<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, fevereiro 15

 

O desafio do fragmento

A grande dificuldade que se põe ao diálogo da Igreja com o mundo actual é a própria "pulverização" do interlocutor. A sociedade não pode ser encarada como um todo, como se as respostas dadas a determinados sectores pudessem, sem mais, ser aplicadas aos outros. A história coloca-nos, neste momento, diante de um interlocutor plural, de múltiplas sensibilidades, com gosto pela mudança, onde as respostas globais são contestadas, as verdades relativizadas e os consensos desvalorizados.
Muitos autores chamaram a este tempo pós-modernidade.
A pós-modernidade é um ajuste de contas com a modernidade. Não só se recusa um estilo de pensamento, mas também um estilo de vida. Pretende-se, com a superação de uma concepção de razão, uma sociedade e um homem diferentes. Nesta linha, podemos distinguir três traços principais do pensamento da pós-modernidade:


· É um pensamento da fruição. Opõe-se ao funcionalismo dominante da modernidade. Postula uma atitude vital, traduzida num estilo de vida que passa pela recusa radical da instrumentalização da razão e da própria vida e pela afirmação do vivido em cada momento, sem ordem a nenhum fim.
· É um pensamento da contaminação. Supõe uma abertura radical aos jogos de linguagem que a cultura e saber actuais nos oferecem a partir da ciência, da técnica, da arte e dos mass-média. Encontramos o “homem vagabundo”, a viver situações em que não há princípios nem critérios fixos ou definitivos.
· É um pensamento do mundo e da técnica moderna, correspondendo a uma situação de relativa segurança que a existência individual e social atingiram em virtude da organização social e do desenvolvimento técnico.

O projecto pós-moderno passa, pois, por uma estetização geral da vida que conduz a uma sociedade da simulação. Para isso têm fundamental importância os Meios de Comunicação. O indivíduo perde a noção da realidade histórica, que lhe chega fragmentada e afastada da realidade. Não há sentido nem consciência. Esta situação faz perder as referências e incapacita para a recuperação reflexiva dos acontecimentos. Vive-se na incerteza radical sobre a verdade, sobre a realidade objectiva dos factos.
Neste contexto, ganha forma a sociedade do ‘politeísmo’ de valores, onde não há valores absolutos nem verdades vinculantes, fazendo assim adivinhar o ocaso da ética que, não encontrando fundamentos estáveis e universais, se dilui no relativismo personalista. Nesta sociedade onde a ética deu lugar à estética, cai-se numa nova revolução individualista, onde o actor social se dilui para dar lugar ao egoísta ilustrado, visto como a raíz de um “individualismo democrático”.
O homem hodierno, apelando à despedida de todo o fundamento e à desmistificação da realidade global, opõe-se, naturalmente, a todas as tentativas que buscam um sentido e uma explicação para a globalidade das coisas. Nesse sentido é também uma forma de ateísmo niilista. E um niilismo positivo, aceitando, simplesmente que já não há valores absolutos. E aqui não cabe, evidentemente, uma mensagem cristã, apresentada como resposta global aos anseios dos homens, por uma Igreja vista como monolítica e fossilizada. O que não quer dizer que não cabe ‘um Deus’. Simplesmente, para a aceitação desse Deus, exige-se que Ele se dispa dos seus atributos absolutos, permanentes e se misture no relativismo flutuante da pós-modernidade, encaixando-se assim numa religiosidade sincrética, volátil e pseudo-mística tão ao gosto da sensibilidade actual.
Este pensamento é a expressão de uma época amante do fragmento, da diferença, com o acento posto na subjectividade. Mas o desencantamento da razão dos pós-modernos é também uma forma de defesa do mistério e de resistência perante a mentalidade metafísica objectivista própria da cultura moderna. Acaba, por isso, por desembocar nas atitudes quase místicas já referidas. A relatividade de todo o discurso termina numa entrega confiada, conceptualmente silenciosa perante cada coisa, para honrar o mistério que se abre nela. Há mesmo uma certa ‘fidelidade’ ao mistério. Esta concepção que deixa uma porta aberta ao inefável, ao transcendente, desemboca no primado que é reconhecido à experiência: o pensamento pós-moderno parece dizer-nos que perante o problema da realidade, da vida do homem, do ser, mais que pensar e conceptualizar, é importante experimentar. Ora, é precisamente aqui que pode haver um ponto de contacto com o campo da fé: também aí há uma preeminência da vida da fé sobre a teorização da mesma. Aí, onde o logos termina, pode avançar o Espírito.
A actualidade contém outros sinais muito positivos, que é preciso valorizar. Há uma grande sensibilidade às ideias de solidariedade e de justiça, embora muitas vezes expressa de forma incoerente e inconsequente. Há um evidente progresso civilizacional no respeito pela dignidade da pessoa e uma cultura da tolerância e do respeito pela diferença que, quando não afunilados por perspectivas redutoras, são valores partilhados pela tradição cristã e âmbitos excelentes de relação e diálogo.
Sendo assim, a Igreja não está condenada ao pessimismo nem ao entrincheiramento que alguns parecem defender, no que toca ao diálogo com o mundo de hoje. Não pode é fazer "ouvidos de mercador" ao espírito do tempo e querer continuar a ser ouvida como "Mãe e Mestra" da verdade, mesmo quando se pronuncia sobre matérias claramente temporais.
O tempo do "fragmento" continua tão sedento de esperança e de sentido como todas as épocas da história. A diferença é que, em vez de mestres, aceita e respeita companheiros de caminho.


Manuel Vieira (NO ADRO)

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?