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quarta-feira, fevereiro 15

 

O mundo

Era como que um vazio em seu redor, não um vazio de não haver lugar ou coisas em redor mas como se este não o envolvesse, era como não estar ali, respirou fundo e sacudiu a cabeça, merda, não era aquilo que queria, não era aquilo que previra, e sobretudo, era precisamente o contrário do que precisava agora, uma pequena luz, um pequeno ponto, porra, sim um pequeno ponto onde o estar se fixasse reunindo o momento, fôra para isso que se preparara, que trabalhara e pensara e experimentara, e até momentos em que investira realmente, quer-se dizer obscuramente, com confiança cega, fôra para isso, para saber concentrar-se sobre si próprio em qualquer momento ou lugar, e agora apercebia-se que algo de logro havia ali, qualquer coisa que a imaginação havia posto por preguiça da execução, era muito simples, tirado o lugar, era como se ele se retirasse de si-próprio, e nada ficava para dizer, fazer, sentir; nada ficava para actuar.
Retirou-se do presente ou sua ausência, e pousou-se alhures, à volta dele o completo burburinho e agitação, faltavam poucos minutos para o espectáculo começar, muitos dos actores e functores se preparavam e se enervavam e apoiavam ou descontraíam, produzindo a energia necessária para a tensão teatral, o momento das preparações já passara, agora tratava-se da arena, mesmo agora e ele olhando e nem sequer ali com os outros se sentia estar, porra, qualquer coisa desaparecera ou alguma falta fôra revelada pelo arrepio do logro, aaaaaah quase que gritou mas não, levantou-se e que ninguém lhe dissesse nada, era o primeiro a entrar em cena e levantou-se, e se alguém lhe dissesse algo atirar-lhe-ia a primeira palavra exigente que encontrasse à tromba, atirar-lha-ia não ali mas apenas na verdade, o que às vezes nem se nota, mas de qualquer modo não, sempre era melhor não, os actos verdadeiros têm consequências tenebrosas e inelutáveis, mesmo quando não se notam.
Pensou passar despercebido atravessando o tecido dos outros, e entrou em cena, sentiu o público ali no escuro ao fundo e suas infalíveis tosses de início de espectáculo, executou os supostos gestos mais ou menos coreografados, ainda tentou que aquele instante o reunisse, o concentrasse, enfim, o pusesse apto a preencher lugar e poder actuar mas nada, nada de nada, embora se ouvisse um riso ou outro na plateia como todas as noites, mas isso nada confirmava ou revelava, a maioria deles não vê nada, são como nós, geralmente distraídos e querendo está-lo, aliás é para isso que se vai ao teatro.
Dirigiu-se para o microfone no fundo do palco, executar as marcações ainda era o mais fácil, pelo menos por enquanto, a luz do follow-spot acompanhou-o na sua marcação também ela ou quem por detrás, tudo escorreito, fácil, até as supostas frases lhe saíram bem provocando as supostas embora sempre diferentes reacções, foram entrando em cena os outros bem ou mal mas como marcado, no outro microfone começaram-se a debitar frases, deixas que se queriam agarradas e o espectáculo decorria.
Saiu de cena como marcado, e por trás da cortina quedou-se, como nas outras noites.
Não, havia ali qualquer coisa que não batia certo. Espreitou para a cena. Ali estavam eles. Os outros. Os que ele conhecia. E que amava. Sem dúvida, mesmo aqueles de quem não gostava. Não era um grupo qualquer, a malta tinha começado do nada, sem nada, a não ser uns e outros. Mais a vontade, o trabalho, os momentos de desânimo. Essas coisas. Ninguém fica indiferente a essas porras. É uma história conhecida, há até quem manipule povos inteiros com esse conhecimento.
Lembrou-se de conversas e silêncios, de investimentos artísticos em que se tentou unir o obscuro e inconsciente ao rigor e à contenção, lembrou-se de momentos de contracenação em que se sente que a superfície do outro se abre para rasgar a nossa e tudo corre como se deus nos inspirasse, lembrou-se de ideias arrancadas e oferecidas, desejadas e violentadas e semeadas, lembrou-se de ter dito que não lhe interessava ser actor nem performer nem sequer artista mas sim injectar poesia nas veias e nesse gesto constituir momentos de ruptura com o tempo vivido, estacá-lo em intensidade, e claro que estava a falar de cá e de lá, lembrou-se tão bem que estava a falar da maravilhosa banalidade, e lembrou-se de copos e risos e raivas e crescimentos, lembrou-se de tudo como que em bloco e avalanche confusa e emocionou-se, como quem está deprimido e chora a ver uma comédia.
E que algo estava errado, era isso, e não eram os outros, pelo menos não pareciam enquanto os olhava, pareciam na mesma, executavam o espectáculo como sempre os vira, uns pior e outros melhor do que ontem, como sempre no teatro e no resto.
O mundo está cheio de girassóis nocturnos, daqueles que não sabem que basta atingir corajosamente o dia para entrar em si no sol como dezenas de batalhões num copo de água e aí caberem inteiros e repletos, girassóis como ele ou eu e talvez tu, que falamos, e falais, e falam, e escrevendo textos como este ou espectáculos como aquele, e trabalhando e produzindo-se e vivendo de subsídios ou ordenados e de admirações mútuas e concatenações afectuosas, girassóis que vivem como se fossem rosas ou pior ainda, como se na nossa noite habitasse o sol.
Bem, talvez estivesse mesmo a ver mal a coisa, e aquilo não ter nada a ver com ele nem com os outros nem com o espectáculo ou com o mundo, mas enfim, que se pode fazer, estamos todos em nós-próprios e pouco mais, o mesmo é dizer que falta pouco para estarmos todos lixados - isto se ele não estiver a ver mal a coisa - e no entanto, dá ideia que é preciso ou possível fazer alguma coisa.
E chegou o momento, ia entrar em cena, como marcado, e tornou-se-lhe claro, claro como escura era a sua confusão, que é que vocês querem, ele tinha tido matemática no liceu, ainda sabia o que resultava da conjunção de dois negativos. E entrou em cena, os outros talvez o achassem estranho, mas não, obviamente que não, só somos estranhos aos olhos de desconhecidos ou de nós-próprios, nunca aos olhos dos amigos.
Atravessou o palco na diagonal e pôs-se à boca de cena, parado.
Fechou os olhos e tentou sentir-se, sentir-se para tentar apreender nem que fosse o mínimo estremecimento, o mais fraco apetecimento, e qualquer coisa lhe surgiu, não direi que brotou mas ao de leve assomou, indefinido mas suficiente, era pouco, apenas uma vontade de ter um gesto de ternura com outro dos actores.
Já não era nada.
Abriu os olhos e procurou-o. Sim, ali estava ele, do outro lado do palco, um pouco na expectativa como os outros, enfim, não era bem aquilo que estava marcado. E então ele voltou a atravessar o palco, em direcção ao outro, já esquecido de tudo a não ser da conjunção de negativos e da evanescente ternura que continha como a última gota de água dum moribundo no deserto, e postou-se frente ao outro. E não fez nada, absolutamente nada, ficou ali, apenas, olhando o outro sem sequer estar à espera ou não, olhando-o como se se suspendesse no bordo dum prédio e se balouçasse e isto tudo sem sair da cama, e murmurou:
- Então e nós?...
E saiu de cena, ou caiu do palco, ou simplesmente desmaiou.
Felizmente, não eram precisos nem aplausos finais nem tosses iniciais. Aquilo já ainda não era teatro.

Vítor Mácula (
SER CRISTÃO)

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