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quarta-feira, fevereiro 15

 

Looney toons, holy cows

É sempre interessante assistir à Nação Portuguesa a dar largas ao seu verbo copioso sempre que alguma situação inflama a nossa inflamável veia retórica. Desta vez vai por aí uma encarniçada polémica a propósito duns cartoons satânicos publicados no reino da Dinamarca, e da mediática reacção ao retardador que estes suscitaram no Islão, sobretudo no mundo árabe, sempre tão susceptível, sempre tão ansioso por ser afrontado.
Enquanto a umma, ou pelo menos a sua parte mais ruidosa, vai rasgando as suas vestes sempre que aparece uma câmara de filmar, a Europa redescobre incomodada que é capaz de ter aí um problema sério, para além daqueles de que falamos todos os dias: o modelo social europeu, a directiva Bolkenstein, os efeitos do alargamento, as deslocalizações das fontes económicas e outras coisas afins. É certo que houve o 11 de Março e o 7 de Julho mas quando parecia termos já arrumado esses medos no armário, eis que surge agora o ribombar tonitruante da fúria do Islão, e por uma coisinha de nada, que nunca suporíamos que ofendesse aquela gente irascível. E, tipicamente, em vez de olharmos com mais atenção para o que vai na alma do Islão, pois melhor será não nos pormos a imaginar desgraças, e em vez de bombardearmos aquilo preventivamente, pois isto aqui não é o Texas, nós europeus pômo-nos a discutir sobre nós próprios. Discutimos então a liberdade de imprensa e os seus limites, a nossa relação com o sagrado e o profano, o laicismo e a religião, o modelo multi-cultural, as nossas culpas passadas, presentes e futuras.
O Islão parece assistir irritado a isto e já governos autoritários como o da Síria procuram canalizar para Ocidente o descontentamento endémico da sua população. Os Estados Unidos, esses, assistem divertidos a esta súbita aflição europeia e aproveitam para agravar o nosso caso, deixando também entender que, como sempre, continuamos a precisar deles.
E se a Europa parece ter-se tornado, por estes dias, numa enorme junta médica à procura de diagnosticar em si própria a doença através de sintomas que surgem nos outros, já Portugal, esse paraíso da eloquência latina, parece um café onde, com a televisão ligada a passar imagens de turbas enlouquecidas em lugares recônditos, todos nós, jornais, blogues, políticos, transeuntes, damos gostosamente largas ao nosso gosto pela polémica. E digo gostosamente por que todos intuímos que, estando nós aqui ao cantinho da Europa e sendo nós totalmente irrelevantes, não há-de ser aqui que a coisa vai bater para já pois há muita porta a bater antes da nossa. Basta é ter juizinho e não fazer como os Dinamarqueses.
Livres pois de preocupações imediatas, discutimos profusamente, galhardamente. E nessa discussão acesa consigo distinguir já duas posições antagónicas, hostis, encarniçadas. Uma é a daqueles que acham absurda e preocupante a violência que esta questão tem suscitado no mundo islâmico e que a liberdade de imprensa é um valor sagrado que a civilização europeia ofereceu à civilização universal, devendo embora ser execida com responsabilidade e com respeito pelo Outro, pela sua identidade e valores que deveremos procurar conhecer e compreender. A outra é a de que a liberdade de expressão é um valor tão importante como o respeito pelo Outro, pelo que deverá ser exercida com responsabilidade e cuidado, sem prejuízo de considerar que as manifestações de violência são sempre inaceitáveis e indesculpáveis embora possam ser compreensíveis. Como é fácil de ver, trata-se duma contradição insanável entre posições antagónicas e irredutíveis... Temos pois aí a polémica instalada para meses, a menos que surja algo de mais interessante entretanto.
Já nesta discussão, muito mais de grau do que de espécie, se insinuou a inefável dicotomia esquerda-direita, embora com contornos inabituais. Já todas as religiões e Igrejas com porta para a rua, já deram a sua prudente achega, prevenindo solidaria e cautelarmente blasfémias futuras contra os seus Deuses e Profetas. Já a doce troupe libertária enfatiza em si própria o amor pela alteridade para justificar assim a sua eterna tendência capitulacionista. Já o conservadorismo fez brandir o espectro de Chamberlain e o opróbio eterno da Conferência de Munique para anunciar o declínio irreversível da Europa tal qual ela era. Enfim, isto está típico e quase divertido.

Pois a mim estas polémicas enfadam-me terrivelmente, esterilizam-me o cérebro, anulam-me a opinião. Não tenho pois opinião a dar sobre os cartoons nem sobre o que fazer com eles, nem sobre o que fazer com os muçulmanos, tanto na terra deles como na nossa. Não quero ter e optar entre a liberdade de expressão e a responsabilidade da mesma. Não quero ter de escolher entre o secularismo e o sentimento religioso: gosto de ambos, faço parte de ambos. De maneira que mais não digo.
A não ser talvez uma pequena reflexão paralela. A propósito daquelas comparações tremendistas com os tempos da conferência de Munique, com que andam a zurzir o nosso bizarro Ministro dos Negócios Estrangeiros. É que eu sempre achei que a canga que puseram às costas do bom do Neville, ou seja a culpa maior da mais terrível guerra de sempre, é bastante injusta. Tenho para mim que com Chamberlain ou com Churchill haveria sempre a 2ªGuerra Mundial e que esta não teria corrido de forma muito diferente. Por muito lamentável que eu ache que tenha sido a conferência de Munique, e foi-o, penso que ela deve ter tido uma importância muito menor do que o Tratado de Versalhes 20 anos antes. E penso que a guerra iria sempre acontecer pois essa era a vontade de Hitler e, com ele e por ele, era essa a vontade da nação alemã. E também porque a Europa não estava preparada para lutar com Hitler, como depois se viu. Chamberlain bem o sabia e talvez por isso tenha agido como agiu. Talvez tenha sido cobarde mas, sobretudo, sabia que era fraco e estava a negociar com quem era forte.
Ora tenho para mim que estamos hoje um pouco como estivemos ontem.
Quem conhece o Islão, por muito que aprecie a sua coerência teológica, por muito que namore a sua corrente mística, talvez a mais perfeita de todas as grandes religiões, sabe bem que o Islão é uma religião profundamente política, mesmo militarista. Isto está inscrito no seu código genético pois Maomé foi um brilhantíssimo líder político e militar. A expansão universal do dar-al-Islam está no Corão e nos hadith e está na génese da grande história do Islão. Séculos de secundarização perante o Ocidente cristão, ainda que causados sobretudo pela cristalização religiosa e cultural do Islão, causaram nele um ressentimento inapagável. Neste mundo de tão grandes desigualdades, o igualitarismo social da sharia oferece um apelo poderoso aos despojados da Terra, um apelo que vinha antes do marxismo e, muito antes dele, do cristianismo. O petróleo e a diáspora são forças que eles acham terem-lhes sido dadas por Alá. E como servos de Alá que são, eles querem consagrar-Lhe o mundo, sobretudo a Europa infiel e blasfema. Assim sendo, os nossos insultos hão-de sempre indigná-los tal como as nossas cedências hão-de sempre exasperá-los.

Quanto a nós, a nossa fraqueza é mais anímica do que militar, logo mais difícil de ultrapassar. Isto talvez seja uma simplificação grosseira mas é o que eu acho: eles tem a vontade e a força, nós nem uma nem outra. Para nós, filhos (pródigos ou não) de Cristo, nem deve existir isso dos eles e nós. Para eles, filhos de Maomé, é claríssmo que existem nós e eles. E eles estão em guerra connosco.
É por tudo isso que eu não tenho grandes opiniões sobre os meandros desta questão islâmica, exactamente da mesma forma como não tenho grande opinião sobre a gripe das aves. Acho apenas que ambas existem, nasceram longe, são-nos mal conhecidas e, inevitavelmente, hão-de cá chegar. Resta-nos vigiar e estar preparados. Assim seja.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)
Comments:
Que alegria, José!
Um beijo
 
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