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quarta-feira, fevereiro 8

 

A metamorfose do Sagrado

Num texto aqui publicado na passada semana, abordava os parâmetros imprescindíveis para o diálogo da Igreja com o mundo contemporâneo. Para um melhor enquadramento do tema, parece-me útil tentar perceber como chegámos à encruzilhada em que nos encontramos.
As mudanças sociais, culturais e políticas do mundo ocidental ao longo dos últimos duzentos e cinquenta anos têm conduzido a uma progressiva secularização. Este fenómeno está intimamente relacionado com aquilo que Martin Velasco refere como "metamorfose do sagrado": o que diz respeito à vigência e relevância do factor religioso na sociedade e na cultura.
Na sensibilidade pós-moderna, este processo ganha novos contornos que se podem resumir em quatro aspectos principais:


  1. Perda de relevância cultural do factor religioso. De uma situação em que o sistema de crenças e de valores religiosos formavam parte importante das diversas concepções sociais e culturais, passou-se a uma situação em que o factor religioso é menosprezado, quando não totalmente ignorado.
  2. A redução social do espaço religioso. Há uma acentuada tendência para reduzir a religião à esfera do culto e da vida privada.
  3. Relativização. De uma situação em que o factor religioso exercia o monopólio do sentido e do valor da vida, passou-se a um inquestionável pluralismo em que os valores religiosos coexistem com outros valores e se reduzem a uma opção pessoal e ao âmbito da consciência.
  4. Perda de influência da Igreja. Notória, em primeiro lugar nos terrenos político, económico e cultural e, cada vez mais, na vida quotidiana dos cidadãos.

Esta secularização é acompanhada de uma crise das práticas e das instituições religiosas em geral e da Igreja Católica em particular. Há uma crise das crenças que conduz a uma progressiva emancipação dos crentes em relação à ortodoxia, tomando como quase irrelevantes as directrizes e opiniões da Igreja. Ao abandono da prática religiosa, junta-se um crescente distanciamento entre a moral oficial da Igreja e os critérios e práticas das pessoas, sobretudo em certas áreas como a familiar, sexual ou social.
A secularização e a crise da religião geram um facto novo: a crise da socialização religiosa e a ruptura da tradição, com a consequente perda da memória cristã. Este processo faz alastrar a indiferença religiosa que, simplesmente, remete o factor religioso para uma existência virtual. No diálogo que pretende manter com o presente histórico, a Igreja não pode menosprezar esta alteração da forma como o próprio mundo vê a Igreja.
Confrontada com a inevitabilidade das profundas alterações que este quadro põe à forma de a Igreja se apresentar no mundo, têm sido ensaiadas algumas respostas que, a meu ver, em nada ajudam o desejado diálogo:

  1. Quando a situação é encarada como um perigo para a própria identidade, a resposta aparece sob a forma de "entrincheiramento cognitivo", para usar a expressão de Berger, que leva à alienação e à busca obsessiva da própria identidade. Este tipo de resposta pode assumir duas formas opostas, mas igualmente perigosas: o 'gheto' ou a 'cruzada'. Ambas supõem um certo tipo de fundamentalismo e ambas comprometem irremediavelmente o diálogo.
  2. Há também respostas de sinal contrário, a que Velasco chamou "negociação cognitiva": envereda-se por adaptações da própria identidade, numa tentativa de inserção nas novas coordenadas culturais. Quando esta "negociação" não se auto-limita, produz-se uma escalada que desemboca na "rendição cognitiva", ou seja, na dissolução da própria identidade.

Um perigo acrescido surge quando estas duas respostas se tentam justificar acusando os excessos da outra, tornando-se, elas próprias, num factor da crise.
Neste contexto, qualquer tentativa séria de mudança de atitude implica uma profunda revisão interna e uma vontade firme de mudança, sem perder pelo caminho a herança do Nazareno.

Manuel Vieira (NO ADRO)

Comments:
... só para dizer que continuo atento aos teus posts que espero que continuem a tratar esta temática, uma das mais pertinentes, na minha opinião, porque são precisas manutenções e mudanças e porque a natureza de tais manutenções e mudanças não são muito fáceis de determinar... abraço
 
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