidade de considerarmos as implicações morais de nossos actos. Incentivam as pessoas a interagir através de telefones, telas de vídeo e computadores, mas é a Igreja que abre suas portas e nos lembra de comungar aqui, no mundo real, que é como se deve fazer. Vocês até matam bebés que ainda não nasceram em nome de pesquisas que salvarão vidas. Mais uma vez, cabe à Igreja comprovar a falácia de tal raciocínio.

– E, constantemente, vocês proclamam que a Igreja é ignorante. Quem é mais ignorante, porém? O homem que não sabe definir o raio que cai durante um temporal ou o que não respeita seu poder admirável? Esta Igreja está tentando chegar a vocês. Está tentando chegar a todas as pessoas. E, todavia, quanto mais tentamos, mais vocês nos repelem. Mostrem-nos uma prova da existência de Deus, dizem vocês. E eu respondo, usem seus telescópios para olhar o céu e me digam como é possível não haver um Deus! – O camerlengo tinha lágrimas nos olhos. – Vocês perguntam com que se parece Deus, e eu, por minha vez, pergunto também: de onde vem essa pergunta? A resposta é uma só, a resposta é a mesma. Não vêem Deus em sua ciência? Como podem deixar de vê-Lo! Vocês proclamam que a menor alteração na força da gravidade ou no peso de um átomo teria convertido o nosso universo numa névoa sem vida em vez do magnífico mar de corpos celestes que contemplamos, e ainda assim deixam de ver a mão de Deus nisso? Será que é mesmo tão mais fácil acreditar que escolhemos a carta certa num baralho em que há biliões delas? Será que estamos tão falidos espiritualmente que preferimos acreditar numa impossibilidade matemática e não em um poder maior do que nós?

– Se vocês acreditam em Deus ou não – disse o camerlengo, a voz mais grave e carregada de deliberação –, têm de acreditar nisto: quando nós, como espécie, abandonamos a confiança num poder maior do que nós, abandonamos também nossa noção da obrigatoriedade de prestar contas. A fé, todas as formas de fé, são advertências de que existe algo que não podemos compreender, algo a que temos de responder. Com fé, prestamos contas uns aos outros, a nós mesmos e a uma verdade maior. A religião erra, mas só porque o homem é erra. Se o mundo exterior pudesse ver esta Igreja como eu vejo, além do ritual de dentro dessas paredes, veria um milagre moderno, uma fraternidade de almas imperfeitas e simples, querendo apenas ser uma voz de compaixão num mundo do qual se está a perder o controle.

O camerlengo fez um gesto para o Colégio dos Cardeais e a realizadora da BBC acompanhou-o instintivamente, focando a multidão de cardeais.
– Somos mesmo obsoletos? – perguntou o camerlengo? – Será que esses homens são mesmo dinossauros? Será que eu também sou? Será que o mundo precisa realmente de uma voz para os pobres, os fracos, os oprimidos, para as crianças que ainda não nasceram? Será que realmente precisamos de almas como essas que, apesar de imperfeitas, passam a vida a implorar-nos para seguirmos as directrizes da moralidade e não nos extraviarmos de nosso caminho?
Mortati percebeu que o camerlengo, conscientemente ou não, estava a realizar uma brilhante manobra. Ao mostrar os cardeais, personalizava a Igreja. A Cidade do Vaticano não era apenas uma construção, era feita de gente – gente como o camerlengo, que passara a vida a serviço do bem.

– Esta noite, estamos à beira de um precipício – disse o camerlengo.
– Nenhum de nós pode se dar ao luxo da indiferença. Quer encarem toda essa maldade como Satanás, corrupção ou imoralidade, o facto é que as forças do mal estão vivas e crescendo a cada dia. Não as ignorem. – O camerlengo baixou a voz para um sussurro e a câmara aproximou-se. – As forças são poderosas, mas não são invencíveis. O bem pode prevalecer. Ouçam a voz dos vossos corações. Ouçam a voz de Deus. Juntos, podemos recuar deste abismo.»

Dan Brown, Anjos e Demónios, ed. Bertand.

Carlos Cunha [BAIXA AUTORIDADE]

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