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quarta-feira, fevereiro 1

 

Por uma Igreja dialogante

Se há urgências sentidas por todos os sectores da Igreja, uma delas é a necessidade de encontrar fórmulas de reatar o diálogo com o mundo contemporâneo. É palpável a sensação de que estamos encalhados numa conversa de surdos. É só um problema de linguagem (este "só" é pura ironia...)? É uma questão de diferentes cosmovisões inconciliáveis? É um drama irremediável?
O conceito de diálogo é incontornável quando consideramos o relacionamento da Igreja com a realidade social em que concretamente se integra, embora não deixe de ser verdade que falar de diálogo é muito diferente do acto de dialogar. Falar de diálogo é um exercício unilateral; dialogar exige encontro com um interlocutor, o que pede, à partida, uma postura não dogmática e uma abertura à diferença.
A nível eclesial, parece ser mais ou menos consensual a necessidade de diálogo. Mas a concretização do mesmo enferma ainda, muito frequentemente, de algumas posturas que o comprometem à partida, como um dogmatismo exagerado, uma inflexibilidade do discurso, um desfazamento de linguagem ou um paternalismo inconveniente.
Para um sadio e fecundo diálogo com o mundo de hoje, a Igreja tem de começar por dar atenção à sua própria postura e à imagem que transmite aos interlocutores. "O diálogo é a expressão dum acto de reverência pela liberdade, na sociedade, de pessoas e instituições. Não é desinteresse ou indiferença. Diálogo inclui solicitude, empenho, vontade de esclarecer...". Ou seja, exige respeito pelo outro e humildade.
A Declaração Conciliar Dignitatis Humanae, sobre a liberdade religiosa, definiu de forma feliz a atitude desejável para o diálogo inter-religioso. Não é descabido retomar algumas das idéias aí expostas para as aplicar ao relacionamento da Igreja com o mundo em geral.

Em primeiro lugar é preciso reconhecer uma sociedade formada de pessoas livres e iguais, onde o valor fundamental e base para todo o diálogo é a própria dignidade humana.
A Igreja não é chamada a controlar os dinamismos sociais, mas a participar, de forma construtiva, na evolução desses mesmos dinamismos. O âmbito natural para este diálogo é o pluralismo, donde se parte para uma nova compreensão das relações globais entre a Igreja, o Estado e a sociedade.
A solução encontrada na Dignitatis Humanae para a questão da liberdade religiosa, acabou por definir um sistema de parâmetros para a Igreja se situar e intervir em situações de pluralismo que me parecem de grande utilidade quando se trata de preparar o diálogo:

  1. Primado da verdade. O empenho da Igreja no diálogo e a entrada nele em plano de igualdade com outros, não se resolve em nenhum tipo de indiferentismo ou relativismo, nem inibe a Igreja de manifestar com firmeza as suas convicções ou de propôr verdades que, no seu entendimento, não estão sujeitas às oscilações pluralistas. Convém, no entanto, ter muito claro que, embora seja "mestra da verdade" em matérias que têm a ver com o depósito da fé que lhe cabe guardar, esse título não é aplicável a muitas outras questões passíveis de serem objecto de diálogo. Não nos esqueçamos que, muitas vezes, é apontada à Igreja uma certa arrogância, precisamente por existir alguma dificuldade na definição dessa fronteira. A humildade pode e deve marcar o tom das intervenções eclesiais.
  2. Liberdade pessoal. A liberdade da pessoa humana é o valor primeiro que merece incondicional respeito. E não vale tentar dar "voltas ao texto": não é exigível aos não crentes que restrinjam o seu conceito de liberdade à concepção cristã da mesma. Importa, isso sim, encontrar patamares comuns que, aliás, existem. Num contexto pluralista, este é um critério imprescindível para a credibilidade da voz da Igreja. Isto implica respeito pelas opiniões e opções diferentes, mesmo quando não se coadunam com os critérios que a Igreja propõe. Apostar no diálogo exige uma profissão de fé na verdade, tendo claro que ela "não se impõe de outro modo senão pela sua própria força".
  3. Receptividade. O diálogo deve ser verdadeiramente aberto ao questionamento próprio por parte da Igreja, dispondo-se, ela mesma a ser transformada neste processo, na recepção das aportações que os outros interlocutores lhe propõem, quando isso não ponha em causa aquilo que é essencial à sua própria natureza.

Posta a questão assim, importa perguntar: como tem sido o diálogo da Igreja com o mundo em que vivemos? E até que ponto esse diálogo se cultiva internamente?

Manuel Vieira (NO ADRO)

Comments:
será o chamado "diálogo de surdos"?
 
Caro Manuel.

Como o tempo me aperta, venho tão só dizer que este teu (ou seu? passo a vida a esquecer os net-tratamentos em vigor ;) acerca da dialogalidade é muito interpelante, tanto a nível teológico (ah Trindade!) como a nível prático (ah Amor!) como a nível pastoral (ah funcionalismo!) assim como a nível socio-cultural (ah multiculturalismo!)

Caramba, são muitos níveis!

Abraço!
 
Caro Vítor,
Pois säo... säo muitos níveis. E todos eles importam.
E o net-tratamento em vigor por estas bandas é "TU", naturalmente!
Abraço
 
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