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quarta-feira, fevereiro 1

 

A Intervenção das Religiões

A necessidade de partilha da experiência religiosa pessoal está na base da formação de comunidades religiosas. E nas dinâmicas comunitárias que estas partilhas suscitam podemos encontrar crentes com dois tipos de atitudes bem distintas: os que se afastam do mundo, tentando criar comunidades perfeitas, tentando seguir um estilo de vida ideal de acordo com os ensinamentos religiosos; e os que tomam o caminho oposto, tentando transformar o mundo num local melhor, e desenvolvendo diversas actividades que visam melhorar a vida dos povos.

Os parágrafos que se seguem são excertos de escrituras e palavras de teólogos de várias religiões, onde se justifica a necessidade da comunidade religiosa intervir no mundo, e de o transformar numa sociedade mais justa e mais equilibrada. As citações foram retiradas do livro
The Phenomenon of Religion: A Thematic Aproach de Moojan Momen; a tradução é da minha responsabilidade.

SIKHISMO
... cada Sikh age e ora pela fraternidade universal: o Sikh ora em busca da sarbat da bhala (bem-estar para todos)...

o Sikhismo é muito claro quanto ao tipo de serviço que deve ser prestado e a quem deve ser prestado. O serviço material, assim como o proporcionar de descanso e alívio aos outros, ou a leitura das escrituras para os outros para lhes oferecer conforto espiritual é muito superior aos incontáveis fogos de sacrifício, à prática de cerimónias ou à mera meditação e conhecimento mundano... O sikhismo também contém instruções contra a oferenda de comida ou dinheiro aos chamados "renascidos"; em vez deles, são os pobres e os necessitados que devem ser auxiliados. O Guru
Gobind Singh faz uma declaração claramente inequívoca a este respeito: o verdadeiro serviço é o serviço a estas pessoas (vulgares). Não estou inclinado a servir as castas elevadas; a caridade dará frutos neste e noutros mundos apenas se for dada a essas pessoas necessitadas. (Singh, Sikh Theology of Liberation, pag. 124, 127-128)

RELIGIÃO BAHÁ'Í
O quarto princípio ou ensinamento de
Bahá'u'lláh é o reajustamento e equilíbrio dos padrões económicos da humanidade. Isto lida com a questão da subsistência humana. É evidente que sob os presentes sistemas e condições de governação, os pobres estão sujeitos a grandes necessidades e miséria, enquanto que outros mais afortunados vivem no luxo e com muito mais do que as suas reais necessidades. Esta desigualdade de quinhão e privilégio é um dos problemas mais profundos e vitais da sociedade humana. Que existe uma necessidade de um equilíbrio e partilha através dos quais todos possuam os confortos e os privilégios da vida, isso é evidente. O remédio é legislar sobre o reajustamento das condições. Os ricos também devem ser misericordiosos com os pobres, contribuindo voluntariamente para as suas necessidades, sem serem forçados ou compelidos a fazê-lo. A tranquilidade do mundo será assegurada através do estabelecimento deste princípio na vida religiosa da humanidade ('Abdu'l-Bahá, Promulgation of Universal Peace, p.107-108)

CRISTIANISMO
A Teologia deve vir dos pobres... A Igreja necessita da reflexão dos pobres. Eles conhecem a morte num nível íntimo que nenhum intelectual conhece.... O ponto de partida da teologia da libertação é o compromisso com os pobres, as “não-pessoas”. As suas ideias vêm das vítimas... O compromisso com os pobres é o verdadeiro local da experiência espiritual. No compromisso com os pobres... encontra-se Deus. [Gutierrez] reconheceu que Deus não é o principal tema na teologia da libertação, mas acrescentou "Estamos a trabalhar nisso"... A teologia da libertação não é optimista. Fala frequentemente de pecado e a situações de pecado. "Não temos a certeza noutra sociedade, mas temos a certeza que a presente sociedade não é viável e devemos mudá-la." (relatório de
Gustavo Gutierrez dirigido a uma reunião da Associação de Teologia Católica, Junho 1978, citado em Schall, Liberation Theology in Latin America)

JUDAISMO
A teologia da libertação judaica reconhece que o mundo mudou, e que pela simples aplicação das categorias pré-holocausto e holocausto ao mundo contemporâneo fechamos os nosso olhos e ouvidos à dor e à possibilidade do presente. Ao transportar a nossa própria história, legamos à posteridade uma compreensão das lutas contemporâneas. Se estivermos esmagados, porém, pela história e procuramos esmagar os outros, a nossa memória torna-se um calço de cólera e estreiteza de espírito, um instrumento rude em vez de uma memória delicadamente nutrida... Aqueles que queriam um regresso ao Egipto recusavam o risco do deserto, certamente uma posição compreensível. Mas a liberdade estava noutro local, para lá do conhecido, e novos padrões de vida e culto seriam desenvolvidos na dor e luta pela libertação. (Ellis,
Towards a Jewish Theology of Liberation, pag. 121)

Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]
Comments:
Marco, muito obrigada por este texto.
 
Olá, Marco, MC e etc.

Eu, para começar, volto à minha batata ou banana ou lá o que é:

1. Qual o critério para "seleccionar" estas religiões e não outras?

E também:

Qual o critério para escolher-se, adentro das religiões "seleccionadas", estas posições e não outras tão válidas e contrárias?

Isto no sentido de parecer haver uma intenção de generalidade e "objectividade" no artigo. Se for pessoal, no sentido de: Das religiões, estes são os elementos que fazem parte do meu caminho e sentido - é evidente que o critério é a pessoa particular que fala, e está dado no próprio dizer.

2. Para melhorar o mundo, racionalizar as relações, definir o bem social etc - no sentido fundamental (e não histórico ou pessoal) não precisamos da religiosidade para nada.

3. Agradeço também o artigo. Este é um "tema" que me é pouco familiar, e isso é sempre estimulante. Este ponto um pouco palerma serve para afirmar que eu isso da "boa onda" e de tentarmos atinar com a vida e planeta que nos foram dadas tem todo o meu agrado... Não vejo é o quê que as religiões vêm fazer ao barulho. Eu considero a posição do Tillich da religiosidade ser o fundo da cultura, assim como a do Kung de ser o fundo da ética, extremamente discutíveis - to say the least.

Abraços.
 
Vitor,
1. Como escrevi, este é um dos caminhos possíveis que resultam da necessidade de partilha da experiência religiosa. Claro que há outros caminhos. Seleccionei estes excertos porque têm em comum essa necessidade de "ir ao mundo". E seleccionei estes excertos porque foram as únicas que encontrei no livro. Mais eu encontrasse, mais eu publicaria aqui. :-)

2. Pois eu vejo algum fundamento nas posições de Kung e de Tillich. Além disso, se a religião não serve para tornar o mundo melhor, então serve para quê? Pode a expressão religiosa restringir-se à esfera pessoal?

Um abraço.
 
Vítor, Vítor

Te digo: Para cuidar das minhas rosas, se não olhar de vez em quando por cima dos muros do jardim...ai, ai, ai, ai só vejo picos e ervas daninhas
 
Caros Marco e MC.

Isto é complicado… E ainda por cima com riscos de equívocos… Bem…

Começarei por comentar o Drwn e o Frd, e ver-se-á ou não que tem algo que ver com o assunto, e como é natural, focar-me a partir do cristianismo – cada qual fala da doença que lhe cabe.

O meio ambiente da religiosidade, o ar que esta respira, o lugar onde ela está viva na doença e na saúde – é a existência, o real vivido psicológica, prática e espiritualmente. O resto é conversa, onde as representações religiosas se podem passear, mas precisamente, não enquanto religiosidade.

Nesse sentido, considero os diagnósticos da vida religiosa cristã enquanto neurótica (pensar na morte diariamente, ressentir-se como inanidade e pó, dedicar-se à culpa e ao pecado, etc) e psicótica (crer em anjos, ressurreições e corpos gloriosos, consubstancialidades e transubstanciações, etc). O problema é que, evidentemente, enquanto cristão, sou chamado a uma reconfiguração existencial fundada em tal, e tanto faz se a conversa sobre o assunto é ridícula ou tresvariada ou pouco conivente com a modernidade ou outras reconfigurações religiosas, estou totalmente de acordo com o magistério Vaticano acerca do fundo deste assunto. É evidente que há uma alegria cristã (alô, terráqueos!), mas ela dá-se na renovação da neurose e psicose em transcendência espiritual, e não numa aceitação e equilíbrio da nossa natureza enquanto é dada estritamente pelo nascimento biológico aqui na terra. Ou, como diz sinteticamente e muito bem Escrivã, trata-se duma alegria sobrenatural. Lembro-me também duma irmã dizendo-me que a única diferença apreensível entre um louco e um santo, é que este último é feliz. Isto é, a relação da razoabilidade e do bom senso com o cristianismo não é pacífica. Muitas vezes, racionalizar o mundo, definir o bem social e natural etc, não passa duma blasfémia e dum desvio à santidade.

Eu vivo o cristianismo como essencial e fundamentalmente dialogal (santa trindade e criação!), e dialogo tanto com o padeira como com o criminoso, tanto com as árvores como com as máquinas. O problema não se me põe na prática: rezo ou medito com muçulmanos e budistas (e outros porventura, mas ainda não me calhou na vida tal acontecimento…) e converso acerca de religião com estes e ateus e hindus e bahais (Marco, tens que me dizer como isto se escreve ;) Põe-se-me no entanto quando se fala numa essência comum das religiões. A realidade está-se um pouco borrifando para as essências (por mais que eu pense num Pégaso, ele não me entra pela janela…), mas estas significam pelo menos um núcleo conceptual comum. Ora, o que se passa, se pensarmos em inter-religiosidade, é que o núcleo comum nunca poderá ser os tais conteúdos cristãos psico-neuróticos renovados – e que constituem quanto a mim a essência do cristianismo. E se não há comunidade essencial, não há essência comum das religiões. O resto é conversa, e lá estamos nós fora da religiosidade.

Agora, é evidente que há fundamento nas posições de Kung e Tillich, senão nem seriam discutíveis (diga-se também que considero estes senhores, ao contrário da senhora ali em baixo – a brasileira, que a MC é outra conversa, e refiro-me apenas ao excerto do texto da senhora que nunca li mais nada dela - como teólogos muito pertinentes e interpeladores, bom grado o meu desatino com este e aquele ponto das suas investigações, o que faz precisamente parte da sua pertinência interpeladora). Há uma tensão para o ignoto e transcendente em todas as religiões.

Como se vê, isto é complexo, e eu só pensei, meditei e rezei para isto ontem à noite um bocadinho, portanto… É porque a inter-religiosidade, como referi, é algo em que sou muito verde…

O cristianismo serve para nos tornar cristãos, melhore ou não isso o mundo.

Quanto à esfera pessoal, não sei se percebo muito bem a quê que isto se refere. O cristianismo é pessoal, no sentido em que a adesão a ele e sequente tentativa de execução funda-se no mais íntimo do nosso ser, onde só estamos nós e Deus; não é individual, no sentido em que é comunial e apela a uma abertura ao outro, ao mundo e ao resto. Relativamente à laicidade ou não-laicidade do Estado, também há aqui coisas a dizer.

Outro problema que se me põe relativamente à inter-religiosidade é precisamente a tal essência religiosa, que me parece impossível de conceber, mas que dada como geralmente a vejo, exclui dela muitas actividades religiosas. Usando o exemplo que usei há 15 dias aqui na Terra, eu sou totalmente anti-satânico, mas isso não torna evidentemente o satanismo uma não-religião.

Dizer que a religiosidade é o fundo da cultura ou da ética, tenha ou não historicamente acontecido assim (o que conta não são as aparências, mas o fundo das coisas), é menosprezar todo o pensamento que põe Deus entre parêntesis assim como o ateísmo, o que sem um levantamento crítico e de confrontação é no mínimo não enfrentar os problemas mais prementes que tal antropologia põe. E é evidente que os senhores acima referidos o fazem, o que eu digo é que isto não é líquido e desproblematizado.

Não é portanto na “partilha da experiência religiosa” que questões me surgem, é-me evidente MC que no cristianismo é-se chamado a olhar por cima dos muros do Jardim (mas não a abater estes, caragos mil!)e pronto, isto já vai muito comprido e por ora chega e chaga.

Aproveito para agradecer inter-religiosamente ao Marco a orientação bahai (mas como se escreve isto?) que me deu relativamente a textos e links ;)

O pedido ao Marco de como se escreve é uma brincadeira que não tem evidentemente desprezo algum, antes pelo contrário.

Ufa!

Abraços e beijinhos.
 
Vítor,

Há um aspecto em que eu tenho uma opinião totalmente oposta à tua: O Cristianismo serve para melhorar o mundo, quer isso produza cristãos ou não. Alias, todas as religiões servem para melhorar o mundo, quer produzam crentes ou não.

Bahá'í é a forma correcta de escrever a palavra que descreve os seguidores de Bahá'u'lláh. Por vezes, escrevo a palavra baha'i sem acentos; há quem não use o apóstrofo. Mas isto é apenas um preciosismo.
 
Caro Marco.

Sendo assim, para ti a “finalidade” e fundamento do cristianismo não é a fé?

E eu como sou precisosista passarei a escrever Bahá’í ;)

Abraço.
 
Sim, Vitor.
Para mim, a fé é um instrumento para a transformação do mundo.
Abraço.
 
Alô, Marco.

Convém precisar que quando falo de fé, estou a falar da fé cristã, e "dentro" dela, da minha forma de adesão. O resto, como disse, são indistinções ou comunidades de sentido periféricas. Até ver, como é evidente, visto haver de certeza milhares de aspectos que eu não estou a contemplar (enfim, milhares...)

Eu penso que são as acções, com fé ou sem ela, que transformam o mundo. Há o problema da relação da oração com os eventos, que deixo por ora de lado. Mas é evidente que a fé, sendo transfiguradora da pessoa, determina-lhe ou influencia-lhe o comportamento, e nesse sentido a sua acção no mundo. Mas não é aí a aferição da fé, e muito menos na avaliação dos resultados mundanos (mais paz ou mais guerra, mais justiça ou injustiça e por aí fora). Para além dessa aferição ser sempre ou ingénua ou interesseira (no mundo, nem sempre os bons princípios têm bons resultados e vice-versa), a fé não é uma boa vontade, embora produza esta. A fé é do lado do mistério. Há uma diferença infinita entre a madre Teresa e a benemérita ateia ou agnóstica, embora no mundo as acções de ambas se equivalam. Essa diferença reside na psicótica relação pessoal com Deus.

A fé não é instrumento nenhum, e aqui quedo-me - mesmo.

Ponho agora uma questão que tem que ver com o esclarecimento da religiosidade, e com os meus exemplos limite. E que tem que ver com a fé no "geral".

Se para ti a fé serve para melhorar o mundo, o que é o satanismo. Melhora o mundo, ou não é uma religião?

Para não falarmos de certas acções assassinas executadas em nome da fé... A que correspondem? A uma fé errada? Quem define o erro e o acerto?

Desculpa lá as repetições, mas por vezes é andando em círculos que nos fazemos entender, aprofundamos coisas e aprendemos e desaprendemos.

Um abraço, e bom fim de semana.
 
Segundo as palavras do próprio Bahá’u’lláh: "A essência da fé está na escassez de palavras e na abundância de acções".

Além disso, ‘Abdu’l-Bahá (filho de Bahá’u’lláh) afirmou que o propósito da religião é educar e unir a humanidade. Se a religião é motivo de desunião e discórdia, então é melhor não ter religião. Creio que isto responde às perguntas sobre satanismo e crimes em nome da fé.

Pessoalmente, não considero o satanismo como uma religião e considero os crimes em nome da fé como uma distorção grosseira da mensagem religiosa.
 
Caro Marco.

Eu vi logo ;)

Abraço.
 
Vítor e Marco

Umas pequenas notas, simplificado, porque o Vítor tira sumo até de onde não há uvas.

Religião - Construção humana.
Fé - Dom de Deus.

Grosso modo, a fé está de acordo com a religião a que se adere. Exemplifico: Cristãos aderem a Cristo e às religiões cristãs. Budistas, Buda e ao budismo. Não quer dizer que não hajam excepções. Alguém pode dizer-se cristão e não "militar" (este termo não é muito próprio, mas não me ocorre outro)em nenhuma das religiões cristãs. É claro que isto que estou a dizer não é nada ortodoxo, sobretudo na Igreja Católica, as outras não sei. Porque a Igreja se assume como "mediadora" entre crente e divindade. Para mim é assim, mas não excluo, outras maneiras de viver a fé. Até porque ninguém conhece as "fronteiras" da Igreja, aqui digo "Igreja de Cristo".

Fé - adesão à Revelação/mudar estruturas do mundo. Acho que inevitavelmente têm que ir a par. Seja no exercício da cidadania de forma plena, seja no exercício da caridade, seja numa cartuxa a rezar.

Abraços
 
Há outra coisa que o Marco diz e que até está de acordo com um ponto que o Papa Bento, diz na nova encíclica acerca da gratuidade do serviço amoroso. Isto é muito importante, porque muita coisa se tem feito sobretudo na missão Ad Gentes, onde a caridade tinha como fim cristianizar as pessoas. Hoje, felizmente, já não acontece isso na maior parte dos casos.

Mas eu percebo as questões que levantas Vítor. A caridade qualquer um a pode ter, mesmo não-crente.
Mas já dizia o nosso amigo S. Paulo, "sem caridade..."
 
Ois, não tenho nada com Cristianismos e Bahaísmos e outros ismos mas gosto de ler seus comentários tão... vamos dizer assim... portugueses.
Aqui fala Shirley, do Brasil.
Beijocas...
 
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