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quarta-feira, janeiro 11

 

Que Deus?

Tanto quanto dure o espaço
E tanto quanto os seres humanos permaneçam,
Possa também eu permanecer
E dissipar o sofrimento dos seres.


Li esta estrofe num pequeno livrinho que recebi pelo Natal. A estrofe corresponde a uma oração budista e o livrinho chama-se "A bondade do coração", um livro que contém uma perspectiva budista sobre os ensinamentos de Jesus, constituído na sua maior parte por intervenções do Dalai Lama a este respeito.

Comecei a ler o livrinho com dedicação mas, por diversas razões, li a sua maior parte em diagonal e aos saltos. Quando compreendi que dificilmente estava em circunstâncias de ler exaustivamente o dito livrinho fui ao índice saber se existiria um comentário especificamente destinado àquele que é, do meu ponto de vista, o dogma fundamental do cristianismo – o amor – na especificidade característica do cristianismo, "Amai os vossos inimigos!".

É que esta expressão específica do cristianismo, que é o seu mais radical e perturbante mandamento, é a razão pela qual sou cristão e não outra coisa qualquer e gostava de saber o que dizia o Dalai Lama a este respeito.

Existia de facto um capítulo destinado a este tema. O Dalai Lama disserta nesse capítulo sobre a paciência, a tolerância e a compaixão, que são valores muito importantes para o budismo. Mas "Amai os vossos inimigos!" não me parece que seja apenas ser paciente, tolerante ou compassivo para com eles. Amar é algo de activo, é a procura activa do bem e da felicidade do outro. Ao longo das dez páginas que o Dalai Lama dedica a este mandamento, e estou-me a recordar de um excerto em que o Dalai Lama diz que um dos mandamentos do budismo é que devemos ser justos para com os nossos inimigos, transparece uma ética que poderia ter simplesmente saído do gabinete de um psicólogo.

O cristianismo é uma fé completamente estranha e desadequada. Não é uma mezinha semelhante às mezinhas do clero psiquiátrico destinada apenas a ajudar-nos a viver melhor em termos individuais. É algo completamente sobrenatural.

"Amai os vossos inimigos!", de um ponto de vista humano, é uma rematada tolice.

É este mandamento que faz do cristianismo a religião mais mística e mais radical. É este mandamento que permite considerar o cristianismo não como uma doutrina igual a tantas outras mas sim como uma revelação divina. A morte na Cruz, elemento fundamental da simbologia cristã, é "Amai os vossos inimigos!"

Mas esqueçamos por agora o mandamento supremo do cristianismo e voltemos à oração inicial. Para a imensa maioria dos cristãos (nos quais me incluo) o simples amor que se encontra também abundantemente expresso no budismo sob diversas formas já é uma meta quase sobrenatural. Essa oração inicial é, sem dúvida, uma forma particularmente bela de expressar o amor: estamos aqui para ajudar a dissipar o sofrimento dos seres.

Existe o amor na política? A política também pode contribuir para dissipar o sofrimento dos seres? O cristianismo será uma espécie de budismo, um catálogo de comportamentos individuais aconselháveis e que nada têm a ver com a forma como a sociedade se organiza politicamente? Será possível que eu possa pensar no sofrimento do outro em concreto que se encontra ao pé de mim e agir individualmente para minorar esse sofrimento e que depois me esqueça do sofrimento do outro que não vejo, sofrimento esse implícito em certas escolhas políticas e na forma como se organiza (ou não) a redistribuição dos recursos? Que Deus é esse que nos manda esquecermo-nos do outro que não vemos? Que Deus é esse que nos impede de reflectirmos em políticas ou em formas de nos organizarmos em sociedade que ajudem a reduzir o sofrimento do meu irmão que não se encontra ao pé de mim?


Timshel [TIMSHEL]

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