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Segunda-feira, Julho 11

 

Um olhar do outro lado do Atlântico – Europa unida: o sonho acabou?

Hoje, trago um olhar do outro lado do Atlântico, é de Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga brasileira.

O tema foge um pouco ao que me propus trazer para a Terra da Alegria, mas pela sua relevância, e pelos trágicos acontecimentos do dia 7 de Julho em Londres, achei oportuno trazer aqui a visão de alguém que estando de fora, vê de forma criteriosa o andamento deste velho continente.

Para além de sabermos se o texto da constituição europeia é o mais adequado, texto que desde o início, foi contestado até pela própria Igreja Católica, o que sobressai dos resultados dos vários referendos é que esta união que pretendemos está muito fragilizada. Estando fragilizada, não serve aos seus próprios interesses, nem aos que lhe são exteriores. Não tenhamos ilusões, a globalização é um processo em marcha, só com objectivos bem definidos, com alianças bem estruturadas e cimentadas, podemos resolver os problemas que a mesma globalização nos traz.



“Primeiro foi a França, que com todo o seu peso no conjunto da Europa, disse “não”. Depois foi a Holanda, convicta e com toda a sua tradição. De nada serviu que a Espanha houvesse dito ”sim” sobre a sua constituição. O episódio que vive o velho continente nos diz algo importante sobre a nossa dificuldade de perseguir sonhos e utopias intrinsecamente ligados à nossa dificuldade de conviver com as diferenças recíprocas.

A Europa é um conjunto nada homogéneo em termos de cultura, idioma, religião, potencialidade financeira etc. Talvez nenhum continente tenha uma tal variedade em seu tecido. As duas Américas, a Latina e a do Norte, têm uma certa homogeneidade idiomática e cultural, cada uma provinda de uma raiz, embora o “melting pot” no norte e a imigração variada no sul quebrem algo dessa homogeneidade. No entanto, ela existe, assim como a da Ásia, que é uma homogeneidade de origem; e a da África, que é de raça.

Na Europa, a homogeneidade e a igualdade são escassas, para não dizer ausentes. Cada país é um mundo à parte e até há pouco tempo funcionava mesmo como um universo à parte. Com a sua língua, sua cultura, sua particularidade. O sonho de unir a Europa resultou em uma moeda forte, que superou mesmo o todo poderoso dólar e que dá o tom no mercado financeiro internacional. Também esmaeceram as fronteiras existentes entre os vários países, fazendo com que o trânsito entre uns e outros fosse mais fluido e livre. Ao turista que se aventura pela velha e sempre fascinante Europa, agora é dada a possibilidade de ir e vir entre as suas belezas e riquezas, sentindo-se numa grande casa onde as paisagens naturais e culturais mudam sem a barreira de fronteiras, passaportes, alfândegas.

E eis que o “não” da intolerância se levanta como uma interdição a essa utopia e esse sonho. Ainda não será desta vez que a Europa terá uma constituição única. E o mais triste é que o factor que gera isso é mais que nada económico e financeiro. O medo de que trabalhadores dos países do Leste Europeu venham ainda em maior número para a rica e influente Europa ocidental, ocupando as vagas laborais dos jovens europeus ocidentais e onerando a sua sociedade com o peso da sua escassez ávida de oportunidades, parece ter sido o factor determinante que fez com que o “não” fosse dito em vez do “sim”. O “sim” que abriria generosamente as portas do velho continente para ser uma só comunidade.

Dizem as ciências sociais que o homem é um animal gregário, social. E a filosofia, a teologia, também dizem que o ser humano é um ser relacional, que só existe e se autocompreende a partir da relação. Só o outro o diferente, pode nos dizer quem somos e ajudar-nos a sermos nós mesmos. Grandes filósosfos europeus, justamente, como Emmanuel Levinas e Paul Ricoeur, trabalharam belamente e a fundo esta questão da alteridade. E nos disseram que a alteridade e a diferença são fundamentais em nossas vidas e existências. No entanto, ao que parece, a Europa está disposta a abrir as portas à alteridade desde que não afecte a sua economia, sua abundância, a riqueza em que se encontra mergulhada.

Pobre Europa, já tão machucada por guerras e tempos de desolação e penúria profunda. Pobre Europa, que apesar de tudo o que passou e sofreu, ainda assim parece não haver aprendido que só a solidariedade e a disponibilidade de acolhimento do outro, do diferente, ainda que signifique mais partilha e menos abundância em nossas vidas, pode construir e levar-nos a algum caminho fecundo de abertura e vida em plenitude.

Diante da séria ameaça ao sonho da Europa unida, esperemos que ainda seja tempo. Esperemos que este continente, para o qual o mundo inteiro olha como uma alternativa de modelo sócio-económico-político que conserva características humanas como estilo de viver, reflicta e reconsidere as suas posições. Esperemos que o “não” da intolerância ceda lugar ao “sim” que abre fronteiras e instaura uma verdadeira comunhão de diferentes dentro deste mundo tão egoísta e individualista.”

Maria da Conceição

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Quarta-feira, Julho 6

 

Música Celestial

1º andamento – allegro molto vivace

Na semana passada estive para aqui a rebater a ingénua mas compreensível e tão alemã surpresa do nosso Lutz, sobre a forma como este grupo de católicos que habita aqui na Terra, gente tão moderna e tolerante, ignora olimpicamente os inefáveis e preciosos frutos do Iluminismo Europeu. Agora que, penso eu, tudo está claro, vou passar inexoravelmente à próxima questão, uma questão gravíssima aliás.
Este moço estrangeiro, ainda por cima de origem protestante, vem acusar-nos a nós católicos de uma espécie de servidão intelectual face à Santa Madre Igreja que nos acolhe espiritualmente. E fá-lo dando exemplos surpreendentes. O Timshel , indivíduo de mistério, uma espécie de supra-numerário montanista de sólida base trotskista, alguém que alia o desejo de coerência doutrinal à exigência da radicalidade da prática, enfim uma espécie de Bové libertário com um afável espírito normativo e, ainda assim, especulativo. O Bernardo Motta, outro indivíduo de mistério, autor publicado, vindo das trevas do esoterismo e chegado à claridade do Catecismo, católico tradicionalista mas sincrético, atento leitor de René Guénon mas também de Ananda Coomaraswamy. E é a propósito destes nossos dois amigos, tão profundamente atípicos, que o Lutz, em cuja mente ressoa ainda com certeza o teutónico “ördnung müss sein”, vem descobrir sinais duma aviltante aproximação ao pensamento oficial. E ele é impiedoso: “há aqui algo que não passa despercebido: a ideia da obrigação de acreditar numa determinada doutrina.” , “isto (a emancipação das ideias )é uma evidência banal. Para qualquer intelectual? Não. Não é para o teólogo católico! Para ele continua válido o argumento da autoridade. Porque o S. Tomás assim disse, porque o Papa assim diz, tenho, se sou católico, obrigação de pensar e acreditar duma determinada forma! Se não conseguir à primeira, espera-se um esforço de mim para que me convenço, não por força de argumentos, mas por força de autoridade.”
Às tuas palavras, Lutz, estes nossos amigos reagiram com um piedoso e caritativo silêncio, de quem está habituado a dar a outra face. Mas eu não pois eu, qual S.Tomás de Aquino lançando a sua “Summa Contra Gentiles”, ou mais ainda, qual César das Neves na sua coluna do DN, eu vou reagir e afirmar a alto e bom som a inegável, enorme e terrível independência de espírito que é apanágio do catolicismo mais ortodoxo. É que é já a seguir.

2ºandamento – andante con brio

Queira o Herrn Brückelman saber que eu nunca li o Catecismo da Igreja Católica. Nem o novo nem o velho. Nunca. Nem em português nem em espanhol nem em alemão. Não sei sequer um ditame que te possa citar de cor excepto, se lá estiverem, os 10 Mandamentos.
Já li, isso sim, bastantes Livros da Bíblia, seguindo aliás o conselho dos teus patronos Meister Eickhart e Lutero. E já li também bastante sobre a História da minha Igreja, não apologias e laudatórias mas coisas mais duras, daquelas com que se comprazem os ateus. Li isso numa altura em que tinha perdido a fé e li mais tarde, quando já a tinha recuperado.
No meu artigo inaugural aqui na Terra da Alegria, eu disse uma coisa banal mas verdadeira, que “o que me fez e ainda faz ser cristão é mesmo Cristo, a Sua pessoa, a Sua palavra, a Sua vida”. E que “quanto ao meu catolicismo, eu sei bem que a história da minha Igreja é uma história complicada, nem sempre coerente com a Palavra. Mas apesar do que fez e do que faz, a Igreja Católica consegue ainda ao fim de 2.000 anos dar-nos pleno acesso à Palavra e Vida de Cristo para que «acreditemos que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhamos a nossa vida em seu nome». A força da Palavra é demasiado grande face às fraquezas da sua Igreja. Isso me basta. Isso agradeço. Por isso, permaneço.”
Contei também um dia, no Guia, que mesmo tendo eu perdido a fé, estranhamente nunca deixei de ir à missa e ia lá, a uma daquelas mesmo mázinha, precisamente para justificar a minha descrença. Até que um dia, ao escutar a leitura do episódio do filho pródigo, ao sentir-me tão identificado com o irmão mais velho, iniciei um percurso de reflexão que me trouxe de regresso à fé. Foi portanto pela reflexão, não sei se pela razão, que atingi a fé que hoje tenho. Ora se foi a reflexão que aqui me trouxe, tem sido também a reflexão que por aqui me tem mantido. Para ser totalmente honesto, não será apenas a reflexão pessoal sobre os textos da fé e sobre a vida à luz da fé. Será também um sentimento de pertença a uma entidade que, mais do que uma comunidade de crentes, mais do que uma dispensadora da Palavra de Deus e uma administradora de bençãos salvíficas, me parece ser uma entidade com substância teológica própria. Talvez ainda mais do que tudo isso: sinto a minha Igreja, pela sua História tão polémica mas onde se adivinha um sentido, pela sua natureza tão multipolar mas onde se anseia pela unidade, pela dicotomia agreste entre a parte eclesiática e a parte laical, pela permanente contradição entre um conservadorismo caturra e um desejo de ultrapassar os limites da natureza humana, sinto essa minha Igreja como o melhor campo que posso imaginar para que, um dia, talvez, se Deus o quiser, eu venha verdadeiramente a ser cristão.
É precisamente por isso que, enquanto católico, convivo bem com a enorme diversidade desta casa que acredito ser de Deus, uma casa onde convivem e esbracejam guardiões severos da doutrina e teólogos especulativos, vendedores e compradores de indulgências, crentes que não praticam e praticantes que não compreendem, santos que querem salvar todos nós e iluminados que descobriram o caminho e já o reservaram para os seus seguidores, priveligiados pela Graça Divina e obreiros que se oferecem ao próximo, encenadores de liturgia e leigos que a dispensam, caçadores gnósticos e artesões de doutrina.
Ora assim sendo, é fácil de perceber que nem a minha fé católica nem a minha pertença à Igreja Católica, mesmo a minha participação num movimento de leigos de base, nada disso tem perturbado a minha liberdade de pensar a minha crença, nada tem aliás perturbado o meu atávico individualismo, também aqui no domínio da fé que tenho.
É claro que na Igreja, enquanto instituição, existiu e existe ainda uma forte pulsão normalizadora e reguladora da doutrina revelada. Nada mais natural para uma instituição vergada pelo peso da missão que lhe coube e mais vergada ainda pela eternidade a que foi obrigada. Discordo de muitas coisas que saem da cabeça da Igreja mas reconforta a minha fé vê-la funcionando assim. Até porque não tendo eu, como ninguém tem, o justo conhecimento de mim próprio, nunca sei a razão exacta da minha discordância, se é de razão, se é de conveniência.
E é claro também que muitos dos meus irmãos na fé católica a tem de forma mais normativa e catecumenal. Uns, por questão de maior comodidade, procuram cartilhas simples sobre em que acreditar e como viver aquilo em que acreditam. Outros, para maior garantia da sua salvação eterna, procuram outorgá-la à intercessão dos instrumentos que a Igreja sempre lhes oferece. Outros ainda, talvez os melhores de entre nós, procuram com a humildade da obediência seguir melhor o ensinamento e vida de Cristo, procuram sobretudo combater a inflamabilidade dos egos para fugirem à tentação que foi pecado original.
Resumindo, a Igreja oferece coisas diferentes a fiéis que lhe solicitam coisas diferentes. Mas nós todos, fiéis e clero, felizes e insatisfeitos, convictos e minados pela dúvida, fanáticos e almas doces, todos cabemos nela e ela cabe toda em nós. Sem prejuízo da salvaguarda da doutrina de que a Igreja é fiel depositária e sem prejuízo da nossa liberdade de pensamento, liberdade de escolha, liberdade de vida, liberdade até de renunciar à liberdade.
Pensando bem, muito mal seria que Deus tivesse carregado o Homem com o peso do livre arbítrio e nos negasse a liberdade na escolha do caminho de regresso a Ele.

3ºandamento – scherzo giocoso

Termino com uma história pessoal, verídica e bem representativa da tremenda bigorna moral e intelectual em que vivem os católicos de hoje.
Nunca disse isso aqui, mas eu sou dos que acreditam na eficácia dos sacramentos, sobretudo de alguns deles. Um daqueles em que eu acredito piamente é no chamado sacramento da reconciliação, conhecido aí fora pelo infamado nome de confissão. Acredito verdadeiramente e experimentei sensorialmente que o irmos prestar contas a Deus por intermédio dum homem como nós mas mandatado para receber os nossos insondáveis segredos, é uma ocasião única e preciosa para nos vermos a nós próprios, não como gostamos de nos ver mas talvez com os olhos de Deus. Para mim, a confissão é um processo periódico e terapêutico para readquirir uma humildade que foge de mim por todos os poros. Não é certamente canónico dizê-lo (e depois?) mas para mim o sacramento da comunhão só faz sentido como sequência deste. Mas adiante.
Há uns anitos já, numa daquelas alturas sacramentais, fui confessar-me a uma velha igreja do centro de Lisboa, cabendo-me em sorte um sacerdote já velhinho mas ainda rijo, com uma expressão permanentemente irada, devida talvez à raiva que ele sentia em ver a sua igreja mais cheia de pombos do que de fiéis. Comecei a confissão com a costumada crónica da minha vida egoísta. Ao correr da conversa encalhámos num detalhe narrativo, coisa inócua pensava eu, mas à qual aquele santo varão atribuiu uma importância tremenda. De voz trémula mas dura, quase brandindo o rosário contra mim, o sacerdote perguntava-me repetidamente: “Mas arrependes-te ou não? Estás em pecado terrível contra Deus! Se és cristão exijo que te arrependas!” Completamente perplexo com a situação, tentei trazer o sacerdote à mesa das negociações, tentei perceber em que parte do Evangelho ou do catecismo estava tão medonha sanção para coisa que me parecia tão banal. Mas de nada serviu, acabei por ouvir uma voz, tremenda e tremente, repelindo-me violentamente: “Pois eu não te absolvo! Vai-te daqui, filho da treva!”. E eu lá fui, cabisbaixo mas sobretudo pasmado. Ao saír daquela igreja tive contudo uma inspiração: atravessei a rua e entrei na da frente! Sentei-me no confessionário e comecei logo a explicar: “Sr.Padre, devo informá-lo que venho agora mesmo dum colega seu que me recusou a absolvição por eu lhe ter dito isto e isto...”. Ora este novo padre, que não era assim tão novo, riu bastante e disse-me: “Tolices! Tens que perdoar ao meu colega que além de um pouco duro de coração é também duro de ouvido. Faz-lhe a caridade de pensares que ele percebeu mal aquilo que lhe disseste. Conta lá então da tua vida...”
E passou-se isto nesta suave Lisboa que eu amo, no seio da Santa Madre Igreja que eu amo também. E pensando naqueles que nos veem, a nós católicos, vergados pelo peso da Doutrina e da Tradição, recordo aquelas doces palavras de Jesus, contadas por Mateus: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve
E pronto, acabei.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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Os limites do homem (4): a razão e a Fé.

(as partes entre aspas e em bold do texto que se segue são palavras do Cardeal Ratzinger - este post, tal como alguns posts anteriores, e tal como o próximo post, é baseado nessas palavras; o próximo post será aliás o último post desta série de cinco posts sobre as palavras que o Cardeal Ratzinger proferiu em Abril de 2005, pouco tempo antes de se tornar o Papa Bento XVI)

O texto que aqui postei a semana passada terminava com uma questão. O cardeal Ratzinger perguntava:"Será que com isto pretendemos rejeitar simplesmente o iluminismo e a modernidade?"
Eis a resposta:
"Não, absolutamente. O cristianismo, desde o início, compreendeu-se a si mesmo como a religião do logos, como a religião conforme à razão."
Porque a religião não é incompatível com a razão. A religião é um mero complemento da razão. Cristo apareceu para revelar a Verdade. Uma verdade que não é acessível apenas pela razão. Uma verdade que não é acessível apenas através de uma razão "passiva" mas que exige opções, escolhas, liberdade.

"O cristianismo, como religião dos perseguidos, como religião universal, acima dos vários Estados e povos, negou ao Estado o direito de considerar a religião como uma parte do sistema estatal, postulando assim a liberdade da fé. Sempre definiu os homens, todos os homens sem distinção, como criaturas de Deus e imagem de Deus, proclamando como princípio a sua igual dignidade."
O iluminismo, que surgiu muito depois do cristianismo é um simples reflexo do cristianismo. E o seu erro supremo foi simplesmente a causa e consequência do modo como nasceu: ele foi uma reacção à falta de humildade da Igreja e mimetizou essa falta de humildade.
"O iluminismo é de origem cristã e nasceu, não por acaso exacta e exclusivamente no âmbito da fé cristã. Nasceu lá onde o cristianismo se tornou infelizmente, contra a sua própria natureza, uma tradição e religião de Estado. Apesar da filosofia, entendida como procura de racionalidade – também da nossa fé –, ter sido sempre apanágio do cristianismo, a voz da razão tinha sido demasiado domesticada. Foi e é mérito do iluminismo ter proposto novamente estes valores originários do cristianismo e ter dado novamente à razão a sua voz própria. O Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo, evidenciou novamente esta profunda correspondência entre cristianismo e iluminismo, procurando chegar a uma verdadeira conciliação entre Igreja e modernidade, que é o grande património que deve ser tutelado por ambas as partes."

E agora que chagámos à conclusão que o erro e o pecado (tal como o Bem) fazem parte da natureza humana e se encontram por toda a parte, em "nós" como "neles", que fazer?
"É preciso que ambas as partes reflictam sobre si próprias e estejam prontas a corrigir-se.O cristianismo deve lembrar-se sempre que é a religião do logos. O cristianismo é fé no Creator spiritus, no Espírito criador, do qual provém todo o real. É justamente esta fé que deveria ser hoje a sua força filosófica, pois o problema é se o mundo provém do irracional – e portanto, se a razão não é outra coisa senão um “subproduto”, talvez prejudicial, do seu desenvolvimento - ou se o mundo provém da razão – e se por conseguinte esta é o seu critério e a sua meta.A fé cristã tende para esta segunda tese, tendo assim do ponto de vista puramente filosófico, muito boas cartas para jogar, embora seja a primeira tese a que hoje é considerada por muitos como a única “racional” e moderna. Mas uma razão que brota do irracional e que, no fim de contas, é ela própria irracional, não constitui uma solução para os nossos problemas. Somente a razão criadora, e que se manifestou como amor no Deus crucificado, pode verdadeiramente mostrar-nos o caminho."

Timshel [TIMSHEL]

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Sexo à nora

Os bispos defenderam, numa nota divulgada na semana passada, que «a família é a primeira comunidade responsável pela educação das crianças, dos adolescentes e dos jovens». O debate também divide católicos. Porque há limites. E limitações. Retenho o essencial de um texto (jornalístico) que escrevi a propósito (sem nomes, para evitar outras leituras). As frases não são todas minhas, mas reflectem o que também penso. E da sexualidade vista pela igreja e pelos católicos já também por cá falei (vejam nos arquivos, que me falta tempo para isso, caros leitores).

Sabemos: a família é a primeira responsável pela educação para a sexualidade.
Mas – há sempre um "mas": na prática isso nem sempre acontece. Muitos pais não sabem ou não abordam essas questões e, se abordam, fazem-no muitas vezes de forma ligeira, eventualmente preconceituosa e não suficientemente informativa.
O documento dos bispos aponta preocupações: «A escola é subsidiária da família e [neste campo] compete à família decidir as orientações educativas básicas que deseja para os seus filhos, decorrentes dos seus valores, crenças e quadro cultural». Há quem prefira outra abordagem: «No campo da informação deve partir-se daquilo que os miúdos querem saber e não de um programa pré-estabelecido». Mesmo que, na escola, os alunos reproduzam preconceitos e estereótipos: «Eles têm de habituar-se que há outros que pensam de outra maneira e não devem ter como resposta verdades absolutas» da boca dos professores, dizia-me uma professora.
Uma disciplina como esta «exige um perfil de professor para a educação sexual, atento, aberto, que não seja dogmático e que responda exactamente ao que o aluno pergunta: nem mais nem menos», defende-se. «A educação da sexualidade ao implicar relações interpessoais implica uma educação para a ética».
Mas também é absolutamente impensável negligenciar o que os bispos chamam de práticas minoritárias, nomeadamente o sexo entre adolescentes. São questões muito importantes. Apesar disso, ressalve-se: a educação sexual não poderá ser só informação sobre órgãos sexuais, de luta contra a sida e a gravidez precoce. Por isso, a escola tem de usar toda a prudência, para que as crianças, adolescentes e jovens vivam a sexualidade de forma responsável, informada e humana. Mas, ninguém está a querer perverter ninguém - está-se a querer ajudar. E, no meio desta confusão toda, faltou aos senhores bispos uma coisa: perguntarem às famílias e (mais ainda) aos miúdos como pode ser a escola espaço de educação sexual.

Nota final: se na educação sexual «compete à família decidir as orientações educativas básicas que deseja para os seus filhos, decorrentes dos seus valores, crenças e quadro cultural», não poderão algumas famílias (pais e filhos) exigir uma escola que seja "laicizada" ao ponto da educação moral e religiosa ficar de fora? Posto de forma simplista, é certo, o argumentário acaba por poder valer para os dois lados.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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Dimensões sociais: o dito e o não dito

Duas notas saídas da última Conferência Episcopal Portuguesa, reunida em Fátima no passado dia 23 de Junho, merecem um olhar mais atento. Deu-se o caso de, por dever de amizade, me ter deslocado ao Santuário de Fátima nessa noite, na companhia de um padre amigo. Talvez por essa razão, os bispos foram tão inspirados nas suas palavras - sábias, como é hábito que faz o bispo.


1. Um dos documentos, uma nota pastoral, intitula-se Um olhar de responsabilidade e de esperança sobre a crise financeira do país. Reflecte sobre as «medidas anunciadas pelo Governo da Nação, em ordem a resolver o problema do défice das contas públicas do Estado», que «ameaçam penalizar ainda mais aqueles que já são mais sacrificados, pela situação de pobreza ou de falta de trabalho, pela doença e pela desajustada carga fiscal». Não é o PCP ou o BE a falar: o documento relembra, a propósito, «alguns aspectos da doutrina social da Igreja, que devem inspirar o comportamento dos cristãos e de quantos procuram o melhor para o país».
Quanto às medidas a tomar pelos responsáveis políticos, elas devem, no entender dos bispos, «ser globais e não particulares, privilegiando aquelas que não se limitam a resolver aspectos imediatos do problema, mas são portadoras de solução a médio e longo prazo, como o são, por exemplo, o investimento na inovação tecnológica, uma economia geradora de emprego, uma educação para a liberdade responsável, a análise aprofundada das causas da pobreza e a responsabilização social». Podiam também ser estas as palavras vazias de um qualquer deputado da 3ª fila do PS ou do PSD (ou um qualquer do PP), não fosse o sublinhar da urgência da análise aprofundada das causas da pobreza e a responsabilização social.
Por último (um último escolhido por mim, que há mais para ler - ide consultar o documento), um apelo (para fazer uma referência ao sr. presidente) à necessidade do contributo de todos: «o que se pede a cada um deve ter em conta a sua situação peculiar, não pedindo o mesmo a pobres e ricos, não descurando os doentes e as pessoas dependentes, não fragilizando as famílias, já tão atingidas por fenómenos como a desagregação ou endividamento insustentável. Em todas as políticas, mas de modo particular nas políticas de austeridade, há grupos sociais que precisam de uma atenção particular, porque quando se agravam os seus problemas, agravam-se inevitavelmente os problemas de toda a comunidade». De todos. Pensionistas ou ministros das finanças. Parece-me.

2. Outro documento que merece referência é a nota sobre Educação da Sexualidade. Aqui, importa tanto o que se diz, como o que não se diz. Os bispos, como os bons poetas, escolhem bem as palavras. Não dizem nem mais nem menos do que querem dizer. Daí que tenha muita importância o que calam.
Depois de reconhecerem a evidência da sexualidade como «um dos núcleos estruturantes e essenciais da personalidade humana», a nota refere a «dimensão social da sexualidade, uma vez que os encontros e desencontros de uma relação contribuem para amadurecer, em cada homem ou mulher, dinamismos de doação, de entrega, de abertura aos outros e ao mundo».
E mais: «a sexualidade humana, correctamente entendida, tem uma ligação profunda com o amor e só nele encontra o seu verdadeiro sentido. Desta ligação resulta o papel central da sexualidade na vida humana, factor decisivo para o desenvolvimento harmonioso da pessoa que só se atinge no amor». Assim, «a educação da sexualidade não se resume a mera informação sobre os mecanismos corporais e reprodutores, como tantas vezes tem acontecido, reduzindo a sexualidade à dimensão física possível de controlar com vista à prevenção contra o contágio de doenças sexualmente transmissíveis e o surgimento de gravidezes indesejadas. Desta forma, deturpa-se o sentido da sexualidade, isolando-a da dimensão do amor e dos valores, e abre-se caminho à vivência da liberdade sem responsabilidade, pela ausência de critérios éticos, e à aceitação, por igual, de múltiplas manifestações da sexualidade, [tais como] as relações corporais sem dimensão espiritual porque o amor e o compromisso estão ausentes».
Parece o mesmo discurso de sempre, não parece. Parece. Mas não é. Ora leiam com mais cuidado e atenção. Hummmm.... Não falta nada? Falta, sim, e essa é a novidade. Noutra ocasiões, mesmo num passado recente, a última frase teria a palavra sacra "matrimónio", esse sacramento mágico que valida (e só se torna válido com) as relações sexuais.
Nas palavras da Conferência Episcopal, uma sexualidade plena «tem profunda ligação com o amor e só nele encontra o seu verdadeiro sentido» e apenas é censurável uma sexualidade onde «o amor e o compromisso» estejam ausentes. Alguém falou em matrimónio?
Sobre o resto do documento, já escreveu o Miguel. Eu contento-me com o que não está lá.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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Segunda-feira, Julho 4

 

Meditações sobre o Evangelho de ontem

Foi-se o tempo das grandes opções políticas. Foi-se o tempo de esquerdas e direitas clássicas em luta. O que se vê, hoje, é sempre mais do mesmo. Correntes caudalosas, afluentes magníficos, rios grandiosos, a desaguar no vasto oceano do capitalismo. Mesmo naquilo que parece ser o conflito do século, a guerra fratricida entre fundamentalistas cristãos e islâmicos, vê-se como decisivo combustível (e esta palavra não é sem propósito) o capital.

Ânsia pelo capital. Libido financeira. Orgasmo no consumo. Não é à toa que as propagandas veiculadas nos meios de comunicação têm tanto apelo sexual. Freud surpreender-se-ia com a capacidade humana de criar sempre-novos modos de sublimação. Os shopping centers são grandes templos de sublimação do desejo. A manipulação dos objectos de consumo como verdadeiras preliminares. O ato da compra como verdadeira explosão de hormonas.
O consumo, este sacerdote do omnipresente capitalismo, é um passo à loucura. Quer-se sempre mais. E o que se tem não se conquista, mas se compra. Trocas simbólicas. Tudo, desde os objectos mais simples até as próprias relações humanas, tudo é moeda de troca. Tudo realiza-se na superfície crua do capital.

Quem não se desprende desta superfície não consegue penetrar nos mistérios da transcendência humana. Os humanos deste mundo, os sábios do capital, os instruídos no consumo, estes não conseguem compreender o sentido último da condição humana. A estes nada é revelado. É o que nos diz o Cristo, na sua oração de acção de graças: "Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra,porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos."
É preciso revestir-se da pequenez. É preciso ser manso e humilde. Este é o ensinamento do Mestre: "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma." Um convite à simplicidade.

Como sempre, a proposta de Jesus Cristo apresenta-se como contracultura. Num mundo onde o esbanjar é condição para manutenção do status, onde o esbaldar-se é elemento necessário para se fazer boa figura, onde o capital torna-se não apenas meio para a satisfação do desejo, mas o próprio objecto de desejo, neste mundo, o projecto do Reino de Deus soa como antinatural.
No entanto, não há nada mais humano que romper com a transitoriedade deste mundo. Nada mais humano que superar esta pulsão sempre irrealizável. Nada mais humano que buscar alívio e descanso.

É preciso olhar. Olhar além da moeda. Olhar além da libido do consumo. Olhar além da paranóia do se querer sempre mais. Olhar além da sabedoria deste mundo. E lá, ponto distante para onde nosso olhar se dirige, descobrir a revelação de quem somos na verdade. Somos mais que nosso desejo. Humanos, ainda que demasiado humanos.
Mas só quem tem o olhar do pequenino é que consegue ver. Só quem é como o Mestre, manso e humilde, é que consegue ver. Hoje, o convite à simplicidade, feito por Jesus, é um convite à superação da libido consumista, mas também à superação de tudo o que nos desumaniza. É um convite a revelação de quem somos. É um convite a olhar para nós mesmos. É um convite à humanidade.

Christian Bitencourt [MIGALHAS AO VENTO]

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Olhares sobre a Igreja – Eucaristia

Termina no próximo mês de Outubro, o ano dedicado à Eucaristia (Outubro 2004 – Outubro 2005). Instituído pelo Papa João Paulo II, pretendeu ser um tempo forte de reflexão e de vivência deste sacramento da Igreja. Houve da parte do Santo Padre empenho em produzir documentação que ajudasse à reflexão, e que seguindo os canais próprios chegasse a todas as igrejas particulares e comunidades eclesiais.
A Encíclica Ecclesia de Eucharitia reflecte sobre aquilo que chama a “fonte” e o “ápice” de toda a vida cristã, convidando-nos a um renovado fervor na celebração da Eucaristia. Diz-nos João Paulo II, na começo do referido documento que “a Igreja vive da Eucaristia”.

Vamos então ver porquê e como:
A centralidade da Eucaristia mergulha-nos no mistério de Cristo: Ele deu a vida para nos salvar. Sempre que celebramos a Eucaristia, não estamos a recordar um facto passado, mas a “actualizar” uma realidade que permanece eternamente. Cada vez que celebramos a Eucaristia tornamos actual, o sacrifício de Cristo. Em cada Eucaristia torna-se presente, o sacrifício da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Eucaristia quer dizer acção de graças, é o significado da palavra em grego. Usando a expressão sacrifício de acção de graças, estamos a dizer que tudo nos vem de Deus. Quando celebramos a Eucaristia estamos a reconhecer que tudo o que temos e somos, tudo o que nos rodeia (a natureza), nos é ofertado por Deus, e em, por e com Jesus Cristo queremos por nossa parte oferecer em oblação.
Tudo isto, implica uma consciencialização da nossa parte, de que o acontecimento semanal da celebração da Eucaristia, não é um acto isolado na nossa vida. Em cada Eucaristia, nós em Jesus Cristo, assumimos que queremos ser de Deus; que oferecemos os nossos trabalhos, as nossas alegrias, as nossas dores, as nossas lutas, os nossos fracassos, enfim as nossas vidas, e queremos que Deus as divinize.

À Eucaristia chama-se também “fracção do Pão”. O pão que é um alimento vital para o homem, tem na Eucaristia duas simbologias muito importantes e indissociáveis. A primeira é a de que não podemos viver e crescer na nossa vida em Deus, se não nos alimentarmos deste pão que nos vem do Céu (Mt 4, 4) “Nem só de pão vive o homem...”, (Jo 6,35) “Declarou-lhes, pois, Jesus: Eu sou o pão da vida, o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede”. A segunda, é a dimensão da partilha desse mesmo pão. Do pão que é essencial para a vida dos homens e que se traduz em todas as necessidades básicas do Homem, para viver dignamente: educação, saúde, habitação, trabalho, direito à cultura...
De Jesus Cristo recebemos o exemplo disso mesmo. Antes de se sentar para realizar o gesto da Ceia, tinha toda uma vida de entrega. Com os discípulos, com os marginalizados, com as multidões “famintas” que o seguiam, deu-se em gestos de partilha. O gesto último do seu sacrifício na cruz, foi o culminar de toda uma vida feita serviço. Não poderá ser para nós, outro o caminho.

De todas as realizações pastorais, neste ano dedicado à Eucaristia, temo que fiquemos apenas na valorização dos aspectos rituais e cultuais do sacramento, e não lhe demos esta dimensão de partilha. Para muitos cristãos e pastores é mais fácil o empenho na devoção eucarística, do que assumir a vivência da Eucaristia, como fonte eficaz de transformação da sociedade. Não é possível haver verdadeira devoção eucarística, se separada desta partilha de vida e de pão.

Maria da Conceição

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Solstício de Galileu

«A opinião ainda hoje muito difundida segundo a qual a aplicação intelectual e os progressos da ciência sempre arruinaram, através da sua refutação, qualquer sistema de crença religiosa, é apenas um preconceito do racionalismo. Nenhuma ciência ou filosofia teria podido dissolver ou aniquilar a religião grega antes das suas raízes, no conjunto da vida grega, terem murchado e se terem constituído, independentemente de qualquer ciência, novas sementes de uma outra forma de religião.
O que vale para o todo vale igualmente para cada descoberta científica particular, em relação à crença religiosa. A Igreja, como nos ensina, por exemplo, a correspondência entre Galileu e o encarregado das operações da Inquisição, estava preparada para reconhecer o heliocentrismo de Galileu se ele não declarasse a teoria como «verdadeira», mas tal como ela é presentemente encarada pelos investigadores rigorosos: como pressuposto sugerido pela lei da economia (lex parcimoniae), para simplificação das equações astronómicas. O cardeal declara-o expressamente na sua carta a Galileu. (…) Como se sabe, a própria obra de Copérnico nunca entrou em conflito com a Igreja, pois o seu editor, que, num prefácio escrito após a morte de Copérnico, a dedicou ao Papa Paulo III, separa expressamente a questão acerca da economia e da conveniência da aceitação e referia-se à aceitação da teoria coperniciana como sugerida apenas pela economia do pensar, tal como diríamos» (Max Scheler, Morte e sobrevivência, Ed. 70).

Este processo representou uma viragem fundamental na História e representa a ideia de verdade que pautará durante muito tempo o materialismo mecânico na sociedade e que teve o seu auge nas Luzes e ainda hoje tem semente no pensamento da maioria. Passou a haver uma verdade profana, absolutamente verdadeira, portanto, e essa era científica, provada em laboratório, em cobaias, vista através do telescópio, do microscópio, da razão e de bolas de bilhar. Mas essas verdades, sabemo-lo bem, não passam de aproximações construídas num âmbito humano e que servem essa escala, também ela humana. Quando nos ensinaram a lei da gravidade, e a aplicávamos, diziam-nos para desprezar o atrito do ar. Era uma lei que vinha com uma advertência, dizia que era assim, mas não a rigor. A lei de Newton só funcionaria, rigorosamente, no vazio, mas esse vazio, nunca ninguém o viu, nunca homem algum o fez. O mais parecido foram aproximações, mas o vácuo absoluto, esse, continua uma quimera tão quimérica quanto a quadratura do círculo ou a duplicação do cubo o eram para a geometria euclidiana da Idade Média. Quando nos aproximamos do pormenor, não desprezando o atrito do ar, então a verdade desfia-se em probabilidades, em quantas, em relatividades. A exactidão da verdade, cai rasteira, aos nossos pés. O sol, afinal não é o centro do universo e o maior erro de qualquer religião seria tomar tais verdades por factos, e o efémero pelo eterno, o relativo pelo absoluto. Era importante que a verdade relativa não ocupasse o lugar do dogma, e para isso era precisa a advertência: isto são coisas cujo rigor pode ser posto em causa. Num contexto religioso, o mesmo não se passa, um dogma é uma verdade, absoluta porque ilimitada na sua compreensão, misteriosa, global, contraditória. Um dogma diz uma coisa enquanto a desdiz com a mesma boca, como um Deus que morre e vive ao mesmo tempo, como um Homem que é Deus e é homem, que tem espaço físico, histórico e nos séculos e, ao mesmo tempo, está na eternidade, e é puro espírito que está em todo o lado em todos os tempos desde o princípio dos princípios. O universo não o pode conter e, no entanto, cabe no coração dum justo. Aqui não se despreza o atrito do ar.
Scheler dizia que a Igreja aceitaria o heliocentrismo de Copérnico, se viesse com a lex parcimoniae, se fosse pronunciado acrescentando um “mais ou menos”, um “desprezando o atrito do ar”. A rigor, não há verdades absolutas ou quaisquer outras que não façam parte da metafísica ou da teologia. Foram várias as tentativas de demonstrar a verdade das teorias, por este e por aquele método, e até se deu uma navalhada de Occam, apelou-se à simplicidade e ao não-refutável dum Locke, mas foi Galileu quem pretendeu exibir um método, um raciocínio científico, que teria precedência sobre a intuição e o senso comum – e até aqui seria tudo louvável – mas também sobre a revelação religiosa. Esta suplantação remetia dois campos tão diferentes para o mesmo plano, mas acima de tudo, daria, e deu, à ciência uma espécie de autoridade religiosa e de revelação.

«Até certo ponto, eles [Inquisição] argumentavam meramente por modéstia, pelo reconhecimento da falibilidade humana. E se Galileu afirmava que a teoria heliocêntrica estava provada, ou quase isso, em um sentido indutivo, eles tinham razão. Se Galileu pensou que os seus métodos poderiam conferir a qualquer teoria uma autoridade comparável àquela que a Igreja reclamava para as suas doutrinas, eles estavam certos em criticá-lo como arrogante (ou, como eles diriam, blasfemo), embora, é claro, pelo mesmo padrão eles fossem muito mais arrogantes.» (David Deutsch, “A essência da realidade”, Makron Books). Esta arrogância, de uns e outros, não me parecem comparáveis como faz Deutsch. A verdade metafísica ou religiosa não está no mesmo plano da verdade científica que, volto a sublinhar, nunca é absolutamente rigorosa ou perfeita como se pretende que sejam os dogmas (que se movem em campos absolutos e não-relativos). Mas, convém concordar: a autoridade eclesiástica é arrogante, não pelas verdades assumidas, pelos dogmas, mas pelas outras verdades também elas metafísicas, teológicas, religiosas que não são assumidas. As verdades do Islão ou dum animista africano seriam descartadas pela Igreja, juntamente com as outras, as profanas, as de Galileu e outros homens de ciência.
A recta que vemos direita, perfeitamente desenhada pela régua, é uma burla se vista pelo microscópio. Há sempre outra verdade mais verdadeira e mais rigorosa quanto mais nos debruçamos. E este movimento é perpétuo e infinito, jamais terá um fim (terá se chegarmos ao absoluto, mas esse é domínio da religião). A própria ciência destrói as verdades que dela nascem, como Cronos faz com os seus filhos. Engole-as voraz e elas passam como o rio do Heraclito, deitam-se no esquecimento, destronadas pela verdade da moda, pela nova tendência da razão e do espírito concreto, soberano, soberbo, pela tendência primavera/verão e depois pelas outras que se seguirão como um rosário, mais completas é certo, mas ainda infinitamente erradas. E estão infinitamente erradas porque estão relativamente certas. Uma cachalote branco, uma maçã, sete montanhas, são infinitamente pequenos se comparados com o infinitamente grande, com a Extensão e o ilimitado, únicos lugares onde a verdade, tal como tudo à nossa volta, pode encontrar a sua natureza perfeita.
A escala das coisas falseia o mundo e aquilo que nos dizem ziguezaguear, pode bem ser recto e o que se mostra rígido como a nuca dum faraó, pode bem ser coleante como as serpentes. Basta ver o mundo doutro ângulo, ou passado uns tempos, ou com proximidade, ou com afastamento, e o que parece verdade provada, passa a verdade relativa, o sol deixa o centro do universo tão rapidamente como lá esteve, no imo de tudo, substituindo a Terra. Foram tempos de glória para o astro-rei, o Febo, o Hélios, que afinal não se mexia, mas que afinal, mexe-se, que estava no centro e agora se vê nos subúrbios, uma estrela de periferia.

A verdade, depois de Galileu nunca mais foi verdade. Desceu do pedestal de eternidade para o mundo, encheu-se com o pó dos séculos. E toda a gente sabe para onde vai o pó: retorna ao pó, é efemeridade e morte. A verdade que desceu ao mundo, que se tornou científica, é uma verdade que morre. É uma queda como a de Adão, trágica como a de Lúcifer. Precisa duma lex parcimoniae, e a outra, a verdade religiosa, metafísica, lá do alto, mantém-se sólida a olhar por nós e a segurar e a assegurar os céus, de modo que não caiam em cima das nossas cabeças. Pelo menos até que tudo esteja consumado.
Não houve travão, depois de Galileu, para a explosão de verdades, daquelas que mais matam, que envergonhariam os maiores torturadores, carrascos, grandes inquisidores. Mediu-se o cérebro e provaram-se apoucamentos e superioridades dos matizes raciais; provou-se que a mulher era menos dotada; viram-se, claramente vistos, ao microscópio, os homúnculos (pequenos homens completamente formados que estariam presentes na cabeça do espermatozóide – caso que levou o rabino Pinhas Elijah ben Meir a chamar de homicídio à masturbação, cem anos depois de Hartsoeker, anatomista e fabricante de microscópios, ter visto com clareza absoluta os tais homens miniatura); apareceram psicologias, psiquiatrias e interpretações de sonhos científicas e outras astrologias com o epíteto de ciência; lobotomizou-se e recebeu-se o Nobel; apareceram as drogas que eram panaceias e remédio (e se calhar até são), mas afinal são hoje flagelos; fez-se a tabela dos elementos, que afinal eram tão elementares como a água, o fogo, a terra e o ar para o pensamento clássico; afinal o átomo (que significa, literalmente, indivisível) não era indivisível (para azar de muitos milhões que o descobriram ao morrerem vítimas dessa cisão atómica); e os filhos deste mundo de provas e certidões, os herdeiros do lado negro do iluminismo, mataram aos milhões, com comunismos científicos, com nazismos, com ciências políticas, com as democracias e liberalismos, com os “números concretos”, com os “factos” da comunicação social (o telescópio mostrava a verdade a Galileu, e agora, é a televisão, são os jornais, que nos mostram a verdade, aquela por que se mata ao cardume e à manada).

Na altura, parece-me, a Igreja não queria, nem tampouco lhe interessava, que houvesse outra verdade e autoridade para além da sua. Não conseguiu travar a ciência e ainda bem, mas esta passou pela sua idade das trevas: precisamente durante as Luzes. Altura em que a verdade da ciencia tinha o poder do dogma da fé. E disso ainda não nos libertámos, especialmente as massas, ao ponto de, quando queremos convencer o incrédulo, dizemos: “está cientificamente provado”, ou “os cientistas dizem”. Usam-se hoje as mesmas frases que antes se diriam (e alguns fanatismos ainda dizem) da Bíblia e dos padres. Os padres dizem, a Bíblia diz, está provado, portanto. Certo é que eram verdades diferentes e diferentes noções dela, e com Galileu, misturaram-se. A ciência subiu até ao altar e destronou a hipótese de Deus, como diria o enciclopedista, e fez-se do mundo um mecanismo de relógio. Mas também certo é que Newton, na altura, levou com uma maçã na cabeça, mas depois de Einstein, não sabemos se não foi Newton que cabeceou a maçã. A relatividade instalou-se com nome de teoria (e não de lei como aconteceu com a gravidade). A ciência reconheceu o seu papel efémero, mas ainda há muita gente que não sabe disso.
Hoje, as duas verdades coexistem: a religiosa que nunca deixou de ser o que era, desde que se fez luz, e a da ciência, que passou a concordar com o mesmo inquisidor de Galileu. Hoje a verdade científica não é tomada como foi a de Galileu e posteriormente pelos das Luzes. Hoje, qualquer cientista sabe que as verdades provadas só o são com a tal lex parcimoniae. Ou seja, são mais ou menos.

Afonso Cruz [ALERTA AMARELO]

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Quarta-feira, Junho 29

 

Fiat Lux

O meu conterrâneo e amigo Lutz, anda preocupado com a liberdade intelectual dos católicos. E sobre essa preocupação tem feito uns posts notáveis, primeiro a propósito de uma série de reflexões do Timshel em que ele procura encontrar pontes com o pensamento teológico de Bento XVI enquanto Joseph Ratzinger, mais recentemente a propósito duns posts do Bernardo Motta sobre o Diabo e a sua espessura teológica dentro da fé católica.
Devo dizer que o Lutz é decididamente um dos meus mais estimados compinchas na blogosfera. Aprecio imensamente a sua enorme honestidade intelectual, algo que não abunda por aí além neste país onde ele veio fixar-se. Mas não é apenas honestidade, ele tem também outra coisa rara nestes lados, tão rara que não temos uma palavra simples e correcta para a definir completamente, estou a falar da straightforwardness, o dizer-se directamente o que se tem a dizer. Mas deixemo-nos de salamaleques e vamos adiante.
Talvez o que vou dizer de seguida ajude o Lutz a perceber melhor porque é que os seus amigos lusos e católicos “não partilham (com ele) o terreno comum do Iluminismo”. Não será certamente, e falo por mim, por nos ressentirmos da secularização social que o Iluminismo terá trazido. Nada mais falso. A verdade é que aqui neste belo país o Iluminismo passou-nos um bocado ao lado. Não se passou aqui nada do que se passou na nação alemã que foi com o Iluminismo que alcançou definitivamente a sua maioridade intelectual no seio da Europa pensante. Enquanto esta se maravilhava com a luz que emanava do experimentalismo científico, nós por cá embasbacávamos para a iluminação dos lausperenes, das missas cantadas, até da luz terrível dos autos de fé. Enquanto que a Europa para lá dos Pirinéus se regalava com Locke, David Hume, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Wolff e Lessing, nós os que estamos para cá de Badajoz tivemos apenas o Frei Bernardo de Brito, o Prior de S.Nicolau. Ah! e também o Fei Bartolomeu de Gusmão! O nosso iluminismo, tão portuguesmente, foi muito mais literário do que filosófico e, como sempre, foi tardio arrastando-se pelo séc.XIX, com Bocage, Filinto Elísio, Nicolau Tolentino e outros vates. E o nosso secularismo, esse foi antes de mais um anti-clericalismo, puro e duro, que nos chegou directamente de França com o Jacobinismo. Falar-me-ão do anti-jesuitismo dos tempos de Pombal, mas isso foi a afirmação de poder dum déspota iluminado, aqui como lá fora.
E é por isso mesmo que a educação que ainda hoje recebemos aflore muito ao de leve esta idade de ouro da qual fica uma imagem vaga e difusa, de algo excessivamente intelectual. Aqui damos muito mais atenção à Revolução Francesa, muito mais sumarenta e excitante, aos ideais da liberdade, fraternidade e igualdade, sobre cuja aplicação na prática é que nascem as nossas queridas divergências ideológicas que tanto nos entretem e motivam. Por isso, Lutz amigo, não vás por aí. Os teus amigos portugueses não odeiam o Iluminismo, prestam-lhe antes muito pouca atenção. É por isso que, usando a tua frase, “nós não assimilámos a essência do iluminismo”. Aquela tua outra frase, belíssima, “as ideias se encontram num espaço de liberdade: confrontam-se, derrotam-se, fertilizam-se e transformam-se, não afectadas pelo quem as profere. Este não conta. O poder de quem fala já não lhes acrescenta razão, o seu estatuto não as torna mais válidas.”, dita aqui em Portugal, não é mais do que uma amável ilusão dum setentrional benevolente, que manifestamente ainda não assimilou a nossa pitoresca identidade meridional e latina. Ainda assim acho que com estes anos de blogosfera já devias ter percebido que, aqui no burgo as ideias são total e irremediavelmente afectadas por quem as profere...
Mas adiante pois quero ainda dizer algo mais, não sei se por amor à ideia se por atávica veia retórica. É que, voltando ao assunto, mesmo a nível da Europa mais a norte, eu discordo totalmente que o Ilumismo tenha sido o motor da secularização que quase destruiu a Igreja Católica. Na minha modesta opinião, a secularização europeia começou logo no Concílio de Trento e na Guerra dos Trinta Anos, quando a Igreja Católica se pôs debaixo da protecção de príncipes e imperadores para a protegerem da Reforma, tal como esta aliás o fez também para se proteger da Contra-Reforma. A partir daí a relação da Igreja com o Estado alterou-se totalmente, submetendo-se aquela a este ainda que o legitimando. O papel do inquisidor foi substituído pelo do jesuíta, influente confessor. O papado deixou de ser suserano dos Estados e converteu-se num Estado mais.
Quando o Iluminismo surgiu, encontrou já a Igreja muito enfraquecida e atomizada. Deve aliás dizer-se que o iluminismo penetrou profundamente no corpo da Igreja. Muitos dos mais notáveis iluministas, cientistas, matemáticos, inventores, filósofos, foram padres, sobretudo jesuítas, os quais foram profundamente embebidos pela revolução intelectual desse tempo. Há até um episódio picaresco e bem revelador: um arcebispo de Paris, um homem muito sábio e douto, não chegou a sê-lo por ter sido vetado pelo rei Luís XV que, muito justamente, considerou que “um arcebispo desta cidade tem, pelo menos, que acreditar em Deus”. Eu diria assim que a ameaça que o iluminismo trouxe à Igreja Católica foi sim a sua diluição e descaracterização.
Isso contudo acabou por não acontecer porque este movimento, sendo como diz o Lutz, “a emancipação das ideias do poder”, acabou por ter, tal como a Igreja, um papel de sustentação desse mesmo poder. Pense-se apenas em Frederico II da Prússia para se entender que assim foi. Ora, quando esse poder caiu à rua, arrastou com ele ilumismo e Igreja, que o sustentavam. A optimista e beatífica tolerância rousseauniana, a ideia do livre, pacífico e civilizadíssimo confronto de ideias, tudo isso abanou fortemente com os desvios e desvarios da revolução francesa. A Europa mergulhou num prolongado período de conflito e confusão, com uma forte reacção autoritária e esse doce optimismo andou abatido durante muitas décadas, ressurgindo apenas com o grande progresso tecnológico e material do fim do séc.XIX.
Também a Igreja Católica levou um valentíssimo safanão e a ameaça passou a ser muito mais visível embora menos insidiosa. O anti-clericalismo, que veio para ficar, perseguiu padres e freiras, expulsou jesuítas e frades mendicantes, matou até arcebispos mas produziu na Igreja uma forte reacção, uma reacção de defesa vital, que de certo modo a acordou do torpor com que viveu o século anterior. E essa reacção foi, como sempre, uma reacção de regresso ao básico, de reafirmação da doutrina, apoiando-se no sector mais conservador da população. Foi o tempo do Syllabus, da afirmação de dogmas difíceis e quase provocadores como o da infalibilidade papal. Foram tempos de combate sem tréguas contra um inimigo novo designado como modernismo, combate esse que prossegue hoje ainda em certos sectores da Igreja, apesar de ter havido tantos outros sinais de reconciliação com o mundo e preocupação com ele: desde a Rerum Novarum até ao Vaticano II.
Com toda esta conversa, quero apenas explicar porque penso que tudo aquilo que a Igreja é hoje (e é tanta coisa!) resultará muito pouco de eventuais enquistamentos de anticorpos contra o Iluminismo. Penso até que o Iluminismo, como o conhecemos e do qual o Lutz tanto gosta, sofreu muitíssimo mais às mãos da História do que pela influência católica e, claro está, reciprocamente para o catolicismo.
E agora que vou devolver o Iluminismo para a Enciclopédia de onde o tirei, tenho ainda assuntos a tratar com o Sr.Lutz que anda por aí a dizer que a condição de católico limita a nossa liberdade intelectual através daquele mecanismo terrível e normalizado que ele foi desencantar pelas bandas do marxismo: a tal aproximação voluntária do pensamento.
Mas, embora eu seja um homem livre, já estou cansado e este ajuste ficará então para a semana. Pois não eu descansarei enquanto não vir o Lutz a envergar opa para seguir a procissão do Senhor dos Passos!

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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Os limites do homem (3): a exclusão da moral é a exclusão da essência humana

(as partes entre aspas e em bold do texto que se segue são palavras do cardeal Ratzinger proferidas alguns dias antes de se tornar o Papa Bento XVI - este post, tal como alguns posts anteriores, e tal como ainda alguns dos próximos posts que aqui escreverei, são baseados nessas palavras)

Não parece existir nenhum fundamento lógico para a obrigação moral que não passe pela alternativa entre as duas perspectivas seguintes:
- a obrigação moral assenta em axiomas,
- a obrigação moral é um mero produto de relações de forças conjunturais localizadas no tempo e no espaço e, neste caso, ela varia ao sabor das circunstâncias.
E também não existe, de um ponto de vista lógico, um meio termo entre estas alternativas.

"Mas esclareçamos primeiro o problema se as modernas filosofias iluministas, consideradas no seu complexo, se podem considerar como a última palavra da razão comum a todos os homens. Estas filosofias caracterizam-se pelo facto de serem positivistas e, por isso, anti-metafísicas, de tal modo que, no fim, Deus não pode ter nelas qualquer lugar. Elas estão baseadas numa auto-limitação da razão positiva, que é adequada para o âmbito técnico, mas que, quando é generalizada, leva pelo contrário a uma mutilação do homem. Consequentemente, o homem já não admite qualquer instância moral para além dos seus cálculos."
Sem uma referência a Deus e a normas de origem divina não é possível nenhuma fundamentação teórica válida de uma obrigação moral absoluta.
Certos moralistas laicos sustentam que as regras da convivência entre os homens produzem essa obrigação moral sem necessidade de recorrer à sua fundamentação divina.
Mas essa afirmação impede qualquer julgamento de validade sobre uma qualquer obrigação moral.
Na medida em que as circunstâncias sociais se alterem, a tortura, o assassínio, ou todo e qualquer comportamento criminoso podem deixar de o ser. O direito sem fundamentação divina é apenas o produto de uma relação de forças, a lei do mais forte.
De uma perspectiva laica, a obrigação moral de proteger os fracos contra os fortes ou é um simples absurdo ou é um comportamento utilitário dependente das circunstâncias históricas da evolução humana e, neste caso, em diferentes circunstâncias históricas, pode não fazer qualquer sentido.

"Mas o homem sabe fazer tanto e sabe fazer cada vez mais; e se este “saber fazer” não encontra a sua medida numa norma moral, torna-se, como já podemos ver, um poder de destruição.
O homem sabe clonar homens, e por isso o faz. O homem sabe usar homens como “armazém” de órgãos para outros homens, e por isso o faz; fá-lo porque esta parece ser uma exigência da sua liberdade. O homem sabe construir bombas atómicas, e por isso as faz."

Por isso o liberalismo, sobretudo a sua vertente económica, o neoliberalismo, está tão associado ao iluminismo e ao positivismo.
É, aliás, verdadeiramente assustadora a lógica "locked-in" resultante das "análises" políticas e sociais desse tipo de liberalismo fundamentalista.
Nunca lhe ocorre que existem situações em que os valores devem ser ponderados e em que critérios morais devem intervir nos automatismos dos sistemas.
O neoliberalismo iluminista torna-se assim uma espécie de capa legitimadora de uma moral de "vale tudo". Em que medida este edifício fundamentalisto-liberal não é apenas a tradução legitimante de um egoísmo aterrador? Em que medida este egoísmo não é camuflado ao nível da consciência dos liberais fundamentalistas pela sugestão de que tudo quanto pensam não é egoísmo mas apenas coerência e inteligência?
E por isso é tão perigoso para o auto-equilíbrio dos neoliberais questionar a moralidade do edifício. Dizer-lhes que o edifício é apenas o resultado (por vezes bastante lógico e coerente) de um certo tipo de moral (pretensamente amoral). Um colosso com pés de barro (como eram o nazismo e o comunismo). Os pés de barro deste colosso é a rejeição dos critérios morais como fundamento insubstituível de qualquer política económica.

"A separação radical da filosofia iluminista das suas raízes torna-se, em última análise, um não ter necessidade do homem. O homem, no fundo, não tem qualquer liberdade – dizem-nos os “porta-vozes” das ciências naturais, em total contradição com o ponto de partida de toda a questão."
E o então cardeal Ratzinger perguntava:
"Será que com isto pretendemos rejeitar simplesmente o iluminismo e a modernidade?"
A resposta virá para a semana, se Deus quiser.

Timshel [TIMSHEL]

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J'Accuse menos...

Saiu de rajada o texto da semana passada. Dou a mão à palmatória, ou nem por isso, e exercito o contraditório ao meu próprio texto, com as palavras de outros. Soubemos que os bispos acabaram por falar (tarde, quanto a mim) e que a Comissão Justiça e Paz dos Institutos Religiosos também o fez (como já o Rui dissera). Trago esse texto aqui, porque mo enviaram e vale a pena ler, na íntegra.

«Perante a manifestação anunciada para este sábado, dia 18 de Junho, em Lisboa, a Comissão Justiça e Paz dos Religiosos torna público o seguinte:
Consideramos legítimo e necessário que os cidadãos manifestem as suas posições e também a sua indignação perante actos e situações que consideram ofensivas do projecto pessoal e colectivo garantido pela lei fundamental do país. Mas demarcamo-nos radicalmente dos promotores da manifestação tanto na análise das causas dos problemas, como nas propostas da sua superação.
Demarcamo-nos na análise das causas porque, liminarmente, rejeitamos a visão racista e xenófoba dos organizadores e seguimos a visão que é inerente à nossa identidade de cristãos e que está subjacente à filosofia seguida pela ONU segundo a qual “as doutrinas da superioridade fundada na diferenciação entre as raças são cientificamente falsas, moralmente condenáveis e socialmente injustas e perigosas”.
Demarcamo-nos das propostas que vão na linha da “limpeza étnica”, transformando os outros em causa dos males de todos nós, afirmação que envolve vários erros. Não podemos continuar a chamar estrangeiros a quem já tem a nacionalidade portuguesa, ou a quem nasceu e sempre viveu em Portugal, ou ainda a quem com toda a probabilidade aqui terá o futuro. Não se pode forçar a história nem a realidade, sob pena de atirarmos pedras por sobre as nossas próprias cabeças.
Demarcamo-nos da visão negativa que apresentam dos estrangeiros pobres pois que eles não vêm tirar o nosso trabalho, uma vez que, na generalidade, aceitam o que sobra ou o que nós não queremos fazer; eles não estão a viver à custa do erário público, mas pelo contrário para ele contribuem significativamente; não vêm criar confusão na nossa cultura, mas sim enriquecê-la, desde que encontrem espíritos abertos e universalistas.
Com estes pressupostos, e confrontados com os mais recentes acontecimentos, estamos convencidos de que o que aconteceu em Carcavelos não passa de um sinal do mal-estar presente na sociedade portuguesa e que tende a agravar-se. As condições económicas actuais não são propícias à melhoria do nosso futuro. Por isso desejamos que os governantes tenham a lucidez e a coragem para não escutarem somente aqueles que têm poder reivindicativo, mas que se preocupem por criar condições para que a nossa sociedade não se transforme numa selva onde o que tem garras maiores com maior quinhão vai ficar. A nossa indignação dirige-se a tudo o que constitui negação da cidadania, não respeitando os direitos e não cumprindo os deveres correspondentes, assim como vai contra as mentalidades ocultas ou confessas de que o que interessa é promover alguns, mantendo outros em situações que não ficam a dever muito à escravatura do passado. Apontando apenas para algumas realidades, tenha-se em conta o sistema educativo que continua a catapultar para o fracasso crianças e jovens já económica, cultural e afectivamente desfavorecidos; repare-se nos meios onde habitam; tenha-se em conta o tipo de intervenção aí existente; avalie-se com lucidez as possibilidades que assistem aos pais para ajudarem os mais novos a crescer para a vida e para a cidadania; haja honestidade em perguntar se aceitamos uma sociedade de senhores e de servos.
Estamos convencidos de que se todos nós e aqueles que mandatamos para a condução do país estivéssemos informados e interessados em criar um país que não nos envergonhasse pelos desequilíbrios existentes, seguramente não contemplaríamos cenas como as que agora nos preocupam.»

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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Segunda-feira, Junho 27

 

Meditações sobre o Evangelho de ontem

Tudo tão simples e claro como água fria num copo. Mata a sede, do corpo e da alma.
O mundo está cansado de soluções complexas. Já se foi o tempo dos sonhos de grandes sistemas filosóficos que conjugassem todo o pensamento num único edifício de arquitetura mágica. Talvez o último grande sonhador deste tipo tenha sido Hegel. O velho Hegel e seu Geist que se desdobra/desvela com o passar do tempo na história humana. Complexo, muito complexo. E quem já passou mais de uma tarde debruçado sobre a Fenomenologia do Espírito sabe do que estou falando...
O mundo quer algo mais simples. E talvez aí esteja um ténue fio de compreensão para esta aurora de fundamentalismos do novo século. Rostos diferentes, mesmas vozes. Esteja-se falando do que quiser, desde a direita evangélica estadunidense ao radicalismo islâmico – com espaço, é claro, para as centenárias capelas vaticanas. O fundamentalismo é simples. Não conhece variações de cinza. É preto no branco. Cai como uma luva nos desejos deste novo-velho mundo.
A simplicidade do fundamentalismo, no entanto, é aparente. Por detrás da demonização do outro está a aceitação das complexas regras do jogo religioso. É preciso ser ortodoxo. É preciso dominar todas as nuances da ortodoxia. É preciso amparar-se na tradição. É preciso ouvir, com a serenidade das ovelhas, a interpretação correcta da tradição. É preciso aprendê-la. Só quem se torna um escriba versado na doutrina é que compreende a razão da ética fundamentalista. E quem compreende esta razão age com um brilho diferente dos olhos. O brilho de quem sabe ser o dono da verdade.

A proposta do bom e velho Cristo não é essa. Seu projecto é simples, de verdade. Se se quer receber o prémio do Reino, aja. Aja antes de qualquer reflexão teórica. A teologia é ato segundo; a prática da fé é ato primeiro. No projecto do Reino de Deus, pensado por Jesus Cristo, a acção movida pelo amor é mais importante que qualquer correcção de sistemas teológicos. Suas palavras, no evangelho de ontem, encontram eco nos ouvidos de quem se recusa a se enredar nesta trama urdida pelo espírito do século: “E quem der a beber, ainda que seja um copo de água fria, a um destes pequeninos, por ser este meu discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão.”
O fundamentalismo não entende isso. Nada pode ser tão simples assim. Mesmo no universo bidimensional do preto no branco, deve-se penetrar à disciplina dos arcanos, deve-se compreender os mistérios da doutrina. A acção de defesa da fé segue-se, é lógico, à apreensão desta fé. A paixão fumegante dos apologistas da ortodoxia funda-se no conhecimento da complexidade dos mistérios de Deus. Nada pode ser tão simples quanto um gesto de amor.
Mas esta é a proposta do Cristo. Gesto de amor. Aja, ame. Não fundamente o gesto, a acção, numa doutrina a ser defendida. Simplesmente aja, simplesmente ame. Gestos de amor gratuitos, realmente altruístas. Esta é a única alternativa possível ao ser humano de hoje. A única alternativa para que ainda faça sentido a existência humana.
Dê de beber um copo d’água. Mate a sede do outro, do corpo e da alma. Este é o segredo da re-humanização desta nossa espécie quase perdida. Simples. Tudo tão simples e claro como água fria num copo.

Christian Bitencourt [MIGALHAS]

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Olhares sobre a Igreja. 3. A mulher na Igreja Católica.

Passo a transcrever, na íntegra, uma reflexão de Maria Alfreda Ferreira da Fonseca, publicada na agência ecclesia no passado mês de Maio. Trago esta reflexão para a Terra da Alegria, porque cada vez mais este é um assunto de primeira importância a ser reflectido dentro da Igreja Católica. Não sei fazer futurologia portanto não sei quando é que este e outros assuntos em debate serão devidamente enquadrados no presente da Igreja. Da minha parte quero contribuir para que sejam tratados com a seriedade que merecem.

“1- Qualquer reflexão sobre o feminino na Igreja é sempre uma questão situada no tempo e no espaço. Sendo a mensagem cristã dirigida a toda a gente e a todas as épocas, no âmago da experiência humana, é aí que se confrontam as questões concretas da vivência da Boa-Nova e das condições objectivas para a sua transmissão em Igreja, ou seja o velho problema da Evangelização (nova ou não, conforme os gostos...)
No início deste sec. XXI, num tempo de acelerada globalização, a situação não é pois homogénea nem no Mundo, nem na Igreja, incluindo a Igreja Portuguesa.
As questões do “Género” (feminino ou masculino) são então (apenas?) umas entre outras que desafiam a compreensão da Fé e a organização da Igreja em ordem a ser eficaz na sua tarefa evangelizadora. Não podem por isso ser ignoradas ou tomadas menos a sério do que quaisquer outras, sob pena de omissão grave.
Não se trata de importar um feminismo societário das sociedades desenvolvidas do Ocidente, tipo versão agressiva feminista - católica, como simplisticamente alguns sectores eclesiais e eclesiásticos parecem julgar ter acontecido.
Pelo contrário, o problema é bem mais sério e necessita de ser reflectido para além das paixões emocionais que se revelam nos debates a favor ou contra a maior participação feminina na Igreja e, particularmente, a disputa sobre a sexualidade e/ou a necessidade de as mulheres poderem vir a desempenhar ministérios ordenados que hoje lhes são vedados.
A questão do papel da mulher na Igreja, aqui e agora, é a mais viva expressão da inculturação da Fé na experiência da vida dos crentes, homens e mulheres que partilham “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. (...) (experiência) intimamente solidária do género humano e da sua história” (G.S.-Vat.II). Importa pois tomar a sério esta experiência humana que hoje estamos a viver.
Como no poema de Sofia, “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar...” a realidade que perpassa a nossa vida de portugueses, europeus, mulheres e homens inseridos num país, numa cidade, numa Igreja que assumiu historicamente uma postura face à mulher pouco conforme com a referência a Jesus Cristo e muito devedora dos enquadramentos históricos e modelos ideológicos em que nasceu, se estruturou e que muitas vezes insiste em perpetuar como se fossem essas as únicas formas possíveis de se organizar!


2 – De onde vimos pois, para podermos olhar criticamente o passado e projectarmos o futuro de uma forma mais evangélica? Sabemos onde acabam os modelos históricos ligados à experiência de uma Fé incarnada e onde sopra o apelo do Espírito que impele a novos caminhos ainda inexplorados? Qual será amanhã o lugar das mulheres na Igreja? O papel da mulher será sempre indissociável do seu estatuto sociológico em qualquer sociedade e organização, e no caso vertente, na nossa Igreja. Compreender os enquadramentos históricos e as vicissitudes do passado é dotarmo-nos de ferramentas para projectarmos o futuro.
O estatuto da mulher na sociedade judaica no tempo de Jesus (como em outras sociedades tradicionais que hoje perduram), era determinado pela família como lugar claramente definido em termos sociais e sexuais.
A família é sempre o centro – a mulher é identificada como videira fecunda...ou como a estéril, um estigma social desvalorizante. O papel da mulher é assegurar a reprodução, educar os filhos e manter a casa através dos trabalhos domésticos. Não se pede mais nada às mulheres do que se submetam ao poder de uma sociedade fortemente patriarcal. Os exemplos abundam no Antigo Testamento!
Mas este estatuto feminino sofre ainda de uma ambiguidade metafórica inicial desde o Génesis: Eva é a primeira mulher, auxiliar igual de Adão, mas também é apresentada como a tentadora pela qual o mal veio ao mundo, segundo o relato do mito bíblico da origem. Aí está um primeiro modelo de desvalorização feminina produzido pelo discurso masculino da culpa e do mal.
A evolução histórica de Inculturação do cristianismo nas culturas locais, do Império Romano à idade Média, até ao século XX, foi acentuando a submissão ao modelo patriarcal presente na maioria das sociedades o que contradiz em absoluto a mensagem cristã, mas é produto do estatuto de menoridade feminina vigente nas sociedades com as quais o cristianismo, doutrina libertadora, muitas vezes pactuou acriticamente.
Ora Jesus Cristo tinha uma compreensão distinta da mulher. Os Evangelhos, particularmente em Lucas, mostram-nos Alguém que fala com elas assumindo-as como pessoas na sua integralidade e esse contacto é transformador, leva à conversão.
Recuperar esta forma de Jesus se encontrar com as mulheres é o desafio que o século XXI, no Ocidente, nos coloca, a todos homens e mulheres, dentro e fora da Igreja.

3 – Na Igreja primitiva, as mulheres eram chamadas ao serviço do Diaconado e certamente orientavam as celebrações das Igrejas domésticas onde se inseriam. Hoje nada disso é possível! As mulheres fazem múltiplos serviços, mas não são reconhecidos como ministérios e o mais das vezes são meramente supletivos da falta de padres. A questão dos Ministérios ordenados, mais do que uma reivindicação de igualdade de género é uma necessidade de serviço à comunidade eclesial. Se a Igreja Católica continuar a recusar o acesso ao Presbiterado aos casados, homens ou/e mulheres, o exercício do ministério aos chamados incorrectamente ex-padres, vai um dia encontrar-se na infeliz situação de não ter quem presida à Eucaristia.
Se as mulheres parassem por um dia o seu labor diário na sociedade e na Igreja, o país e o mundo paralisavam. A economia portuguesa assenta em grande parte, no trabalho das mulheres e a vida familiar de cada pessoa também. As igrejas não teriam o chão limpo, as flores no lugar, as hóstias não seriam fabricadas pelas freiras nem os paramentos bordados, mas sobretudo a catequese dos mais novos e os serviços de apoio social nas paróquias falhavam. As celebrações da Palavra sem padre deixariam de existir em muitos lugares, a distribuição da comunhão aos doentes igualmente. A Conferência Episcopal reuniria na mesma, mas não teria quem lhes fizesse a comida, em Fátima, nem as secretárias para lhes passar os textos a computador. As aulas na Faculdade de Teologia funcionariam pois só há uma mulher na direcção e aí as professoras são muito poucas, mas a secretaria da Universidade Católica faria fechar as Faculdades sem ninguém para processar vencimentos ou passar diplomas. As escolas católicas ficariam também paralisadas.
Ora como se vê pelos exemplos dados, as mulheres são essenciais para fazerem funcionar esse corpo que é a Igreja. O que é estranho é que se lhes peça quase só trabalho braçal e quase nenhum intelectual... desperdiçando muitos dos carismas com que O Criador as dotou!

4 – O desastroso discurso eclesiástico sobre o papel da mulher, marcado pela sexualidade (virgens consagradas ou mães) e pela carga histórica de submissão da mulher, ainda que se lhe reconheça dignidade (ex. JPII – in Mulliers Dignitatem) recusa ver uma realidade que só não vê quem não quer mesmo olhar: as mulheres são gente, são pessoas, dotadas além da função reprodutora e de um enorme coração, com muitos outros atributos tais como... cérebro! A menos que as façam justamente “perder a cabeça” pelas inúmeras histórias de discriminação e menoridade a que habitualmente têm estado sujeitas. É altura de começar a mudar e colocar os carismas e talentos do género feminino ao serviço de toda a comunidade eclesial.
O progresso social resultante da situação da escolarização maciça das mulheres, no Ocidente, torna-as parceiras também em termos intelectuais, dos homens e esta realidade deve-se reflectir não só na sociedade como na Igreja e na sua organização interna.
Caso este desafio não seja tomado a sério, corremos o risco de marginalizar e de perder o contacto com a metade feminina da humanidade, o que seria um pecado grave!”

Maria da Conceição.

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Quarta-feira, Junho 22

 

Dedalus e Ícaro: as duas maneiras de sair do labirinto

O Lutz comparou a minha "aproximação" ao Papa Bento XVI (ex-Ratzinger) com a posição de Cunhal relativamente à invasão da Checoslováquia (antes da invasão, Cunhal emitiu internamente opiniões contra, mas depois defendeu-a publicamente). Se bem compreendi o seu raciocínio, a lógica seria a mesma: a lógica da submissão à organização em nome de valores mais altos.
Julgo que a mãe de Cunhal era uma católica fervorosa e autoritária. Uma mãe quase fundamentalista no seu catolicismo, voluntariosa e enérgica, com um ódio profundo ao comunismo (pelo menos foi essa a ideia com que fiquei do livro de Pacheco Pereira sobre Cunhal, ideia esta que não pude confirmar pois perdi o livro algures). Cunhal, na sua infância e princípio da adolescência, teria sido também um católico extremoso, colaborando frequentemente com o padre na Missa.
Não pretendo voltar à velha e batida tecla de que "o comunismo é uma história de cristãos" (Camus). Até porque a questão que aqui se coloca não é exactamente saber as semelhanças e as diferenças entre as propostas sociais e políticas do cristianismo e as do comunismo mas o que têm em comum no seu modo de funcionamento.
Seria atraente estabelecer um paralelo entre o fundamentalismo católico da mãe de Cunhal e o fundamentalismo comunista do filho, através de uma espécie de estranho e paradoxal mimetismo que conduziu a resultados opostos através de uma resolução do complexo de Édipo com contornos particulares. Os fundamentalismos tendem a herdar-se através de uma espécie de aprendizagem inconsciente mesmo quando assumem cores radicalmente opostas. O mal (nas suas diferentes tonalidades e cambiantes) tende a espalhar-se como uma mancha de óleo que tudo impregna.

Mas o fundamentalismo pode apenas ser uma das variantes do moralismo. Na obsessão pelo "dever ser" tudo serve para que o "dever ser" se transforme no "ser". Estou particularmente à vontade para falar nisso porque quando andei pela extrema-esquerda fazia esse tipo de raciocínios. Quando o "ser "(por exemplo a União Soviética de Estaline ou a China maoísta) não correspondia ao "dever ser" (o comunismo como um estádio superior do humanismo) negava essa realidade de duas maneiras: minimizando os "erros" e desculpando-os com a necessidade de se construir o futuro, um futuro esse sim em que tais "erros" não existiriam.
Perante as ameaças decorrentes do moralismo (um fundamentalismo inumano ou uma hipocrisia repugnante que paradoxalmente pode constituir o estádio mais avançado do cinismo – nas palavras do Lutz: "Como ultrapassar o cinismo sem voltar à hipocrisia!") o cinismo foi a tentação intelectual que se seguiu no meu percurso pessoal.
Mas a única alternativa ao cinismo é a existência de um conjunto de valores sólidos de um ponto de vista lógico e ético e a luta por eles. Com todos os riscos que tal implica.

Como em tudo, talvez aqui a chave seja também e novamente a procura do equilíbrio. Sujeição versus independência ou moralismo versus cepticismo são apenas mais algumas daquelas equações em que a procura do equilíbrio é fundamental. Já aqui defendi que o equilíbrio e a proporcionalidade são também simples facetas do amor. Nesta procura do equilíbrio é a nossa consciência individual que é determinante. "A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo (…) É preciso que cada um preste muita atenção a si mesmo para ouvir e seguir a voz da sua consciência." (pontos 1778 e 1779 do Catecismo da Igreja Católica).

Com tudo isto não respondi à questão do Lutz. Estarei a defender "a invasão da Checoslováquia"?
Vou dar um exemplo que talvez responda melhor a esta pergunta que uma resposta directa.
A minha ideia inicial quando comecei a escrever esses textos baseados nas palavras de Ratzinger era alternar textos "laudatórios" com textos críticos. O primeiro texto crítico seria relativamente ao célebre ponto 2267 do Catecismo da Igreja Católica que admite, ainda que apenas teoricamente, a pena de morte. Na altura não avancei por este caminho por três razões.

Primeiro, porque verifiquei que a versão espanhola deste ponto é radicalmente diferente das restantes versões (ver, a título de exemplo a versão francesa e a versão inglesa). A versão alemã, sublinho, a versão alemã, parece-me de acordo com a versão espanhola mas nisto o meu alemão é insuficiente (talvez o Lutz me ajude).
Segundo (admitindo que as versões inglesa e francesa é que são as correctas), pelo que li algures, teria existido uma luta terrível no Vaticano (e é a esse título reveladora a diferente versão em espanhol e alemão) em torno deste ponto e que ele teria sido "imposto" pela então poderosíssima Igreja norte-americana (importante sustentáculo financeiro das obras da Igreja Católica em todo o mundo). Embora não se tenha condenado de modo absoluto e peremptório a pena de morte (como eu gostava que fosse) o que se diz nesse ponto representa a condenação, na prática, dos países que têm a pena de morte no seu sistema jurídico.
Terceiro, a condenação prática da pena de morte tornaria irrelevante a crítica que eu tencionava fazer.

Decidi então não fazer essa crítica porque ela me parecia irrelevante nesse contexto, até porque também li que o Papa Bento XVI estaria com a Igreja Católica norte-americana debaixo de mira a propósito deste e de outros casos ainda mais sinistros. E que, mais cedo ou mais tarde, este tenebroso ponto 2267 será limpo para ficar de acordo com as versões espanhola e alemã).
Existe em toda esta argumentação um mal-disfarçado wishful thinking.
Dir-me-ão que este tipo de raciocínio era exactamente o de Cunhal quando defendia a invasão da Checoslováquia. Talvez. Prefiro viver com estas dúvidas do que com a certeza de uma independência que mais não seria que, utilizando as palavras do José, "o endeusamento acrítico e cristalizador do meu próprio pensamento". "O que muitas vezes é fonte de escravidão e não de libertação."(de novo nas palavras do José).

Timshel [TIMSHEL]

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J'ACCUSE!

Acuso os bispos portugueses por omissão.
Acuso os padres das dioceses deste país por não levantarem a voz.
Acuso os leigos da Igreja católica portuguesa por indiferença.
Acuso quem, entre todos os cristãos, ignorou a manifestação nazi do passado sábado em Lisboa.

Não basta lermos a parábola do Bom Samaritano, para sabermos tratar e acolher o estrangeiro.
Não basta bater no peito e invocar a caridadezinha, que podemos praticar com os ciganitos lá do bairro.
Não basta rezarmos por quem pratica o mal, em supostos arrastamentos ou de braço em riste, repetindo a ladainha que pecámos por palavras, actos ou omissões. Porque pecámos.

Por palavras que não foram ditas.
Por actos que não tomámos.
Por omissões que todos nós tivemos.

Há que dizê-lo: fosse uma manifestação pró-aborto, e bispos, e padres, e alguns movimentos ditos pró-vida ou eclesiais, levantariam a voz, gritariam para lá da sacristia, poriam o dedo em riste.
Mais: no sábado da vergonha (não podemos esquecer como começou a vergonha nazi - com a indiferença de todos os que deviam ter sido mais actuantes e não levantaram a voz), alguns movimentos e organizações portuguesas correram a participar numa manifestação em defesa da família na vizinha Espanha - que, no fundo, era uma "manif" homofóbica! - quando em pleno coração de Lisboa as famílias portuguesas eram todas elas envergonhadas com braços em riste a saudar o que de mais vil a humanidade já viu e a colorirem esses gestos hediondos com frases mentirosas (sim, são mentiras, como provam todas as estatísticas sobre criminalidade).

A tudo isto, os católicos disseram nada. Ou quase nada. Calaram, porque falta na Igreja uma aprendizagem do Outro - contra o discurso racista e da indiferença. A vida defende-se aqui. Assim.

[Dir-me-ão: D. Januário Torgal Ferreira, bispo da comissão episcopal das Migrações, falou. Alto e bom som contra a "manif". Mas, agora, apetece-me ironizar, com a argumentação de alguns sectores às direitas: "É sempre o mesmo..."]

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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Obrigações e acções

Na segunda-feira, depois de ler o texto do Luís Almeida, aqui na Terra, fiquei a pensar que é mesmo assim na maioria das nossas igrejas. Mais uma vez o pensei, mas desta vez com uma certa alegria de saber que “aquilo” também incomoda outros.
Uma das coisas que acho que devemos cuidar na Igreja é a liturgia. Quando digo cuidar refiro-me também a manter o que recebemos das tradições e da Tradição, mas, sobretudo à capacidade de dar sentido aos ritos, aos gestos, às palavras enquanto realidades muito mais fundas e que remetem para o quotidiano e para o sentido dos outros.
Já de há anos que se têm feito ouvir algumas pessoas, muitas delas até consideradas “progressistas” e ousadas a dizer que depois do Concílio Vaticano II, passando a Missa a ser em vernáculo se perdeu uma dimensão essencial à vivência da Fé, a relação com o inefável através da beleza e do misterioso. Sou capaz de dar alguma razão a quem o diz e pensa, mas não consigo imaginar a vivência comunitária da Eucaristia sem a participação activa e dialogal de cada um, conforme a sua capacidade ou função. É preciso é ter em conta as várias realidades comunitárias que se celebram.
No pontifical de Domingo de Páscoa presidido pelo Papa como quando o pároco vai celebrar para sete ou oito escuteiros acampados ou no casamento (pela Igreja...) da mais faustosa das princesas como na Missa de corpo presente do miserável sem-abrigo onde só aparece o padre, celebramos sempre a mesma Eucaristia, tornamos sempre presente o dom que Jesus Cristo se fez para nós. A questão é sabermos dar sentido, tornando a celebração digna, a cada um desses momentos a que associamos o partir do Pão que é o Senhor.
É essencial fazer tudo o melhor possível para que tudo seja perceptível e belo, mas é essencial também saber quem, como e em que circunstância estamos para que “a preocupação pelo rito” não nos torne “ritualistas e escravos do rito” como apontava o Luís.
Mas a minha alegria foi maior quando, nesse mesmo dia, li, na comunicação do Angelus de Bento XVI no passado dia 12, que a “Missa dominical deve ser sentida pelo cristão não como uma imposição ou um peso, mas como uma necessidade e uma alegria”. É uma evidência, algo que todos devíamos perceber desde a infância, mas é da máxima importância que o Papa seja capaz de dizer estas coisas simples para que as interiorizemos, para que saibamos da sua importância!
Para a verdade é que continua a haver muitos padres que, até sem se aperceberem, continuam a celebrar missas e missinhas com o maior dos rigores e cuidados, mas por mera obrigação enquanto muitos fiéis continuam a ir, sem estar, sem participar, sem assistir, apenas por obrigação...

Rui Almeida [POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA.]

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Segunda-feira, Junho 20

 

No Domingo fui à Missa

Senhor Padre M.

Um bom dia para si.
De novo: BOM DIA !

Escrevo-lhe constrangido pela dúvida se o devo fazer, mas impelido por um apelo de consciência, como um dever cristão.

No Domingo passado fui à Missa à sua Paróquia: não era a 1ª vez, mas não é frequente ir à Missa à sua Paróquia (é mais frequente ir a a outras Paróquias).

Sou L.A., um simples Cristão, com a minha mediocridade, com os meus receios, os meus medos, a minha ambiguidade, as minhas limitações e fraquezas, os meus defeitos e o meu pecado e, portanto, não será por isso que me resta algum direito de poder dizer o que quer que seja a alguém, de julgar, nem muito menos de concluir alguma coisa sobre o que quer que seja. Também não sou especialista de coisa nenhuma e, por isso, a minha opinião nem sequer é necessário admiti-la como digna de consideração; não procuro resposta e mais me agradaria fazê-lo no anonimato.
Desejo que a minha atitude não seja mais que um apelo de consciência e peço perdão se estou a ser injusto, porque me sinto como quem vai dar uma bofetada num Filho de Deus.

No Domingo fui à Missa: Assim mesmo! Só isso!
Mas gostaria que tivesse sido um pouco mais: Não como quem marca o ponto, ou cumpre uma obrigação, mas como quem deseja, participa, se compromete e descobre rumo, força e sentido para a Vida.

Procuro não encarar a Missa como um fim em si mesma, mas, em primeiro lugar, como um encontro, com os outros - em comunidade - na celebração da Fé, e com Deus na Sua Palavra, como descoberta da Sua vontade, e na Eucaristia, como alimento e ânimo, e em segundo lugar como um reenvio para a Vida do dia a dia. (Era assim que eu gostava que fosse!)
A Eucaristia, mais do que um fim em si mesma, é um abrir de horizontes, um apelo ao testemunho e um envio em Missão.

Pois o que eu senti foi um cultivo do gesto. O rito pelo rito. O aparato (a aparência) de uma cerimónia, para não dizer uma representação, uma encenação, quase um espectáculo... Sim, um espectáculo! Muito centrado em si mesmo, como se a sua finalidade fosse o próprio rito. Havia um actor principal, com uma pose irrepreensível, (mesmo que estivesse a contar as 36 vezes que a porta do fundo bateu), mas os gestos, a posição, os tempos, o tom de voz, o ritmo, a marcação…, tudo estava definido, controlado, aferido, afinado, ensaiado…, impecável!

A preocupação pelo rito pode tornar-nos ritualistas e escravos do rito.
A preocupação pela aparência da função pode tornar-nos funcionários, profissionais no desempenho, mas desligados e alheios do conteúdo.
O símbolo toma o lugar do objecto e ele próprio deixa de ser símbolo e esvazia-se: fica em nada!

Se há uma presença que deve ser evidenciada é a de Cristo (não a do representante), presente na comunidade dos cristãos (se dois ou mais estiverem reunidos…), presente na Sua Palavra, presente na Eucaristia!
Presidir à comunidade é, antes de mais, estar ao serviço da comunhão: entre a comunidade e desta com Deus. Outros protagonismos podem ser um cultivo da pessoa, mas não serão motivo de comunhão!

Muitas vezes, falo por mim, encobrimos os nossos medos e a nossa insegurança com um verniz protector, com um fazer bem feitinho, para os outros gostarem, como uma capa que nos protege e por detrás da qual ocultamos os nossos receios…!!! (É apenas uma sugestão para uma auto-avaliação).

Aceite um abraço em Cristo.
L. A. Faro, 11/05/2005

Luís Almeida

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Para que serve o Simbolismo

Em posts no Povo de Bahá, anteriores mencionei os simbolismos nas palavras que os evangelistas atribuem a Jesus e as interpretações simbólicas de S. Paulo. Mas é óbvio que alguns versículos das Escrituras contêm um significado literal. Por exemplo: "Não matarás" [Ex. 20:13] tem um significado literal. No entanto, o significado e a razão desta lei envolvem um significado espiritual intrínseco.
Existem outras passagens dos textos sagrados em que podemos reconhecer simbolismos, mas dificilmente compreendemos os respectivos significados. Por exemplo, quando Cristo se refere à Sua segunda vinda, são-lhe atribuídas as seguintes palavras: "Logo após a aflição daqueles dias, o Sol obscurecer-se-á, a Lua não dará a sua luz, as estrelas cairão do céu e as forças do céu serão abaladas" [Mt 24:29]. Os Cristãos discordam entre si sobre o significado deste versículo, demonstrando com isso - tal como disse Bahá'u'lláh - que o seu significado está oculto e velado. Neste caso específico, é impossível aceitar um significado literal, a menos que deixemos de acreditar na ciência. E mesmo que um Cristão reconheça que estas palavras são simbólicas, é difícil determinar com absoluta certeza o que elas significam.
Para nos ajudar a compreender os significados interiores das Escrituras, Bahá'u'lláh explicou-nos que os Manifestantes de Deus e os Apóstolos têm uma linguagem dupla: "É evidente a ti que as Aves do Céu e as pombas da eternidade falam um linguagem dupla". Uma, explica Bahá'u'lláh, é "a linguagem exterior", que é "destituída de alusões, ocultação ou véu". A outra linguagem é "velada e oculta".

Podemos então questionar: Para que servem os simbolismos? Não serão apenas meras figuras de estilo literário? E porque é que o texto sagrado não indica claramente quais são as passagens que devem ser interpretadas simbolicamente e quais devem ser interpretadas literalmente? A resposta a estas questões encontram-se nos próprios Livros Sagrados.

Cristo afirmou que falava em parábolas para que aqueles que têm sensibilidade espiritual e aqueles que procuram a verdade divina possam descobrir o seu significado, e aqueles que não são receptivos ou não procuram conhecimento espiritual não consigam apreciar o significado dos Seus ensinamentos [Mc 4:10-12; Mt 13:13- 16]. Por outro lado, o autor da Epístola aos Hebreus assegura que existe um propósito no modo como a Escritura é apresentada, isto é, mostrar as intenções do coração:
Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração. [Heb 4:12]
Talvez fosse à Palavra de Deus - essa linguagem dupla - que Jesus se referiu quando afirmou: "Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada" [Mt 10:34]. Neste versículo, entendo o termo “espada” como simbolizando algo que corta e separa; não como instrumento de guerra ou agressão (mas isto é apenas uma interpretação pessoal).

Tal como a Bíblia, também as Escrituras Bahá'ís asseguram que Deus utiliza linguagem simbólica e alegórica para testar os Seus servos, e não para os confundir ou impedir de compreender. Deus deu às Escrituras significados ocultos e dotou os seres humanos de capacidade para as compreender.
Além deste objectivo da linguagem simbólica, devemos ter presente outro aspecto: uma decisão de fé baseia-se no exercício da livre vontade do indivíduo. Se todo o texto sagrado tivesse apenas significados literais, isso implicaria a ocorrência de fenómenos tão extraordinários, que todos os seres humanos que os testemunhassem se veriam impedidos de exercer o livre exercício da sua livre vontade.

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NOTA [1] - Bahá'u'lláh, O Livro da Certeza, pag 155.


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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Olhares sobre a Igreja. 2

Na semana passada, na reflexão que aqui fazia, punha em antítese, a presença de uma comunidade religiosa de três carmelitas no meio de uma cidade, e as grandes multidões que participaram no funeral do Papa João Paulo II (reflexão de L. Boff).
Quando vi a reportagem da remodelação do mosteiro, os primeiros pensamentos que me ocorreram, foram de espanto por aqueles carmelitas não se inquietarem com o facto de serem apenas três, e terem a coragem de se lançarem em obras, decerto dispendiosas, e quererem permanecer na sua presença discreta, no meio da cidade. Se os primeiros pensamentos foram de espanto, estes logo deram lugar a uma reflexão mais aprofundada sobre o verdadeiro significado daquela presença tão humilde, até no número. Ocorreram-me então aquelas palavras do evangelho de:

(Mt 5, 13-16)“Vós sois o sal da terra; ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser , lançado fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e alumia a todos os que vivem em casa.”

Segundo estas palavras de Jesus, que vêm na sequência do famoso “sermão da montanha” ou “sermão das Bem-Aventuranças”, os discípulos são comparados ao sal. O sal é garantia de que os alimentos não se estraguem, além de dar-lhes sabor. Com Noé, Deus estabeleceu uma aliança com a humanidade, agora, através de Jesus Cristo, pede aos discípulos que sejam, pela sua fidelidade, os garantes de que essa aliança se mantenha e levem por diante a libertação de todos os homens. Se os cristãos não são fiéis ao plano de Deus, não servem para nada, perdem a razão de ser, tornam-se inúteis.

Na comparação dos discípulos à pequena candeia, símbolo de Deus, luz que alumia as nossas trevas, Jesus pede que sejam, agora eles, a manifestação da glória de Deus.
Passados, perto de dois mil anos, depois destas palavras terem sido proferidas, qual o significado que nós cristãos, seguidores de Jesus, hoje, retiramos? De que modo esta Palavra, é Palavra de salvação para a humanidade?
Da nossa experiência humana, retiramos que o sal, ou a pequena candeia, a que Jesus compara os seus discípulos, não são coisas que se impõem pela sua grandeza mas sim pelas suas características de incorruptibilidade e porque, é nas trevas que se manifesta a luz. Portanto, hoje, tal como há dois mil anos, o que define os verdadeiros discípulos é o seu modo de agir e não a grandiosidade ou pequenez dos números de qualquer estatística ou evento por maior visibilidade que tenham, como por exemplo, o funeral do Papa João Paulo II, ou no caso da igreja de Portugal a quantidade de peregrinos que demandam a Fátima.

A glória de Deus não se manifestará, nunca, pelo encher de praças ou igrejas, pela quantidade de dogmas e pela observância da lei, manifesta-se antes, pelo modo de agir de todos os cristãos, inseridos na comunidade dos homens.
Se formos fiéis ao plano de Deus, então serão para nós, aquelas palavras que aparecem no texto; “não se pode esconder a cidade edificada sobre o monte”. Não será então pela grandiosidade dos números que nos imporemos, mas sim porque as nossas obras falarão por nós.

Maria da Conceição

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