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quarta-feira, fevereiro 22

 

Os Intermediários

A maioria das religiões possuem um conceito segundo o qual entre a Realidade Última - seja o Deus teísta ou a Realidade Absoluta monista - e o mundo que nós habitamos, existem mundos intermédios em que habitam outros seres. Estes mundos são descritos como paraísos ou infernos, e os seres que os habitam descritos como deuses, espíritos, anjos ou demónios. (...) Uma figura que desempenha um papel importante como intermediário entre a Realidade Última, os mundos transcendentes, e o nosso mundo físico é o do fundador de cada uma das religiões mundiais.

Nas muitas formas de Cristianismo, Jesus Cristo é considerado como parte da Divindade, uma das pessoas da Trindade. No
Concílio de Niceia, em 325, Cristo foi declarado como sendo “consubstancial (do grego: homoousios) ao Pai”. O debate sobre a natureza exacta de Cristo não ficou concluído neste Concílio, e o teólogos continuam a debater, até aos dias de hoje, a natureza exacta de Cristo. No entanto, todas as escolas de pensamento no Cristianismo concordam em atribuir a Cristo um estatuto supra-humano.

No Islão, ficamos próximos da conceptualização do fundador, Maomé, como um mero ser humano. Em parte, o Alcorão representa isto como uma reacção à excessiva divinização de Cristo no Cristianismo. No Alcorão, Maomé proclamou: “Sou apenas um homem como vós...” (18:110). Apesar desta declaração, algumas escolas do Islão representam Maomé com um estatuto mais elevado. Na filosofia mística xiita, a realidade de Maomé é descrita como a luz que foi a primeira coisa a ser criada antes de ter sido criada o resto da criação. O primeiro imam xiita,
‘Ali, terá afirmado: “Deus é uno; Ele estava só na Sua unicidade, pronunciou uma palavra e fez-se luz, e dessa luz Ele criou Maomé” (1)

Nas Escrituras
Bahá’ís, os fundadores das religiões mundiais são chamados Manifestantes de Deus. Isto porque eles são considerados como sendo manifestantes de todos os atributos e nomes de Deus. No entanto, não são incarnações de Deus. A analogia que se encontra nas Escrituras Bahá’ís é a do espelho. Os Manifestantes de Deus são como espelhos que reflectem perfeitamente os atributos de Deus. Estas figuras, porém possuem a autoridade de Deus. Bahá'u'lláh escreveu:
A porta do conhecimento do Ser Antigo sempre esteve, e sempre estará, fechada ante a face dos homens... Como sinal da Sua misericórdia, porém, e prova da Sua amorosa benevolência, Ele manifestou aos homens as Estrelas Matinais da Sua orientação divina... e ordenou que o conhecimento desses Seres santificados fosse igual ao conhecimento do Seu próprio Ser. Quem os reconhecer, terá reconhecido Deus... Cada um deles é o Caminho de Deus que liga este mundo aos reinos do além. (2)
No Hinduísmo encontramos o conceito de avatar. Figuras como Krishna e Rama são consideradas como avatares, incarnações da divindade Vishnu. No Bhagavad Gita, Vishnu, falando como Krishna, afirma: “O louco ridiculariza-me quando estou vestido com um corpo humano; eles não conhecem a Minha natureza suprema, nem que eu sou o grande Senhor de todos os seres” (9:11)

No Budismo e no Taoísmo, o autor da maioria das escrituras da religião é visto, não tanto como um intermediário entre o mundo transcendente e este mundo, mas como um descobridor de um caminho ou uma verdade antiga. Buda é visto como tendo alcançado a sua iluminação como resultado dos seus próprios esforços. No entanto, no
Budismo Therevada, onde é dada uma grande ênfase ao facto de todos os seres humanos serem capazes de atingir o que Buda atingiu (iluminação e o Nirvana), existem algumas indicações nas Escrituras que indicam que Buda não é como outros seres humanos.... No Budismo Mahayana, esta tendência para elevar a condição de do Buda é levada ainda mais longe. O número de budas no Budismo Mahayana é muito elevado; centenas de budas têm um nome e diz-se que eles são mais do que os grãos de areia do Ganges. No entanto, na sua realidade interior eles são apenas um, pois é a mesma realidade espiritual que está activa em cada um deles.

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pag. 199-202

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NOTAS
(1) - Majlisi, Bihar al-Anwar, citado em
Introduction to Shi'i Islam, Moojan Momen, pag. 148
(2) - Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. 21


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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A fé, a esperança e a caridade

O ponto 39 da primeira Encíclica do Papa Bento XVI é o último ponto antes da secção com a qual o Papa conclui a Encíclica. Nele, o Papa escreve sobre as três virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade:

"A fé, a esperança e a caridade caminham juntas. A esperança manifesta-se praticamente nas virtudes da paciência, que não esmorece no bem nem sequer diante de um aparente insucesso, e da humildade, que aceita o mistério de Deus e confia n'Ele mesmo na escuridão. A fé mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por nós e assim gera em nós a certeza vitoriosa de que isto é mesmo verdade: Deus é amor! Deste modo, ela transforma a nossa impaciência e as nossas dúvidas em esperança segura de que Deus tem o mundo nas suas mãos e que, não obstante todas as trevas, Ele vence, como revela de forma esplendorosa o Apocalipse, no final, com as suas imagens impressionantes. A fé, que toma consciência do amor de Deus revelado no coração trespassado de Jesus na cruz, suscita por sua vez o amor. Aquele amor divino é a luz — fundamentalmente, a única — que ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos dá a coragem de viver e agir. O amor é possível, e nós somos capazes de o praticar porque criados à imagem de Deus. Viver o amor e, deste modo, fazer entrar a luz de Deus no mundo: tal é o convite que vos queria deixar com a presente Encíclica."

A fé como "certeza vitoriosa de que isto é mesmo verdade: Deus é amor!".

A esperança "manifesta-se praticamente nas virtudes da paciência".

A caridade é o amor concretizado em comportamentos, "aquele amor divino" que "é a luz — fundamentalmente, a única — que ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos dá a coragem de viver e agir".

"O amor é possível, e nós somos capazes de o praticar porque criados à imagem de Deus. Viver o amor e, deste modo, fazer entrar a luz de Deus no mundo: tal é o convite que vos queria deixar com a presente Encíclica."

Mas, como escreveu São Paulo, de todas as virtudes, a caridade, isto é, o amor, é a maior de todas.

Como ainda recentemente referiu Sua Santidade, o Papa Bento XVI, na sua mensagem para a Quaresma de 2006, caridade é também a denúncia das "carências materiais dos que são privados do mínimo vital, e as carências morais dos que são mutilados pelo egoísmo (...), as estruturas opressivas, quer provenham dos abusos da posse ou do poder, da exploração dos trabalhadores ou da injustiça das transacções"

Timshel (
TIMSHEL)

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Da superioridade das civilizações

Por causa de uns cartoons, houve quem sublinhasse a superioridade da civilização europeia e ocidental. Nestas alturas, começo à procura de exemplos dessa superioridade — são muitos dizem-me e quase me convenço: o tratamento às mulheres, a perseguição política e religiosa, as ditaduras, a pobreza classista. Mas será assim? Recordo-me de um filme, "Al-Massir" (O Destino), que já, em 1997, nos colocava questões de hoje, de amanhã, a partir do confronto de ideias entre moderados e radicais nos califados andaluzes do... século XII. Já então o confronto de civilizações, com guerras e superioridades, se desenhava nos céus da Europa.

Deixem-me blasfemar: Bach, Johann Sebastian, é tido como o compositor de todos os tempos. Mas quando escuto o seu "Prélude de la Partita pur Violon nº 3" precedido de "Pepa Nzac Gnon Ma", vacilo. Estou a meter no mesmo saco, Bach e um tema tradicional gabonês, interpretado po elugu Ayong?! Pois, estou. Na música, descobrimos, desarmados perante o Belo, que é impossível ser-se superior: Bach desenha uma melodia que se entrelaça na perfeição com os sons da selva africana: vozes, percussões, violoncelo, música, beleza. Sem concessões, Bach e a dança do povo Fang, do Norte do Gabão, derrotam os discursos das falsas superioridades civilizacionais.

Este é um exemplo, de outros, que se escutam no álbum "Lambarena — Bach to Africa" (edição de 1995, que agora volta a ser publicitada, sem motivo aparente), onde se recorda o espírito de Albert Schweitzer, médico alemão que viveu e trabalhou no Gabão, no coração de África, um
apaixonado de Bach. Diz-se na contracapa: "Pela exaltação, a regra encontra o ritmo. Pela exaltação, o ritmo encontra a regra. Em Lambaréné, Albert Schweitzer realizou o encontro da Europa e de África pela música."

Blasfemo, para puristas de música clássica — e do politicamente correcto destes dias: o que neste disco se desenha não é da superioridade das civilizações. É da superioridade da alteridade, da descoberta do Outro, a vitória da civilização do Amor. Mas isto não é música que se queira para estes dias.



Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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quarta-feira, fevereiro 15

 

O significante e o significado

Imagine que num destes dias toma conhecimento de que um cidadão residente numa localidade vizinha da sua o(a) acusou publicamente de ter praticado actos indignos ou ilegais. Suponha ainda que o dito senhor o fez através da comunicação social. Não interessa para o caso se os factos que lhe seriam atribuídos constituiriam uma verdade ou uma mentira. Para o nosso cenário, interessa apenas que você ficaria irritado ou ofendido com a situação e desejaria decerto resolvê-la. Que meios usaria? Procuraria repor a sua verdade, provando que os factos jamais haviam ocorrido ou teriam sucedido de outro modo? Processaria o autor da eventual difamação, procurando que a Justiça o castigasse? Ou arregimentaria amigos, vizinhos e outras pessoas devidamente remuneradas com o intuito de invadirem a localidade onde habitaria o acusador? Já na terra dele, quereria matá-lo ou ameaçá-lo-ia de morte? Procuraria castigar todos os moradores da urbe, quer tivessem algo a ver com o assunto ou não? Não é preciso ser mago para adivinhar a sua resposta. Usando práticas civilizadas e boas regras de convivência, certamente optaria por uma das duas primeiras opções – e rejeitaria a última, por lhe parecer típica de outras épocas menos cordatas.
Na minha opinião, o perigoso caso da publicação dos cartoons com a figura de Maomé na imprensa europeia é muito semelhante ao cenário que acabei de traçar consigo.
Usando a inalienável liberdade de expressão que lhe é concedida pela lei, um jornal resolveu publicar imagens satíricas que visam criticar alguns membros de uma comunidade religiosa. Essa comunidade não gostou do que viu. Não tentou, tanto quanto se sabe, negar os factos caricaturados. Ao que parece, quis que os tribunais levassem o autor dos desenhos a julgamento. Como a Justiça não deu provimento à queixa (situação normal num Estado de Direito), resolveu mergulhar meio-mundo no caos, promovendo manifestações (normais, não veiculassem ameaças muito graves à vida dos cidadãos de todos os países que ousaram publicar as caricaturas, não fossem muitas delas manipuladas por interesses que nada têm a ver com a religião e muito têm a ver com desejos de hegemonia de alguns políticos que abusam do nome de Maomé e de Alá como outros, noutros tempos, abusaram do de Cristo) e actos criminosos de vandalismo, como o assalto e a destruição das sedes de algumas embaixadas e de outros organismos.
Justa ou injustamente, os muçulmanos têm o direito de estar indignados com as representações caricaturais do seu profeta; têm ainda o direito de manifestar o seu repúdio, utilizando meios admissíveis numa civilização justa e plural. Têm porém o dever de compreender o que representam as caricaturas e, caso encontrem argumentos para tal, demonstrarem que o pensamento por elas veiculado se baseia em factos e fundamentos errados.
Quem caricatura Maomé não representa, como é óbvio, o profeta. (Numa caricatura, qualquer personagem importante de uma religião não se representa a si própria; torna-se símbolo de uma confissão religiosa, seja ela cristã, muçulmana ou budista.) A sátira e a crítica do caricaturista não se dirigem, assim, contra Maomé, mas contra os membros da comunidade que simboliza.
Não vi todas as caricaturas publicadas na Dinamarca. Aquelas que me foi dado analisar são apenas uma dura crítica ao terrorismo que vem assolando múltiplos países, realidade hedionda que ninguém, muito menos os muçulmanos, consegue esconder. Representar Maomé com uma bomba a servir de turbante não constitui portanto uma crítica ao profeta, mas tão só ao que ele representa, um islamismo dito “radical” ou “fundamentalista”. A maioria dos maometanos será gente de paz. Mas, quer se goste quer não, existe um número crescente de muçulmanos que – como “mártires”, em troca de um “paraíso” em que acreditam – matam os seus semelhantes, invocando “mandamentos” do profeta expressos, dizem, no Corão. Infelizmente, ainda não vimos nas ruas milhares de islâmicos afirmando que estes seus irmãos invocam o nome de Alá em vão para justificarem actos criminosos. Enquanto isso não acontecer, todos os seus protestos contra as caricaturas soarão a falso.


Ruy Ventura (ESTRADA DO ALICERCE)

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A caridade (pela primeira das muitas vezes em que vai aparecer na Encíclica "Deus caritas est").

O ponto 40 da primeira Encíclica do Papa Bento XVI (recorde-se que já aqui coloquei nas semanas passadas os pontos 42 e 41, numa espécie de recapitulação desta encíclica do fim para o princípio), o Papa escreve sobre a importância dos Santos:

"Por fim, olhemos os Santos, aqueles que praticaram de forma exemplar a caridade. Penso, de modo especial, em Martinho de Tours († 397), primeiro soldado, depois monge e Bispo: como se fosse um ícone, ele mostra o valor insubstituível do testemunho individual da caridade. Às portas de Amiens, Martinho partilhara metade do seu manto com um pobre; durante a noite, aparece-lhe num sonho o próprio Jesus trazendo vestido aquele manto, para confirmar a perene validade da sentença evangélica: «Estava nu e destes-Me de vestir (...). Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 36.40). [36] Mas, na história da Igreja, quantos outros testemunhos de caridade podem ser citados! Em particular, todo o movimento monástico, logo desde os seus inícios com Santo Antão Abade († 356), exprime um imenso serviço de caridade para com o próximo. No encontro «face a face» com aquele Deus que é Amor, o monge sente a impelente exigência de transformar toda a sua vida em serviço do próximo, além do de Deus naturalmente. Assim se explicam as grandes estruturas de acolhimento, internamento e tratamento que surgiram ao lado dos mosteiros. De igual modo se explicam as extraordinárias iniciativas de promoção humana e de formação cristã, destinadas primariamente aos mais pobres, de que se ocuparam primeiro as ordens monásticas e mendicantes e, depois, os vários institutos religiosos masculinos e femininos ao longo de toda a história da Igreja. Figuras de Santos como Francisco de Assis, Inácio de Loyola, João de Deus, Camilo de Léllis, Vicente de Paulo, Luísa de Marillac, José B. Cottolengo, João Bosco, Luís Orione, Teresa de Calcutá — para citar apenas alguns nomes — permanecem modelos insignes de caridade social para todos os homens de boa vontade. Os Santos são os verdadeiros portadores de luz dentro da história, porque são homens e mulheres de fé, esperança e caridade."

É evidente o modelo de Santo que resulta deste ponto. Trata-se de alguém que pratica de forma exemplar a caridade.

Um Santo mostra o valor insubstituível do testemunho individual da caridade.

O exemplo mais evidente é o de São Martinho que partilha metade do seu manto com um pobre.

A partilha como a face material do amor (a outra face, é, parece-me, o diálogo).

Bento XVI refere em seguida os movimentos na história da Igreja que exprimem um imenso serviço de caridade para com o próximo: "no encontro «face a face» com aquele Deus que é Amor" torna-se manifesta a "exigência de transformar toda a sua vida em serviço do próximo".

Os Santos são os verdadeiros portadores de luz dentro da história, porque são homens e mulheres de fé, esperança e caridade.

A caridade é um comportamento pessoal. Mas todos os nossos comportamentos são pessoais. Dar esmola a um pobre é um comportamento tão pessoal como votar num partido que defende a intervenção do Estado na redistribuição de recursos, dos mais capazes para os mais necessitados.

O comportamento de recusa em partilhar é tão pessoal quando ele assume a forma de recusa de dar uma esmola como quando se manifesta no voto num partido que recusa a intervenção do Estado na redistribuição de recursos, dos mais capazes para os mais necessitados.

Alguém que se disponibiliza para actos caritativos pessoais e que recuse a intervenção do Estado na redistribuição de recursos (pessoalmente não conheço ninguém assim mas posso admitir que exista), é, na melhor das hipóteses, alguém que confunde o que o Estado tem por vezes de mau (gente que, sem precisar, vive sem trabalhar à conta do trabalho dos outros) com as necessárias funções do Estado na redistribuição de recursos, com vista à igualdade na dignidade entre todos os seres humanos.


Timshel (TIMSHEL)

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Looney toons, holy cows

É sempre interessante assistir à Nação Portuguesa a dar largas ao seu verbo copioso sempre que alguma situação inflama a nossa inflamável veia retórica. Desta vez vai por aí uma encarniçada polémica a propósito duns cartoons satânicos publicados no reino da Dinamarca, e da mediática reacção ao retardador que estes suscitaram no Islão, sobretudo no mundo árabe, sempre tão susceptível, sempre tão ansioso por ser afrontado.
Enquanto a umma, ou pelo menos a sua parte mais ruidosa, vai rasgando as suas vestes sempre que aparece uma câmara de filmar, a Europa redescobre incomodada que é capaz de ter aí um problema sério, para além daqueles de que falamos todos os dias: o modelo social europeu, a directiva Bolkenstein, os efeitos do alargamento, as deslocalizações das fontes económicas e outras coisas afins. É certo que houve o 11 de Março e o 7 de Julho mas quando parecia termos já arrumado esses medos no armário, eis que surge agora o ribombar tonitruante da fúria do Islão, e por uma coisinha de nada, que nunca suporíamos que ofendesse aquela gente irascível. E, tipicamente, em vez de olharmos com mais atenção para o que vai na alma do Islão, pois melhor será não nos pormos a imaginar desgraças, e em vez de bombardearmos aquilo preventivamente, pois isto aqui não é o Texas, nós europeus pômo-nos a discutir sobre nós próprios. Discutimos então a liberdade de imprensa e os seus limites, a nossa relação com o sagrado e o profano, o laicismo e a religião, o modelo multi-cultural, as nossas culpas passadas, presentes e futuras.
O Islão parece assistir irritado a isto e já governos autoritários como o da Síria procuram canalizar para Ocidente o descontentamento endémico da sua população. Os Estados Unidos, esses, assistem divertidos a esta súbita aflição europeia e aproveitam para agravar o nosso caso, deixando também entender que, como sempre, continuamos a precisar deles.
E se a Europa parece ter-se tornado, por estes dias, numa enorme junta médica à procura de diagnosticar em si própria a doença através de sintomas que surgem nos outros, já Portugal, esse paraíso da eloquência latina, parece um café onde, com a televisão ligada a passar imagens de turbas enlouquecidas em lugares recônditos, todos nós, jornais, blogues, políticos, transeuntes, damos gostosamente largas ao nosso gosto pela polémica. E digo gostosamente por que todos intuímos que, estando nós aqui ao cantinho da Europa e sendo nós totalmente irrelevantes, não há-de ser aqui que a coisa vai bater para já pois há muita porta a bater antes da nossa. Basta é ter juizinho e não fazer como os Dinamarqueses.
Livres pois de preocupações imediatas, discutimos profusamente, galhardamente. E nessa discussão acesa consigo distinguir já duas posições antagónicas, hostis, encarniçadas. Uma é a daqueles que acham absurda e preocupante a violência que esta questão tem suscitado no mundo islâmico e que a liberdade de imprensa é um valor sagrado que a civilização europeia ofereceu à civilização universal, devendo embora ser execida com responsabilidade e com respeito pelo Outro, pela sua identidade e valores que deveremos procurar conhecer e compreender. A outra é a de que a liberdade de expressão é um valor tão importante como o respeito pelo Outro, pelo que deverá ser exercida com responsabilidade e cuidado, sem prejuízo de considerar que as manifestações de violência são sempre inaceitáveis e indesculpáveis embora possam ser compreensíveis. Como é fácil de ver, trata-se duma contradição insanável entre posições antagónicas e irredutíveis... Temos pois aí a polémica instalada para meses, a menos que surja algo de mais interessante entretanto.
Já nesta discussão, muito mais de grau do que de espécie, se insinuou a inefável dicotomia esquerda-direita, embora com contornos inabituais. Já todas as religiões e Igrejas com porta para a rua, já deram a sua prudente achega, prevenindo solidaria e cautelarmente blasfémias futuras contra os seus Deuses e Profetas. Já a doce troupe libertária enfatiza em si própria o amor pela alteridade para justificar assim a sua eterna tendência capitulacionista. Já o conservadorismo fez brandir o espectro de Chamberlain e o opróbio eterno da Conferência de Munique para anunciar o declínio irreversível da Europa tal qual ela era. Enfim, isto está típico e quase divertido.

Pois a mim estas polémicas enfadam-me terrivelmente, esterilizam-me o cérebro, anulam-me a opinião. Não tenho pois opinião a dar sobre os cartoons nem sobre o que fazer com eles, nem sobre o que fazer com os muçulmanos, tanto na terra deles como na nossa. Não quero ter e optar entre a liberdade de expressão e a responsabilidade da mesma. Não quero ter de escolher entre o secularismo e o sentimento religioso: gosto de ambos, faço parte de ambos. De maneira que mais não digo.
A não ser talvez uma pequena reflexão paralela. A propósito daquelas comparações tremendistas com os tempos da conferência de Munique, com que andam a zurzir o nosso bizarro Ministro dos Negócios Estrangeiros. É que eu sempre achei que a canga que puseram às costas do bom do Neville, ou seja a culpa maior da mais terrível guerra de sempre, é bastante injusta. Tenho para mim que com Chamberlain ou com Churchill haveria sempre a 2ªGuerra Mundial e que esta não teria corrido de forma muito diferente. Por muito lamentável que eu ache que tenha sido a conferência de Munique, e foi-o, penso que ela deve ter tido uma importância muito menor do que o Tratado de Versalhes 20 anos antes. E penso que a guerra iria sempre acontecer pois essa era a vontade de Hitler e, com ele e por ele, era essa a vontade da nação alemã. E também porque a Europa não estava preparada para lutar com Hitler, como depois se viu. Chamberlain bem o sabia e talvez por isso tenha agido como agiu. Talvez tenha sido cobarde mas, sobretudo, sabia que era fraco e estava a negociar com quem era forte.
Ora tenho para mim que estamos hoje um pouco como estivemos ontem.
Quem conhece o Islão, por muito que aprecie a sua coerência teológica, por muito que namore a sua corrente mística, talvez a mais perfeita de todas as grandes religiões, sabe bem que o Islão é uma religião profundamente política, mesmo militarista. Isto está inscrito no seu código genético pois Maomé foi um brilhantíssimo líder político e militar. A expansão universal do dar-al-Islam está no Corão e nos hadith e está na génese da grande história do Islão. Séculos de secundarização perante o Ocidente cristão, ainda que causados sobretudo pela cristalização religiosa e cultural do Islão, causaram nele um ressentimento inapagável. Neste mundo de tão grandes desigualdades, o igualitarismo social da sharia oferece um apelo poderoso aos despojados da Terra, um apelo que vinha antes do marxismo e, muito antes dele, do cristianismo. O petróleo e a diáspora são forças que eles acham terem-lhes sido dadas por Alá. E como servos de Alá que são, eles querem consagrar-Lhe o mundo, sobretudo a Europa infiel e blasfema. Assim sendo, os nossos insultos hão-de sempre indigná-los tal como as nossas cedências hão-de sempre exasperá-los.

Quanto a nós, a nossa fraqueza é mais anímica do que militar, logo mais difícil de ultrapassar. Isto talvez seja uma simplificação grosseira mas é o que eu acho: eles tem a vontade e a força, nós nem uma nem outra. Para nós, filhos (pródigos ou não) de Cristo, nem deve existir isso dos eles e nós. Para eles, filhos de Maomé, é claríssmo que existem nós e eles. E eles estão em guerra connosco.
É por tudo isso que eu não tenho grandes opiniões sobre os meandros desta questão islâmica, exactamente da mesma forma como não tenho grande opinião sobre a gripe das aves. Acho apenas que ambas existem, nasceram longe, são-nos mal conhecidas e, inevitavelmente, hão-de cá chegar. Resta-nos vigiar e estar preparados. Assim seja.

José (GUIA DOS PERPLEXOS)

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O desafio do fragmento

A grande dificuldade que se põe ao diálogo da Igreja com o mundo actual é a própria "pulverização" do interlocutor. A sociedade não pode ser encarada como um todo, como se as respostas dadas a determinados sectores pudessem, sem mais, ser aplicadas aos outros. A história coloca-nos, neste momento, diante de um interlocutor plural, de múltiplas sensibilidades, com gosto pela mudança, onde as respostas globais são contestadas, as verdades relativizadas e os consensos desvalorizados.
Muitos autores chamaram a este tempo pós-modernidade.
A pós-modernidade é um ajuste de contas com a modernidade. Não só se recusa um estilo de pensamento, mas também um estilo de vida. Pretende-se, com a superação de uma concepção de razão, uma sociedade e um homem diferentes. Nesta linha, podemos distinguir três traços principais do pensamento da pós-modernidade:


· É um pensamento da fruição. Opõe-se ao funcionalismo dominante da modernidade. Postula uma atitude vital, traduzida num estilo de vida que passa pela recusa radical da instrumentalização da razão e da própria vida e pela afirmação do vivido em cada momento, sem ordem a nenhum fim.
· É um pensamento da contaminação. Supõe uma abertura radical aos jogos de linguagem que a cultura e saber actuais nos oferecem a partir da ciência, da técnica, da arte e dos mass-média. Encontramos o “homem vagabundo”, a viver situações em que não há princípios nem critérios fixos ou definitivos.
· É um pensamento do mundo e da técnica moderna, correspondendo a uma situação de relativa segurança que a existência individual e social atingiram em virtude da organização social e do desenvolvimento técnico.

O projecto pós-moderno passa, pois, por uma estetização geral da vida que conduz a uma sociedade da simulação. Para isso têm fundamental importância os Meios de Comunicação. O indivíduo perde a noção da realidade histórica, que lhe chega fragmentada e afastada da realidade. Não há sentido nem consciência. Esta situação faz perder as referências e incapacita para a recuperação reflexiva dos acontecimentos. Vive-se na incerteza radical sobre a verdade, sobre a realidade objectiva dos factos.
Neste contexto, ganha forma a sociedade do ‘politeísmo’ de valores, onde não há valores absolutos nem verdades vinculantes, fazendo assim adivinhar o ocaso da ética que, não encontrando fundamentos estáveis e universais, se dilui no relativismo personalista. Nesta sociedade onde a ética deu lugar à estética, cai-se numa nova revolução individualista, onde o actor social se dilui para dar lugar ao egoísta ilustrado, visto como a raíz de um “individualismo democrático”.
O homem hodierno, apelando à despedida de todo o fundamento e à desmistificação da realidade global, opõe-se, naturalmente, a todas as tentativas que buscam um sentido e uma explicação para a globalidade das coisas. Nesse sentido é também uma forma de ateísmo niilista. E um niilismo positivo, aceitando, simplesmente que já não há valores absolutos. E aqui não cabe, evidentemente, uma mensagem cristã, apresentada como resposta global aos anseios dos homens, por uma Igreja vista como monolítica e fossilizada. O que não quer dizer que não cabe ‘um Deus’. Simplesmente, para a aceitação desse Deus, exige-se que Ele se dispa dos seus atributos absolutos, permanentes e se misture no relativismo flutuante da pós-modernidade, encaixando-se assim numa religiosidade sincrética, volátil e pseudo-mística tão ao gosto da sensibilidade actual.
Este pensamento é a expressão de uma época amante do fragmento, da diferença, com o acento posto na subjectividade. Mas o desencantamento da razão dos pós-modernos é também uma forma de defesa do mistério e de resistência perante a mentalidade metafísica objectivista própria da cultura moderna. Acaba, por isso, por desembocar nas atitudes quase místicas já referidas. A relatividade de todo o discurso termina numa entrega confiada, conceptualmente silenciosa perante cada coisa, para honrar o mistério que se abre nela. Há mesmo uma certa ‘fidelidade’ ao mistério. Esta concepção que deixa uma porta aberta ao inefável, ao transcendente, desemboca no primado que é reconhecido à experiência: o pensamento pós-moderno parece dizer-nos que perante o problema da realidade, da vida do homem, do ser, mais que pensar e conceptualizar, é importante experimentar. Ora, é precisamente aqui que pode haver um ponto de contacto com o campo da fé: também aí há uma preeminência da vida da fé sobre a teorização da mesma. Aí, onde o logos termina, pode avançar o Espírito.
A actualidade contém outros sinais muito positivos, que é preciso valorizar. Há uma grande sensibilidade às ideias de solidariedade e de justiça, embora muitas vezes expressa de forma incoerente e inconsequente. Há um evidente progresso civilizacional no respeito pela dignidade da pessoa e uma cultura da tolerância e do respeito pela diferença que, quando não afunilados por perspectivas redutoras, são valores partilhados pela tradição cristã e âmbitos excelentes de relação e diálogo.
Sendo assim, a Igreja não está condenada ao pessimismo nem ao entrincheiramento que alguns parecem defender, no que toca ao diálogo com o mundo de hoje. Não pode é fazer "ouvidos de mercador" ao espírito do tempo e querer continuar a ser ouvida como "Mãe e Mestra" da verdade, mesmo quando se pronuncia sobre matérias claramente temporais.
O tempo do "fragmento" continua tão sedento de esperança e de sentido como todas as épocas da história. A diferença é que, em vez de mestres, aceita e respeita companheiros de caminho.


Manuel Vieira (NO ADRO)

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O mundo

Era como que um vazio em seu redor, não um vazio de não haver lugar ou coisas em redor mas como se este não o envolvesse, era como não estar ali, respirou fundo e sacudiu a cabeça, merda, não era aquilo que queria, não era aquilo que previra, e sobretudo, era precisamente o contrário do que precisava agora, uma pequena luz, um pequeno ponto, porra, sim um pequeno ponto onde o estar se fixasse reunindo o momento, fôra para isso que se preparara, que trabalhara e pensara e experimentara, e até momentos em que investira realmente, quer-se dizer obscuramente, com confiança cega, fôra para isso, para saber concentrar-se sobre si próprio em qualquer momento ou lugar, e agora apercebia-se que algo de logro havia ali, qualquer coisa que a imaginação havia posto por preguiça da execução, era muito simples, tirado o lugar, era como se ele se retirasse de si-próprio, e nada ficava para dizer, fazer, sentir; nada ficava para actuar.
Retirou-se do presente ou sua ausência, e pousou-se alhures, à volta dele o completo burburinho e agitação, faltavam poucos minutos para o espectáculo começar, muitos dos actores e functores se preparavam e se enervavam e apoiavam ou descontraíam, produzindo a energia necessária para a tensão teatral, o momento das preparações já passara, agora tratava-se da arena, mesmo agora e ele olhando e nem sequer ali com os outros se sentia estar, porra, qualquer coisa desaparecera ou alguma falta fôra revelada pelo arrepio do logro, aaaaaah quase que gritou mas não, levantou-se e que ninguém lhe dissesse nada, era o primeiro a entrar em cena e levantou-se, e se alguém lhe dissesse algo atirar-lhe-ia a primeira palavra exigente que encontrasse à tromba, atirar-lha-ia não ali mas apenas na verdade, o que às vezes nem se nota, mas de qualquer modo não, sempre era melhor não, os actos verdadeiros têm consequências tenebrosas e inelutáveis, mesmo quando não se notam.
Pensou passar despercebido atravessando o tecido dos outros, e entrou em cena, sentiu o público ali no escuro ao fundo e suas infalíveis tosses de início de espectáculo, executou os supostos gestos mais ou menos coreografados, ainda tentou que aquele instante o reunisse, o concentrasse, enfim, o pusesse apto a preencher lugar e poder actuar mas nada, nada de nada, embora se ouvisse um riso ou outro na plateia como todas as noites, mas isso nada confirmava ou revelava, a maioria deles não vê nada, são como nós, geralmente distraídos e querendo está-lo, aliás é para isso que se vai ao teatro.
Dirigiu-se para o microfone no fundo do palco, executar as marcações ainda era o mais fácil, pelo menos por enquanto, a luz do follow-spot acompanhou-o na sua marcação também ela ou quem por detrás, tudo escorreito, fácil, até as supostas frases lhe saíram bem provocando as supostas embora sempre diferentes reacções, foram entrando em cena os outros bem ou mal mas como marcado, no outro microfone começaram-se a debitar frases, deixas que se queriam agarradas e o espectáculo decorria.
Saiu de cena como marcado, e por trás da cortina quedou-se, como nas outras noites.
Não, havia ali qualquer coisa que não batia certo. Espreitou para a cena. Ali estavam eles. Os outros. Os que ele conhecia. E que amava. Sem dúvida, mesmo aqueles de quem não gostava. Não era um grupo qualquer, a malta tinha começado do nada, sem nada, a não ser uns e outros. Mais a vontade, o trabalho, os momentos de desânimo. Essas coisas. Ninguém fica indiferente a essas porras. É uma história conhecida, há até quem manipule povos inteiros com esse conhecimento.
Lembrou-se de conversas e silêncios, de investimentos artísticos em que se tentou unir o obscuro e inconsciente ao rigor e à contenção, lembrou-se de momentos de contracenação em que se sente que a superfície do outro se abre para rasgar a nossa e tudo corre como se deus nos inspirasse, lembrou-se de ideias arrancadas e oferecidas, desejadas e violentadas e semeadas, lembrou-se de ter dito que não lhe interessava ser actor nem performer nem sequer artista mas sim injectar poesia nas veias e nesse gesto constituir momentos de ruptura com o tempo vivido, estacá-lo em intensidade, e claro que estava a falar de cá e de lá, lembrou-se tão bem que estava a falar da maravilhosa banalidade, e lembrou-se de copos e risos e raivas e crescimentos, lembrou-se de tudo como que em bloco e avalanche confusa e emocionou-se, como quem está deprimido e chora a ver uma comédia.
E que algo estava errado, era isso, e não eram os outros, pelo menos não pareciam enquanto os olhava, pareciam na mesma, executavam o espectáculo como sempre os vira, uns pior e outros melhor do que ontem, como sempre no teatro e no resto.
O mundo está cheio de girassóis nocturnos, daqueles que não sabem que basta atingir corajosamente o dia para entrar em si no sol como dezenas de batalhões num copo de água e aí caberem inteiros e repletos, girassóis como ele ou eu e talvez tu, que falamos, e falais, e falam, e escrevendo textos como este ou espectáculos como aquele, e trabalhando e produzindo-se e vivendo de subsídios ou ordenados e de admirações mútuas e concatenações afectuosas, girassóis que vivem como se fossem rosas ou pior ainda, como se na nossa noite habitasse o sol.
Bem, talvez estivesse mesmo a ver mal a coisa, e aquilo não ter nada a ver com ele nem com os outros nem com o espectáculo ou com o mundo, mas enfim, que se pode fazer, estamos todos em nós-próprios e pouco mais, o mesmo é dizer que falta pouco para estarmos todos lixados - isto se ele não estiver a ver mal a coisa - e no entanto, dá ideia que é preciso ou possível fazer alguma coisa.
E chegou o momento, ia entrar em cena, como marcado, e tornou-se-lhe claro, claro como escura era a sua confusão, que é que vocês querem, ele tinha tido matemática no liceu, ainda sabia o que resultava da conjunção de dois negativos. E entrou em cena, os outros talvez o achassem estranho, mas não, obviamente que não, só somos estranhos aos olhos de desconhecidos ou de nós-próprios, nunca aos olhos dos amigos.
Atravessou o palco na diagonal e pôs-se à boca de cena, parado.
Fechou os olhos e tentou sentir-se, sentir-se para tentar apreender nem que fosse o mínimo estremecimento, o mais fraco apetecimento, e qualquer coisa lhe surgiu, não direi que brotou mas ao de leve assomou, indefinido mas suficiente, era pouco, apenas uma vontade de ter um gesto de ternura com outro dos actores.
Já não era nada.
Abriu os olhos e procurou-o. Sim, ali estava ele, do outro lado do palco, um pouco na expectativa como os outros, enfim, não era bem aquilo que estava marcado. E então ele voltou a atravessar o palco, em direcção ao outro, já esquecido de tudo a não ser da conjunção de negativos e da evanescente ternura que continha como a última gota de água dum moribundo no deserto, e postou-se frente ao outro. E não fez nada, absolutamente nada, ficou ali, apenas, olhando o outro sem sequer estar à espera ou não, olhando-o como se se suspendesse no bordo dum prédio e se balouçasse e isto tudo sem sair da cama, e murmurou:
- Então e nós?...
E saiu de cena, ou caiu do palco, ou simplesmente desmaiou.
Felizmente, não eram precisos nem aplausos finais nem tosses iniciais. Aquilo já ainda não era teatro.

Vítor Mácula (
SER CRISTÃO)

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O cristão na cidade do eurominas

«Cada vez mais uma sociedade de rosto humano não pode ser só fruto da eficácia, mas também da prossecução de valores. Para ajudar a construir um mundo belo, não bastam programas, é precisa a utopia de um ideal, na vivência do amor familiar, no serviço do bem comum, no potenciar da solidariedade, que é o primeiro passo para a fraternidade.
Tudo isto nos leva à meditação da importância da missão dos cristãos na cidade. Eles exercerão a sua competência com sentido humano e fraterno, o modelo de cidade que querem edificar não se esgota no progresso material, pois ela só será verdadeiramente humana, se for fraterna. Também se aplica a esses construtores da cidade terrena, com sentido, generosidade e ideal, a frase do Evangelho em que Jesus diz que faltam obreiros para a messe, essa tarefa imensa de humanizar o mundo e a história. Também na nossa cidade faltam esses trabalhadores, dinamizados por um ideal
».
(
D. José Policarpo, a propósito de coisa diversa)

Uma pessoa, qualquer pessoa (mesmo com nome de filósofo grego) está constantemente a fazer opções. Tem poucos recursos financeiros, vê a sua segurança social em perigo – o que faz? Um campeonato de futebol, está claro. Bem, esta era fácil. Adiante: uma pessoa tem poucos recursos financeiros, o estado geral do seu sistema de saúde vai desde a insuficiência de instalações à desorganização de meios e pessoal – o que faz? Estádios de futebol. Certo. E se as equipas de futebol jogam mal, o futebol está caro, os estádios estão vazios – o que faz? Mais estádios de futebol.
E se as escolas gastam muitos recursos, têm menos alunos, muitas delas têm más condições (mas banda larguíssima), não têm aquecimento, chove lá dentro e são pouco mais que armazéns de aprovisionamento de jovens – o que faz? Além de estádios de futebol e um novo aeroporto longe de qualquer cidade, pensa uma fusão das escolas. Certo.
E se tem:
a) uma escola com cerca de 300 alunos (e não tem mais porque impede novas matrículas há dois anos para os 7ºs anos, com a consequente descida artificial do número de seus alunos), localizada no Alto de Santo Amaro, com uma ampla vista lida para o estuário do rio e a ponte sobre o Tejo – para onde se prevê um aumento populacional num futuro próximo, fruto de uma série de empreendimentos habitacionais em larga escala (uns concluídos, outros em fase de acabamento e outros ainda já aprovados mas ainda não iniciados) – e com espaço decente para a ideia que qualquer pessoa tem de escola (tanto que tem três áreas para espaços desportivos fechadas), dotada de recreio, num bonito enquadramento urbano e que está colocada entre as 50 melhores escolas no ‘ranking’ dos exames do 12º ano, e, a par,
b) uma outra escola bastante mais pequena, sobrelotada (com mais alunos que a primeiro), degradada, sem recreio, situada por debaixo daquela ponte,e está colocada entre as 50 piores escolas no ‘ranking’ dos exames do 12º ano,
- o que faz? Transfere todos os alunos para a escola em piores condições.
O espaço da escola boa (chama-se Escola D. João de Castro) tem condições que atraem qualquer pessoa, seja aluno, pai de aluno ou professor, seja promotor imobiliário do ramo hoteleiro ou de condomínios de luxo. Seja mesmo um boy político e esteja à frente da Direcção Regional da Educação de Lisboa (DREL) e "pense" – no seu míope e arrogante entendimento – que um espaço assim pode ser entretanto utilizado para... as criativas actividades administrativas da própria DREL.
Assim, na impossibilidade de construir mais estádios, cria-se as condições necessárias para a subtracção do espaço público e a sua entrega aos negócios imobiliários e dos colégios privados. E o desmantelamento gradual da escola pública e da generalização igualitária do ensino. As escolas públicas serão apenas para os extractos mais pobres, que não terão outras hipóteses educacionais.
O que é que isto tem a ver com esta nossa Terra?

Carlos Cunha

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quarta-feira, fevereiro 8

 

0 modelo de santidade proposto por Maria para todos os homens e para todas as mulheres: amar segundo a segundo

Tal como no ponto 42 da primeira Encíclica do Papa Bento XVI (aqui colocado na passada semana), também no ponto 41, o Santo Padre sublinha o papel de Nossa Senhora na Fé Cristã:

"Entre os Santos, sobressai Maria, Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. No Evangelho de Lucas, encontramo-La empenhada num serviço de caridade à prima Isabel, junto da qual permanece «cerca de três meses» (1, 56) assistindo-a na última fase da gravidez. «Magnificat anima mea Dominum – A minha alma engrandece o Senhor» (Lc 1, 46), disse Ela por ocasião de tal visita, exprimindo assim todo o programa da sua vida: não colocar-Se a Si mesma ao centro, mas dar espaço ao Deus que encontra tanto na oração como no serviço ao próximo — só então o mundo se torna bom. Maria é grande, precisamente porque não quer fazer-Se grande a Si mesma, mas engrandecer a Deus. Ela é humilde: não deseja ser mais nada senão a serva do Senhor (cf. Lc 1, 38.48). Sabe que contribui para a salvação do mundo, não realizando uma sua obra, mas apenas colocando-Se totalmente à disposição das iniciativas de Deus. É uma mulher de esperança: só porque crê nas promessas de Deus e espera a salvação de Israel, é que o Anjo pode vir ter com Ela e chamá-La para o serviço decisivo de tais promessas. É uma mulher de fé: «Feliz de Ti, que acreditaste», diz-lhe Isabel (cf. Lc 1, 45). O Magnificat — um retrato, por assim dizer, da sua alma — é inteiramente tecido com fios da Sagrada Escritura, com fios tirados da Palavra de Deus. Desta maneira se manifesta que Ela Se sente verdadeiramente em casa na Palavra de Deus, dela sai e a ela volta com naturalidade. Fala e pensa com a Palavra de Deus; esta torna-se palavra d'Ela, e a sua palavra nasce da Palavra de Deus. Além disso, fica assim patente que os seus pensamentos estão em sintonia com os de Deus, que o d'Ela é um querer juntamente com Deus. Vivendo intimamente permeada pela Palavra de Deus, Ela pôde tornar-Se mãe da Palavra encarnada. Enfim, Maria é uma mulher que ama. E como poderia ser de outro modo? Enquanto crente que na fé pensa com os pensamentos de Deus e quer com a vontade de Deus, Ela não pode ser senão uma mulher que ama. Isto mesmo o intuímos nós nos gestos silenciosos que nos referem os relatos evangélicos da infância. Vemo-lo na delicadeza com que, em Caná, Se dá conta da necessidade em que se acham os esposos e apresenta-a a Jesus. Vemo-lo na humildade com que Ela aceita ser transcurada no período da vida pública de Jesus, sabendo que o Filho deve fundar uma nova família e que a hora da Mãe chegará apenas no momento da cruz, que será a verdadeira hora de Jesus (cf. Jo 2, 4; 13, 1). Então, quando os discípulos tiverem fugido, Maria permanecerá junto da cruz (cf. Jo 19, 25-27); mais tarde, na hora de Pentecostes, serão eles a juntar-se ao redor d'Ela à espera do Espírito Santo (cf. Act 1, 14)."

Algumas palavras e expressões fortes deste ponto:

- "serviço de caridade",

- "o programa da sua vida: não colocar-Se a Si mesma ao centro, mas dar espaço ao Deus que encontra tanto na oração como no serviço ao próximo — só então o mundo se torna bom",

- "Maria é grande, precisamente porque não quer fazer-Se grande a Si mesma",

- "Ela é humilde",

- "É uma mulher de esperança",

- "Enquanto crente que na fé pensa com os pensamentos de Deus e quer com a vontade de Deus, Ela não pode ser senão uma mulher que ama",

- "nos gestos silenciosos", "na delicadeza com que, em Caná, Se dá conta da necessidade", "na humildade",

- "Então, quando os discípulos tiverem fugido, Maria permanecerá junto da cruz".


Este ponto 41 da Encíclica é de uma enorme transparência. Nós, Cristãos, homens e mulheres, devemos ter sempre presente na nossa conduta este modelo de santidade. Utilizando uma linguagem psicanalítica: deve ser este o nosso alter ego comportamental na conduta com os outros. Sublinho: homens e mulheres. Este não e um modelo simplesmente feminino. Este é um modelo para a humanidade.

Sublinho igualmente algo que já aqui referi em tempos. A fé em Deus, a fé nos pensamentos de Deus, a fé na vontade de Deus, é apenas a Fé no amor transformado num comportamento quotidiano, hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo. Nas palavras de Bento XVI: "Enquanto crente que na fé pensa com os pensamentos de Deus e quer com a vontade de Deus, Ela não pode ser senão uma mulher que ama". O verbo "amar" está no presente: segundo a segundo.


Timshel [TIMSHEL]

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If it's not Love / then it's the Bomb / that will bring us together*

1. Anda toda a gente muito susceptível. Não apenas os vizinhos islâmicos, que são muito sensíveis ao que diz qualquer publicação da mais obscura imprensa escandinava, mas também os cartoonistas da nossa praça, que subitamente se viram promovidos a filósofos da garatuja.
No programa Prós & Contras, da RTP 1, o desenhador António explicou demoradamente a épica e heróica semana que teve aquando da publicação do seu cartoon do Papa João Paulo II com um preservativo no nariz. O seu momento de glória deveu-se a uma caricatura (já reproduzida nesta Terra) de bom traço, mas cuja piada subjacente é digna do pior dos Malucos do Riso. Parece que o autor pretendia mostrar uma crítica qualquer que, do alto da sua ignara arrogância, descortinava que talvez pudesse ser o entendimento da Igreja quanto ao uso do preservativo.

2. Mas, na verdade, mais triste é a posição do nosso querido governo. Cheio de ponderação e respeitinho (que é muito bonitinho), o Ministro dos Negócios Estrangeiros emitiu ontem a seguinte declaração: «Portugal lamenta e discorda da publicação de desenhos e/ou caricaturas que ofendem as crenças ou a sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos.
A liberdade de expressão, como aliás todas as liberdades, tem como principal limite o dever de respeitar as liberdades e direitos dos outros.
Entre essas outras liberdades e direitos a respeitar está, manifestamente, a liberdade religiosa - que compreende o direito de ter ou não ter religião e, tendo religião, o direito de ver respeitados os símbolos fundamentais da religião que se professa.
» (note-se a ausência de algum lamento e discordância quanto à livre expressão exercida pelos fanáticos muçulmanos que apedrejam e incendeiam embaixadas e símbolos nacionais dos outros países)
«Para os católicos esses símbolos são as figuras de Cristo e da sua Mãe, a Virgem Maria.
Para os muçulmanos um dos principais símbolos é a figura do Profeta Maomé.
» (nota técnica)
«Todos os que professam essas religiões têm direito a que tais símbolos e figuras sejam respeitados». (e como? O Governo vai proibir as centenas de filmes, livros, publicações, discos, que “não respeitam” as figuras de Cristo e de Sua Mãe, a Virgem Maria”? Ou, de cada vez que é editado um desses sinais desrespeitadores e que ofendem a crença ou sensibilidade religiosa de um povo, seja no nosso país, na Dinamarca, ou em qualquer outro lado, vai emitir uma declaração?)
«A liberdade sem limites não é liberdade, mas licenciosidade.» (sic)
«O que se passou recentemente nesta matéria em alguns países europeus é lamentável porque incita a uma inaceitável «guerra de religiões» - ainda por cima sabendo-se que as três religiões monoteístas (cristã, muçulmana e hebraica) descendem todas do mesmo profeta, Abraão.» (Segunda nota técnica. Ficamos também a saber que, para o Governo, o que é lamentável é "o que se passou recentemente nesta matéria em alguns países europeus".)

Carlos Cunha
* Ask, The Smiths, 1987.

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A metamorfose do Sagrado

Num texto aqui publicado na passada semana, abordava os parâmetros imprescindíveis para o diálogo da Igreja com o mundo contemporâneo. Para um melhor enquadramento do tema, parece-me útil tentar perceber como chegámos à encruzilhada em que nos encontramos.
As mudanças sociais, culturais e políticas do mundo ocidental ao longo dos últimos duzentos e cinquenta anos têm conduzido a uma progressiva secularização. Este fenómeno está intimamente relacionado com aquilo que Martin Velasco refere como "metamorfose do sagrado": o que diz respeito à vigência e relevância do factor religioso na sociedade e na cultura.
Na sensibilidade pós-moderna, este processo ganha novos contornos que se podem resumir em quatro aspectos principais:


  1. Perda de relevância cultural do factor religioso. De uma situação em que o sistema de crenças e de valores religiosos formavam parte importante das diversas concepções sociais e culturais, passou-se a uma situação em que o factor religioso é menosprezado, quando não totalmente ignorado.
  2. A redução social do espaço religioso. Há uma acentuada tendência para reduzir a religião à esfera do culto e da vida privada.
  3. Relativização. De uma situação em que o factor religioso exercia o monopólio do sentido e do valor da vida, passou-se a um inquestionável pluralismo em que os valores religiosos coexistem com outros valores e se reduzem a uma opção pessoal e ao âmbito da consciência.
  4. Perda de influência da Igreja. Notória, em primeiro lugar nos terrenos político, económico e cultural e, cada vez mais, na vida quotidiana dos cidadãos.

Esta secularização é acompanhada de uma crise das práticas e das instituições religiosas em geral e da Igreja Católica em particular. Há uma crise das crenças que conduz a uma progressiva emancipação dos crentes em relação à ortodoxia, tomando como quase irrelevantes as directrizes e opiniões da Igreja. Ao abandono da prática religiosa, junta-se um crescente distanciamento entre a moral oficial da Igreja e os critérios e práticas das pessoas, sobretudo em certas áreas como a familiar, sexual ou social.
A secularização e a crise da religião geram um facto novo: a crise da socialização religiosa e a ruptura da tradição, com a consequente perda da memória cristã. Este processo faz alastrar a indiferença religiosa que, simplesmente, remete o factor religioso para uma existência virtual. No diálogo que pretende manter com o presente histórico, a Igreja não pode menosprezar esta alteração da forma como o próprio mundo vê a Igreja.
Confrontada com a inevitabilidade das profundas alterações que este quadro põe à forma de a Igreja se apresentar no mundo, têm sido ensaiadas algumas respostas que, a meu ver, em nada ajudam o desejado diálogo:

  1. Quando a situação é encarada como um perigo para a própria identidade, a resposta aparece sob a forma de "entrincheiramento cognitivo", para usar a expressão de Berger, que leva à alienação e à busca obsessiva da própria identidade. Este tipo de resposta pode assumir duas formas opostas, mas igualmente perigosas: o 'gheto' ou a 'cruzada'. Ambas supõem um certo tipo de fundamentalismo e ambas comprometem irremediavelmente o diálogo.
  2. Há também respostas de sinal contrário, a que Velasco chamou "negociação cognitiva": envereda-se por adaptações da própria identidade, numa tentativa de inserção nas novas coordenadas culturais. Quando esta "negociação" não se auto-limita, produz-se uma escalada que desemboca na "rendição cognitiva", ou seja, na dissolução da própria identidade.

Um perigo acrescido surge quando estas duas respostas se tentam justificar acusando os excessos da outra, tornando-se, elas próprias, num factor da crise.
Neste contexto, qualquer tentativa séria de mudança de atitude implica uma profunda revisão interna e uma vontade firme de mudança, sem perder pelo caminho a herança do Nazareno.

Manuel Vieira (NO ADRO)

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quarta-feira, fevereiro 1

 

Redescobrir a cidadania nos dias de hoje

Texto de Apresentação das IX Jornadas de Universitários Católicos


A primeira constatação, quando olhamos para a nossa realidade, é a de que a sociedade está a passar por um conjunto de alterações significativas. Essas mudanças são inúmeras e representam desafios novos que exigem soluções novas.

Desde a convivência de culturas diferentes, a mobilidade e o desenraizamento de trabalhadores e famílias, a situação ecológica do planeta, o crescente acesso à informação e a possibilidade de comunicar permanentemente, a persistente “crise” do nosso país, as expectativas de aumento da qualidade de vida e da esperança média de vida, os grandes avanços da ciência e da tecnologia. Passando também pelo descrédito dos actores políticos e o desinteresse pela participação política, a persistência de conflitos em vários pontos do globo e as multidões de refugiados que eles geram, o fenómeno do terrorismo globalizado, o subdesenvolvimento de tantos países apesar de existirem riqueza e recursos suficientes para que ninguém viva na miséria.

Sentimos, por isso, que a nossa geração – ainda que pouco segura da influência da sua acção para alterar o rumo da sociedade – tem nas mãos grandes responsabilidades em trabalhar para a resolução dos problemas e aproveitar as potencialidades dos nossos dias. Importa ler as mudanças que estão a acontecer e contribuir para que a mudança certa aconteça.

Os dias de hoje fazem-nos pensar na nossa própria responsabilidade e questionarmo-nos sobre a influência das nossas acções. A nível mundial, mas também a nível nacional, cada vez é mais claro que o caminho que percorremos só pode ser feito em conjunto e que o compromisso de cada um é indispensável. Esse compromisso pode revestir-se de formas diferentes, mas uma delas salta à vista: o compromisso de cidadania.

A cidadania não é apenas o mínimo denominador comum que nos junta numa comunidade. É um desafio exigente de vivermos a nossa liberdade em comunidade, de nos realizarmos enquanto seres sociais, de procurarmos um sentido para as nossas vidas. Num tempo que muitos consideram marcado pelo egoísmo e pelo individualismo, importa reafirmar o valor da comunidade, discutindo o nosso contributo para o desenvolvimento, entendido de forma abrangente (desenvolvimento económico, social, moral, etc.). Sentimos a necessidade de reconstruir o conceito e a prática que temos de cidadania, de ir fundo na descoberta de como faz parte da nossa vida.

Para nós cristãos, esta discussão não é apenas mais uma.
A cidadania é uma expressão do amor à sociedade e como tal é um imperativo moral. Além disso, num tempo de “medo do futuro”, é urgente o anúncio de uma mensagem de esperança que ajude as pessoas a empenharem-se na construção da nossa sociedade. Há um trabalho profundo que precisa de ser feito para tornar a Boa Nova de Jesus Cristo inteligível na nossa cultura. Sentimos a necessidade de procurar novos nomes que anunciem o amor a que Jesus Cristo nos convida. Novos nomes que exprimam a exigência de encontrarmos formas mais humanas de vivência em sociedade, de tornarmos mais presentes em cada um de nós o Reino de Paz e de Justiça.

Enquanto estudantes universitários sentimos também a necessidade de questionar a forma como a universidade está a fomentar uma cidadania responsável. Isso passa, naturalmente, por formar profissionais competentes, exigentes consigo próprios e atentos aos problemas da sociedade. Não nos referimos à educação para a cidadania, competência deixada nas mãos do Ensino Básico. Estamos, sim, a perguntar pelo salto qualitativo de responsabilidade, competência, atenção, sentido de justiça — numa palavra: cidadania — que uma formação superior deve oferecer aos estudantes.
As mudanças introduzidas pelo Processo de Bolonha parecem-nos interessantes deste ponto de vista: ao colocar a ênfase não no que o professor ensina, mas no trabalho do aluno, estamos a colocar-nos numa perspectiva que valoriza o contributo e o trabalho de cada um, onde cada um é mais sujeito da sua aprendizagem.

Com a proposta das IX Jornadas de Universitários Católicos, no fundo, queremos contribuir para tornar um pouco melhor este nosso tempo tão interessante de se viver. As jornadas realizar-se-ão em Leiria, de 17 a 19 de Março de 2006.

Comissão de Preparação das IX JUC (
www.redescobrircidadania.org)
Lisboa, Janeiro de 2006


Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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O teólogo

Olhou para a cebola que lhe enchia a mão como uma palavra reflectida preenche um acto. Não, não a compreendia. A sua mão quieta tentava sentir a cebola. Mas não, nenhum pulsar lhe acudia à pele. A cebola imobilizava-lhe a mão como um esquecimento bloqueia um discurso. Era estranho. Difícil de apreender. Como algo sendo sem nada ser. Nem miragem nem sonho. Algo indeterminado pedindo definição, um orgão imóvel clamando estímulos. Tão estranho como uma foto do seu rosto futuro ainda por revelar.
Como é costume quando se tem uma cebola na mão, na outra estava uma faca. Uma faca que ele aproximou da cebola. Esta não reagiu, estava cega, como o bêbedo que se aproxima do precipício, o animal da ratoeira. Quase tanto como eu, disse ele, e cravou a lâmina na cebola. Uma tira da primeira camada soltou-se da cebola, ficou um momento presa à lâmina da faca e desprendeu-se rodopiando até ao chão. Descascou mais uma tira, e outra, e ainda outra, e mais uma, e parou. Não percebia bem o que estava a fazer. Era um gesto banal, costumeiro, já o fizera muitas vezes e tantas outras vira outros fazê-lo. Mas sempre com sentido, na cozinha, confeccionando um prato. Não era esse o caso naquele momento. Ali, naquela enigmática situação, o que ele queria era comunicar com a cebola, que ela com ele comunicasse. Era como se perguntasse à cebola: Quem és tu?, e isto sem lhe perguntar: Para que serves? Curiosamente, a faca não lhe suscitava interrogação. Mas a cebola, da cebola ele algo queria saber, algo que não apenas o seu sabor.
Convicto que aquele desajustado gesto lhe mostraria o que fazer para comunicar com a cebola, continuou a descascá-la. Porque sempre era um gesto de contacto com a cebola, e não tinha mais nada por onde começar, não fazia a mínima ideia de como se falava a uma cebola. Ela haveria de reagir, dar um sinal qualquer ao seu contacto, era essa a sua esperança. E então descascava a cebola, à medida que os seus olhos se enchiam de lágrimas, fungando cada vez mais do nariz, quase espirrando continuava a descascar a cebola.
Devia ser uma cebola especial. A cebola das cebolas. Pois o chão enchia-se de tiras da cebola, um monte que crescia bem para além do tamanho da cebola. Um monte que crescia à sua volta e ameaçava soterrá-lo se ele não fosse mudando de lugar sempre que o monte lhe chegava à cintura. E cego ficava ele. Cego de lágrimas e ranho e espirros e tosse. Teve de instaurar paragens, pequenos pontos de descanso como quem faz uma longa caminhada. Paragens cujo único significado é o de poder-se continuar, sem parar, até à meta. Neste caso, a desconhecida meta: a gramática da cebola.
É possível que nestes intervalos para descanso, pessoas lhe aparecessem. Amigos, inimigos, indiferentes, familiares, sabe-se lá. E que muito provavelmente lhe dissessem que estava doido, que aquilo era uma perca de mente e de acção. Que pensasse bem, algum equívoco se infiltrara na sua compreensão de si. Até porque nunca mais com nenhum deles convivera, desde que se lhe enfiara na cabeça comunicar com aquela cebola. E é certo que, assim sendo, ele teria replicado: Que sabem vocês disto? Vocês não são cebolas!
O certo também é que continuou a sua talvez infinda tarefa, chorando e pausando e comendo e dormindo apenas o necessário. Até ao dia em que algo aconteceu. Não numa pausa, mas num momento de descasque. Ouviu um ploc!, quase inaudível. Um pequeno ploc!, muito distinto do chteít! do descasque. Parou imediatamente, de ouvidos em riste, naquele silêncio peculiarmente significante que se instaura depois de um som. Pousou a cebola no chão. Da sua direita, fôra o que lhe parecera, um pouco atrás de si à sua direita. Cautelosamente avançou para lá, ansioso e vagarosamente. E lá estava, mesmo no topo dum monte de tiras da cebola, lá estava como que triunfante, pousado no monte, pequeno como uma timidez lá estava, como que olhando para ele: um dente de alho.
Ele sorriu.
Não, não choviam dentes de alho do tecto da sua casa, nunca na vida. Aquilo só podia ser uma palavra da cebola, um gesto qualquer, um trejeito no olhar.
Pegou no dente de alho, cuidadosamente. Olhou para a cebola. Voltou a sorrir, e disse então: Tu e eu, temos a boca cheia de pouco.
E começou, lentamente, a descascar o dente de alho.


Vítor Mácula (
SER CRISTÃO)

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Santa Maria

O post de hoje será (um dos muitos, espero) dedicado aqui na Terra à primeira Encíclica do Papa Bento XVI.

Começo pelo fim. Pelo ponto 42.

"À vida dos Santos, não pertence somente a sua biografia terrena, mas também o seu viver e agir em Deus depois da morte. Nos Santos, torna-se óbvio como quem caminha para Deus não se afasta dos homens, antes pelo contrário torna-se-lhes verdadeiramente vizinho. Em ninguém, vemos melhor isto do que em Maria. A palavra do Crucificado ao discípulo — a João e, através dele, a todos os discípulos de Jesus: «Eis aí a tua mãe» (Jo 19, 27) — torna-se sempre de novo verdadeira no decurso das gerações. Maria tornou-Se realmente Mãe de todos os crentes. À sua bondade materna e bem assim à sua pureza e beleza virginal, recorrem os homens de todos os tempos e lugares do mundo nas suas necessidades e esperanças, nas suas alegrias e sofrimentos, nos seus momentos de solidão mas também na partilha comunitária; e sempre experimentam o benefício da sua bondade, o amor inexaurível que Ela exala do fundo do seu coração. Os testemunhos de gratidão, tributados a Ela em todos os continentes e culturas, são o reconhecimento daquele amor puro que não se busca a si próprio, mas quer simplesmente o bem. A devoção dos fiéis mostra, ao mesmo tempo, a infalível intuição de como um tal amor é possível: é-o graças à mais íntima união com Deus, em virtude da qual se fica totalmente permeado por Ele — condição esta que permite, a quem bebeu na fonte do amor de Deus, tornar-se ele próprio uma fonte « da qual jorram rios de água viva » (Jo 7, 38). Maria, Virgem e Mãe, mostra-nos o que é o amor e donde este tem a sua origem e recebe incessantemente a sua força. A Ela confiamos a Igreja, a sua missão ao serviço do amor:

Santa Maria, Mãe de Deus,
Vós destes ao mundo a luz verdadeira,
Jesus, vosso Filho – Filho de Deus.
Entregastes-Vos completamente
ao chamamento de Deus
e assim Vos tornastes fonte
da bondade que brota d'Ele.
Mostrai-nos Jesus.
Guiai-nos para Ele.
Ensinai-nos a conhecê-Lo e a amá-Lo,
para podermos também nós
tornar-nos capazes de verdadeiro amor
e de ser fontes de água viva
no meio de um mundo sequioso."


Os Santos. Existem ainda lugar para os Santos no mundo de hoje? Julgo que João Paulo II "produziu" mais Santos no seu pontificado que todos os Papas antes dele. Que quer isto dizer? Talvez tão somente que cada vez mais pessoas se conseguem identificar com Jesus Cristo nas palavras e nas obras. E que estas pessoas são verdadeiros faróis que iluminam a humanidade. Exemplos que mostrem aos homens de que quem "caminha para Deus não se afasta dos homens".

A Virgem Maria, Mãe de Jesus, é aqui revelada como a Mãe de todos os Homens:

"A palavra do Crucificado ao discípulo — a João e, através dele, a todos os discípulos de Jesus: «Eis aí a tua mãe»".

De entre os adjectivos com que o Papa Bento XVI caracteriza a nossa Mãe, encontram-se a sua bondade, a sua pureza, a sua beleza, "um amor puro que não se busca a si próprio, mas quer simplesmente o bem".

Se a bondade não necessita explicações pois é evidente de per se, convirá todavia explicar o que se entende por "pureza" e "beleza". A "beleza" também é relativamente fácil de definir. Não se trata, obviamente, da beleza física que se traduz pelo equilíbrio e propriedades de certos traços físicos. Quantos de nós não vimos já pessoas com os traços físicos muito correctos mas que nos desagradam? E quantos de nós não vimos já, pessoas com traços físicos vulgares ou pouco característicos e que nos encantam pela sua postura e pela sua atitude? A beleza é, sobretudo, uma qualidade que se encontra ligada à bondade. E, de um ponto de vista cristão, a beleza é sinónimo de bondade. É o lado estético da bondade.

E a pureza?

Recordo-me de uma conversa com um amigo ateu. Falávamos de uma terceira pessoa, X, da disponibilidade que X sempre manifestava, falávamos da sua correcção e da sua franqueza. Em dado momento, esse meu amigo disse: "O que mais impressiona em X é que ele é puro!" Fiquei algo perplexo pois ele raramente utilizava certos adjectivos. Mas compreendi o que ele pensava: X tinha uma extraordinária capacidade para evitar o mal de um modo quase natural e instintivo. A pureza talvez consista, simplesmente, no "evitar o mal".

Volto aos Santos. Um Santo é, portanto, alguém belo, puro e bondoso. Daí Santa Maria, Mãe de Deus.


Timshel [TIMSHEL]

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A Intervenção das Religiões

A necessidade de partilha da experiência religiosa pessoal está na base da formação de comunidades religiosas. E nas dinâmicas comunitárias que estas partilhas suscitam podemos encontrar crentes com dois tipos de atitudes bem distintas: os que se afastam do mundo, tentando criar comunidades perfeitas, tentando seguir um estilo de vida ideal de acordo com os ensinamentos religiosos; e os que tomam o caminho oposto, tentando transformar o mundo num local melhor, e desenvolvendo diversas actividades que visam melhorar a vida dos povos.

Os parágrafos que se seguem são excertos de escrituras e palavras de teólogos de várias religiões, onde se justifica a necessidade da comunidade religiosa intervir no mundo, e de o transformar numa sociedade mais justa e mais equilibrada. As citações foram retiradas do livro
The Phenomenon of Religion: A Thematic Aproach de Moojan Momen; a tradução é da minha responsabilidade.

SIKHISMO
... cada Sikh age e ora pela fraternidade universal: o Sikh ora em busca da sarbat da bhala (bem-estar para todos)...

o Sikhismo é muito claro quanto ao tipo de serviço que deve ser prestado e a quem deve ser prestado. O serviço material, assim como o proporcionar de descanso e alívio aos outros, ou a leitura das escrituras para os outros para lhes oferecer conforto espiritual é muito superior aos incontáveis fogos de sacrifício, à prática de cerimónias ou à mera meditação e conhecimento mundano... O sikhismo também contém instruções contra a oferenda de comida ou dinheiro aos chamados "renascidos"; em vez deles, são os pobres e os necessitados que devem ser auxiliados. O Guru
Gobind Singh faz uma declaração claramente inequívoca a este respeito: o verdadeiro serviço é o serviço a estas pessoas (vulgares). Não estou inclinado a servir as castas elevadas; a caridade dará frutos neste e noutros mundos apenas se for dada a essas pessoas necessitadas. (Singh, Sikh Theology of Liberation, pag. 124, 127-128)

RELIGIÃO BAHÁ'Í
O quarto princípio ou ensinamento de
Bahá'u'lláh é o reajustamento e equilíbrio dos padrões económicos da humanidade. Isto lida com a questão da subsistência humana. É evidente que sob os presentes sistemas e condições de governação, os pobres estão sujeitos a grandes necessidades e miséria, enquanto que outros mais afortunados vivem no luxo e com muito mais do que as suas reais necessidades. Esta desigualdade de quinhão e privilégio é um dos problemas mais profundos e vitais da sociedade humana. Que existe uma necessidade de um equilíbrio e partilha através dos quais todos possuam os confortos e os privilégios da vida, isso é evidente. O remédio é legislar sobre o reajustamento das condições. Os ricos também devem ser misericordiosos com os pobres, contribuindo voluntariamente para as suas necessidades, sem serem forçados ou compelidos a fazê-lo. A tranquilidade do mundo será assegurada através do estabelecimento deste princípio na vida religiosa da humanidade ('Abdu'l-Bahá, Promulgation of Universal Peace, p.107-108)

CRISTIANISMO
A Teologia deve vir dos pobres... A Igreja necessita da reflexão dos pobres. Eles conhecem a morte num nível íntimo que nenhum intelectual conhece.... O ponto de partida da teologia da libertação é o compromisso com os pobres, as “não-pessoas”. As suas ideias vêm das vítimas... O compromisso com os pobres é o verdadeiro local da experiência espiritual. No compromisso com os pobres... encontra-se Deus. [Gutierrez] reconheceu que Deus não é o principal tema na teologia da libertação, mas acrescentou "Estamos a trabalhar nisso"... A teologia da libertação não é optimista. Fala frequentemente de pecado e a situações de pecado. "Não temos a certeza noutra sociedade, mas temos a certeza que a presente sociedade não é viável e devemos mudá-la." (relatório de
Gustavo Gutierrez dirigido a uma reunião da Associação de Teologia Católica, Junho 1978, citado em Schall, Liberation Theology in Latin America)

JUDAISMO
A teologia da libertação judaica reconhece que o mundo mudou, e que pela simples aplicação das categorias pré-holocausto e holocausto ao mundo contemporâneo fechamos os nosso olhos e ouvidos à dor e à possibilidade do presente. Ao transportar a nossa própria história, legamos à posteridade uma compreensão das lutas contemporâneas. Se estivermos esmagados, porém, pela história e procuramos esmagar os outros, a nossa memória torna-se um calço de cólera e estreiteza de espírito, um instrumento rude em vez de uma memória delicadamente nutrida... Aqueles que queriam um regresso ao Egipto recusavam o risco do deserto, certamente uma posição compreensível. Mas a liberdade estava noutro local, para lá do conhecido, e novos padrões de vida e culto seriam desenvolvidos na dor e luta pela libertação. (Ellis,
Towards a Jewish Theology of Liberation, pag. 121)

Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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Religião

No passado dia vinte e um de Janeiro, celebrou-se o Dia Mundial da Religião. No meio de tantas celebrações, talvez até, de uma excessiva banalização das mesmas, algumas verdadeiramente importantes, passam-nos despercebidas. Qual o sentido de celebrar a religião, hoje, no início do séc. XXI?

Maria Clara Lucchetti Bingemer teóloga brasileira, num artigo publicado na Agência Adital, diz:
Certamente na velha Idade Média não era preciso haver um dia Mundial da Religião. O mundo medieval era essencialmente religioso. A concepção de mundo, de ser humano, de arte, de saber era teocêntrica, ou seja, tinha Deus por centro. E Deus é o centro irradiador e convergente em torno do qual gira e se forma a religião. É da experiência de Deus, do contacto com o Ser Transcendente, que nenhuma categoria humana explica, que nasce a religião, feita de símbolos, ritos e doutrina.

A modernidade retirou Deus do centro da visão de mundo e organização do saber, colocando aí o ser humano. O mundo moderno, à diferença do medieval, passou a ser antropocêntrico e não mais teocêntrico. O homem é a medida de todas as coisas e o saber, o pensar, o sentir desejam ser autónomos e não mais tutelados por uma religião. A religião passou, então, a ser um sector da vida e da organização social e científica, não sendo mais o centro a partir do qual se explica a vida. Alguns mesmo – como Marx, Freud e Nietzche, chamados com razão de “mestres da suspeita” - profetizaram o seu fim.

No entanto, essas profecias parece que não se cumprem. Ao invés de desaparecer e acabar, a religião re-aparece sob novas formas e configurações, mostrando que na verdade nunca se retirou e sempre esteve presente na vida humana....

Primeiro que tudo é preciso entender o que é religião. Religião é a crença na existência de uma força ou forças sobrenaturais, considerada(s) criadora(s) do Universo, e que como tal deve(m) ser adorada(s) e obedecida(s). É a manifestação de tal crença por meio de doutrina e ritual próprios, que envolvem, em geral, preceitos éticos.

A palavra religião vem de re-ligar, quer dizer, daquilo que liga, que faz a conexão, a relação do ser humano com aquilo ou Aquele que não é humano, que é transcendente, que é sobrenatural. Portanto, é a ligação misteriosa do ser humano com algo ou alguém maior do que ele, que ele não controla nem domina e que, no entanto, se mostra, se manifesta, se revela.

Durante muitos séculos no mundo ocidental, a experiência religiosa era quase exclusivamente configurada pela tradição judaica-cristã. Ser religioso era sinónimo de ser cristão e em muitos casos ser católico. Hoje, com as migrações e globalização, o mundo é (pluri)religioso. O grande desafio é acolher as diferenças e dialogar com essas diferenças, tornando-as potencialidade de vida e harmonia
.”


Para muitos a religião ou as religiões, são um mal. São uma alienação, são violação da liberdade. Para outros, crentes de alguma fé, a religião é uma mais-valia porque pondo-os para fora de si mesmos, indo ao encontro dos outros e do Outro, são mais felizes. Vivem de forma mais humana. Creio que o coração humano não cabe neste mundo, daí a abertura ao Transcendente. Os nossos olhos abarcam muito mais do que vêem, por isso o Homem sai para fora de si e do imediato que o cerca.

Maria da Conceição (JARDIM DE LUZ)

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Por uma Igreja dialogante

Se há urgências sentidas por todos os sectores da Igreja, uma delas é a necessidade de encontrar fórmulas de reatar o diálogo com o mundo contemporâneo. É palpável a sensação de que estamos encalhados numa conversa de surdos. É só um problema de linguagem (este "só" é pura ironia...)? É uma questão de diferentes cosmovisões inconciliáveis? É um drama irremediável?
O conceito de diálogo é incontornável quando consideramos o relacionamento da Igreja com a realidade social em que concretamente se integra, embora não deixe de ser verdade que falar de diálogo é muito diferente do acto de dialogar. Falar de diálogo é um exercício unilateral; dialogar exige encontro com um interlocutor, o que pede, à partida, uma postura não dogmática e uma abertura à diferença.
A nível eclesial, parece ser mais ou menos consensual a necessidade de diálogo. Mas a concretização do mesmo enferma ainda, muito frequentemente, de algumas posturas que o comprometem à partida, como um dogmatismo exagerado, uma inflexibilidade do discurso, um desfazamento de linguagem ou um paternalismo inconveniente.
Para um sadio e fecundo diálogo com o mundo de hoje, a Igreja tem de começar por dar atenção à sua própria postura e à imagem que transmite aos interlocutores. "O diálogo é a expressão dum acto de reverência pela liberdade, na sociedade, de pessoas e instituições. Não é desinteresse ou indiferença. Diálogo inclui solicitude, empenho, vontade de esclarecer...". Ou seja, exige respeito pelo outro e humildade.
A Declaração Conciliar Dignitatis Humanae, sobre a liberdade religiosa, definiu de forma feliz a atitude desejável para o diálogo inter-religioso. Não é descabido retomar algumas das idéias aí expostas para as aplicar ao relacionamento da Igreja com o mundo em geral.

Em primeiro lugar é preciso reconhecer uma sociedade formada de pessoas livres e iguais, onde o valor fundamental e base para todo o diálogo é a própria dignidade humana.
A Igreja não é chamada a controlar os dinamismos sociais, mas a participar, de forma construtiva, na evolução desses mesmos dinamismos. O âmbito natural para este diálogo é o pluralismo, donde se parte para uma nova compreensão das relações globais entre a Igreja, o Estado e a sociedade.
A solução encontrada na Dignitatis Humanae para a questão da liberdade religiosa, acabou por definir um sistema de parâmetros para a Igreja se situar e intervir em situações de pluralismo que me parecem de grande utilidade quando se trata de preparar o diálogo:

  1. Primado da verdade. O empenho da Igreja no diálogo e a entrada nele em plano de igualdade com outros, não se resolve em nenhum tipo de indiferentismo ou relativismo, nem inibe a Igreja de manifestar com firmeza as suas convicções ou de propôr verdades que, no seu entendimento, não estão sujeitas às oscilações pluralistas. Convém, no entanto, ter muito claro que, embora seja "mestra da verdade" em matérias que têm a ver com o depósito da fé que lhe cabe guardar, esse título não é aplicável a muitas outras questões passíveis de serem objecto de diálogo. Não nos esqueçamos que, muitas vezes, é apontada à Igreja uma certa arrogância, precisamente por existir alguma dificuldade na definição dessa fronteira. A humildade pode e deve marcar o tom das intervenções eclesiais.
  2. Liberdade pessoal. A liberdade da pessoa humana é o valor primeiro que merece incondicional respeito. E não vale tentar dar "voltas ao texto": não é exigível aos não crentes que restrinjam o seu conceito de liberdade à concepção cristã da mesma. Importa, isso sim, encontrar patamares comuns que, aliás, existem. Num contexto pluralista, este é um critério imprescindível para a credibilidade da voz da Igreja. Isto implica respeito pelas opiniões e opções diferentes, mesmo quando não se coadunam com os critérios que a Igreja propõe. Apostar no diálogo exige uma profissão de fé na verdade, tendo claro que ela "não se impõe de outro modo senão pela sua própria força".
  3. Receptividade. O diálogo deve ser verdadeiramente aberto ao questionamento próprio por parte da Igreja, dispondo-se, ela mesma a ser transformada neste processo, na recepção das aportações que os outros interlocutores lhe propõem, quando isso não ponha em causa aquilo que é essencial à sua própria natureza.

Posta a questão assim, importa perguntar: como tem sido o diálogo da Igreja com o mundo em que vivemos? E até que ponto esse diálogo se cultiva internamente?

Manuel Vieira (NO ADRO)

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Qual é a cor do novo bes?

Verde-sobreiro não é, com toda a certeza. O verde-sobreiro é sóbrio, sério, vetusto, e tem raízes sólidas. Além do mais, o verde-sobreiro não se dá em todas as paisagens: tem o que se chama o seu lugar, coisa quase incompreensível nestes tempos frenéticos.
O "novo" BES tem uma cor iliterata, que não sabe colocar acentos tónicos nas palavras e escreve espirito em vez de espírito em grande parangonas por toda a cidade.
O "novo" espírito santo é mais levezinho, portátil e efémero, um adorno estéril, uma forma instável, uma cor sem conteúdo.
O "novo" banco não é novo. É uma mentira de seis milhões de euros, patrocinada por todos nós que suportamos os baixos impostos dos bancos.
A cor do "novo" BES é uma cor moderna, artificial, instável, a cor da nova democracia, de um fervor temível, criado para nos moldar contra a liberdade fundamental da dúvida, avesso à criação e à transformação realizadora do Homem. A cor do "novo" banco é a cor ameaçadora de um futuro perigoso. Um verde-zelo contra o qual temos de nos defrontar.

O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque ele me ungiu
para evangelizar os pobres,

enviou-me para proclamar a remissão aos presos

e aos cegos a recuperação da vista,

para restituir a liberdade aos oprimidos

e para proclamar um ano de graça do
Senhor.
(Lc. 4, 18-19)

O BES não passa de apenas uma loja de penhores. O Espírito Santo é coisa diversa.

Carlos Cunha

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