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quarta-feira, março 29

 

A participação dos leigos numa Igreja Comunhão (III)

Como vimos anteriormente, antes do Concílio Vaticano II, os leigos eram a "multidão dos fiéis", aquele resto que aparecia no final da autodefinição piramidal da Igreja. A tradicional concepção começava com Jesus Cristo e o seu representante na terra, o papa, seguindo-se os bispos, os sacerdotes e religiosos.

Essa poderosa hierarquia confundia-se com a Igreja. Se alguém se referisse à Igreja, era a hierarquia que queria significar. Os fiéis constituíam aquele rebanho obediente e dependente, cabendo-lhes nada mais que acolher orientações, normas e mandamentos impostos pela autoridade religiosa, como condição para a salvação.

O poder de perdoar ou não perdoar pecados, de admitir cristãos submissos ou excluir da Igreja cristãos desobedientes, reduzia os leigos a simples coadjuvantes da acção da Igreja, sem voz nem voto. O que lhes cumpria fazer, além de obedecer, era ajudar o clero em funções subalternas. Afinal, eram leigos, ou seja, não tinham conhecimentos nem competência para desempenhar funções importantes na missão da Igreja. Só a hierarquia tinha acesso a uma formação teológica adequada. A própria leitura da Bíblia não era recomendada aos leigos. Deter o conhecimento podia ser perigoso...

Divergir era excluir-se ou arriscar-se a ser excluído da Igreja. E... "fora da Igreja não há salvação" - afirmava a doutrina oficial. Era a certeza do inferno. Por isso, o melhor era manter-se obediente, limitar-se a uma religiosidade infantil e bem comportada, ir à missa aos domingos, confessar-se ao sacerdote cada vez que desobedecido algum mandamento ou orientação disciplinar da Igreja, comungar uma vez por ano e dormir tranqüilo. O importante era estar dentro da Igreja, única oportunidade e caminho para a salvação.

Mas aconteceu o Concílio. Uma profunda reviravolta nas antigas concepções eclesiológicas que ainda hoje permanece mal assimilada. Na Lumem Gentium, a Igreja autodefine-se como Povo de Deus, o conjunto dos cristãos que aderiram ao Projeto de Deus, exercendo funções, ministérios e serviços, cada qual segundo o seu carisma e vocação, todos igualmente importantes, dotados de igual dignidade, com responsabilidades próprias na missão comum de anunciar e fazer presente o Reino de Deus, aqui e agora, "assim na terra como no céu".

O capítulo IV da Lumen Gentium define assim os leigos:

"Por leigos entendem-se todos os cristãos que não são membros da sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Baptismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no Mundo" (LG 31).

Assume-se, portanto, que a Missão é comum a todos e a todos diz respeito. E assume-se, sobretudo, esta coisa fantástica: pelo baptismo, cada cristão torna-se participante, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo. Parecem palavras sem grandes consequências práticas, mas nelas reside o fundamento para grande parte das mudanças, no que ao papel dos leigos diz respeito. Não esqueçamos que decorre daqui o tríplice múnus até então detido em exclusivo pelo clero: santificar, anunciar e governar. Agora, é reconhecida aos leigos uma participação nas dimensões pastoral, profética e de governo, na Igreja.
Naturalmente, isto não quer dizer que a todos sejam confiados, de forma indiferenciada, os mesmos ministérios e serviços. Mas as diferenças inserem-se na lógica da tal comunhão orgânica e não em termos de direitos ou de maior ou menor dignidade. De facto, o mesmo documento resume assim a relação entre leigos e hierarquia:

"Ainda que, por vontade de Cristo, alguns sejam constituídos doutores, dispensadores dos ministérios e pastores em favor dos demais, reina, porém, a igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à actuação, comum a todos os fiéis, em favor da edificação do Corpo de Cristo. A distinção que o Senhor estabeleceu entre os ministros sagrados e o restante Povo de Deus, contribui para a união, já que os pastores e demais fiéis estão ligados uns aos outros por uma vinculação comum: os pastores da Igreja, imitando o exemplo do Senhor, prestem serviço uns aos outros e aos fiéis; e estes dêem alegremente a sua colaboração aos pastores e doutores. Deste modo, todos testemunham, na variedade, a admirável unidade do Corpo Místico de Cristo" (LG 32).

A lógica que preside a esta concepção eclesiológica é a lógica do serviço. Seja qual for o ministério, função ou carisma, ele deve ser desempenhado numa atitude de serviço a todos os outros membros do corpo. Seja Papa, bispo, presbítero, diácono ou leigo, cada cristão é chamado ao serviço.
Convém esclarecer, qual é, na perspectiva conciliar, a natureza da vocação laical: "Por vocação própria, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus", diz-nos a Lumen Gentium, no nº 31. Isto quer dizer que os "leigos são especialmente chamados a tornarem a Igreja presente e activa naqueles locais e circunstâncias em que só por meio deles ela pode ser o sal da terra" (LG 31). Ou seja, o lugar próprio dos leigos, o seu "ministério" primeiro, poderiamos dizer, é serem "sal da terra" e "luz do mundo", testemunhando o Evangelho no seu trabalho, na sua família, nos âmbitos sociais, políticos, económicos e culturais em que se movem.
Isto não impede, de forma nenhuma, que os leigos possam ser "chamados, por diversos modos, a uma colaboração mais imediata no apostolado da hierarquia, (...) tendo ainda a capacidade de serem chamados a exercer certos cargos eclesiásticos, com finalidade espiritual", como nos diz a Lumen Gentium, no nº 33.
De uma forma ou de outra, todas as formas de participação se inserem numa dinâmica de serviço, na construção da Igreja-comunhão.
Com estes três artigos sobre o lugar dos leigos na eclesiologia de comunhão, pretendia fazer uma breve síntese sobre o actual entendimento do magistério sobre o que é a Igreja e a consequente concepção de laicado.
Se alguém teve paciência para ler tudo, certamente chegou à mesma conclusão que eu: a nível teórico não há grandes objecções a levantar. Infelizmente este é um dos males crónicos da Igreja: a uma sólida e coerente doutrina nem sempre corresponde uma praxis equivalente. Basta olhar para as nossas comunidades cristãs para percebermos que esta conversa toda se resume a isso mesmo: conversa. E repare-se que não estamos a falar de propostas nascidas na última trovoada; o Vaticano II foi há mais de 40 anos. Se calhar o problema é esse: já faz falta outro...

Manuel Vieira (NO ADRO)

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Jesus, esse cagão

Esta tarde, nas urgências do Centro de Saúde do Barreiro, enquanto esperava pela minha vez para inventar uma caganeira com que sacasse ao médico uma justificação de falta para apresentar no trabalho (ontem fui copomemorar a passagem do Porto à final da Taça de Portugal), li o seguinte parágrafo de «A Busca Intermitente», do Eugène Ionesco:

«Toda e qualquer criança (depois o adulto habitua-se) pôde pensar que o papá e a mamã cagavam; que os professores cagavam; que os amigos dos pais também cagavam, todos os dias; e, não sendo todos os dias, era pior, era a horrível, a pavorosa, a angustiante prisão de ventre; que os santos cagavam; que até o próprio Jesus Cristo…»

Cagava, não acrescentou o velhadas do Ionesco, sentindo a morte à perna, não fosse o Diabo tecer-lhe um lugar na sua teia: o Inferno.

O Jesus Cristo cagava. E se cagava, também comia. Porque quem caga, caga o que come. E se come é porque tem fome. (O contrário, quem tem fome é porque come, é que nem sempre é verdade. Cf. Cesariny, Avenida Almirante Reis).

Que o Jesus Cristo cagava, é um facto que deve provocar indigestões, náuseas, cólicas, vómitos, diarreias mesmo, a quem gosta de o pintar como um outro ser que não seja um ser humano.

Quando o Jesus Cristo falava num outro reino, reportava-se ao reino clandestino, das emoções e das paixões; esse reino localizado no nosso interior, de que andamos distraídos com merdas mundanas e a que regressamos quando respondemos afirmativamente a apelos, chamamentos do nosso íntimo; a esse modo de viver, ou de não viver, a que o Bocage chamou de evaporação e o Santo Agostinho de exílio.

Mas regressemos às expressões populares. A boca do povo costuma dizer: «quem tem cu tem medo.»

Assim sendo, o Jesus Cristo tinha medo. Mas o medo, ou ter medo, não é uma experiência exclusiva dos medricas. (Estes, aliás, tendem a afastar-se dos possíveis lugares onde fantasmas e espectros habitam).

Mas há medos e medos. Existe o medo do desconhecido, do escuro (e dentro do escuro, há os que têm medo do próprio escuro ou do que no escuro se esconde), da morte. Essa experiência pode ser um fascínio, uma autêntica obsessão. E resultar em vivências poéticas, místicas. As ciências, a filosofia, todas as escolas ao serviço do conhecimento (embora as escolas, as propriamente ditas, não estarem propriamente a incitar os alunos a procurar conhecimento) evoluem na medida em que se expõem ao risco de olhar nos olhos o desconhecido, de enfrentar o medo cara à cara.

Mas há também o medo imposto pelo respeito, pela deferência elevada à opressão. Não se trata duma sensação de cortar a respiração; antes de amordaçar a garganta. Foi para que o Jesus e os seus contemporâneos não se borrassem mais de medo que ele enfrentou o poder instituído.

Por isso, caríssimos Ionescos, não tenham pudor em ejacular com a vossa caneta que o Jesus Cristo cagava. Outro ponto de vista que não este só pode ser o ponto de vista de olho do cu.


Vitor Vicente (CANTO ESCURO)

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Para que o dom não humilhe o outro

Para que o dom não humilhe o outro, devo não apenas dar-lhe qualquer coisa minha, mas dar-me a mim mesmo, devo estar presente no dom como pessoa

A frase que serve para título do post é frase final do ponto 34 da primeira Encíclica do Papa Bento XVI, ponto este cujo conteúdo integral é o seguinte:

"A abertura interior à dimensão católica da Igreja não poderá deixar de predispor o colaborador a sintonizar-se com as outras organizações que estão ao serviço das várias formas de necessidade; mas isso deverá verificar-se no respeito do perfil específico do serviço requerido por Cristo aos seus discípulos. No seu hino à caridade (cf. 1 Cor 13), São Paulo ensina-nos que a caridade é sempre algo mais do que mera actividade: «Ainda que distribua todos os meus bens em esmolas e entregue o meu corpo a fim de ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita» (v. 3). Este hino deve ser a Magna Carta de todo o serviço eclesial; nele se encontram resumidas todas as reflexões que fiz sobre o amor, ao longo desta Carta Encíclica. A acção prática resulta insuficiente se não for palpável nela o amor pelo homem, um amor que se nutre do encontro com Cristo. A íntima participação pessoal nas necessidades e no sofrimento do outro torna-se assim um dar-se-lhe a mim mesmo: para que o dom não humilhe o outro, devo não apenas dar-lhe qualquer coisa minha, mas dar-me a mim mesmo, devo estar presente no dom como pessoa."

Logo no princípio deste ponto é sublinhada a necessidade de os católicos se associarem e trabalharem com todas as organizações que estão ao serviço das várias formas de necessidade. Todos nunca seremos demais.

Em seguida o Papa chama a atenção para o facto de que a caridade nunca pode ser vista com um espírito assistencialista mas com espírito de doação total. A dádiva não é nem nunca pode ser simplesmente material. Não se trata da simples entrega de bens mas sim da entrega da própria pessoa do dador.

Todos os católicos praticam esta entrega total? Acho que nenhum a pratica. Acho que ninguém consegue praticar esta entrega radical e absoluta. A única pessoa que o conseguiu fazer foi o próprio Deus feito homem na figura do seu filho, Jesus Cristo.

Será legítimo os católicos andarem a medir o catolicismo uns dos outros?

Também não me parece. Todos somos pecadores, e se compreendo uma certa indignação dos católicos perante pecados mais graves praticados por outros católicos, embora por vezes também caia nessa tentação, sobretudo no que diz respeito aos chamados pecados sociais, tento não proceder a julgamentos pessoais nos termos dos quais classifico a pessoa A ou a pessoa B como pouco caridosa. Foi Jesus Cristo que disse: "Não julgueis para que não sejais julgados" (Mateus, 7-1).

É verdade que considero certas doutrinas políticas (como o neoliberalismo) nos antípodas da palavra de Cristo e da Igreja. Mas se me parece legítimo condenar ideias (e, mesmo neste caso, é recomendável explicar porquê), já não me parece legítimo condenar comportamentos pessoais.

As palavras de Jesus Cristo e da Igreja apontam o Caminho. Há quem consiga tornar o seu comportamento mais próximo da Palavra. A olharmos para alguém nesta caminhada, deve ser sobretudo para estes que devemos olhar e não para aqueles que mais parecem afastar-se dos caminhos de Cristo.


Timshel (TIMSHEL)

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Teísmo e Monismo

O quadro seguinte apresenta uma sistematização simplificada de alguns dos mais importantes aspectos do pensamento religioso nas religiões Ocidentais e Orientais.

Ocidental/Teísta
Oriental/Monista
Um Deus Criador que actua como uma pessoa .
Um conceito de Realidade Última indiferenciada e impessoal.
O ser humano é fundamentalmente diferente e distinto de Deus.
Ou o ser humano é uma realidade idêntica à Realidade Absoluta: Atman é Brahman (monismo); ou, tal como acontece no Budismo, nada se pode dizer sobre a pessoa que atingiu o Nivana.
O mal e o sofrimento resultam do pecado contra a Lei de Deus.
O Mal e o Sofrimento devem-se à ignorância e auto-ilusão humana.
O caminho para a salvação depende das boas obras e da adesão à Lei de Deus, ou é simplesmente uma matéria de fé e graça de Deus.
O Caminho para a salvação é percorrido através da aquisição de conhecimento e sabedoria, isto é, a capacidade de ver as coisas como elas realmente são.
O propósito da salvação é escapar da ameaça do inferno e alcançar a meta do paraíso.
O propósito da salvação é escapar ao sofrimento deste mundo e alcançar um estado de felicidade surprema, o Nirvana ou moksha.
Os elementos mais importantes de um ritual giram em torno da adoração e dos sacramentos.
Os elementos mais importantes de um ritual giram em torno da meditação e estados de consciência alterados.
O tempo histórico é progressivo, tem um princípio e um fim.
O tempo é cíclico; não tem princípio nem fim.


Apesar de sabermos que as principais correntes ortodoxas do Islão, do Cristianismo e do Judaísmo possuem uma natureza claramente teísta, podemos encontrar alguns místicos nestas religiões que defendiam ideias comuns ao monismo oriental. Por exemplo, Zohar fala da alma como uma emanação de Deus que pretende reunir-se com a sua fonte criadora; S. João da Cruz também falou também se referiu à união da alma com Deus como sendo o objectivo final de quem segue um caminho místico. Os sufis seguidores de Ibn-Arabi defendem o conceito de wahdat al-wujud (unicidade do ser), tendo evoluído para uma abordagem claramente monista.

Por seu lado na Índia, têm surgido várias correntes de pensamento teísta. A seitas bhakti possuem uma conceptualização teísta de vários deuses – particularmente Shiva e Vishnu. Também no em algumas seitas do Budismo Mahayana encontramos elementos de teísmo; Buda é visto como salvador e fonte de graça, que pode ser adorado e a quem se pode orar.

Resumindo: teísmo e monismo ocorrem tanto nas religiões orientais como ocidentais. O Teísmo é predominante nas religiões ocidentais e o monismo nas religiões orientais, mas nenhum é o exclusivo de nenhuma delas

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pag. 36-37

COMENTÁRIO:
Como o próprio autor assume, o quadro apresentado é contém várias simplificações e generalizações. No entanto, parece-me particularmente útil como uma base para qualquer comparação entre os sistemas de pensamento desenvolvidos nas religiões ocidentais (abraâmicas) e as religiões orientais.


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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quarta-feira, março 22

 

A participação dos leigos numa Igreja Comunhão (II)

A concepção de Igreja como comunhão, assumida ainda de forma hesitante pelo Vaticano II, foi sendo aprofundada, desde então. Na Exortação Apostólica Christifideles Laici - Vocação e Missão dos Leigos na Igreja e no mundo - o Papa João Paulo II resumia-a assim:

" A comunhão dos cristãos tem por modelo, fonte e meta, a própria comunhão do Filho com o Pai, no dom do Espírito Santo: unidos no vínculo amoroso do Espírito, os cristãos estão unidos ao Pai" (CL 18).

O modelo da comunhão eclesial é, pois, a comunhão trinitária. É a partir da Trindade, como Deus único, mas constituído por três pessoas, distintas e complementares, que se entende a comunhão entre os membros da Igreja.
E como funciona esta Igreja comunhão? Partindo das palavras de S. Paulo, na sua Carta aos Coríntios, João Paulo II fala de uma " comunhão orgânica":

"A Comunhão eclesial apresenta-se como uma comunhão orgânica, análoga à de um corpo vivo e operante: ela, de facto, carateriza-se pela presença simultânea da diversidade e da complementaridade das vocações e condições de vida, dos ministérios, carismas e responsabilidades. Graças a essa diversidade e complementaridade, cada fiel leigo está em relação com todo o corpo e dá-lhe o seu próprio contributo" (CL 20)

Ao entrar no teceiro milénio, João Paulo II dirigiu-se a toda a Igreja, na sua Carta Apostólica "Novo Millenio Ineunte" - À entrada do Novo Milénio - para se interrogar sobre a renovação nascida do Vaticano II e sobre a necessidade de assumir, com novo impulso, a sua missão evangelizadora. Aí dizia claramente:

"Fazer da Igreja a casa e a escola da Comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milénio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo" (NMI 43)

A comunhão não é, portanto, uma opção possível entre várias, mas uma urgência de fidelidade aos desígnios de Deus. Não é uma modernice inventada agora, nem resulta de uma simples necessidade de adaptação às novas sensibilidades; ela faz parte da natureza mais profunda da Igreja. É caso para dizer que, no milénio que começa, ou a Igreja é comunhão, ou não é nada!
Aprofundando esta idéia, o João Paulo II chamava a atenção para um perigo: o desejo de mudar as estruturas, rejeitar modelos, inventar novas formas, métodos e iniciativas, numa linha de acção promotora da comunhão, sem antes amadurecer uma espiritualidade de comunhão. Segundo ele " seria errado deixar-se levar por tal impulso".

"Antes, é preciso promover uma espiritualidade de Comunhão, elevando-a ao nível de princípio educativo em todos os lugares onde se forma o homem e o cristão, onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os agentes pastorais, onde se constroem as famílias e as comunidades" (NMI 43)

Ou seja, a para a Igreja se fazer, de facto, comunhão, é necessário, antes de mais, cultivá-la como valor, ao nível da formação humana, intelectual, espiritual. Antes de querer concretizar comunhão, há que sentir e ser comunhão.
Para melhor percebermos o que é a espiritualidade de comunhão, João Paulo II enunciou quatro das suas características:

"Espiritualidade da comunhão significa, em primeiro lugar, ter os olhos do coração voltados para o mistério da Trindade" (NMI 43)

Já o tinhamos dito: o modelo e a fonte da comunhão é a Trindade, a relação de amor que flui entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A segunda característica decorre desta:

"Espiritualidade da comunhão significa também a capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo Místico, isto é, como um que faz parte de mim, para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para lhe oferecer uma profunda e verdadeira amizade" (NMI 43)

A comunhão nunca nos isola do outro, nunca nos separa dos homens, como se fosse apenas entre mim e Deus. Essa comunhão com o divino só existe quando se expressa e se vive na comunhão com o outro, que é Deus vivo diante de mim, corpo do Corpo, um comigo. Isto leva à terceira característica:

"Espiritualidade da comunhão é ainda a capacidade de ver, antes de mais nada, o que há de positivo no outro, para o acolher e valorizar como dom de Deus: um dom para mim, como o é para o irmão que directamente o recebeu" (NMI 43)

O outro não é quem eu tenho de suportar por caridade, para obter a salvação. É dom de Deus para mim. Acolhê-lo não é uma obra de caridade, mas alguma coisa pela qual eu devo agradecer. Por último, diz João Paulo II:

"Por fim, espiritualidade da comunhão é saber criar espaço para o irmão, levando 'os fardos uns dos outros' (Gal 6, 2) e rejeitando as tentações egoístas que sempre nos ameaçam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes" (NMI 43).

É este caminho espiritual que é necessário fazer para que a comunhão exista realmente. De pouco servirão os instrumentos exteriores de comunhão, se não forem precedidos deste "entranhamento" da comunhão nos corações dos homens. Esses instrumentos revelar-se-iam como estruturas sem alma, máscaras de comunhão, e nada mais.
Mas também não se pode ficar por aqui! Depois disto, é urgente o empenhamento na valorização e desenvolvimento dos sectores e instrumentos que servem para assegurar e garantir a comunhão.
João Paulo II começava por, como era inevitável, apresentar como dois serviços específicos de comunhão o Ministério Petrino e a Colegialidade Episcopal, ou seja, Papa e Bispos. Continua falando dos presbíteros e dos diáconos. Sempre numa perspectiva de serviço à comunhão. Ainda assim, é preciso dizê-lo, os ministérios ordenados continuam a ter um relevo destacado nesta eclesiologia de comunhão. Mas o que importa notar, é que a relação entre todos os membros da Igreja se alterou substancialmente. Já não temos uma Igreja dividida em duas, Clero e Leigos, mas uma Igreja que funciona como um corpo: cada membro com funções diferentes, mas todos iguais em dignidade e todos a trabalhar em função de um objectivo comum.

(Continua)
Manuel Vieira (NO ADRO)

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Fazer tudo o que nos for possível e com a força de que dispomos

Ponto 35 da primeira Encíclica do Papa Bento XVI:

"Este modo justo de servir torna humilde o agente. Este não assume uma posição de superioridade face ao outro, por mais miserável que possa ser de momento a sua situação. Cristo ocupou o último lugar no mundo — a cruz — e, precisamente com esta humildade radical, nos redimiu e ajuda sem cessar. Quem se acha em condições de ajudar há-de reconhecer que, precisamente deste modo, é ajudado ele próprio também; não é mérito seu nem título de glória o facto de poder ajudar. Esta tarefa é graça. Quanto mais alguém trabalhar pelos outros, tanto melhor compreenderá e assumirá como própria esta palavra de Cristo: «Somos servos inúteis» (Lc 17, 10). Na realidade, ele reconhece que age, não em virtude de uma superioridade ou uma maior eficiência pessoal, mas porque o Senhor lhe concedeu este dom. Às vezes, a excessiva vastidão das necessidades e as limitações do próprio agir poderão expô-lo à tentação do desânimo. Mas é precisamente então que lhe serve de ajuda saber que, em última instância, ele não passa de um instrumento nas mãos do Senhor; libertar-se-á assim da presunção de dever realizar, pessoalmente e sozinho, o necessário melhoramento do mundo. Com humildade, fará o que lhe for possível realizar e, com humildade, confiará o resto ao Senhor. É Deus quem governa o mundo, não nós. Prestamos-Lhe apenas o nosso serviço por quanto podemos e até onde Ele nos dá a força. Mas, fazer tudo o que nos for possível e com a força de que dispomos, tal é o dever que mantém o servo bom de Cristo sempre em movimento: «O amor de Cristo nos constrange» (2 Cor 5, 14)."

"Cristo ocupou o último lugar no mundo — a cruz". O cristianismo é a religião dos fracos, não é a religião dos fortes. É a religião dos vencidos, não é a religião dos vencedores. É a religião dos pobres, dos que sofrem, dos que são humilhados, não é religião dos ricos, dos soberbos ou dos arrogantes. É a religião dos cordeiros, não é a religião dos violentos. É a religião da "humildade radical".

O que cada cristão faz de bom "não é mérito seu nem título de glória". "Poder ajudar" é simplesmente uma "graça" concedida. "Quanto mais alguém trabalhar pelos outros, tanto melhor compreenderá e assumirá" que, na "realidade, ele reconhece que age, não em virtude de uma superioridade ou uma maior eficiência pessoal, mas porque o Senhor lhe concedeu este dom."

Este dom que o Senhor lhe concedeu e que apenas pode exercitar através da sua vontade, da vontade humana inspirada pelo Senhor. Essa vontade foi possibilidade criada por Deus quando nos ofertou o livre arbítrio ao conceder-nos a existência humana sob a forma de um sistema complexo que, por definição, produz resultados, isto é, comportamentos, que não são inteiramente determinados. Por isso não somos apenas marionetas nas mãos dos nossos genes ou das circunstâncias da nossa história e existência.

Por isso o amor pode nascer nessa caixa negra de biliões de variáveis genéticas, históricas e ambientais em interacção permanente que é a nossa consciência. O amor pode aí nascer, não por obra do acaso, mas pelo exercício da vontade humana. Com a ajuda de Deus.


Timshel (TIMSHEL)

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Anjos sem demónios

«– Aos Illuminati – disse ele, a voz mais grave – e aos homens de ciência, deixem que lhes diga uma coisa – e fez uma pausa. – Vocês ganharam a guerra.
O silêncio espalhara-se agora pelos recônditos mais profundos da capela. Mortati ouvia a batida desesperada do seu próprio coração.
As engrenagens estão em movimento há muito tempo – disse o camerlengo. – A sua vitória foi inevitável. Nunca antes isto ficou tão evidente quanto neste momento. A ciência é o novo Deus.
O que ele está dizendo!, pensou Mortati. Será que enlouqueceu? O mundo inteiro está escutando isso!

Medicina, comunicações eletrónicas, viagens espaciais, manipulação genética, são estes os milagres sobre os quais agora falamos às nossas crianças. São estes os milagres que alardeamos como prova de que a ciência nos trará as respostas. As histórias antigas de concepções imaculadas e mares que se abrem são agora irrelevantes. Deus tornou-Se obsoleto. A ciência venceu a batalha. Nós rendemo-nos. – Um rumor de confusão e perplexidade agitou a capela.
Mas a vitória da ciência – acrescentou o camerlengo, com a voz mais intensa – custou-nos caro. Custou muito caro para cada um de nós.
Silêncio.

A ciência pode ter aliviado os sofrimentos das doenças e dos trabalhos enfadonhos e fatigantes, pode ter proporcionado uma série de aparelhos engenhosos para nossa conveniência e distração, mas deixou-nos num mundo sem deslumbramento. Os nossos crepúsculos foram reduzidos a comprimentos de ondas e frequências. As complexidades do universo foram desmembradas em equações matemáticas. Até o nosso amor-próprio de seres humanos foi destruído. A ciência proclama que o planeta Terra e seus habitantes são um cisco insignificante no grande plano. Um acidente cósmico – e aqui o camerlengo fez uma pausa. – Até a tecnologia que nos promete unir, pelo contrário, só nos divide. Cada um de nós está hoje eletronicamente ligado ao globo inteiro e, entretanto, todos nos sentimos sós. Somos bombardeados pela violência, pela divisão, pela desintegração e pela traição. O cepticismo passou a ser uma virtude. O cinismo e a exigência de provas para tudo converteram-se em pensamento esclarecido. Alguém ainda se admira que as pessoas hoje se sintam mais deprimidas e derrotadas do que em qualquer outra ocasião da história do homem? Será que existe alguma coisa que a ciência considere sagrada? A ciência procura respostas usando fetos não-nascidos como material de pesquisa. A ciência até se atreve a reorganizar nosso DNA. Despedaça o mundo de Deus em parcelas cada vez menores em busca de significados e só encontra mais perguntas.

Mortati assistia a tudo cheio de assombro. O camerlengo falava de modo quase hipnótico agora. Possuía um vigor físico nos movimentos e na voz que Mortati jamais presenciara em um altar do Vaticano. As suas palavras saíam impregnadas de convicção e de tristeza.
A velha guerra entre a ciência e a religião está encerrada – disse o camerlengo. – Vocês venceram. Mas não venceram honestamente. Não venceram fornecendo respostas. Venceram redirecionando nossa sociedade de um modo tão radical que as verdades que outrora víamos como diretrizes agora parecem inaplicáveis. A religião não tem capacidade para acompanhar isto. O crescimento científico é exponencial. Alimenta-se de si mesmo como um vírus. Cada novo avanço abre caminho para outros novos avanços. A humanidade levou milhares de anos para evoluir da roda para o carro. E apenas décadas do carro para o espaço. Actualmente, calculamos por semana o progresso científico. Estamos girando fora de controle. O abismo entre nós aprofunda-se sem parar e, à medida que a religião vai ficando para trás, as pessoas vêem-se num vazio espiritual. Imploramos pelo sentido das coisas. E, acreditem, imploramos de facto. Vemos OVNIS, frequentamos médiuns, procuramos contacto com os espíritos, experiências extracorpóreas, uso do poder mental – todas essas idéias excêntricas têm um verniz científico, mas são descaradamente irracionais. São o grito desesperado da alma moderna, solitária e atormentada, deformada pelo seu próprio esclarecimento e pela sua incapacidade de aceitar que haja sentido em qualquer coisa que seja estranha à tecnologia.
(...)
O tom do camerlengo ficou mais veemente.
– A ciência, dizem vocês, vai salvar-nos. A ciência, digo eu, destruiu-nos. Desde o tempo de Galileu que a Igreja vem tentando diminuir o ritmo da marcha implacável da ciência, às vezes por meios equívocos, mas sempre com intenções benéficas. Ainda assim, as tentações são grandes demais para o homem resistir. Previno-os, olhem em torno de si. As promessas da ciência não foram mantidas. As promessas de eficiência e simplicidade resultaram apenas em poluição e caos. Somos uma espécie despedaçada e frenética, seguindo um caminho que leva à destruição.

O camerlengo fez uma pausa prolongada e então olhou para a câmara com uma expressão penetrante.
– Quem é esse deus-ciência? Quem é esse deus que oferece poder a seu povo, mas nenhuma estrutura moral para lhe dizer como usar este poder? Que tipo de deus dá fogo a uma criança, mas não a avisa sobre seus perigos? A linguagem da ciência não vem com diretrizes sobre o bem e o mal. Os livros científicos explicam-nos como criar uma reação nuclear, mas não têm nenhum capítulo discutindo se é uma boa ou má idéia.

– À ciência, quero dizer o seguinte: a Igreja está cansada. Estamos exaustos de tanto tentar ser uma diretriz para o mundo. Os nossos recursos estão esgotados por sermos a voz do equilíbrio enquanto vocês se atiram de cabeça na vossa busca por chips menores e lucros maiores. Nem perguntamos por que vocês não se controlam, pois como poderiam? O vosso mundo anda tão depressa que, se pararem por um instante que seja para reflectir sobre as implicações dos seus actos, alguém mais eficiente pode ultrapassá-los num piscar de olhos. Por isso, vocês vão em frente. Promovem o aumento das armas de destruição em massa, mas é o Papa quem tem de viajar pelo mundo suplicando aos líderes que tenham prudência. Clonam criaturas vivas, mas é a Igreja que tem de lembrar a necessidade de considerarmos as implicações morais de nossos actos. Incentivam as pessoas a interagir através de telefones, telas de vídeo e computadores, mas é a Igreja que abre suas portas e nos lembra de comungar aqui, no mundo real, que é como se deve fazer. Vocês até matam bebés que ainda não nasceram em nome de pesquisas que salvarão vidas. Mais uma vez, cabe à Igreja comprovar a falácia de tal raciocínio.

– E, constantemente, vocês proclamam que a Igreja é ignorante. Quem é mais ignorante, porém? O homem que não sabe definir o raio que cai durante um temporal ou o que não respeita seu poder admirável? Esta Igreja está tentando chegar a vocês. Está tentando chegar a todas as pessoas. E, todavia, quanto mais tentamos, mais vocês nos repelem. Mostrem-nos uma prova da existência de Deus, dizem vocês. E eu respondo, usem seus telescópios para olhar o céu e me digam como é possível não haver um Deus! – O camerlengo tinha lágrimas nos olhos. – Vocês perguntam com que se parece Deus, e eu, por minha vez, pergunto também: de onde vem essa pergunta? A resposta é uma só, a resposta é a mesma. Não vêem Deus em sua ciência? Como podem deixar de vê-Lo! Vocês proclamam que a menor alteração na força da gravidade ou no peso de um átomo teria convertido o nosso universo numa névoa sem vida em vez do magnífico mar de corpos celestes que contemplamos, e ainda assim deixam de ver a mão de Deus nisso? Será que é mesmo tão mais fácil acreditar que escolhemos a carta certa num baralho em que há biliões delas? Será que estamos tão falidos espiritualmente que preferimos acreditar numa impossibilidade matemática e não em um poder maior do que nós?

– Se vocês acreditam em Deus ou não – disse o camerlengo, a voz mais grave e carregada de deliberação –, têm de acreditar nisto: quando nós, como espécie, abandonamos a confiança num poder maior do que nós, abandonamos também nossa noção da obrigatoriedade de prestar contas. A fé, todas as formas de fé, são advertências de que existe algo que não podemos compreender, algo a que temos de responder. Com fé, prestamos contas uns aos outros, a nós mesmos e a uma verdade maior. A religião erra, mas só porque o homem é erra. Se o mundo exterior pudesse ver esta Igreja como eu vejo, além do ritual de dentro dessas paredes, veria um milagre moderno, uma fraternidade de almas imperfeitas e simples, querendo apenas ser uma voz de compaixão num mundo do qual se está a perder o controle.

O camerlengo fez um gesto para o Colégio dos Cardeais e a realizadora da BBC acompanhou-o instintivamente, focando a multidão de cardeais.
– Somos mesmo obsoletos? – perguntou o camerlengo? – Será que esses homens são mesmo dinossauros? Será que eu também sou? Será que o mundo precisa realmente de uma voz para os pobres, os fracos, os oprimidos, para as crianças que ainda não nasceram? Será que realmente precisamos de almas como essas que, apesar de imperfeitas, passam a vida a implorar-nos para seguirmos as directrizes da moralidade e não nos extraviarmos de nosso caminho?
Mortati percebeu que o camerlengo, conscientemente ou não, estava a realizar uma brilhante manobra. Ao mostrar os cardeais, personalizava a Igreja. A Cidade do Vaticano não era apenas uma construção, era feita de gente – gente como o camerlengo, que passara a vida a serviço do bem.

– Esta noite, estamos à beira de um precipício – disse o camerlengo.
– Nenhum de nós pode se dar ao luxo da indiferença. Quer encarem toda essa maldade como Satanás, corrupção ou imoralidade, o facto é que as forças do mal estão vivas e crescendo a cada dia. Não as ignorem. – O camerlengo baixou a voz para um sussurro e a câmara aproximou-se. – As forças são poderosas, mas não são invencíveis. O bem pode prevalecer. Ouçam a voz dos vossos corações. Ouçam a voz de Deus. Juntos, podemos recuar deste abismo.»

Dan Brown, Anjos e Demónios, ed. Bertand.

Carlos Cunha [BAIXA AUTORIDADE]

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OPA Dei
(ou a história de um capuchinho e de um lobo mau)

Francisco de Assis não teria dificuldades em viver como viveu no mundo de hoje. Talvez não se despojasse dos bens familiares e preferisse antes despir o fato e gravata, vender o carro e caminhar em direcção às azinhagas de besouros deste país ou para os prédios esconsos e inacabados das cidades onde dormem ao relento gisbertas e zés e marias e vanessas (também o vejo, noutra latitude, nas barricadas da Sorbonne).

Paulo Teixeira Pinto é católico. Escreve-o à mão cheia, inscreve-o nos retratos que autoriza de si na imprensa, di-lo nas entrevistas em que lhe pedem algo mais que um comentário ao mercado. Mas no resto, desculpem-me a tirada, é pouco católico. Ao anunciar a intenção de despedir três mil pessoas, se for bem sucedido na OPA que lançou contra a BPI, mostra PTP como de boas intenções se enche rapidamente o inferno e a terra.

Acredito que seja complicado a um empresário ou a um banqueiro (até mesmo a um simples assalariado, caramba) ser-se católico no mundo. Pede-se ao empresário que não despeça, nem ninguém pede, nem os associados da mui reverente Associação Cristã de Empresários e Gestores de Empresas, que sejam bons samaritanos. Ao banqueiro, pede-se que dê dinheiro, não que distribua bodos aos pobres.

Estas duas linhas de argumentação é que me parecem falhas de razão: o bom samaritano devia ser um exemplo de seriedade no relacionamento entre todos - o aceitar e cuidar o Outro, não numa perspectiva assistencialista, como à partida a parábola parece indicar: o "bodo ao pobre" não é, igualmente, assistencialista; mas obriga a uma justa partilha dos bens, o que não acontece no BCP de Teixeira Pinto, no qual os administradores do banco absorveram em 2005 quase 87% do total pago pelo banco em remunerações a todos os seus trabalhadores.

Chamem-me simplista, mas num país onde o fosso entre ricos e pobres aumenta, não posso deixar de assinalar comportamentos menos católicos. O desemprego e a pobreza são pecados quando mantidos e promovidos por quem se diz católico. E se não cultivo qualqur superioridade dos católicos, julgo que a responsabilidade social de um crente está intimimamente ligada à sua condição de fé. Dizer isto é dizer que é intolerável perpetuar estes mecanismos de injustiça. Já o disseram tantos, de formas tão mais bonitas e veementes, como D. Hélder da Câmara, frei Leonardo Boff ou João Paulo II. Eu assino por baixo.

[texto inspirado numa outra diatribe do Luis Raínha, no "Aspirina B"]

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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quarta-feira, março 15

 

A participação dos leigos numa Igreja Comunhão (I)

Um dos temas que, de vez em quando, aparece no debate da blogosfera católica prende-se com o papel e o lugar dos leigos na Igreja. Com este texto, dividido em três partes, a publicar sucessivamente aqui na Terra da Alegria, pretendo apenas fazer uma breve síntese sobre sobre a actual concepção do Magistério sobre o tema. Não pretendo, portanto, dizere nada de novo. Apenas situar o tema.Para entender a participação dos leigos na vida da Igreja importa, antes de mais, compreender o que se entende por leigos e por comunhão.O que é isso de Igreja-Comunhão?Não é nada de novo, naturalmente. Já estava tudo previsto e devidamente esclarecido na mensagem deixada por Jesus Cristo. Acontece que, na Igreja, se passa o mesmo que noutros âmbitos da História dos homens: o tempo vai acrescentando coisas, interpretando e reinventando, até que as idéias originais ficam soterradas debaixo das camadas de pó que os séculos vão deixando... Foi o que aconteceu ao entendimento da Igreja como COMUNHÃO.Para termos disto uma idéia, não resisto a citar um parágrafo da Encíclica "Vehementer", de Pio X, publicada há precisamente um século, em 1906:

"A Igreja é, por essência, uma sociedade desigual, ou seja, que compreende duas categorias de pessoas: os pastores e o rebanho; os que ocupam um posto nos diferentes graus da hierarquia e a multidão dos fiéis. E estas categorias são de tal modo distintas uma da outra que só no corpo pastoral (ou seja, a hierarquia) reside o direito e a autoridade necessárias à promoção e direcção de todos os membros para o fim da sociedade. Quanto à multidão, não tem outro direito senão o de se deixar conduzir e, qual rebanho manso, seguir os seus pastores". ( Pio X, Vehementer, 1906)

A Igreja dividia-se, portanto, em ensinadores e ensinados, em celebrantes e assistentes (e quando digo assistentes não quero dizer participantes...), em governantes e submissos; por outras palavras, em clérigos e leigos. Embora a Igreja abarcasse todos os baptizados, na prática instituiu-se uma separação clara entre clero e leigos. O clero tinha o poder de governar, de anunciar e de santificar, enquanto os leigos tinham a obrigação, e sublinho obrigação, de ser governados, de receberem o anúncio e de se santificarem, pelo cumprimento escrupuloso das directivas eclesiásticas. Eram portanto duas as Igrejas: para um lado os eleitos para a dignidade dos ministérios e, para outro, a massa anónima dos fiéis que, quando muito podiam ser chamados a servir os ministros nas suas necessidades.
Não é que o conceito de comunhão não existisse. A santidade, objectivo de todos os cristãos, sempre se entendeu como a comunhão com Deus. Mas esta comunhão, quando muito, era vertical, entre o homem e Deus. A idéia de comunhão horizontal, entre os homens, como expressão viva da comunhão com Deus e a igual dignidade de todos estava muito esquecida.
A idéia de Igreja subjacente a isto era a de uma Sociedade, hierarquizada, onde o poder escorria directamente de Deus para o topo da pirâmide.
A História ajuda a perceber como se chegou a esta concepção eclesial: foi no séc. XI, para marcar as distâncias em relação aos poderes políticos da época, que a Igreja se meteu por esta via, com dolorosas consequências que se estenderam por nove séculos.
Foi preciso o Concílio Vaticano II para lançar mãos à obra, limpar o pó e as teias de aranha, para se voltar a descobrir o brilho dos conceitos evangélicos. Não se inventou uma nova Igreja; apenas se redescobriu a beleza original da Igreja Fundada por Jesus Cristo.
A eclesiologia de comunhão é uma das idéias centrais e fundamentais do Concílio. Aí se assumiram as evidências maiores do Projecto de Deus na Revelação Bíblica: o Cristocentrismo Trinitário, a centralidade do Reino de Deus, com a abertura e o serviço a todas as causas pela vida e pela justiça no mundo humano, a igual dignidade de todos os membros da família humana, a igualdade básica de todos os baptizados.
A Constituição Dogmática "Lumen Gentium" (ou Luz dos Povos), é o documento conciliar que nos fala da Igreja.Logo no primeiro capítulo, é-nos dito que "a Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano".
Mas é no segundo capítulo do documento que a idéia de comunhão é explicitada, ao apresentar a Igreja como Povo de Deus: "Aprouve a Deus salvar e santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre eles, mas constituindo-os em Povo que o conhecesse na verdade e o servisse santamente" (LG 9).
E que Povo é este? Diz-nos a Lumen Gentium: "É condição deste Povo a dignidade e a liberdade dos Filhos de Deus, em cujos corações o Espírito Santo habita, como num templo. A sua lei é o novo mandamento, o de amar assim como o próprio Cristo amou. Por último, tem por fim o Reino de Deus". Este Povo, continua a Lumem Gentium, foi "estabelecido por Cristo como comunhão de vida, de caridade e de verdade" (LG 9).
Ou seja: o mistério da Igreja concretiza-se num Povo de Deus que é o Corpo de Cristo, habitado pelo Espírito, vínculo de comunhão de todos os membros, que são fundamentalmente iguais, embora cumpram diversidade de serviços, com variedade de formas de vida e carismas que enriquecem a comunhão e a unidade ao serviço do Reino, na Igreja e em toda a humanidade. A constituição primária da Igreja é a nossa condição básica de crentes baptizados em Cristo, pelo Espírito.
(continua)

Manuel Vieira (NO ADRO)

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Revelação e Iluminação

De forma análoga à diferença entre as religiões teístas ocidentais e as religiões monistas orientais na forma como vêem os seus fundadores, está a diferença como vêem as suas escrituras. Para as religiões teístas, a escritura é considerada como sendo a palavra de Deus ou a vontade de Deus revelada ao mundo através da mediação do fundador/profeta da religião. No Islão, Maomé e os outros profetas são vistos como transmissores passivos das escrituras. A palavra "revelação" transmite um sentido de desvendar à humanidade algo que sempre existiu. Isto é mais saliente no Islão, onde o Alcorão é considerado como tendo uma preexistência celestial cujo arquétipo, o Alcorão terreno é apenas uma cópia. Assim, a função de Maomé foi revelar, ou desvendar o texto do Alcorão celestial.

O processo da revelação nas religiões teístas é visto com tendo quatro aspectos principais:
  • a origem da mensagem (Deus)
  • o transmissor da mensagem (o profeta)
  • os destinatários da mensagem (a humanidade)
  • a própria mensagem (as escrituras)

Existem várias elaborações sobre este padrão básico nas diferentes religiões. No Cristianismo, Cristo é simultaneamente transmissor e parte da mensagem. Ele é o Verbo que se fez carne. No Islão, o anjo Gabriel, através de quem Maomé recebeu a escritura, partilha o papel de transmissor.

Nas religiões teístas existe ainda um significado mais genérico para a palavra "revelação". Pode tratar-se de qualquer auto-descoberta divina. Desta forma, visões e sonhos experimentados pelos santos são consideradas, neste sentido, revelações. De facto, todo o mundo natural é, em alguma medida, revelador de Deus.

No Budismo, por contraste, as palavras de Buda que estão contidas nas várias escrituras budistas não são consideradas como tendo sido transmitidas por Buda e provenientes de uma fonte transcendente. Elas são resultado da visão e sabedoria do próprio Buda, da iluminação que atingiu através dos seus próprios esforços.

O Hinduísmo tem neste contexto, talvez, uma posição intermédia entre o Budismo e as religiões teístas. Parte das suas escrituras podem-se dizer ter sido reveladas. Estas são os Vedas e os Upanishads, que são designados por escrituras shruti (escutadas). Estas são tidas como tendo sido uma revelação divina directa aos rishis (videntes) de tempos antigos. As restantes escrituras hindus, chamadas smriti (lembranças), são atribuídas a tradições e são trabalho de sábios e estudiosos humanos.

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pag. 203-204


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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A oração

Contrariamente aos pontos 37 e 38 da primeira Encíclica do Papa Bento XVI (abordados nas passadas duas semanas), o ponto 36 é de uma clareza admirável e permite talvez esclarecer melhor o sentido dos referidos pontos.

"A experiência da incomensurabilidade das necessidades pode, por um lado, fazer-nos cair na ideologia que pretende realizar agora aquilo que o governo do mundo por parte de Deus, pelos vistos, não consegue: a solução universal de todo o problema. Por outro lado, aquela pode tornar-se uma tentação para a inércia a partir da impressão de que, seja como for, nunca se levaria nada a termo. Nesta situação, o contacto vivo com Cristo é a ajuda decisiva para prosseguir pela justa estrada: nem cair numa soberba que despreza o homem e, na realidade, nada constrói, antes até destrói; nem abandonar-se à resignação que impediria de deixar-se guiar pelo amor e, deste modo, servir o homem. A oração, como meio para haurir continuamente força de Cristo, torna-se aqui uma urgência inteiramente concreta. Quem reza não desperdiça o seu tempo, mesmo quando a situação apresenta todas as características duma emergência e parece impelir unicamente para a acção. A piedade não afrouxa a luta contra a pobreza ou mesmo contra a miséria do próximo. A Beata Teresa de Calcutá é um exemplo evidentíssimo do facto que o tempo dedicado a Deus na oração não só não lesa a eficácia nem a operosidade do amor ao próximo, mas é realmente a sua fonte inexaurível. Na sua carta para a Quaresma de 1996, esta Beata escrevia aos seus colaboradores leigos: «Nós precisamos desta união íntima com Deus na nossa vida quotidiana. E como poderemos obtê-la? Através da oração»."

Este Deus que surge aqui não parece ser um Deus omnipotente que tudo pode e tudo tem planeado até ao mínimo detalhe.

É um Deus que confia no homem.

E o caminho é um caminho no fio da navalha entre dois abismos: o da ilusão voluntarista de que o homem tudo pode (que é apenas uma manifestação de orgulho/soberba) e o da ilusão determinista/fatalista de que Deus é todo poderoso (no sentido humano do termo) e tem portanto tudo planeado até ao mínimo detalhe e que, por isso, o homem nada pode nem deve fazer.

A ajuda sugerida pelo Papa para seguir por esta "justa estrada" entre o voluntarismo soberbo e a passividade determinista é a oração. É pela oração que nos deixamos "ensopar" pela força de Cristo. É a oração que nos conduz a acções de maior impacto e de melhor qualidade.

Como diz o Papa: "a piedade não afrouxa a luta contra a pobreza ou mesmo contra a miséria do próximo".

E o exemplo pessoal que a seguir menciona é particularmente elucidativo: o exemplo de Teresa de Calcutá.

Que melhor exemplo seria possível de encontrar da força e do impacto da oração?


Timshel (TIMSHEL)

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quarta-feira, março 8

 

Deus é Amor e o Credo da Igreja

A Encíclica do Papa centra-nos na essência de Deus: Amor! Deus é Amor!
Um Deus que se deixa apaixonar pela obra das Suas mãos, as Suas criaturas: o ser humano, o Seu povo, a humanidade.
Deus que se revela ao seu Povo comparando-se com o noivo apaixonado pela eleita do seu coração (Israel) e que deseja o amor da sua amada. E, mesmo que a amada Lhe seja infiel, isso não desencadeia nEle um processo de justiça ou de humana vingança, mas antes Se fez homem e, por Amor, oferece a Sua vida para conquistar o amor da Sua amada: Nós! Em Deus, mais importante que a justiça, mais importante que a vida de Seu Filho é o Amor pelo Homem e o desejo da sua resposta de Amor. A felicidade de Deus é a conversão do Homem em Amor: “à Sua imagem e semelhança”. Por esse objectivo Deus oferece a Sua vida.
Dizer que Deus é todo-poderoso ou omnipotente é importante; mas, tentar definí-Lo desse modo, ou dizer que é criador, único, fonte de toda a santidade, eterno, … é, ainda assim, referir aspectos secundários. O essencial ficou por dizer.
Durante muito tempo a definição de Deus como Pai, preenchia e satisfazia o meu melhor conceito e definição de Deus: se é meu Pai eu sou Seu filho e, como filho de Deus, eleva a minha dignidade a um nível sobre-humano, ao nível do divino; ser filho de Deus estava, em dignidade, acima de qualquer outro estatuto humano, era superior; Além disso, reconhecer Deus como Pai, era também reconhecê-Lo como Pai do meu semelhante e, portanto, reconhecer no meu semelhante um filho de Deus e um irmão, igual em dignidade, independentemente do seu estatuto ou condição.

Mas dizer que Deus é Amor, é especial! É ir mais à essência e menos ao acessório, ao secundário. Se tentasse definir o Amor, diria que amar é sentir-se feliz por conseguir fazer o outro mais feliz. O Amor procura ser correspondido, mesmo o de Deus. E, quando se sente correspondido, inunda-nos de uma infinita alegria e satisfação interiores: Por isso eu acredito na felicidade de Deus. “Haverá mais alegria nos céus por um pecador que faça penitência…”
Quem já experimentou poder contar com o apoio incondicional de um amigo? Para poder dizer isso de Deus, sentir o Seu Amor, é preciso despirmo-nos do nosso egoísmo, da nossa auto-suficiência, do nosso orgulho e é preciso uma grande dose de humildade e de confiança para nos deixarmos conduzir pela mão de Deus, que é o Seu Amor – que é, afinal, Ele próprio. Eu gostava de sentir profundamente que Deus me ama de uma maneira particular e especial. Sentir-se amado por Deus e confessá-lo será, quanto a mim, o maior acto de fé. E deixar-se conduzir por esse Deus que é Amor é deixarmo-nos “ser imagem e semelhança” dAquele que nos criou e que nos ama.
Talvez seja oportuno, talvez seja urgente, recriar, remodelar, o Credo da Igreja. Talvez hoje não faça tanto sentido dizer-se, por exemplo, “… sentado à direita do Pai”, “… para julgar os vivos e os mortos”, “… na ressurreição da carne”. E como estas questões da Fé se conjugam na 1ª pessoa, que cada um diga em que acredita.
Quanto a mim, talvez pudesse começar assim:
Creio que Deus é Amor. Creio que sou amado por Deus, …


Luís Almeida

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A humildade

"Chegou o momento de reafirmar a importância da oração face ao activismo e ao secularismo que ameaça muitos cristãos empenhados no trabalho caritativo. Obviamente o cristão que reza, não pretende mudar os planos de Deus nem corrigir o que Deus previu; procura, antes, o encontro com o Pai de Jesus Cristo, pedindo-Lhe que esteja presente, com o conforto do seu Espírito, nele e na sua obra. A familiaridade com o Deus pessoal e o abandono à sua vontade impedem a degradação do homem, salvam-no da prisão de doutrinas fanáticas e terroristas. Um comportamento autenticamente religioso evita que o homem se arvore em juiz de Deus, acusando-O de permitir a miséria sem sentir compaixão pelas suas criaturas. Mas, quem pretender lutar contra Deus tomando como ponto de apoio o interesse do homem, sobre quem poderá contar quando a acção humana se demonstrar impotente?"

Este ponto (o ponto 37) da primeira Encíclica do Papa Bento XVI parece-me confuso. A confusão presente neste ponto (tal como no ponto anterior) talvez decorra da incompreensão do conceito de omnipotência divina. É duvidoso que Deus seja omnipotente no sentido humano do termo (até porque, de um ponto de vista humano, tal conceito é logicamente impossível - ver o exemplo que foi dado aqui na semana passada sobre a impossibilidade lógica de Deus criar uma pedra que Ele próprio não consiga levantar).

Deus tem planos e um projecto para o homem. Mas apenas os pode realizar com a ajuda da outra parte, do homem. E, tal como Deus, também o homem pode concretizar os planos e o projecto de Deus (e estes planos e este projecto consistem no caminho para a felicidade do homem) se tiver a ajuda da outra parte, d'Ele.

Bento XVI escreve que "um comportamento autenticamente religioso evita que o homem se arvore em juiz de Deus, acusando-O de permitir a miséria sem sentir compaixão pelas suas criaturas". Sem dúvida. Mas, de um ponto de vista lógico, tal só é possível, compreendendo que uma das supremas manifestações da Sua divindade é o exercício dessa suprema virtude chamada humildade. A humildade de Deus impede que este consiga concretizar os seus planos sem a ajuda do homem.

A última questão deste ponto, embora confusa, deixa uma importante pista: "sobre quem poderá contar quando a acção humana se demonstrar impotente?". A resposta é, indubitavelmente: sobre Deus.

Mas a inversa também é verdadeira.

Na caixa negra em que se forma a vontade. Com a ajuda de Deus.


Timshel (TIMSHEL)

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Boa viagem

1. Olhou para o seu coração de gelo. Percebeu que a morte o tocara desde o início do mundo, e que ele a desejara crescentemente. Sentiu que este desejo se intrincava obscura e essencialmente na sua existência. Era como se o mundo e todas as coisas e épocas se realizassem dentro desse desejo de temporalidade estrita. A confusão instaurou-se no seu pensar-se.

2. A larva desejando-se lagarta odeia-se como larva, inconscientemente; e a lagarta por sua vez desejando-se borboleta etc, conscientemente.

3. O espírito mágico escravizando o espírito científico. A finalidade da tecnologia não é o saber mas o poder, o domínio dos elementos e não o seu conhecimento. Este torna-se instrumento de domínio, secundário. Os instrumentos são substituíveis, desperdiçáveis; neste caso, a verdade torna-se desperdiçável, e a mentira expande a sua força fugaz em ilusões de esplendor. A felicidade associa-se aos electrodomésticos e aos ferraris, às opiniões ilustradas duma falsa democracia e ao conforto sem sentimento nem furor dos lares assépticos. Por outro lado, o domínio tende a destruir o indomável. Em última instância, a vontade de domínio aniquila todos os elementos não integráveis. Não somos pirosos: preferimos os telemóveis às flores.

4. Imaginou-se então espelho vivo em que o mundo se reflectia. O espelho produz a imagem das coisas e estas constituem-no constituindo-se nele. Percebeu que o espelho se desejava puro acto de reflexão, e que tendia a destruir todas as imagens nele reflectidas. Percebeu também que este gesto se traduzia num ataque às coisas, única maneira de anular as imagens destas.
Tornar-se-ia um espelho morto num mundo vazio.

5. Pensou confusamente: A tecnologia dum desejoso de morte é uma tecnologia para a morte, uma actividade dum ser em fuga da sua origem, em direcção a si próprio desligado. Em direcção ao nada. O desvario capitalista do lucro, assim como o desvario político do poder pelo poder, têm aqui a sua causa. Separada da sua origem humana distinta de si, toda a estrutura técnica se fundamenta no seu próprio sistema, e daí retira os seus processos e finalidades. A pá cava buracos em si-própria anulando o solo, ou se preferirmos: Édipo arranca os olhos, ou ainda: Adão e Eva caem em si.

6. Os adultos tornam-se coveiros da sua adolescência. Fixam-se definidos e caem no nada como figos podres. Não passamos de cáries nos dentes da vida.

7. A minha morte ilumina o mundo, repetiu. O mundo não me apareceria se. Este é o inevitável começo. Mas não condiciona o caminho.

8. Larva: cadáver vendo o mundo à luz do seu estado.
Lagarta: cadáver vendo o mundo à luz do seu desejo de vôo.
Borboleta: ser vivo olhando o mundo à luz da plenitude do seu vôo.

9. Qualquer mortal fundamentando-se em si é conduzido pela morte, e para esta dirigido.

10. As imagens são mortas; o acto de as produzir, vida.
O espelho ganha asas e chega às coisas.
Todo o ser dele se convulsionou como uma anémona chicoteada; o odor da flor evola-se no ar, sem a fenecer.

11. Pensava agora, talvez menos confusamente: Quedar-se num fim que não seja infinito como o amor ou a beleza e o terror, é quedar-se imóvel, fora da vida. Nas finalidades finitas, o quantitativo torna-se valor, e nenhum salto qualitativo ocorre, quer-se dizer, nenhum crescimento. Mais carros não são melhorias de transporte, nem mais amantes melhores amores; poluem mais, apenas isso. As tecnologias para a vida visam sempre o infinito; a leitura dum poema é infindável, assim como toda a relação amorosa.

12. Somos a imagem no espelho, mas o espelho não é a imagem em nós. Digamos que a imaginação por vezes supera os limites de quem imagina.

13. Quero ainda mais pirosice que os pirosos, disse ele, quero ainda menos pirosice que os não pirosos. Quero telemóveis em flor.

14. Olhou para os acusadores, os bota-exigências interiores e exteriores que não se implicam na culpa do mundo. E pensou: mas a inocência, acusa alguém? E a culpa, quem senão o próprio a pode assumir? Deixemo-nos de lições de moral, diz o poeta. A ética é uma acção amorosa, não é um colete de legislação. A moral sem metafísica é tão cega como o bom-senso perante a paixão. E, como se sabe também, todo o discurso verdadeiro é interior, e dele brotam actos e estados. Digamos que é anti-ético a fala não implicar o falador.

14. Olhou para o seu coração de fogo. Percebeu que a vida o tocara desde o início do mundo, e que ele a desejara crescentemente. Sentiu que este desejo se intrincava obscura e essencialmente na sua existência. Era como se o mundo e todas as coisas e épocas se realizassem dentro desse desejo de infinito. O delírio instaurou-se no seu pensar-se.

15. Pois então: Amemos, e sejamos belos, amedrontados e confusos. A abrir. Comme aux enfers, comme chez les anges, como flores e borboletas e telemóveis. E boa viagem.


Vítor Mácula (SER CRISTÃO)

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SEMANAS SOCIAIS

Daqui a dois dias começa, em Braga, a Semana Social Portuguesa de 2006, com o tema “Uma Sociedade Criadora de Emprego”. Decorrerá entre os dias 9 e 12 deste mês. Como lá vou estar, conto falar aqui na próxima semana, do que se lá vai debater e discutir.
Entretanto, deixo aqui um pequeno resumo da história deste evento.

As Semanas Sociais, enquanto tal, tiveram origem em Lyon (França) e nascem da vontade de dois leigos católicos, Marius Gonin e Adeodat Boissard, de promoverem, com vista ao quotidiano, o conhecimento e a aplicação prática dos ensinamentos da Igreja em matéria social. Têm como principal motivação o exemplo, surgido uma década antes na Alemanha, do “Curso Social Prático”, também conhecido como "Universidade Popular".
Tiveram lugar, pela primeira vez em 1904, nos primeiros sete dias de Agosto e contaram com a presença de mais de 450 pessoas, excedendo no dobro as expectativas dos organizadores. Do programa constavam temas como a propriedade privada, as instituições rurais (sindicatos, seguradoras, crédito agrícola) e associações profissionais.
Deste modo, as Semanas Sociais pretendiam ir em auxílio de “homens de acção, conselheiros dos centros de estudos, directores de institutos sociais e de obras para a juventude, de sindicatos, sacerdotes e estudantes”. Ao longo dos anos esta estrutura de reflexão com vista à prática foi-se estendendo a grande parte dos países da Europa.
Actualmente, em França, está instituída uma associação das Semanas Sociais, presidida por Michel Camdessus, ex-director do Fundo Monetário Internacional, que se organiza localmente em diversas cidades do país e que durante todo o ano vai organizando actividades em menor escala que preparam o evento anual. Conta também com uma publicação trimestral, “La lettre”, e está acessível em
www.ssf-fr.org.
Na Semana que marcou o centenário, em 2004, Jacques Chirac, na mensagem que fez chegar aos participantes, referiu que “a missão fundamental destes encontros” sempre foi a de “responder a uma questão fundamental: a do sentido do vosso empenhamento, a da responsabilidade do Homem inserido na Cidade, à luz de uma fé que é a vossa. Uma questão profundamente humanista.”

Também em Portugal se efectuou a experiência das Semanas Sociais, por iniciativa da Junta Central da Acção Católica e grandemente impulsionadas pelo Pe. Abel Varzim, que já em 1931, a partir do que vira na Bélgica, afirmava a importância deste tipo de encontros. Houve quatro edições (1940, 1943, 1949 e 1952), mas não tiveram continuidade, sobretudo devido a pressões políticas. Era óbvio que, nessa época por cá, juntar operários, trabalhadores rurais, estudantes universitários e outros a discutir problemas sociais não seria coisa para durar muito tempo.
Em 1969, o episcopado português tentou reatar este modelo de discussão dos grandes problemas sociais, mas só viria a ser levado a cabo, por iniciativa da Comissão Episcopal dos Leigos, em 1991, tendo continuado em 1994, 1997 e 2001.
A ideia é retomada agora, na sequência do desafio que o bispo António Carrilho, actual presidente daquela Comissão fez, há cerca de dois anos, na Assembleia Plenária da Conferência Episcopal, ao propor que se reiniciasse uma reflexão sobre o relançamento das Semanas Sociais, acentuando a necessidade de mobilização das dioceses e a “verificação da importância das Semanas como contributo para a formação da consciência social dos cristãos e para a construção de uma sociedade mais fraterna e solidária”.

Rui Almeida (RUIALME)

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quarta-feira, março 1

 

O Amor gratuito

Também li a encíclica. Se fosse católico, seguramente teria-a lido de forma diferente, a procura de orientação, de acordo com o seu propósito declarado. Não o sendo, tenho consciência que ela não se me dirige. Mas li-a por curiosidade sobre o novo Papa, de como o antigo Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, se exprime agora no seu novo cargo. E como tantos, fiquei agradavelmente surpreendido, o novo Papa soube despir o papel anterior, e em vez de controlar, chamar à disciplina e de excluir, produziu com esta encíclica um documento que visa o contrário, a abertura e a inclusão. O que saúdo muito.

Revejo-me na sua mensagem central: É porque Deus me ama, posso e devo construir uma relação amante para com o mundo.
Apesar de não me ver capaz de afirmar o quer que seja sobre Deus, não me é estranho o Seu amor. Não sei nada nem imagino como se possa saber mais acerca Dele, mas o Seu amor é uma evidência que me calhou, como calha àlguns por sorte, à nascença e foi reforçada pela experiência da vida.

Sem querer negar a legitimidade do autor de escolher o tema e de colocar a énfase nuns aspectos em detrimento de outros, estranhei todavia como a encíclica criteriosamente contorna um aspecto central da doutrina cristã, quase o fazendo esqueçer por completo. Se não fosse indício inignorável a reiteração da necessidade da purificação do amor, em si nada surpreendente no discurso dum Pontifice, mas neste caso estranhamente mal sustentada por uma elaboração antropológica apresentada no texto, essa omissão podia mesmo ter passado despercebido. Conclui o Papa da experiência desumanizante do eros nos ritos de fertilidade, da “prostituição” das respectivas sacerdotizas pela geral ausência de um eros que visa o ser humano enquanto indivíduo nas culturas não bíblicas, em contraste com a sua presença como padrão nas culturas do Livro, para evocar o grande (se)não que a Igreja afecta ao eros. O apresentado não é muito convincente. Lembro só que as hetairas, as prostitutas oficiais na cultura e religião grega, foram entre todas as mulheres as mais respeitadas, livres e influentes, ou seja, mais humanas e pessoas completas. Muito longe da imagem da escrava sexual que é aqui é apresentada. E se eventualmente admito que elas e o seu estatuto sozinho não são contraprova bastante da afirmação de que o eros nem sempre se fez acompanhar da dignidade individual, é incontornável a verdade de que a instrumentalização do eros para fins alheios ao indivíduo foi traço comum de todas as culturas desta época e não só, tanto da grega como da bíblica. Como ao contrário acho, embora admitindo-me aqui sem perícia nestas matérias, que o “amor puro” para com um indivíduo não foi uma invenção da cultura de Moises, mas muito mais velho.

De onde vem então essa sujidade de que o homem tem de limpar-se? Para que essa necessária purificação? Bom, como (ex-)cristão que se lembra dos ensinamentos mais elementares da catequese, esta resposta é mais do que óbvia: Pois advem do pecado original!
Diz o Papa que o Amor que Deus tem para nós é uma “oferta misteriosa e gratuita”. Compreendo esta ideia, que se constroi em torno do espanto e da gratidão de estar vivo - e não a sofrer. Esta sensação que se assemelha à confiança e gratidão da criança que se sabe amado pelos pais, é o fundamento também da minha religiosidade. E é esta gratidão que faz nascer em mim a vontade de retribuir a Graça recebida, faz nascer o desejo de ser boa pessoa. Mas quererá o Papa dizer que nascemos no estado da Graça? O que aprendi na igreja, diz muito o contrário! Pode ser que como envangélico isso me foi ensinado com mais énfase, mas quanto sei, o pecado original é um conceito universal do critianismo. Dou de barato que ele não foi abandonado pelo Papa Bento XVI, mesmo que nesta encíclica não a refere uma única vez, num contexto que para isso convidava.

Eu, que não sou cristão, acho muito bem não focar-se no pecado original, num conceito que já fez muito mal, embora que é de levar muito a sério, como representação duma verdade humana sentida como elementar. Pois o estar perdido, sem remédio e incapaz de se elevar por esforço próprio é uma experiência tão elementar como o estado de Graça da criança que se sabe amada, e infelizmente muito mais frequente. E esta experiência é a outra porta para o sentimento religioso. Ao lado do espanto e da gratidão nas nossas horas claras, há o desejo desesperado de redenção, de salvação nas nossas horas mais negras. Que nós leva a supor que ela existe. Achar necessário que ela existe. E que nos leva a procurar caminhos para alcançá-la. Estes caminhos são diferentes para os católicos e os evangélicos. Como se sabe, para os evangélicos só há a Fé, e mesmo ela não pode nada, sem a Sua Graça. O católico pode e deve fazer algo mais.

Aqui então senti uma lacuna, uma omissão na encíclica. Se realmente o Amor é uma oferta gratuita de Deus, eu posso ser levado a querer de retribuir, e amá-lo a Ele e o meu próximo. Mas farei-o de livre vontade, sem obrigação.
Mas sabemos, e o Papa deixa entendê-lo na encíclica, que na doutrina da Igreja isto não é o caso. Tenho o dever de amar Deus e o meu próximo. E isto é uma diferença de fundo. Pois o Amor assim deixa de ser oferta e gratuito. É condicionado. Exige contrapartidas. É um Trade-off. Não há almoços grátis.
Mas devia haver.

“Recentemente pensei sobre se devia aceitar ou desejar algo de Deus: Irei ponderá-lo muito bem, pois onde passava a ser quem recebe de Deus, ficaria abaixo Dele como o seu criado ou servo; e Ele seria um Senhor através do seu dar; e assim as coisas não deviam estar entre nós no reino do céu.”
Meister Eckhart


Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS)

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O silêncio como forma de expressão do amor?

O ponto 38 da primeira Encíclica do Papa Bento XVI oferece-me algumas dúvidas. Passo a transcrevê-lo para depois expor sumariamente as minhas interrogações.


"É certo que Job pôde lamentar-se com Deus pelo sofrimento, incompreensível e aparentemente injustificado, presente no mundo. Assim se exprime ele na sua dor: «Oh! Se pudesse encontrá-Lo e chegar até ao seu próprio trono! (...) Saberia o que Ele iria responder-me e ouviria o que Ele teria para me dizer. Oporia Ele contra mim o seu grande poder? (...) Por isso, a sua presença me atemoriza; contemplo-O e tremo diante d'Ele. Deus enervou o meu coração, o Omnipotente encheu-me de terror» (23, 3.5-6. 15-16). Muitas vezes não nos é concedido saber o motivo pelo qual Deus retém o seu braço, em vez de intervir. Aliás Ele não nos impede sequer de gritar, como Jesus na cruz: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste? » (Mt 27, 46). Num diálogo orante, havemos de lançar-Lhe em rosto esta pergunta: « Até quando esperarás, Senhor, Tu que és santo e verdadeiro?» (Ap 6, 10). Santo Agostinho dá a este nosso sofrimento a resposta da fé: «Si comprehendis, non est Deus – se O compreendesses, não seria Deus». O nosso protesto não quer desafiar a Deus, nem insinuar n'Ele a presença de erro, fraqueza ou indiferença. Para o crente, não é possível pensar que Ele seja impotente, ou então que «esteja a dormir» (cf. 1 Re 18, 27). Antes, a verdade é que até mesmo o nosso clamor constitui, como na boca de Jesus na cruz, o modo extremo e mais profundo de afirmar a nossa fé no seu poder soberano. Na realidade, os cristãos continuam a crer, não obstante todas as incompreensões e confusões do mundo circunstante, «na bondade de Deus e no seu amor pelos homens» (Tt 3, 4). Apesar de estarem imersos como os outros homens na complexidade dramática das vicissitudes da história, eles permanecem inabaláveis na certeza de que Deus é Pai e nos ama, ainda que o seu silêncio seja incompreensível para nós."

O problema do sofrimento aparentemente injustificado existe e, pessoalmente, penso que nada pode legitimá-lo. O facto de ele parecer ser incompreensível não é uma razão para que eu não faça (ou não tente fazer) uso da razão que Deus me concedeu. Ora essa razão diz-me que o conceito de omnipotência tal como ele é compreendido pelos humanos é logicamente impossível (o exemplo clássico que é dado é o facto de Deus ser incapaz de criar uma pedra que Ele próprio não consiga levantar).

Dificilmente é compatível com a ideia de um Deus que é Amor a ideia de um Deus omnipotente que criou também o sofrimento. Porque existe sofrimento totalmente injustificado: de entre vários exemplos, basta citar certas doenças infantis que conduzem necessariamente à morte no meio do maior sofrimento.

Um Deus incompreensível no seu comportamento com os homens é o "Deus" dos ateus.

Nem concordo com a mistura entre erro, fraqueza e indiferença no quadro dos atributos que não são inerentes a Deus. Se não acredito que Deus erre, e muito menos que seja indiferente, já associo a fraqueza (ou certos tipos de fraqueza) a uma virtude e não a um defeito. Acreditaria mais facilmente num Deus omni(m)potente que num Deus omnipotente.

Já estou sim inteiramente de acordo com o Papa quando diz que "os cristãos continuam a crer, não obstante todas as incompreensões e confusões do mundo circunstante, «na bondade de Deus e no seu amor pelos homens»".

Mas a última frase deste ponto é enigmática. Diz o Papa que, os cristãos "apesar de estarem imersos como os outros homens na complexidade dramática das vicissitudes da história, eles permanecem inabaláveis na certeza de que Deus é Pai e nos ama, ainda que o seu silêncio seja incompreensível para nós." Ainda que.


Timshel (TIMSHEL)

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Os pecados de ódio

Em Junho do ano passado, a propósito da admissão ou não à celebração da Eucaristia, coloquei aqui uma espécie de exercícios de casuística. Um deles era: «Um grupo de jovens (ou menos jovens...) de uma cidade com valores morais mais conservadores, organiza-se em locais que sabem ser de encontro de homossexuais, para os atacar e agredir. Fazem alarde da "proeza" e, portanto, é do conhecimento geral. Poderão ser admitidos à comunhão eucarística?».

Retomo a questão no momento em que se fala de acrescentar ao elenco dos "crimes de ódio" aqueles de motivações homófobas, porque me parece que a posição da Igreja, não só através daqueles com maior responsabilidade, mas de todos os cristãos, poderá ajudar a atacar as raízes desse tipo de crimes.
O pecado surge antes do crime. Diz Jesus que "todo aquele que se encolerizar contra o se u irmão terá de responder no tribunal; aquele que chamar ao seu irmão 'Cretino!' estará sujeito ao julgamento do Sinédrio; aquele que lhe chamar 'Louco' terá de responder na geena de fogo" (Mt 5, 22). Ou seja: há uma responsabilidade individual em relação aos próprios sentimentos, uma necessidade de permanente exercício de conversão. Porque é sempre mais fácil alimentar o ódio do que olhar para o outro como idêntico a nós.
As grandes manifestações de ódio revelam-se na exaltação das diferenças, sobretudo como motivo de afirmação de superioridade. Muitas vezes a exaltação obsessiva e até a distorção de determinados pontos da doutrina da Igreja potenciam a criação de preconceitos geradores de ódio. A história dos cristãos está cheia de exemplos disso e só nos faz bem termos consciência desses erros.

A Igreja tem que ajudar a contrariar esses sinais de ódio sobretudo através do testemunho. Temos que saber distinguir o pecado do pecador. Temos que prever o alcance daquilo que dizemos e fazemos para que não seja entendido como pretexto para a violência. Temos que promover o aprofundamento das nossas convicções, com bases seguras e firmadas na inteligência e no amor. Temos que clarificar, nas nossas comunidades, se achamos correcto celebrar a Eucaristia juntamente com quem age, motivado pelo ódio, contra o vizinho do lado, contra os de outras convicções, contra os de outros clubes, contra homossexuais ou outro qualquer grupo ou modo de agir ou pensar.
Também por isto passa a vontade da Igreja de humanizar a sociedade, de que falava o Cardeal-Patriarca na sua mensagem do Natal do ano passado.


Rui Almeida (RUIALME)

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