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terra da alegria |
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Quarta-feira, Julho 20
Fazei o que Deus manda, quer Ele queira quer não...O Speakers Corner em Londres é, para mim, um dos locais mais interessantes que conheço. A minha vontade seria levar um escadote comigo para arengar também um pouco às massas nesse local. Felizmente que com a blogosfera essa compulsão desapareceu um pouco, pois tenho podido sublimar esses ímpetos obcessivos com escadotes por meios menos trabalhosos de educar as massas.
Para quem não saiba, convém informar que o Speakers Corner é um local em Hyde Park em Londres em que qualquer um pode chegar lá e começar a botar faladura. Em cima de um banco, em cima de um escadote ou simplesmente em pé. E encontra-se lá quase sempre gente disposta a escutar (pelo menos durante algum tempo). Por vezes estabelecem-se debates calorosos entre os oradores e a assistência. Mas raramente se chega a vias de facto. Deveria ser interessante fazer um trabalho histórico de investigação dos temas com mais oradores e com mais público. Alguém já deve ter feito esse trabalho mas desconheço-o. Particularmente curiosa é a evolução entre os temas predominantemente políticos de há umas dezenas de anos para a actual preponderância de temas religiosos. Numa ocasião recente, após ter deambulado um pouco entre os vários grupos, apercebi-me de um orador quase sem público e dirige-me para ele. Tratava-se de um comunista da velha guarda. Como o tivesse visto a falar sozinho no meio daquela babel de proclamações em altos berros decidi aproximar-me timidamente e deixar-me a uma certa distância, a suficiente para o poder escutar. Ele contudo, mal vislumbrou que eu o estava a ouvir, veio na minha direcção e colocou-se à minha frente a arengar de olhos nos olhos. Deixei-me estar o tempo suficiente até que chegassem outros potenciais ouvintes e assim que estes chegaram debandei para outro grupo. O grupo que é a razão de ser principal deste post. Tratava-se de fundamentalistas islâmicos e apelavam expressamente ao terror e a actos terroristas contra o Ocidente. Fiquei um pouco perplexo pois ignorava que a liberdade de expressão incluía aquilo que criminalmente se designa de "incitamento à prática de actos criminosos". Pensei: feliz a democracia que se permite este tipo de liberdade. Entretanto tinha começado nesse grupo uma estranha discussão teológica sobre a possibilidade de Deus aceitar o terrorismo. Sobre a matança de inocentes, discutia-se a opinião de Deus sendo que uns eram contra e outros a favor pois nenhum ocidental seria inocente. Nessa altura, dei comigo a pensar que estes últimos não estariam assim tão longe da verdade. Julgo que já Camus afirmava que não existiam nem inocentes nem culpados e as modernas correntes das ciências do comportamento tendem a confirmar essa hipótese. O arengador passou depois à apologia dos atentados suicidas, detalhando com uma surpreendente abundância de pormenores materiais as recompensas que esperavam os "mártires" no paraíso. E foi então, não posso garantir se ouvi ou se pensei, que na minha cabeça ecoou a frase que dá o título a este post: "Fazei o que Deus manda, quer Ele queira quer não..." Timshel [TIMSHEL] Histórias para dormir a sesta (1)Duas notas prévias, só para que me percebam.
A primeira é que eu sou um optimista. Embora não acredite na sorte, acredito na estatística e por isso tenho para mim que se formos tentando sempre, mantendo a grimpa razoavelmente levantada e a bolinha razoavelmente baixa, acabamos sempre por chegar aonde queremos. Ou razoavelmente perto. E se por acaso isso não acontecer, o facto de o termos tentado já nos transformou automaticamente em pessoas melhores o que, por si só, já melhora consideravelmente o sítio a que chegámos. A segunda é que é tenho alma de profeta. Costumo prever coisas, adoro quando elas acontecem e arranjo facilmente explicações quando elas não acontecem. E como profeta que gostaria de ser, sinto-me mais próximo do modelo do profeta chato, assim do tipo Jeremias. O gozo que dá em dizer “bem me tinha parecido” ou melhor ainda: “eu bem tinha avisado”! E nunca digam que Jeremias era um pessimista pois ele levou uma vida inteira a pensar que conseguia convencer o resto da malta sobre o caminho que as coisas estavam a tomar. Não lhe ligaram nenhuma e foi o que se viu: o exílio, a destruição do Templo, humilhações, sacrilégios. Mas bem que ele tinha avisado. E agora que tal como Jeremias me vou raspando, não para o Egipto mas para o Algarve em férias, vou deixar aqui umas previsões para animar a malta, previsões a curto, médio e longo prazo. Só aceito reclamações para as de longo prazo. Então aqui vai. 1) do petróleo: Li há umas semanas, no Público, uma coisa porreira que passou despercebida: um quadro superior do Banco Mundial a dizer que verdadeiramente não há uma estimativa correcta das reservas de petróleo ainda existentes. Até há coisa de 20 anos a OPEP mais as petrolíferas mantinham uma análise permanente e credível mas que, por qualquer razão, deixou de ser feita. Assim sendo as estimativas actuais apresentam-se completamente desactualizadas e comparando os consumos das últimas duas décadas com as jazidas descobertas e registadas, o dito senhor afirma sem rebuço, que os números apresentados como reservas mundiais se encontram inflacionadíssimos! Contudo esta situação desagradável tem sido pouco falada para não agravar ainda mais as tensões de subida dos preços do crude, que se encontram já altíssimos. Ainda segundo este senhor, a forte aceleração do consumo chinês acabará por fazer despoletar esta realidade dentro de muito poucos anos, altura em que os preços atingirão níveis estratosféricos. Não sei se tem reparado que os chineses, cujas preocupações humanitárias para com terceiros não são decididamente um traço dominante do seu quadro mental, esses chineses andam a apoiar fortemente a África, com ajuda sobretudo económica e técnica. O facto é que em África se situam grande parte das reservas ainda inexploradas e tenho para mim que os chineses que pensam sempre a longo prazo, andam já a tratar das suas comprazinhas para os próximos 20-30 anos. Os americanos já se sabe o que tem andado a fazer. Os europeus, esses, veem mais longe, já formaram uma sociedade pan-européia de capitais mistos, públicos e privados, que irá estudar, desenvolver e explorar a fusão a frio para nos aquecer a todos. Não se sabe muito mais excepto que o local já está escolhido e é em França. Parece-me bem. 2) do Islão: Já sei que não parece bem dar este título a um texto em que vou falar do terrorismo islâmico que, como se vê, veio para ficar. E realmente o Islão, enquanto religião e tradição cultural, vale infinitamente mais do que preversa concepção que dele tem esses fundamentalistas que querem rebentar-se junto com isto tudo que é nosso. É também injusto e abusivo dizer que todos os muçulmanos apoiam o fundamentalismo radical e terrorista. No entanto, bom é que se vá percebendo que todas estas iniciativas jihadistas contra o Ocidente encontram um bom acolhimento em parte muito apreciável da sociedade islâmica espalhado por todo o Mundo. Tenho para mim que o problema não é do Islão em si mesmo nem da pobreza nem da exploração ocidental nem da arrogante existência de Israel nem da guerra do Iraque, uma das mais estúpidas iniciativas de que tenho memória. Quando muito, tudo isso são factores que ajudam pois, quanto a mim que só sei o que li, o problema principal está na própria sociedade islâmica. Esta, nos sécs. XIII e XIV, ainda sob o choque das cruzadas que foram para eles como que uma verdadeira violação, enquistou-se numa visão pessimista e retrógada do mundo. Foi quando acabou a espantosa ciência islâmica, legítima herdeira da ciência grega. Foi quando o pensamento especulativo foi totalmente banido da teologia islâmica que se tornou profundamente legislativa e normativa. Foi quando as relações sociais passaram a viver sob o crivo estrito da Sunna. Ou seja o Islão, que fora uma das mais brilhantes civilizações de todos os tempos, tornou-se numa sociedade fechada, retrógada, caturra. Uma sociedade que enviou para uma total irrelevância a metade feminina da sua população, facto que deixou consequências terríveis ainda hoje sentidas. E enquanto o Ocidente se desenvolvia intelectual e materialmente, se secularizava e alterava profundamente a sua organização social, o Islão ficou a assistir a isto do remanso da kashbah, irritado e ressentido. Durante uns tempos ainda teve o gozo de ver os poderosos califas otomanos a porem a Europa em sentido mas, inevitavelmente veio Lepanto e outras catástrofes, que fizeram o Islão confrontar-se ainda mais com a sua fraqueza perante o Ocidente cristão, antigo viveiro de cavaleiros brutos e ignorantes. Assim sendo, os últimos 4 ou 5 séculos tem sido um período de contínua acumulação dum enorme ressentimento do Islão contra os Europeus, agravado aliás pelas patifarias que nós lhes íamos fazendo. Era um ressentimento agravado ainda pelo sentimento da própria inferioridade, pela sensação de nada haver a fazer. O célebre fatalismo muçulmano ajudou a mantê-los quietos mas em nada reduziu as camadas de ressentimento que se foram acumulando no ethos islâmico. E eis que um dia, não se sabe bem quando, esse fatalismo mudou. As revoltas do Mahdi no Egipto e no Sudão no séc. XIX, o aparecimento da Fraternidade Muçulmana em inícios de XX, foram os primeiros sinais de que as coisas iriam mudar mais tarde ou mais cedo. E hoje vemos tão bem como mudaram! Hoje temos a Al-Qaeda que mais do que um movimento é um conceito, um programa. Hoje espantamo-nos com a facilidade com que jovens muçulmanos pacatos, sérios, bem integrados se transformam em bombistas suicidas após umas prédicas mais inflamadas nas mesquitas, umas sessões de doutrinação por algum sheik aureolado por passados feitos bélicos algures no Afeganistão e finalmente um estágio num campo qualquer do Paquistão. A razão é tragicamente simples: alguém despertou neles o tremendo ressentimento que foi passando de geração em geração e alguém varreu da mente deles o velho fatalismo, brandindo o exemplo de jihadistas que alcançaram já o paraíso. Há ainda uma outra coisa, segundo um amigo meu, um inglês very british que anda muito próximo da suave corrente sufi do Islão, há ainda uma coisa que faz com que um jovem homem muçulmano olhe tão facilmente com tanto ódio para a sociedade ocidental em que habita: é o problema da condição feminina. Desde que as correntes estritas do Islão alcançaram predominância, a “guerra dos sexos” que nos é tão familiar, foi completamente arredada do Islão, para supremo conforto e descanso do pessoal masculino. É também por isso que a sociedade ocidental, com o seu igualitarismo sexual, é vista por eles como uma tremenda ameaça a uma ordem moral que pensam ser imposta por Deus mas que, sobretudo, lhes convém imensamente. Esse meu amigo contou-me que todos os amigos muçulmanos dele que deram em fundamentalistas, isso aconteceu-lhes após se casarem! E esta? Lembram-se do assassinato de Théo van Gogh, não se lembram? Por isso, meus caros, penso que estamos metidos numa alhada e que isto vai aquecer. Estes terroristas não querem simplesmente que a gente saia do Iraque e do Afeganistão. Nem nos querem sequer converter. Nem que a gente lhes compre os tapetes deles. Eles querem mesmo é o nosso sangue, sangue para remissão das humilhações a que o Islão se deixou sujeitar... 3) dos tigres Penso que os meus amigos terão certamente reparado que a Europa vai ficando um pouco parecida com o parque industrial da antiga CUF, ali para os lados do Barreiro. Quem viu aquilo há 20 anos e vê aquilo hoje! Fábricas inteiras desactivadas, demolidas, terraplanadas e substituídas por assépticos parques de pavilhões ditos industriais com armazéns de quinquilharia, muita dela vinda da China! Ou então fábricas apodrecidas a funcionar ainda, num último estertor. Como é evidente este arranque retórico é absolutamente exagerado mas verdade seja dita que a Europa no seu todo, enquanto potência económica global tem um futuro extremamente duvidoso. Para mim, leigo que sou, aguentar-se-ão bem a Irlanda, toda a Escandinávia, a Grécia (sim, a Grécia!) e pouco mais. A Inglaterra e Espanha parecem prosperar insolentement mas tem pés de barro, sobretudo a Espanha. Já a França, Alemanha, Itália, esses já não sabem como resolver os problemas que reconhecem ter, quanto mais aqueles que não reconhecem. De Portugal nem vale a pena falar, pelo menos por agora. É que para mim, o capitalismo, essa ave migratória, já começou a voar em força para outras paragens, de mão-de-obra boa, barata e quase infinita. Uma mão-de-obra que o capitalismo irá tornar gradualmente mais próspera, muito devagarinho, de modo a que quando a Europa tiver definitivamente secado, já esteja plenamente aberto um mercado de quase 3 biliões de pessoas. Estou a falar, claro está, da Ásia e sobretudo da Índia e da China. China que está rapidamente a tornar na fábrica de todo o mundo e Índia para onde se está a deslocalizar muitas das actividades de maior valor acrescentado da economia global: software, inteligência artificial, modelos matemáticos de gestão, tudo coisas que assentam como uma luva ao raciocínio de um povo, de elevadíssima literacia e numeracia, que desde há milénios desbrava galhardamente as profundíssimas abstrações da metafísica hinduísta e que está habituadíssimo a cumprir escrupulosamente o seu dharma para assim melhorar seu karma. Ainda aí tudo preocupado com os chineses mas serão os indianos que farão a mais séria concorrência à Europa, a concorrência naquilo que é mais precioso: a inovação intelectual, científica e tecnológica. Já os americanos, esses, não consigo ver tão claramente o seu futuro mas facto é que eles conseguem ainda ser um enorme mercado auto-sustentável e que continua a atraír fundos e cérebros de todo o mundo. E como única super-potência militar, tecnologicamente a anos-luz à frente de todos os demais, vão-se preparando para ter uma forte palavra a dizer, nem que seja à cacetada. Quanto à nossa Europa, se entretanto não nos tornarmos em Dar-al-Islam, não espero mais do que um empobrecimento progressivo e inevitável. Como sou um tipo frugal, penso que estou preparado. Bom é que nos preparemos todos. E vou interromper-me por agora antes que me comecem a apedrejar, que é o destino usual dos profetas. E também porque, relendo o que escrevi acima, noto um insuportável tom petulante que só sei definir como sendo parecido com o do Nuno Rogeiro. Safa! Vamos mas é a parar e já! Mas para a semana continuo. José [GUIA DOS PERPLEXOS] A primeira pedra«Jesus foi para o Monte das Oliveiras. Pela manhã cedo voltou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, que, sentando-se, os ensinava. Os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério. Pondo-a no meio, disseram-lhe: "Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio acto, em adultério. Na Lei Moisés nos mandou apedrejar tais mulheres. Tu, pois, que dizes?"» (João, 8:1-5).
Um site na Internet, denominado PensaBEM, divulgou uma carta em que denunciava as terríveis declarações do padre Vítor Feytor Pinto ao PÚBLICO, no passado dia 10 de Julho, a propósito do aborto e do preservativo. Na entrevista, o responsável da Comissão Nacional da Pastoral da Saúde e pároco do Campo Grande, em Lisboa, admitia a utilização do preservativo em casos limite, se estivesse em causa o preceito "não matarás", ou seja, se, face a uma relação sexual em curso, o preservativo fosse o único meio para impedir a transmissão de um virus, como o da sida: «quando o que está em questão é o não matar, e a única forma de não matar é o uso de um profilático, ele pode justificar-se». Mais. O padre Feytor Pinto admitia ainda, em relação ao aborto, que, em casos extremos - como a violação -, se a pessoa «não encontra uma alternativa», deve ser ajudada «ao máximo para que não destrua uma vida». «Mas, se a destruir, compreendemos que o conflito interior foi de tal natureza que não encontrou outra saída. Não vamos dizer que esta pessoa é uma criminosa». Os internautas anónimos do PensaBEM ficaram «pelo menos, muito perplexos» com estas palavras. Numa carta, assinada pela redacção do site, confessam que é «com muita pena» que apresentam as suas queixinhas do padre Feytor Pinto, mas que, tendo em conta o «grande relevo de que goza» o pároco do Campo Grande junto da opinião pública, «é evidente que as afirmações controversas podem suscitar confusão em muitas consciências, já bastante confusas, ou até encaminhá-las por sendas gravemente erradas». Assim, concluem que será «oportuno informar deste assunto as autoridades vaticanas competentes». A quem concorde com a iniciativa, davam a conhecer os endereços electrónicos e de correio da Congregação para a Doutrina da Fé, do Conselho Pontifício para a Família e do arcebispo Elio Sgreccia, presidente da Academia Pontifícia para a Vida, não fossem os candidatos a bufos e delatores endereçarem erradamente as suas denúncias.
Com uma esmagadora modéstia, autoproclamam-se humildemente como pensaBEM. Não apenas pensam e sabem que pensam (o que, por si, revela um valor inestimável neste mundo acéfalo), como o fazem bem. E sabem que pensam bem. Ao invés da maioria, que não pensa; ao contrário da minoria que pensa, mas mal; estes católicos pensam bem. E, uma vez que pensam - e pensam bem -, pensam sobre tudo: o Harry Potter, o neo-darwinismo, a família, os malefícios para a saúde da homossexualidade, os escapulários, os wicca, a família, a maçonaria, Deus, a Igreja, e - claro - os preservativos e o aborto. Muito aborto. Isto seria positivo se o nível de informação e reflexão fosse «libertador da liberdade de cada homem». Mas não é. Há um lado verdadeiramente fundamentalista que perpassa no site PensaBEM. A preocupação é de abarcar toda a realidade e dar resposta a todas as questões que se (auto)colocam, com uma segurança assustadora (vejam-se os dados "científicos" do texto Estudos confirmam: prática homossexual abrevia a vida, um dos raros casos que que a "ciência" é chamada a testemunhar), e procurando sempre uma confirmação canónica para o que, as mais das vezes, não passa de opinião ou reflexão lateral face a temas centrais e estruturantes da Doutrina. Mais do que numa norma regulamentar do Direito Canónico ou do Catecismo, o PensaBEM almeja transformar qualquer simples questão prática num dogma de fé. Numa orientação para a vida, como se buscasse (à semelhança dos nossos irmãos fundamentalistas islâmicos) uma resposta totalitária para o mistério da Criação e uma solução para os desígnios de Deus. Neste contexto, o aborto e o preservativo são menos importantes que a vida e a saúde, conceitos abstractos, ricos e demasiados fugazes à regulamentação exaustiva. Há é normas a cumprir e, portanto, importa denunciar e punir os infractores das normas, para que se mantenha a ordem que se imagina e dá conforto. Quem me conhece sabe bem qual a minha posição sobre o aborto e o seu enquadramento legal e quanto à posição da Igreja sobre o preservativo como instrumento de combate à propagação da sida. Em ambos os casos, parece-me que estou ao lado dos pensadores anónimos e, portanto, livre deste ímpeto persecutório. E mesmo quanto ao uso do preservativo como meio de regulação da natalidade, comungo com eles de semelhante sentimento: não gosto particularmente. Há métodos bem melhores. PS: Reparo agora que talvez tenha estado a interpretar mal o nome do site. PensaBEM não advém de uma autoanálise dos seus criadores. É uma ordem para todos nós. Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA] Segunda-feira, Julho 18
Possível futuro do mundo e lições da históriaRealizou-se no dias 6 a 8 do corrente mês, em Gleneagles, Escócia, mais um encontro dos oito países mais industrializados do mundo- Estados Unidos, Alemanha, França, Inglaterra, Itália, Japão, Canadá, e a Rússia. Encontro sempre muito mediatizado, sempre acompanhado pelas inevitáveis manifestações das várias ONG'S. Este ano com a particularidade de ser acompanhado, com os chamados concertos - Live 8. A agenda destes encontros, que se realizam desde 1975, é programar algumas medidas de combate à pobreza no mundo, sobretudo no continente Africano, e melhorar as condições climatérias, alteradas pela excessiva poluição industrial.
O encontro começou logo, com o presidente norte-americano, George W. Bush, a declarar, que qualquer eventual apoio e combate à pobreza, ou a um acordo global para debelar as alterações climatérias causadas pela poluição, estava condicionado pela defesa dos “interesses dos Estados Unidos”, que estão “primeiro” (Fonte; Público). O encontro terminou com algumas medidas, que pecam pela pouca ousadia, de quererem modificar de facto, as questões que estavam em agenda. Fica-nos sempre a sensação de que se podia “ir mais longe”. Se os países mais ricos decidissem abdicar de um pouco da sua riqueza, de alguns bens, tantas vezes supérfluos, e resolvessem assumir como sua responsabilidade, que é, a melhoria das condições de vida de tantos povos que vivem no limiar da pobreza. Mas, como farão eles isso, se dentro deles próprios as assimetrias, entre os vários grupos sociais, são por demais evidentes? Trago para completar esta minha reflexão, um texto de Marcelo Barros, editado na agência Adital, onde ele coloca em evidência, que as melhorias das condições de vida, deste planeta, têm que ser uma tarefa comum, sob pena de empenharmos o futuro das próximas gerações. “As notícias internacionais mostram, mais uma vez, protestos reacções indignadas e até violência de grande parte da sociedade civil ao encontro e projecto dos governantes mais ricos do mundo reunidos no chamado G8. Nenhum terrorismo se justifica, mas enquanto governos como o norte-americano, pretenderem dominar o mundo com técnicas e métodos de terrorismo de Estado, não conseguiremos ver-nos livres do terrorismo de grupos fanáticos que se pretendem a favor dos povos oprimidos, como o ocorrido em Londres. Como sempre podemos sonhar, convido-vos a imaginarmos que a sabedoria vencerá a insensatez, o amor será maior que o egoísmo e os métodos de não violência prevalecerão. A humanidade conseguirá reverter este tipo de progresso imposto pelo modelo de desenvolvimento predatório que sacrifica tudo ao deus-mercado, eliminará a indústria armamentista e todos os tipos de terrores, antes que estes eliminem a vida na Terra. Quem lê estas linhas, não pense que acredito em uma linearidade da evolução histórica. Menos ainda que exista um modelo de cultura mais avançado do que outros. ... ...Entretanto todos reconhecem o planeta Terra como casa comum de todos os humanos, sem barreiras de circulação, nem discriminação racial, social ou económica. Encontros como este dos governantes mais ricos do mundo me fazem pensar que uma das tarefas mais difíceis para os historiadores do futuro será explicar aos seus contemporâneos que, neste Julho de 2005, representantes dos oito países mais ricos do planeta se reuniram para garantir que o sistema económico então dominante na terra não mudasse. De acordo com o jornal espanhol El Mundo (03/07/2005, pag. 50), neste momento da história: •70 famílias no mundo possuem renda superior à de um bilhão e 455 milhões de pessoas. •Uma pesquisa de opinião pública acaba de revelar que a maioria dos norte-americanos elegeu Ronald Reagan, o norte-americano mais notável do século XX, em detrimento a outros, por exemplo; Dr Martin-Luther King, que doou a sua vida pela unidade entre raças e pela justiça entre seres humanos. •Em apenas meio dia de guerra no Iraque, o exército norte-americano gastou o correspondente ao financiamento anual de todo o programa das Nações Unidas para erradicar a Aids e a malária dos países mais pobres. •A Onu publicou que 13 milhões de dólares bastariam para eliminar a fome no mundo. Só os Estados Unidos gastam 17 milhões de dólares em alimentos para cães e gatos. •A Europa subvenciona cada vaca europeia com 913 dólares ano, enquanto aceita com dificuldades aprovar um subsídio anual de oito dólares de ajuda para cada africano. Estes governos milionários declararam perdoar a dívida dos países mais pobres da África, mas, de facto, a tal amnistia é apenas de 16% dos 296 milhões da dívida africana. Desde 1980, humanistas propõem a chamada taxa Tobin: Um imposto de 0,5% a ser cobrado em toda a transação financeira. Esta pequena taxa garantiria que, em poucos anos, a ONU contasse com um bilhão e meio de dólares para resolver a pobreza no mundo. Os países ricos, liderados pelo governo norte-americano, se opõem e a taxa nunca é aprovada. Talvez, as pessoas, que, no futuro, estudem esta realidade social se perguntem como a humanidade pode libertar-se desta barbárie e, na diversidade das culturas, ascender a uma civilização de solidariedade e de paz. Espero que se possa responder que, como sempre ocorreu na história, não são os ricos e poderosos que libertam os pobres. A libertação das escravidões, a superação do racismo, o fim das discriminações sempre foram conquistadas pelas próprias vítimas. Mesmo se é importante contar com o apoio dos intelectuais e todos os aliados que os movimentos de libertação podem somar.” Maria da Conceição (JARDIM DE LUZ) Quarta-feira, Julho 13
Os limites do homem (5): A certeza fundamental e axiomática: é a de que nos devemos comportar como se Deus existisse.(as partes entre aspas e em bold do texto que se segue são palavras do Cardeal Ratzinger - este post, tal como alguns posts anteriores, é baseado nessas palavras e é o último post desta série de seis posts sobre as palavras que o Cardeal Ratzinger proferiu em Abril de 2005, pouco tempo antes de se tornar o Papa Bento XVI)
O texto da semana passada terminava com a seguinte frase de Ratzinger: "Somente a razão criadora, e que se manifestou como amor no Deus crucificado, pode verdadeiramente mostrar-nos o caminho." O amor é diálogo e o diálogo é amor. E, convém repeti-lo nestes tempos conturbados, nenhum ser humano é excluído do amor e do diálogo. Não é por acaso que os cristãos se opõem à pena de morte. Esta oposição à pena de morte é, tão só, mais uma peça natural do puzzle lógico na qual estão também o caracter sagrado da vida humana e o amor enquanto mandamento único do cristianismo. Não é possível dialogar com um morto. "No diálogo tão necessário entre laicos e católicos, nós cristãos devemos estar muito atentos a permanecer fiéis a esta linha de fundo: ou seja, a viver uma fé que provém do logos, da razão criadora e que está por isso também aberta a tudo aquilo que é verdadeiramente racional. Mas aqui queria, na qualidade de crente, fazer uma proposta aos laicos. Na época do iluminismo, procurou-se entender e definir as normas morais essenciais, dizendo que elas seriam válidas “etsi Deus non daretur”, mesmo que Deus não existisse. Na contraposição entre as várias confissões e também na incumbente crise da imagem de Deus, tentou-se manter fora das contradições os valores essenciais da moral e encontrar para estes uma evidência que os tornasse independentes das múltiplas divisões e incertezas das várias filosofias e confissões. Foi assim que se procurou assegurar as bases da convivência e, em geral, da humanidade. Naquela época, isto pareceu possível, uma vez que as grandes convicções de fundo criadas pelo cristianismo resistiam em grande parte e pareciam inegáveis. Mas já não é assim. A procura de uma tal certeza tranquilizadora que pudesse permanecer incontestável, para além de todas as diferenças, fracassou. Nem sequer o esforço verdadeiramente grandioso de Kant foi capaz de criar a necessária certeza partilhada. Kant tinha negado que Deus podia ser conhecido no âmbito da razão pura, mas ao mesmo tempo, tinha representado Deus, a liberdade e a imortalidade como postulados da razão prática, sem a qual, coerentemente, para ele não era possível qualquer agir moral. A situação hodierna do mundo não nos faz, talvez, pensar novamente que ele pode ter razão? Por outras palavras: a tentativa, levada ao extremo, de plasmar as coisas humanas sem qualquer necessidade de Deus, conduz-nos cada vez mais à beira do abismo, a pôr totalmente de parte o homem. Devemos então inverter o axioma dos iluministas e dizer: mesmo quem não consegue encontrar o caminho para aceitar Deus, deve de qualquer maneira, viver e orientar a sua vida “veluti si Deus daretur”, como se Deus existisse. Este é o conselho que já Pascal dava aos amigos não-crentes; e é o conselho que queremos dar, também hoje, aos nossos amigos que não crêem. Assim, ninguém fica limitado na sua liberdade, mas todas as nossas coisas encontram um apoio e um critério do qual precisam urgentemente." A nossa Fé implica que somos todos pecadores. O Bem e o Mal só existem enquanto valores que se manifestam na realidade. Por isso amamos todos os seres humanos independentemente dos pecados que eles cometam, tenham cometido ou venham a cometer. A prevenção e a repressão de comportamentos criminosos competem à polícia. A guerra ideológica e política contra o mal, no que a nós nos diz respeito, tem um único instrumento: o nosso comportamento individual e social baseado no amor. Nas palavras de Frei Isidro Lamelas, Superior Provincial dos Franciscanos, "como discípulos de Jesus Cristo continuaremos a lutar preferindo a caridade ao direito, a misericórdia à moral, a comunhão à excomunhão." É esta a nossa Fé. "Aquilo de que mais precisamos neste momento da história é de homens que, através de uma fé iluminada e vivida, tornem Deus credível neste mundo. O testemunho negativo de cristãos que falavam de Deus mas que viviam contra Ele, obscureceu a imagem de Deus e abriu a porta à incredulidade. Precisamos de homens que mantenham o olhar fixo em Deus, aprendendo a partir dali a verdadeira humanidade." Timshel [TIMSHEL] Segunda-feira, Julho 11
Um olhar do outro lado do Atlântico – Europa unida: o sonho acabou?Hoje, trago um olhar do outro lado do Atlântico, é de Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga brasileira.
O tema foge um pouco ao que me propus trazer para a Terra da Alegria, mas pela sua relevância, e pelos trágicos acontecimentos do dia 7 de Julho em Londres, achei oportuno trazer aqui a visão de alguém que estando de fora, vê de forma criteriosa o andamento deste velho continente. Para além de sabermos se o texto da constituição europeia é o mais adequado, texto que desde o início, foi contestado até pela própria Igreja Católica, o que sobressai dos resultados dos vários referendos é que esta união que pretendemos está muito fragilizada. Estando fragilizada, não serve aos seus próprios interesses, nem aos que lhe são exteriores. Não tenhamos ilusões, a globalização é um processo em marcha, só com objectivos bem definidos, com alianças bem estruturadas e cimentadas, podemos resolver os problemas que a mesma globalização nos traz. “Primeiro foi a França, que com todo o seu peso no conjunto da Europa, disse “não”. Depois foi a Holanda, convicta e com toda a sua tradição. De nada serviu que a Espanha houvesse dito ”sim” sobre a sua constituição. O episódio que vive o velho continente nos diz algo importante sobre a nossa dificuldade de perseguir sonhos e utopias intrinsecamente ligados à nossa dificuldade de conviver com as diferenças recíprocas. A Europa é um conjunto nada homogéneo em termos de cultura, idioma, religião, potencialidade financeira etc. Talvez nenhum continente tenha uma tal variedade em seu tecido. As duas Américas, a Latina e a do Norte, têm uma certa homogeneidade idiomática e cultural, cada uma provinda de uma raiz, embora o “melting pot” no norte e a imigração variada no sul quebrem algo dessa homogeneidade. No entanto, ela existe, assim como a da Ásia, que é uma homogeneidade de origem; e a da África, que é de raça. Na Europa, a homogeneidade e a igualdade são escassas, para não dizer ausentes. Cada país é um mundo à parte e até há pouco tempo funcionava mesmo como um universo à parte. Com a sua língua, sua cultura, sua particularidade. O sonho de unir a Europa resultou em uma moeda forte, que superou mesmo o todo poderoso dólar e que dá o tom no mercado financeiro internacional. Também esmaeceram as fronteiras existentes entre os vários países, fazendo com que o trânsito entre uns e outros fosse mais fluido e livre. Ao turista que se aventura pela velha e sempre fascinante Europa, agora é dada a possibilidade de ir e vir entre as suas belezas e riquezas, sentindo-se numa grande casa onde as paisagens naturais e culturais mudam sem a barreira de fronteiras, passaportes, alfândegas. E eis que o “não” da intolerância se levanta como uma interdição a essa utopia e esse sonho. Ainda não será desta vez que a Europa terá uma constituição única. E o mais triste é que o factor que gera isso é mais que nada económico e financeiro. O medo de que trabalhadores dos países do Leste Europeu venham ainda em maior número para a rica e influente Europa ocidental, ocupando as vagas laborais dos jovens europeus ocidentais e onerando a sua sociedade com o peso da sua escassez ávida de oportunidades, parece ter sido o factor determinante que fez com que o “não” fosse dito em vez do “sim”. O “sim” que abriria generosamente as portas do velho continente para ser uma só comunidade. Dizem as ciências sociais que o homem é um animal gregário, social. E a filosofia, a teologia, também dizem que o ser humano é um ser relacional, que só existe e se autocompreende a partir da relação. Só o outro o diferente, pode nos dizer quem somos e ajudar-nos a sermos nós mesmos. Grandes filósosfos europeus, justamente, como Emmanuel Levinas e Paul Ricoeur, trabalharam belamente e a fundo esta questão da alteridade. E nos disseram que a alteridade e a diferença são fundamentais em nossas vidas e existências. No entanto, ao que parece, a Europa está disposta a abrir as portas à alteridade desde que não afecte a sua economia, sua abundância, a riqueza em que se encontra mergulhada. Pobre Europa, já tão machucada por guerras e tempos de desolação e penúria profunda. Pobre Europa, que apesar de tudo o que passou e sofreu, ainda assim parece não haver aprendido que só a solidariedade e a disponibilidade de acolhimento do outro, do diferente, ainda que signifique mais partilha e menos abundância em nossas vidas, pode construir e levar-nos a algum caminho fecundo de abertura e vida em plenitude. Diante da séria ameaça ao sonho da Europa unida, esperemos que ainda seja tempo. Esperemos que este continente, para o qual o mundo inteiro olha como uma alternativa de modelo sócio-económico-político que conserva características humanas como estilo de viver, reflicta e reconsidere as suas posições. Esperemos que o “não” da intolerância ceda lugar ao “sim” que abre fronteiras e instaura uma verdadeira comunhão de diferentes dentro deste mundo tão egoísta e individualista.” Maria da Conceição Quarta-feira, Julho 6
Música Celestial1º andamento – allegro molto vivace
Na semana passada estive para aqui a rebater a ingénua mas compreensível e tão alemã surpresa do nosso Lutz, sobre a forma como este grupo de católicos que habita aqui na Terra, gente tão moderna e tolerante, ignora olimpicamente os inefáveis e preciosos frutos do Iluminismo Europeu. Agora que, penso eu, tudo está claro, vou passar inexoravelmente à próxima questão, uma questão gravíssima aliás. Este moço estrangeiro, ainda por cima de origem protestante, vem acusar-nos a nós católicos de uma espécie de servidão intelectual face à Santa Madre Igreja que nos acolhe espiritualmente. E fá-lo dando exemplos surpreendentes. O Timshel , indivíduo de mistério, uma espécie de supra-numerário montanista de sólida base trotskista, alguém que alia o desejo de coerência doutrinal à exigência da radicalidade da prática, enfim uma espécie de Bové libertário com um afável espírito normativo e, ainda assim, especulativo. O Bernardo Motta, outro indivíduo de mistério, autor publicado, vindo das trevas do esoterismo e chegado à claridade do Catecismo, católico tradicionalista mas sincrético, atento leitor de René Guénon mas também de Ananda Coomaraswamy. E é a propósito destes nossos dois amigos, tão profundamente atípicos, que o Lutz, em cuja mente ressoa ainda com certeza o teutónico “ördnung müss sein”, vem descobrir sinais duma aviltante aproximação ao pensamento oficial. E ele é impiedoso: “há aqui algo que não passa despercebido: a ideia da obrigação de acreditar numa determinada doutrina.” , “isto (a emancipação das ideias )é uma evidência banal. Para qualquer intelectual? Não. Não é para o teólogo católico! Para ele continua válido o argumento da autoridade. Porque o S. Tomás assim disse, porque o Papa assim diz, tenho, se sou católico, obrigação de pensar e acreditar duma determinada forma! Se não conseguir à primeira, espera-se um esforço de mim para que me convenço, não por força de argumentos, mas por força de autoridade.” Às tuas palavras, Lutz, estes nossos amigos reagiram com um piedoso e caritativo silêncio, de quem está habituado a dar a outra face. Mas eu não pois eu, qual S.Tomás de Aquino lançando a sua “Summa Contra Gentiles”, ou mais ainda, qual César das Neves na sua coluna do DN, eu vou reagir e afirmar a alto e bom som a inegável, enorme e terrível independência de espírito que é apanágio do catolicismo mais ortodoxo. É que é já a seguir. 2ºandamento – andante con brio Queira o Herrn Brückelman saber que eu nunca li o Catecismo da Igreja Católica. Nem o novo nem o velho. Nunca. Nem em português nem em espanhol nem em alemão. Não sei sequer um ditame que te possa citar de cor excepto, se lá estiverem, os 10 Mandamentos. Já li, isso sim, bastantes Livros da Bíblia, seguindo aliás o conselho dos teus patronos Meister Eickhart e Lutero. E já li também bastante sobre a História da minha Igreja, não apologias e laudatórias mas coisas mais duras, daquelas com que se comprazem os ateus. Li isso numa altura em que tinha perdido a fé e li mais tarde, quando já a tinha recuperado. No meu artigo inaugural aqui na Terra da Alegria, eu disse uma coisa banal mas verdadeira, que “o que me fez e ainda faz ser cristão é mesmo Cristo, a Sua pessoa, a Sua palavra, a Sua vida”. E que “quanto ao meu catolicismo, eu sei bem que a história da minha Igreja é uma história complicada, nem sempre coerente com a Palavra. Mas apesar do que fez e do que faz, a Igreja Católica consegue ainda ao fim de 2.000 anos dar-nos pleno acesso à Palavra e Vida de Cristo para que «acreditemos que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhamos a nossa vida em seu nome». A força da Palavra é demasiado grande face às fraquezas da sua Igreja. Isso me basta. Isso agradeço. Por isso, permaneço.” Contei também um dia, no Guia, que mesmo tendo eu perdido a fé, estranhamente nunca deixei de ir à missa e ia lá, a uma daquelas mesmo mázinha, precisamente para justificar a minha descrença. Até que um dia, ao escutar a leitura do episódio do filho pródigo, ao sentir-me tão identificado com o irmão mais velho, iniciei um percurso de reflexão que me trouxe de regresso à fé. Foi portanto pela reflexão, não sei se pela razão, que atingi a fé que hoje tenho. Ora se foi a reflexão que aqui me trouxe, tem sido também a reflexão que por aqui me tem mantido. Para ser totalmente honesto, não será apenas a reflexão pessoal sobre os textos da fé e sobre a vida à luz da fé. Será também um sentimento de pertença a uma entidade que, mais do que uma comunidade de crentes, mais do que uma dispensadora da Palavra de Deus e uma administradora de bençãos salvíficas, me parece ser uma entidade com substância teológica própria. Talvez ainda mais do que tudo isso: sinto a minha Igreja, pela sua História tão polémica mas onde se adivinha um sentido, pela sua natureza tão multipolar mas onde se anseia pela unidade, pela dicotomia agreste entre a parte eclesiática e a parte laical, pela permanente contradição entre um conservadorismo caturra e um desejo de ultrapassar os limites da natureza humana, sinto essa minha Igreja como o melhor campo que posso imaginar para que, um dia, talvez, se Deus o quiser, eu venha verdadeiramente a ser cristão. É precisamente por isso que, enquanto católico, convivo bem com a enorme diversidade desta casa que acredito ser de Deus, uma casa onde convivem e esbracejam guardiões severos da doutrina e teólogos especulativos, vendedores e compradores de indulgências, crentes que não praticam e praticantes que não compreendem, santos que querem salvar todos nós e iluminados que descobriram o caminho e já o reservaram para os seus seguidores, priveligiados pela Graça Divina e obreiros que se oferecem ao próximo, encenadores de liturgia e leigos que a dispensam, caçadores gnósticos e artesões de doutrina. Ora assim sendo, é fácil de perceber que nem a minha fé católica nem a minha pertença à Igreja Católica, mesmo a minha participação num movimento de leigos de base, nada disso tem perturbado a minha liberdade de pensar a minha crença, nada tem aliás perturbado o meu atávico individualismo, também aqui no domínio da fé que tenho. É claro que na Igreja, enquanto instituição, existiu e existe ainda uma forte pulsão normalizadora e reguladora da doutrina revelada. Nada mais natural para uma instituição vergada pelo peso da missão que lhe coube e mais vergada ainda pela eternidade a que foi obrigada. Discordo de muitas coisas que saem da cabeça da Igreja mas reconforta a minha fé vê-la funcionando assim. Até porque não tendo eu, como ninguém tem, o justo conhecimento de mim próprio, nunca sei a razão exacta da minha discordância, se é de razão, se é de conveniência. E é claro também que muitos dos meus irmãos na fé católica a tem de forma mais normativa e catecumenal. Uns, por questão de maior comodidade, procuram cartilhas simples sobre em que acreditar e como viver aquilo em que acreditam. Outros, para maior garantia da sua salvação eterna, procuram outorgá-la à intercessão dos instrumentos que a Igreja sempre lhes oferece. Outros ainda, talvez os melhores de entre nós, procuram com a humildade da obediência seguir melhor o ensinamento e vida de Cristo, procuram sobretudo combater a inflamabilidade dos egos para fugirem à tentação que foi pecado original. Resumindo, a Igreja oferece coisas diferentes a fiéis que lhe solicitam coisas diferentes. Mas nós todos, fiéis e clero, felizes e insatisfeitos, convictos e minados pela dúvida, fanáticos e almas doces, todos cabemos nela e ela cabe toda em nós. Sem prejuízo da salvaguarda da doutrina de que a Igreja é fiel depositária e sem prejuízo da nossa liberdade de pensamento, liberdade de escolha, liberdade de vida, liberdade até de renunciar à liberdade. Pensando bem, muito mal seria que Deus tivesse carregado o Homem com o peso do livre arbítrio e nos negasse a liberdade na escolha do caminho de regresso a Ele. 3ºandamento – scherzo giocoso Termino com uma história pessoal, verídica e bem representativa da tremenda bigorna moral e intelectual em que vivem os católicos de hoje. Nunca disse isso aqui, mas eu sou dos que acreditam na eficácia dos sacramentos, sobretudo de alguns deles. Um daqueles em que eu acredito piamente é no chamado sacramento da reconciliação, conhecido aí fora pelo infamado nome de confissão. Acredito verdadeiramente e experimentei sensorialmente que o irmos prestar contas a Deus por intermédio dum homem como nós mas mandatado para receber os nossos insondáveis segredos, é uma ocasião única e preciosa para nos vermos a nós próprios, não como gostamos de nos ver mas talvez com os olhos de Deus. Para mim, a confissão é um processo periódico e terapêutico para readquirir uma humildade que foge de mim por todos os poros. Não é certamente canónico dizê-lo (e depois?) mas para mim o sacramento da comunhão só faz sentido como sequência deste. Mas adiante. Há uns anitos já, numa daquelas alturas sacramentais, fui confessar-me a uma velha igreja do centro de Lisboa, cabendo-me em sorte um sacerdote já velhinho mas ainda rijo, com uma expressão permanentemente irada, devida talvez à raiva que ele sentia em ver a sua igreja mais cheia de pombos do que de fiéis. Comecei a confissão com a costumada crónica da minha vida egoísta. Ao correr da conversa encalhámos num detalhe narrativo, coisa inócua pensava eu, mas à qual aquele santo varão atribuiu uma importância tremenda. De voz trémula mas dura, quase brandindo o rosário contra mim, o sacerdote perguntava-me repetidamente: “Mas arrependes-te ou não? Estás em pecado terrível contra Deus! Se és cristão exijo que te arrependas!” Completamente perplexo com a situação, tentei trazer o sacerdote à mesa das negociações, tentei perceber em que parte do Evangelho ou do catecismo estava tão medonha sanção para coisa que me parecia tão banal. Mas de nada serviu, acabei por ouvir uma voz, tremenda e tremente, repelindo-me violentamente: “Pois eu não te absolvo! Vai-te daqui, filho da treva!”. E eu lá fui, cabisbaixo mas sobretudo pasmado. Ao saír daquela igreja tive contudo uma inspiração: atravessei a rua e entrei na da frente! Sentei-me no confessionário e comecei logo a explicar: “Sr.Padre, devo informá-lo que venho agora mesmo dum colega seu que me recusou a absolvição por eu lhe ter dito isto e isto...”. Ora este novo padre, que não era assim tão novo, riu bastante e disse-me: “Tolices! Tens que perdoar ao meu colega que além de um pouco duro de coração é também duro de ouvido. Faz-lhe a caridade de pensares que ele percebeu mal aquilo que lhe disseste. Conta lá então da tua vida...” E passou-se isto nesta suave Lisboa que eu amo, no seio da Santa Madre Igreja que eu amo também. E pensando naqueles que nos veem, a nós católicos, vergados pelo peso da Doutrina e da Tradição, recordo aquelas doces palavras de Jesus, contadas por Mateus: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.» E pronto, acabei. José [GUIA DOS PERPLEXOS] Os limites do homem (4): a razão e a Fé.(as partes entre aspas e em bold do texto que se segue são palavras do Cardeal Ratzinger - este post, tal como alguns posts anteriores, e tal como o próximo post, é baseado nessas palavras; o próximo post será aliás o último post desta série de cinco posts sobre as palavras que o Cardeal Ratzinger proferiu em Abril de 2005, pouco tempo antes de se tornar o Papa Bento XVI)
O texto que aqui postei a semana passada terminava com uma questão. O cardeal Ratzinger perguntava:"Será que com isto pretendemos rejeitar simplesmente o iluminismo e a modernidade?" Eis a resposta: "Não, absolutamente. O cristianismo, desde o início, compreendeu-se a si mesmo como a religião do logos, como a religião conforme à razão." Porque a religião não é incompatível com a razão. A religião é um mero complemento da razão. Cristo apareceu para revelar a Verdade. Uma verdade que não é acessível apenas pela razão. Uma verdade que não é acessível apenas através de uma razão "passiva" mas que exige opções, escolhas, liberdade. "O cristianismo, como religião dos perseguidos, como religião universal, acima dos vários Estados e povos, negou ao Estado o direito de considerar a religião como uma parte do sistema estatal, postulando assim a liberdade da fé. Sempre definiu os homens, todos os homens sem distinção, como criaturas de Deus e imagem de Deus, proclamando como princípio a sua igual dignidade." O iluminismo, que surgiu muito depois do cristianismo é um simples reflexo do cristianismo. E o seu erro supremo foi simplesmente a causa e consequência do modo como nasceu: ele foi uma reacção à falta de humildade da Igreja e mimetizou essa falta de humildade. "O iluminismo é de origem cristã e nasceu, não por acaso exacta e exclusivamente no âmbito da fé cristã. Nasceu lá onde o cristianismo se tornou infelizmente, contra a sua própria natureza, uma tradição e religião de Estado. Apesar da filosofia, entendida como procura de racionalidade – também da nossa fé –, ter sido sempre apanágio do cristianismo, a voz da razão tinha sido demasiado domesticada. Foi e é mérito do iluminismo ter proposto novamente estes valores originários do cristianismo e ter dado novamente à razão a sua voz própria. O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo, evidenciou novamente esta profunda correspondência entre cristianismo e iluminismo, procurando chegar a uma verdadeira conciliação entre Igreja e modernidade, que é o grande património que deve ser tutelado por ambas as partes." E agora que chagámos à conclusão que o erro e o pecado (tal como o Bem) fazem parte da natureza humana e se encontram por toda a parte, em "nós" como "neles", que fazer? "É preciso que ambas as partes reflictam sobre si próprias e estejam prontas a corrigir-se.O cristianismo deve lembrar-se sempre que é a religião do logos. O cristianismo é fé no Creator spiritus, no Espírito criador, do qual provém todo o real. É justamente esta fé que deveria ser hoje a sua força filosófica, pois o problema é se o mundo provém do irracional – e portanto, se a razão não é outra coisa senão um “subproduto”, talvez prejudicial, do seu desenvolvimento - ou se o mundo provém da razão – e se por conseguinte esta é o seu critério e a sua meta.A fé cristã tende para esta segunda tese, tendo assim do ponto de vista puramente filosófico, muito boas cartas para jogar, embora seja a primeira tese a que hoje é considerada por muitos como a única “racional” e moderna. Mas uma razão que brota do irracional e que, no fim de contas, é ela própria irracional, não constitui uma solução para os nossos problemas. Somente a razão criadora, e que se manifestou como amor no Deus crucificado, pode verdadeiramente mostrar-nos o caminho." Timshel [TIMSHEL] Sexo à noraOs bispos defenderam, numa nota divulgada na semana passada, que «a família é a primeira comunidade responsável pela educação das crianças, dos adolescentes e dos jovens». O debate também divide católicos. Porque há limites. E limitações. Retenho o essencial de um texto (jornalístico) que escrevi a propósito (sem nomes, para evitar outras leituras). As frases não são todas minhas, mas reflectem o que também penso. E da sexualidade vista pela igreja e pelos católicos já também por cá falei (vejam nos arquivos, que me falta tempo para isso, caros leitores).
Sabemos: a família é a primeira responsável pela educação para a sexualidade. Mas – há sempre um "mas": na prática isso nem sempre acontece. Muitos pais não sabem ou não abordam essas questões e, se abordam, fazem-no muitas vezes de forma ligeira, eventualmente preconceituosa e não suficientemente informativa. O documento dos bispos aponta preocupações: «A escola é subsidiária da família e [neste campo] compete à família decidir as orientações educativas básicas que deseja para os seus filhos, decorrentes dos seus valores, crenças e quadro cultural». Há quem prefira outra abordagem: «No campo da informação deve partir-se daquilo que os miúdos querem saber e não de um programa pré-estabelecido». Mesmo que, na escola, os alunos reproduzam preconceitos e estereótipos: «Eles têm de habituar-se que há outros que pensam de outra maneira e não devem ter como resposta verdades absolutas» da boca dos professores, dizia-me uma professora. Uma disciplina como esta «exige um perfil de professor para a educação sexual, atento, aberto, que não seja dogmático e que responda exactamente ao que o aluno pergunta: nem mais nem menos», defende-se. «A educação da sexualidade ao implicar relações interpessoais implica uma educação para a ética». Mas também é absolutamente impensável negligenciar o que os bispos chamam de práticas minoritárias, nomeadamente o sexo entre adolescentes. São questões muito importantes. Apesar disso, ressalve-se: a educação sexual não poderá ser só informação sobre órgãos sexuais, de luta contra a sida e a gravidez precoce. Por isso, a escola tem de usar toda a prudência, para que as crianças, adolescentes e jovens vivam a sexualidade de forma responsável, informada e humana. Mas, ninguém está a querer perverter ninguém - está-se a querer ajudar. E, no meio desta confusão toda, faltou aos senhores bispos uma coisa: perguntarem às famílias e (mais ainda) aos miúdos como pode ser a escola espaço de educação sexual. Nota final: se na educação sexual «compete à família decidir as orientações educativas básicas que deseja para os seus filhos, decorrentes dos seus valores, crenças e quadro cultural», não poderão algumas famílias (pais e filhos) exigir uma escola que seja "laicizada" ao ponto da educação moral e religiosa ficar de fora? Posto de forma simplista, é certo, o argumentário acaba por poder valer para os dois lados. Miguel Marujo [CIBERTÚLIA] Dimensões sociais: o dito e o não ditoDuas notas saídas da última Conferência Episcopal Portuguesa, reunida em Fátima no passado dia 23 de Junho, merecem um olhar mais atento. Deu-se o caso de, por dever de amizade, me ter deslocado ao Santuário de Fátima nessa noite, na companhia de um padre amigo. Talvez por essa razão, os bispos foram tão inspirados nas suas palavras - sábias, como é hábito que faz o bispo.
Quanto às medidas a tomar pelos responsáveis políticos, elas devem, no entender dos bispos, «ser globais e não particulares, privilegiando aquelas que não se limitam a resolver aspectos imediatos do problema, mas são portadoras de solução a médio e longo prazo, como o são, por exemplo, o investimento na inovação tecnológica, uma economia geradora de emprego, uma educação para a liberdade responsável, a análise aprofundada das causas da pobreza e a responsabilização social». Podiam também ser estas as palavras vazias de um qualquer deputado da 3ª fila do PS ou do PSD (ou um qualquer do PP), não fosse o sublinhar da urgência da análise aprofundada das causas da pobreza e a responsabilização social. Por último (um último escolhido por mim, que há mais para ler - ide consultar o documento), um apelo (para fazer uma referência ao sr. presidente) à necessidade do contributo de todos: «o que se pede a cada um deve ter em conta a sua situação peculiar, não pedindo o mesmo a pobres e ricos, não descurando os doentes e as pessoas dependentes, não fragilizando as famílias, já tão atingidas por fenómenos como a desagregação ou endividamento insustentável. Em todas as políticas, mas de modo particular nas políticas de austeridade, há grupos sociais que precisam de uma atenção particular, porque quando se agravam os seus problemas, agravam-se inevitavelmente os problemas de toda a comunidade». De todos. Pensionistas ou ministros das finanças. Parece-me.
Depois de reconhecerem a evidência da sexualidade como «um dos núcleos estruturantes e essenciais da personalidade humana», a nota refere a «dimensão social da sexualidade, uma vez que os encontros e desencontros de uma relação contribuem para amadurecer, em cada homem ou mulher, dinamismos de doação, de entrega, de abertura aos outros e ao mundo». E mais: «a sexualidade humana, correctamente entendida, tem uma ligação profunda com o amor e só nele encontra o seu verdadeiro sentido. Desta ligação resulta o papel central da sexualidade na vida humana, factor decisivo para o desenvolvimento harmonioso da pessoa que só se atinge no amor». Assim, «a educação da sexualidade não se resume a mera informação sobre os mecanismos corporais e reprodutores, como tantas vezes tem acontecido, reduzindo a sexualidade à dimensão física possível de controlar com vista à prevenção contra o contágio de doenças sexualmente transmissíveis e o surgimento de gravidezes indesejadas. Desta forma, deturpa-se o sentido da sexualidade, isolando-a da dimensão do amor e dos valores, e abre-se caminho à vivência da liberdade sem responsabilidade, pela ausência de critérios éticos, e à aceitação, por igual, de múltiplas manifestações da sexualidade, [tais como] as relações corporais sem dimensão espiritual porque o amor e o compromisso estão ausentes». Parece o mesmo discurso de sempre, não parece. Parece. Mas não é. Ora leiam lá com mais cuidado e atenção. Hummmm.... Não falta nada? Falta, sim, e essa é a novidade. Noutra ocasiões, mesmo num passado recente, a última frase teria a palavra sacra "matrimónio", esse sacramento mágico que valida (e só se torna válido com) as relações sexuais. Nas palavras da Conferência Episcopal, uma sexualidade plena «tem profunda ligação com o amor e só nele encontra o seu verdadeiro sentido» e apenas é censurável uma sexualidade onde «o amor e o compromisso» estejam ausentes. Alguém falou em matrimónio? Sobre o resto do documento, já escreveu o Miguel. Eu contento-me com o que não está lá. Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA] Segunda-feira, Julho 4
Meditações sobre o Evangelho de ontemFoi-se o tempo das grandes opções políticas. Foi-se o tempo de esquerdas e direitas clássicas em luta. O que se vê, hoje, é sempre mais do mesmo. Correntes caudalosas, afluentes magníficos, rios grandiosos, a desaguar no vasto oceano do capitalismo. Mesmo naquilo que parece ser o conflito do século, a guerra fratricida entre fundamentalistas cristãos e islâmicos, vê-se como decisivo combustível (e esta palavra não é sem propósito) o capital.
Ânsia pelo capital. Libido financeira. Orgasmo no consumo. Não é à toa que as propagandas veiculadas nos meios de comunicação têm tanto apelo sexual. Freud surpreender-se-ia com a capacidade humana de criar sempre-novos modos de sublimação. Os shopping centers são grandes templos de sublimação do desejo. A manipulação dos objectos de consumo como verdadeiras preliminares. O ato da compra como verdadeira explosão de hormonas. O consumo, este sacerdote do omnipresente capitalismo, é um passo à loucura. Quer-se sempre mais. E o que se tem não se conquista, mas se compra. Trocas simbólicas. Tudo, desde os objectos mais simples até as próprias relações humanas, tudo é moeda de troca. Tudo realiza-se na superfície crua do capital. Quem não se desprende desta superfície não consegue penetrar nos mistérios da transcendência humana. Os humanos deste mundo, os sábios do capital, os instruídos no consumo, estes não conseguem compreender o sentido último da condição humana. A estes nada é revelado. É o que nos diz o Cristo, na sua oração de acção de graças: "Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra,porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos." É preciso revestir-se da pequenez. É preciso ser manso e humilde. Este é o ensinamento do Mestre: "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma." Um convite à simplicidade. Como sempre, a proposta de Jesus Cristo apresenta-se como contracultura. Num mundo onde o esbanjar é condição para manutenção do status, onde o esbaldar-se é elemento necessário para se fazer boa figura, onde o capital torna-se não apenas meio para a satisfação do desejo, mas o próprio objecto de desejo, neste mundo, o projecto do Reino de Deus soa como antinatural. No entanto, não há nada mais humano que romper com a transitoriedade deste mundo. Nada mais humano que superar esta pulsão sempre irrealizável. Nada mais humano que buscar alívio e descanso. É preciso olhar. Olhar além da moeda. Olhar além da libido do consumo. Olhar além da paranóia do se querer sempre mais. Olhar além da sabedoria deste mundo. E lá, ponto distante para onde nosso olhar se dirige, descobrir a revelação de quem somos na verdade. Somos mais que nosso desejo. Humanos, ainda que demasiado humanos. Mas só quem tem o olhar do pequenino é que consegue ver. Só quem é como o Mestre, manso e humilde, é que consegue ver. Hoje, o convite à simplicidade, feito por Jesus, é um convite à superação da libido consumista, mas também à superação de tudo o que nos desumaniza. É um convite a revelação de quem somos. É um convite a olhar para nós mesmos. É um convite à humanidade. Christian Bitencourt [MIGALHAS AO VENTO] Olhares sobre a Igreja – EucaristiaTermina no próximo mês de Outubro, o ano dedicado à Eucaristia (Outubro 2004 – Outubro 2005). Instituído pelo Papa João Paulo II, pretendeu ser um tempo forte de reflexão e de vivência deste sacramento da Igreja. Houve da parte do Santo Padre empenho em produzir documentação que ajudasse à reflexão, e que seguindo os canais próprios chegasse a todas as igrejas particulares e comunidades eclesiais.
A Encíclica Ecclesia de Eucharitia reflecte sobre aquilo que chama a “fonte” e o “ápice” de toda a vida cristã, convidando-nos a um renovado fervor na celebração da Eucaristia. Diz-nos João Paulo II, na começo do referido documento que “a Igreja vive da Eucaristia”. Vamos então ver porquê e como: A centralidade da Eucaristia mergulha-nos no mistério de Cristo: Ele deu a vida para nos salvar. Sempre que celebramos a Eucaristia, não estamos a recordar um facto passado, mas a “actualizar” uma realidade que permanece eternamente. Cada vez que celebramos a Eucaristia tornamos actual, o sacrifício de Cristo. Em cada Eucaristia torna-se presente, o sacrifício da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Eucaristia quer dizer acção de graças, é o significado da palavra em grego. Usando a expressão sacrifício de acção de graças, estamos a dizer que tudo nos vem de Deus. Quando celebramos a Eucaristia estamos a reconhecer que tudo o que temos e somos, tudo o que nos rodeia (a natureza), nos é ofertado por Deus, e em, por e com Jesus Cristo queremos por nossa parte oferecer em oblação. Tudo isto, implica uma consciencialização da nossa parte, de que o acontecimento semanal da celebração da Eucaristia, não é um acto isolado na nossa vida. Em cada Eucaristia, nós em Jesus Cristo, assumimos que queremos ser de Deus; que oferecemos os nossos trabalhos, as nossas alegrias, as nossas dores, as nossas lutas, os nossos fracassos, enfim as nossas vidas, e queremos que Deus as divinize. À Eucaristia chama-se também “fracção do Pão”. O pão que é um alimento vital para o homem, tem na Eucaristia duas simbologias muito importantes e indissociáveis. A primeira é a de que não podemos viver e crescer na nossa vida em Deus, se não nos alimentarmos deste pão que nos vem do Céu (Mt 4, 4) “Nem só de pão vive o homem...”, (Jo 6,35) “Declarou-lhes, pois, Jesus: Eu sou o pão da vida, o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede”. A segunda, é a dimensão da partilha desse mesmo pão. Do pão que é essencial para a vida dos homens e que se traduz em todas as necessidades básicas do Homem, para viver dignamente: educação, saúde, habitação, trabalho, direito à cultura... De Jesus Cristo recebemos o exemplo disso mesmo. Antes de se sentar para realizar o gesto da Ceia, tinha toda uma vida de entrega. Com os discípulos, com os marginalizados, com as multidões “famintas” que o seguiam, deu-se em gestos de partilha. O gesto último do seu sacrifício na cruz, foi o culminar de toda uma vida feita serviço. Não poderá ser para nós, outro o caminho. De todas as realizações pastorais, neste ano dedicado à Eucaristia, temo que fiquemos apenas na valorização dos aspectos rituais e cultuais do sacramento, e não lhe demos esta dimensão de partilha. Para muitos cristãos e pastores é mais fácil o empenho na devoção eucarística, do que assumir a vivência da Eucaristia, como fonte eficaz de transformação da sociedade. Não é possível haver verdadeira devoção eucarística, se separada desta partilha de vida e de pão. Maria da Conceição Solstício de Galileu«A opinião ainda hoje muito difundida segundo a qual a aplicação intelectual e os progressos da ciência sempre arruinaram, através da sua refutação, qualquer sistema de crença religiosa, é apenas um preconceito do racionalismo. Nenhuma ciência ou filosofia teria podido dissolver ou aniquilar a religião grega antes das suas raízes, no conjunto da vida grega, terem murchado e se terem constituído, independentemente de qualquer ciência, novas sementes de uma outra forma de religião.
O que vale para o todo vale igualmente para cada descoberta científica particular, em relação à crença religiosa. A Igreja, como nos ensina, por exemplo, a correspondência entre Galileu e o encarregado das operações da Inquisição, estava preparada para reconhecer o heliocentrismo de Galileu se ele não declarasse a teoria como «verdadeira», mas tal como ela é presentemente encarada pelos investigadores rigorosos: como pressuposto sugerido pela lei da economia (lex parcimoniae), para simplificação das equações astronómicas. O cardeal declara-o expressamente na sua carta a Galileu. (…) Como se sabe, a própria obra de Copérnico nunca entrou em conflito com a Igreja, pois o seu editor, que, num prefácio escrito após a morte de Copérnico, a dedicou ao Papa Paulo III, separa expressamente a questão acerca da economia e da conveniência da aceitação e referia-se à aceitação da teoria coperniciana como sugerida apenas pela economia do pensar, tal como diríamos» (Max Scheler, Morte e sobrevivência, Ed. 70). Este processo representou uma viragem fundamental na História e representa a ideia de verdade que pautará durante muito tempo o materialismo mecânico na sociedade e que teve o seu auge nas Luzes e ainda hoje tem semente no pensamento da maioria. Passou a haver uma verdade profana, absolutamente verdadeira, portanto, e essa era científica, provada em laboratório, em cobaias, vista através do telescópio, do microscópio, da razão e de bolas de bilhar. Mas essas verdades, sabemo-lo bem, não passam de aproximações construídas num âmbito humano e que servem essa escala, também ela humana. Quando nos ensinaram a lei da gravidade, e a aplicávamos, diziam-nos para desprezar o atrito do ar. Era uma lei que vinha com uma advertência, dizia que era assim, mas não a rigor. A lei de Newton só funcionaria, rigorosamente, no vazio, mas esse vazio, nunca ninguém o viu, nunca homem algum o fez. O mais parecido foram aproximações, mas o vácuo absoluto, esse, continua uma quimera tão quimérica quanto a quadratura do círculo ou a duplicação do cubo o eram para a geometria euclidiana da Idade Média. Quando nos aproximamos do pormenor, não desprezando o atrito do ar, então a verdade desfia-se em probabilidades, em quantas, em relatividades. A exactidão da verdade, cai rasteira, aos nossos pés. O sol, afinal não é o centro do universo e o maior erro de qualquer religião seria tomar tais verdades por factos, e o efémero pelo eterno, o relativo pelo absoluto. Era importante que a verdade relativa não ocupasse o lugar do dogma, e para isso era precisa a advertência: isto são coisas cujo rigor pode ser posto em causa. Num contexto religioso, o mesmo não se passa, um dogma é uma verdade, absoluta porque ilimitada na sua compreensão, misteriosa, global, contraditória. Um dogma diz uma coisa enquanto a desdiz com a mesma boca, como um Deus que morre e vive ao mesmo tempo, como um Homem que é Deus e é homem, que tem espaço físico, histórico e nos séculos e, ao mesmo tempo, está na eternidade, e é puro espírito que está em todo o lado em todos os tempos desde o princípio dos princípios. O universo não o pode conter e, no entanto, cabe no coração dum justo. Aqui não se despreza o atrito do ar. Scheler dizia que a Igreja aceitaria o heliocentrismo de Copérnico, se viesse com a lex parcimoniae, se fosse pronunciado acrescentando um “mais ou menos”, um “desprezando o atrito do ar”. A rigor, não há verdades absolutas ou quaisquer outras que não façam parte da metafísica ou da teologia. Foram várias as tentativas de demonstrar a verdade das teorias, por este e por aquele método, e até se deu uma navalhada de Occam, apelou-se à simplicidade e ao não-refutável dum Locke, mas foi Galileu quem pretendeu exibir um método, um raciocínio científico, que teria precedência sobre a intuição e o senso comum – e até aqui seria tudo louvável – mas também sobre a revelação religiosa. Esta suplantação remetia dois campos tão diferentes para o mesmo plano, mas acima de tudo, daria, e deu, à ciência uma espécie de autoridade religiosa e de revelação. «Até certo ponto, eles [Inquisição] argumentavam meramente por modéstia, pelo reconhecimento da falibilidade humana. E se Galileu afirmava que a teoria heliocêntrica estava provada, ou quase isso, em um sentido indutivo, eles tinham razão. Se Galileu pensou que os seus métodos poderiam conferir a qualquer teoria uma autoridade comparável àquela que a Igreja reclamava para as suas doutrinas, eles estavam certos em criticá-lo como arrogante (ou, como eles diriam, blasfemo), embora, é claro, pelo mesmo padrão eles fossem muito mais arrogantes.» (David Deutsch, “A essência da realidade”, Makron Books). Esta arrogância, de uns e outros, não me parecem comparáveis como faz Deutsch. A verdade metafísica ou religiosa não está no mesmo plano da verdade científica que, volto a sublinhar, nunca é absolutamente rigorosa ou perfeita como se pretende que sejam os dogmas (que se movem em campos absolutos e não-relativos). Mas, convém concordar: a autoridade eclesiástica é arrogante, não pelas verdades assumidas, pelos dogmas, mas pelas outras verdades também elas metafísicas, teológicas, religiosas que não são assumidas. As verdades do Islão ou dum animista africano seriam descartadas pela Igreja, juntamente com as outras, as profanas, as de Galileu e outros homens de ciência. A recta que vemos direita, perfeitamente desenhada pela régua, é uma burla se vista pelo microscópio. Há sempre outra verdade mais verdadeira e mais rigorosa quanto mais nos debruçamos. E este movimento é perpétuo e infinito, jamais terá um fim (terá se chegarmos ao absoluto, mas esse é domínio da religião). A própria ciência destrói as verdades que dela nascem, como Cronos faz com os seus filhos. Engole-as voraz e elas passam como o rio do Heraclito, deitam-se no esquecimento, destronadas pela verdade da moda, pela nova tendência da razão e do espírito concreto, soberano, soberbo, pela tendência primavera/verão e depois pelas outras que se seguirão como um rosário, mais completas é certo, mas ainda infinitamente erradas. E estão infinitamente erradas porque estão relativamente certas. Uma cachalote branco, uma maçã, sete montanhas, são infinitamente pequenos se comparados com o infinitamente grande, com a Extensão e o ilimitado, únicos lugares onde a verdade, tal como tudo à nossa volta, pode encontrar a sua natureza perfeita. A escala das coisas falseia o mundo e aquilo que nos dizem ziguezaguear, pode bem ser recto e o que se mostra rígido como a nuca dum faraó, pode bem ser coleante como as serpentes. Basta ver o mundo doutro ângulo, ou passado uns tempos, ou com proximidade, ou com afastamento, e o que parece verdade provada, passa a verdade relativa, o sol deixa o centro do universo tão rapidamente como lá esteve, no imo de tudo, substituindo a Terra. Foram tempos de glória para o astro-rei, o Febo, o Hélios, que afinal não se mexia, mas que afinal, mexe-se, que estava no centro e agora se vê nos subúrbios, uma estrela de periferia. A verdade, depois de Galileu nunca mais foi verdade. Desceu do pedestal de eternidade para o mundo, encheu-se com o pó dos séculos. E toda a gente sabe para onde vai o pó: retorna ao pó, é efemeridade e morte. A verdade que desceu ao mundo, que se tornou científica, é uma verdade que morre. É uma queda como a de Adão, trágica como a de Lúcifer. Precisa duma lex parcimoniae, e a outra, a verdade religiosa, metafísica, lá do alto, mantém-se sólida a olhar por nós e a segurar e a assegurar os céus, de modo que não caiam em cima das nossas cabeças. Pelo menos até que tudo esteja consumado. Não houve travão, depois de Galileu, para a explosão de verdades, daquelas que mais matam, que envergonhariam os maiores torturadores, carrascos, grandes inquisidores. Mediu-se o cérebro e provaram-se apoucamentos e superioridades dos matizes raciais; provou-se que a mulher era menos dotada; viram-se, claramente vistos, ao microscópio, os homúnculos (pequenos homens completamente formados que estariam presentes na cabeça do espermatozóide – caso que levou o rabino Pinhas Elijah ben Meir a chamar de homicídio à masturbação, cem anos depois de Hartsoeker, anatomista e fabricante de microscópios, ter visto com clareza absoluta os tais homens miniatura); apareceram psicologias, psiquiatrias e interpretações de sonhos científicas e outras astrologias com o epíteto de ciência; lobotomizou-se e recebeu-se o Nobel; apareceram as drogas que eram panaceias e remédio (e se calhar até são), mas afinal são hoje flagelos; fez-se a tabela dos elementos, que afinal eram tão elementares como a água, o fogo, a terra e o ar para o pensamento clássico; afinal o átomo (que significa, literalmente, indivisível) não era indivisível (para azar de muitos milhões que o descobriram ao morrerem vítimas dessa cisão atómica); e os filhos deste mundo de provas e certidões, os herdeiros do lado negro do iluminismo, mataram aos milhões, com comunismos científicos, com nazismos, com ciências políticas, com as democracias e liberalismos, com os “números concretos”, com os “factos” da comunicação social (o telescópio mostrava a verdade a Galileu, e agora, é a televisão, são os jornais, que nos mostram a verdade, aquela por que se mata ao cardume e à manada). Na altura, parece-me, a Igreja não queria, nem tampouco lhe interessava, que houvesse outra verdade e autoridade para além da sua. Não conseguiu travar a ciência e ainda bem, mas esta passou pela sua idade das trevas: precisamente durante as Luzes. Altura em que a verdade da ciencia tinha o poder do dogma da fé. E disso ainda não nos libertámos, especialmente as massas, ao ponto de, quando queremos convencer o incrédulo, dizemos: “está cientificamente provado”, ou “os cientistas dizem”. Usam-se hoje as mesmas frases que antes se diriam (e alguns fanatismos ainda dizem) da Bíblia e dos padres. Os padres dizem, a Bíblia diz, está provado, portanto. Certo é que eram verdades diferentes e diferentes noções dela, e com Galileu, misturaram-se. A ciência subiu até ao altar e destronou a hipótese de Deus, como diria o enciclopedista, e fez-se do mundo um mecanismo de relógio. Mas também certo é que Newton, na altura, levou com uma maçã na cabeça, mas depois de Einstein, não sabemos se não foi Newton que cabeceou a maçã. A relatividade instalou-se com nome de teoria (e não de lei como aconteceu com a gravidade). A ciência reconheceu o seu papel efémero, mas ainda há muita gente que não sabe disso. Hoje, as duas verdades coexistem: a religiosa que nunca deixou de ser o que era, desde que se fez luz, e a da ciência, que passou a concordar com o mesmo inquisidor de Galileu. Hoje a verdade científica não é tomada como foi a de Galileu e posteriormente pelos das Luzes. Hoje, qualquer cientista sabe que as verdades provadas só o são com a tal lex parcimoniae. Ou seja, são mais ou menos. Afonso Cruz [ALERTA AMARELO] Quarta-feira, Junho 29
Fiat LuxO meu conterrâneo e amigo Lutz, anda preocupado com a liberdade intelectual dos católicos. E sobre essa preocupação tem feito uns posts notáveis, primeiro a propósito de uma série de reflexões do Timshel em que ele procura encontrar pontes com o pensamento teológico de Bento XVI enquanto Joseph Ratzinger, mais recentemente a propósito duns posts do Bernardo Motta sobre o Diabo e a sua espessura teológica dentro da fé católica.
Devo dizer que o Lutz é decididamente um dos meus mais estimados compinchas na blogosfera. Aprecio imensamente a sua enorme honestidade intelectual, algo que não abunda por aí além neste país onde ele veio fixar-se. Mas não é apenas honestidade, ele tem também outra coisa rara nestes lados, tão rara que não temos uma palavra simples e correcta para a definir completamente, estou a falar da straightforwardness, o dizer-se directamente o que se tem a dizer. Mas deixemo-nos de salamaleques e vamos adiante. Talvez o que vou dizer de seguida ajude o Lutz a perceber melhor porque é que os seus amigos lusos e católicos “não partilham (com ele) o terreno comum do Iluminismo”. Não será certamente, e falo por mim, por nos ressentirmos da secularização social que o Iluminismo terá trazido. Nada mais falso. A verdade é que aqui neste belo país o Iluminismo passou-nos um bocado ao lado. Não se passou aqui nada do que se passou na nação alemã que foi com o Iluminismo que alcançou definitivamente a sua maioridade intelectual no seio da Europa pensante. Enquanto esta se maravilhava com a luz que emanava do experimentalismo científico, nós por cá embasbacávamos para a iluminação dos lausperenes, das missas cantadas, até da luz terrível dos autos de fé. Enquanto que a Europa para lá dos Pirinéus se regalava com Locke, David Hume, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Wolff e Lessing, nós os que estamos para cá de Badajoz tivemos apenas o Frei Bernardo de Brito, o Prior de S.Nicolau. Ah! e também o Fei Bartolomeu de Gusmão! O nosso iluminismo, tão portuguesmente, foi muito mais literário do que filosófico e, como sempre, foi tardio arrastando-se pelo séc.XIX, com Bocage, Filinto Elísio, Nicolau Tolentino e outros vates. E o nosso secularismo, esse foi antes de mais um anti-clericalismo, puro e duro, que nos chegou directamente de França com o Jacobinismo. Falar-me-ão do anti-jesuitismo dos tempos de Pombal, mas isso foi a afirmação de poder dum déspota iluminado, aqui como lá fora. E é por isso mesmo que a educação que ainda hoje recebemos aflore muito ao de leve esta idade de ouro da qual fica uma imagem vaga e difusa, de algo excessivamente intelectual. Aqui damos muito mais atenção à Revolução Francesa, muito mais sumarenta e excitante, aos ideais da liberdade, fraternidade e igualdade, sobre cuja aplicação na prática é que nascem as nossas queridas divergências ideológicas que tanto nos entretem e motivam. Por isso, Lutz amigo, não vás por aí. Os teus amigos portugueses não odeiam o Iluminismo, prestam-lhe antes muito pouca atenção. É por isso que, usando a tua frase, “nós não assimilámos a essência do iluminismo”. Aquela tua outra frase, belíssima, “as ideias se encontram num espaço de liberdade: confrontam-se, derrotam-se, fertilizam-se e transformam-se, não afectadas pelo quem as profere. Este não conta. O poder de quem fala já não lhes acrescenta razão, o seu estatuto não as torna mais válidas.”, dita aqui em Portugal, não é mais do que uma amável ilusão dum setentrional benevolente, que manifestamente ainda não assimilou a nossa pitoresca identidade meridional e latina. Ainda assim acho que com estes anos de blogosfera já devias ter percebido que, aqui no burgo as ideias são total e irremediavelmente afectadas por quem as profere... Mas adiante pois quero ainda dizer algo mais, não sei se por amor à ideia se por atávica veia retórica. É que, voltando ao assunto, mesmo a nível da Europa mais a norte, eu discordo totalmente que o Ilumismo tenha sido o motor da secularização que quase destruiu a Igreja Católica. Na minha modesta opinião, a secularização europeia começou logo no Concílio de Trento e na Guerra dos Trinta Anos, quando a Igreja Católica se pôs debaixo da protecção de príncipes e imperadores para a protegerem da Reforma, tal como esta aliás o fez também para se proteger da Contra-Reforma. A partir daí a relação da Igreja com o Estado alterou-se totalmente, submetendo-se aquela a este ainda que o legitimando. O papel do inquisidor foi substituído pelo do jesuíta, influente confessor. O papado deixou de ser suserano dos Estados e converteu-se num Estado mais. Quando o Iluminismo surgiu, encontrou já a Igreja muito enfraquecida e atomizada. Deve aliás dizer-se que o iluminismo penetrou profundamente no corpo da Igreja. Muitos dos mais notáveis iluministas, cientistas, matemáticos, inventores, filósofos, foram padres, sobretudo jesuítas, os quais foram profundamente embebidos pela revolução intelectual desse tempo. Há até um episódio picaresco e bem revelador: um arcebispo de Paris, um homem muito sábio e douto, não chegou a sê-lo por ter sido vetado pelo rei Luís XV que, muito justamente, considerou que “um arcebispo desta cidade tem, pelo menos, que acreditar em Deus”. Eu diria assim que a ameaça que o iluminismo trouxe à Igreja Católica foi sim a sua diluição e descaracterização. Isso contudo acabou por não acontecer porque este movimento, sendo como diz o Lutz, “a emancipação das ideias do poder”, acabou por ter, tal como a Igreja, um papel de sustentação desse mesmo poder. Pense-se apenas em Frederico II da Prússia para se entender que assim foi. Ora, quando esse poder caiu à rua, arrastou com ele ilumismo e Igreja, que o sustentavam. A optimista e beatífica tolerância rousseauniana, a ideia do livre, pacífico e civilizadíssimo confronto de ideias, tudo isso abanou fortemente com os desvios e desvarios da revolução francesa. A Europa mergulhou num prolongado período de conflito e confusão, com uma forte reacção autoritária e esse doce optimismo andou abatido durante muitas décadas, ressurgindo apenas com o grande progresso tecnológico e material do fim do séc.XIX. Também a Igreja Católica levou um valentíssimo safanão e a ameaça passou a ser muito mais visível embora menos insidiosa. O anti-clericalismo, que veio para ficar, perseguiu padres e freiras, expulsou jesuítas e frades mendicantes, matou até arcebispos mas produziu na Igreja uma forte reacção, uma reacção de defesa vital, que de certo modo a acordou do torpor com que viveu o século anterior. E essa reacção foi, como sempre, uma reacção de regresso ao básico, de reafirmação da doutrina, apoiando-se no sector mais conservador da população. Foi o tempo do Syllabus, da afirmação de dogmas difíceis e quase provocadores como o da infalibilidade papal. Foram tempos de combate sem tréguas contra um inimigo novo designado como modernismo, combate esse que prossegue hoje ainda em certos sectores da Igreja, apesar de ter havido tantos outros sinais de reconciliação com o mundo e preocupação com ele: desde a Rerum Novarum até ao Vaticano II. Com toda esta conversa, quero apenas explicar porque penso que tudo aquilo que a Igreja é hoje (e é tanta coisa!) resultará muito pouco de eventuais enquistamentos de anticorpos contra o Iluminismo. Penso até que o Iluminismo, como o conhecemos e do qual o Lutz tanto gosta, sofreu muitíssimo mais às mãos da História do que pela influência católica e, claro está, reciprocamente para o catolicismo. E agora que vou devolver o Iluminismo para a Enciclopédia de onde o tirei, tenho ainda assuntos a tratar com o Sr.Lutz que anda por aí a dizer que a condição de católico limita a nossa liberdade intelectual através daquele mecanismo terrível e normalizado que ele foi desencantar pelas bandas do marxismo: a tal aproximação voluntária do pensamento. Mas, embora eu seja um homem livre, já estou cansado e este ajuste ficará então para a semana. Pois não eu descansarei enquanto não vir o Lutz a envergar opa para seguir a procissão do Senhor dos Passos! José [GUIA DOS PERPLEXOS] Os limites do homem (3): a exclusão da moral é a exclusão da essência humana(as partes entre aspas e em bold do texto que se segue são palavras do cardeal Ratzinger proferidas alguns dias antes de se tornar o Papa Bento XVI - este post, tal como alguns posts anteriores, e tal como ainda alguns dos próximos posts que aqui escreverei, são baseados nessas palavras)
Não parece existir nenhum fundamento lógico para a obrigação moral que não passe pela alternativa entre as duas perspectivas seguintes: - a obrigação moral assenta em axiomas, - a obrigação moral é um mero produto de relações de forças conjunturais localizadas no tempo e no espaço e, neste caso, ela varia ao sabor das circunstâncias. E também não existe, de um ponto de vista lógico, um meio termo entre estas alternativas. "Mas esclareçamos primeiro o problema se as modernas filosofias iluministas, consideradas no seu complexo, se podem considerar como a última palavra da razão comum a todos os homens. Estas filosofias caracterizam-se pelo facto de serem positivistas e, por isso, anti-metafísicas, de tal modo que, no fim, Deus não pode ter nelas qualquer lugar. Elas estão baseadas numa auto-limitação da razão positiva, que é adequada para o âmbito técnico, mas que, quando é generalizada, leva pelo contrário a uma mutilação do homem. Consequentemente, o homem já não admite qualquer instância moral para além dos seus cálculos." Sem uma referência a Deus e a normas de origem divina não é possível nenhuma fundamentação teórica válida de uma obrigação moral absoluta. Certos moralistas laicos sustentam que as regras da convivência entre os homens produzem essa obrigação moral sem necessidade de recorrer à sua fundamentação divina. Mas essa afirmação impede qualquer julgamento de validade sobre uma qualquer obrigação moral. Na medida em que as circunstâncias sociais se alterem, a tortura, o assassínio, ou todo e qualquer comportamento criminoso podem deixar de o ser. O direito sem fundamentação divina é apenas o produto de uma relação de forças, a lei do mais forte. De uma perspectiva laica, a obrigação moral de proteger os fracos contra os fortes ou é um simples absurdo ou é um comportamento utilitário dependente das circunstâncias históricas da evolução humana e, neste caso, em diferentes circunstâncias históricas, pode não fazer qualquer sentido. "Mas o homem sabe fazer tanto e sabe fazer cada vez mais; e se este “saber fazer” não encontra a sua medida numa norma moral, torna-se, como já podemos ver, um poder de destruição. O homem sabe clonar homens, e por isso o faz. O homem sabe usar homens como “armazém” de órgãos para outros homens, e por isso o faz; fá-lo porque esta parece ser uma exigência da sua liberdade. O homem sabe construir bombas atómicas, e por isso as faz." Por isso o liberalismo, sobretudo a sua vertente económica, o neoliberalismo, está tão associado ao iluminismo e ao positivismo. É, aliás, verdadeiramente assustadora a lógica "locked-in" resultante das "análises" políticas e sociais desse tipo de liberalismo fundamentalista. Nunca lhe ocorre que existem situações em que os valores devem ser ponderados e em que critérios morais devem intervir nos automatismos dos sistemas. O neoliberalismo iluminista torna-se assim uma espécie de capa legitimadora de uma moral de "vale tudo". Em que medida este edifício fundamentalisto-liberal não é apenas a tradução legitimante de um egoísmo aterrador? Em que medida este egoísmo não é camuflado ao nível da consciência dos liberais fundamentalistas pela sugestão de que tudo quanto pensam não é egoísmo mas apenas coerência e inteligência? E por isso é tão perigoso para o auto-equilíbrio dos neoliberais questionar a moralidade do edifício. Dizer-lhes que o edifício é apenas o resultado (por vezes bastante lógico e coerente) de um certo tipo de moral (pretensamente amoral). Um colosso com pés de barro (como eram o nazismo e o comunismo). Os pés de barro deste colosso é a rejeição dos critérios morais como fundamento insubstituível de qualquer política económica. "A separação radical da filosofia iluminista das suas raízes torna-se, em última análise, um não ter necessidade do homem. O homem, no fundo, não tem qualquer liberdade – dizem-nos os “porta-vozes” das ciências naturais, em total contradição com o ponto de partida de toda a questão." E o então cardeal Ratzinger perguntava: "Será que com isto pretendemos rejeitar simplesmente o iluminismo e a modernidade?" A resposta virá para a semana, se Deus quiser. Timshel [TIMSHEL] J'Accuse menos...Saiu de rajada o texto da semana passada. Dou a mão à palmatória, ou nem por isso, e exercito o contraditório ao meu próprio texto, com as palavras de outros. Soubemos que os bispos acabaram por falar (tarde, quanto a mim) e que a Comissão Justiça e Paz dos Institutos Religiosos também o fez (como já o Rui dissera). Trago esse texto aqui, porque mo enviaram e vale a pena ler, na íntegra.
«Perante a manifestação anunciada para este sábado, dia 18 de Junho, em Lisboa, a Comissão Justiça e Paz dos Religiosos torna público o seguinte: Consideramos legítimo e necessário que os cidadãos manifestem as suas posições e também a sua indignação perante actos e situações que consideram ofensivas do projecto pessoal e colectivo garantido pela lei fundamental do país. Mas demarcamo-nos radicalmente dos promotores da manifestação tanto na análise das causas dos problemas, como nas propostas da sua superação. Demarcamo-nos na análise das causas porque, liminarmente, rejeitamos a visão racista e xenófoba dos organizadores e seguimos a visão que é inerente à nossa identidade de cristãos e que está subjacente à filosofia seguida pela ONU segundo a qual “as doutrinas da superioridade fundada na diferenciação entre as raças são cientificamente falsas, moralmente condenáveis e socialmente injustas e perigosas”. Demarcamo-nos das propostas que vão na linha da “limpeza étnica”, transformando os outros em causa dos males de todos nós, afirmação que envolve vários erros. Não podemos continuar a chamar estrangeiros a quem já tem a nacionalidade portuguesa, ou a quem nasceu e sempre viveu em Portugal, ou ainda a quem com toda a probabilidade aqui terá o futuro. Não se pode forçar a história nem a realidade, sob pena de atirarmos pedras por sobre as nossas próprias cabeças. Demarcamo-nos da visão negativa que apresentam dos estrangeiros pobres pois que eles não vêm tirar o nosso trabalho, uma vez que, na generalidade, aceitam o que sobra ou o que nós não queremos fazer; eles não estão a viver à custa do erário público, mas pelo contrário para ele contribuem significativamente; não vêm criar confusão na nossa cultura, mas sim enriquecê-la, desde que encontrem espíritos abertos e universalistas. Com estes pressupostos, e confrontados com os mais recentes acontecimentos, estamos convencidos de que o que aconteceu em Carcavelos não passa de um sinal do mal-estar presente na sociedade portuguesa e que tende a agravar-se. As condições económicas actuais não são propícias à melhoria do nosso futuro. Por isso desejamos que os governantes tenham a lucidez e a coragem para não escutarem somente aqueles que têm poder reivindicativo, mas que se preocupem por criar condições para que a nossa sociedade não se transforme numa selva onde o que tem garras maiores com maior quinhão vai ficar. A nossa indignação dirige-se a tudo o que constitui negação da cidadania, não respeitando os direitos e não cumprindo os deveres correspondentes, assim como vai contra as mentalidades ocultas ou confessas de que o que interessa é promover alguns, mantendo outros em situações que não ficam a dever muito à escravatura do passado. Apontando apenas para algumas realidades, tenha-se em conta o sistema educativo que continua a catapultar para o fracasso crianças e jovens já económica, cultural e afectivamente desfavorecidos; repare-se nos meios onde habitam; tenha-se em conta o tipo de intervenção aí existente; avalie-se com lucidez as possibilidades que assistem aos pais para ajudarem os mais novos a crescer para a vida e para a cidadania; haja honestidade em perguntar se aceitamos uma sociedade de senhores e de servos. Estamos convencidos de que se todos nós e aqueles que mandatamos para a condução do país estivéssemos informados e interessados em criar um país que não nos envergonhasse pelos desequilíbrios existentes, seguramente não contemplaríamos cenas como as que agora nos preocupam.» Miguel Marujo [CIBERTÚLIA] Segunda-feira, Junho 27
Meditações sobre o Evangelho de ontemTudo tão simples e claro como água fria num copo. Mata a sede, do corpo e da alma. Christian Bitencourt [MIGALHAS] |
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terra da alegria. 2004. |
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