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quarta-feira, janeiro 11

 

Nada a esconder?

Michael Haneke é um dos grandes filósofos do cinema contemporâneo. Os seus filmes exigem do espectador o que parece faltar às suas personagens (e ao espectador desprevenido): um olhar para dentro de si, neste tempo absurdo em que somos tentados a ser voyeurs passivos da vida, separados da realidade por uma rede de filtros encantatórios. Como a televisão, a "cultura", o consumismo.
Em especial, a violência dos seus filmes conta muito com a colaboração do espectador. Na maior parte dos casos ela não é mostrada, mas deixada fora de campo. Cabe ao público participar nela. Usar a sua fantasia e a sua experiência. No fundo, confrontar a realidade.

No filme que estreia amanhã nas salas portuguesas, Nada A Esconder («Caché», no original), o realizador austríaco leva ao extremo a noção de que não existe um espectador (ou pessoa, diria) passivo.
Georges Laurent, autor de um programa de televisão sobre crítica literária, vive um casamento feliz com a editora literária Anne, com quem tem um filho, Pierrot. Começa por receber cassetes video, filmadas clandestinamente a partir da rua, em que aparece com a família, assim como desenhos perturbadores e difíceis de interpretar, e não faz a menor ideia da identidade do remetente.
Pouco a pouco, o conteúdo das cassetes vai-se tornando cada vez mais pessoal, o que o leva a pensar que o autor conhece algo sobre o seu passado e a tensão começa a instalar-se no casal.
Lentamente criando a suspeita no espectador de que o protagonista talvez não tenha um passado impoluto, Haneke transforma o público em algoz. Georges tenta esconder de nós o máximo de informações, mas somos continuamente alimentados por elas, e esperamos um desfecho que faça "justiça".

Nada A Esconder é inconclusivo por natureza, é um ensaio psicológico e social em forma de filme. Michael Haneke exige um rigoroso compromisso mental, emocional e moral do espectador, e, ao transformar o que podia ser apenas um eficiente suspense num estudo sobre a culpa e a responsabilidade, o filme mexe nas nossas entranhas mais fundas, do consciente ético.
Somos todos no filme de Haneke: Georges, Anne, os amigos, e quem observa e sabe tudo sobre Georges e o seu passado.

E podemos perguntar(-nos): o que fizeste do teu irmão?

Carlos Cunha

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