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quarta-feira, fevereiro 1

 

O teólogo

Olhou para a cebola que lhe enchia a mão como uma palavra reflectida preenche um acto. Não, não a compreendia. A sua mão quieta tentava sentir a cebola. Mas não, nenhum pulsar lhe acudia à pele. A cebola imobilizava-lhe a mão como um esquecimento bloqueia um discurso. Era estranho. Difícil de apreender. Como algo sendo sem nada ser. Nem miragem nem sonho. Algo indeterminado pedindo definição, um orgão imóvel clamando estímulos. Tão estranho como uma foto do seu rosto futuro ainda por revelar.
Como é costume quando se tem uma cebola na mão, na outra estava uma faca. Uma faca que ele aproximou da cebola. Esta não reagiu, estava cega, como o bêbedo que se aproxima do precipício, o animal da ratoeira. Quase tanto como eu, disse ele, e cravou a lâmina na cebola. Uma tira da primeira camada soltou-se da cebola, ficou um momento presa à lâmina da faca e desprendeu-se rodopiando até ao chão. Descascou mais uma tira, e outra, e ainda outra, e mais uma, e parou. Não percebia bem o que estava a fazer. Era um gesto banal, costumeiro, já o fizera muitas vezes e tantas outras vira outros fazê-lo. Mas sempre com sentido, na cozinha, confeccionando um prato. Não era esse o caso naquele momento. Ali, naquela enigmática situação, o que ele queria era comunicar com a cebola, que ela com ele comunicasse. Era como se perguntasse à cebola: Quem és tu?, e isto sem lhe perguntar: Para que serves? Curiosamente, a faca não lhe suscitava interrogação. Mas a cebola, da cebola ele algo queria saber, algo que não apenas o seu sabor.
Convicto que aquele desajustado gesto lhe mostraria o que fazer para comunicar com a cebola, continuou a descascá-la. Porque sempre era um gesto de contacto com a cebola, e não tinha mais nada por onde começar, não fazia a mínima ideia de como se falava a uma cebola. Ela haveria de reagir, dar um sinal qualquer ao seu contacto, era essa a sua esperança. E então descascava a cebola, à medida que os seus olhos se enchiam de lágrimas, fungando cada vez mais do nariz, quase espirrando continuava a descascar a cebola.
Devia ser uma cebola especial. A cebola das cebolas. Pois o chão enchia-se de tiras da cebola, um monte que crescia bem para além do tamanho da cebola. Um monte que crescia à sua volta e ameaçava soterrá-lo se ele não fosse mudando de lugar sempre que o monte lhe chegava à cintura. E cego ficava ele. Cego de lágrimas e ranho e espirros e tosse. Teve de instaurar paragens, pequenos pontos de descanso como quem faz uma longa caminhada. Paragens cujo único significado é o de poder-se continuar, sem parar, até à meta. Neste caso, a desconhecida meta: a gramática da cebola.
É possível que nestes intervalos para descanso, pessoas lhe aparecessem. Amigos, inimigos, indiferentes, familiares, sabe-se lá. E que muito provavelmente lhe dissessem que estava doido, que aquilo era uma perca de mente e de acção. Que pensasse bem, algum equívoco se infiltrara na sua compreensão de si. Até porque nunca mais com nenhum deles convivera, desde que se lhe enfiara na cabeça comunicar com aquela cebola. E é certo que, assim sendo, ele teria replicado: Que sabem vocês disto? Vocês não são cebolas!
O certo também é que continuou a sua talvez infinda tarefa, chorando e pausando e comendo e dormindo apenas o necessário. Até ao dia em que algo aconteceu. Não numa pausa, mas num momento de descasque. Ouviu um ploc!, quase inaudível. Um pequeno ploc!, muito distinto do chteít! do descasque. Parou imediatamente, de ouvidos em riste, naquele silêncio peculiarmente significante que se instaura depois de um som. Pousou a cebola no chão. Da sua direita, fôra o que lhe parecera, um pouco atrás de si à sua direita. Cautelosamente avançou para lá, ansioso e vagarosamente. E lá estava, mesmo no topo dum monte de tiras da cebola, lá estava como que triunfante, pousado no monte, pequeno como uma timidez lá estava, como que olhando para ele: um dente de alho.
Ele sorriu.
Não, não choviam dentes de alho do tecto da sua casa, nunca na vida. Aquilo só podia ser uma palavra da cebola, um gesto qualquer, um trejeito no olhar.
Pegou no dente de alho, cuidadosamente. Olhou para a cebola. Voltou a sorrir, e disse então: Tu e eu, temos a boca cheia de pouco.
E começou, lentamente, a descascar o dente de alho.


Vítor Mácula (
SER CRISTÃO)
Comments:
Vou estar muito mais atenta quando pegar numa cebola. Sabes que já peguei muitas vezes numa, para que as lágrimas viessem?
 
Alô, MC.

Ou até em qualquer outra coisa. Todas as coisas falam e cantam e silenciam - e olham-nos terrivelmente.

Essa das lágrimas ainda ma hás de explicar... Isso funciona, quero dizer, para além do lado fisiológico? :)

Abraço.
 
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