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terra da alegria |
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Segunda-feira, Maio 9
Aprender com BuchenwaldO que é que eu teria feito se vivesse nesse tempo?
Teria ido ver o que acontece em Ettersberg, esse monte a meia dúzia de quilómetros da cidade onde moro? Teria preferido ignorar? Teria reparado no fumo constante a sair da chaminé? Teria dado pão aos prisioneiros esfomeados que via a construir estradas? (mesmo sabendo que dar-lhes pão era um crime, era "abrir uma brecha no sistema"?) Teria tido a coragem de esconder um judeu na minha casa, sem saber quanto tempo duraria o horror? (sabendo que, a ser descoberta, eu e ele teríamos o mesmo destino?) Um amigo alemão comentou que em Weimar lhe acontece uma coisa estranha: sempre que vê velhinhos, automaticamente ocorre-lhe a questão: "e de que lado estavas tu no tempo de Buchenwald? o que fizeste?" Também já tive esse reflexo, agora tenho uma inquietação: já não há nenhum Buchenwald? Já não há aqui pessoas em situação de sofrimento atroz, e que são ignoradas por uma sociedade civil entregue ao seu quotidiano? Dou exemplos: Por toda a Europa há casas de alterne onde jovens mulheres do leste da Europa são obrigadas a trabalhar em situação de escravatura. Respondem a anúncios de emprego, entram num autocarro da empresa "empregadora", ao passar a fronteira da Alemanha ficam sem passaporte, são encerradas durante semanas em quartos sem janela, e sujeitas a todo o tipo de tortura física e psicológica até se deixarem quebrar. Muitas delas são depois enviadas para Espanha e Portugal. É do conhecimento de todos. E então, o que é que eu faria, se vivesse "neste" tempo? É bem mais fácil partir do princípio que isto não me diz respeito e que não posso fazer nada. Em Weimar (por ironia, na saída para Ettersberg) a Caritas tem um centro de apoio a pessoas que pediram asilo político à Alemanha e que ficam a viver naquele prédio enquanto o processo não é decidido. São afegãos, iranianos, iraquianos, ciganos russos e quem que mais calhar. Têm comida, casa, roupa, escola, cuidados médicos, transportes públicos, e até uma pequena "mesada", mas vivem numa terra de ninguém, entre vizinhos que não escolheram e uma perspectiva de futuro muito incerta. Não sendo um campo de concentração, é um local de torturados. E eu, que tão facilmente acuso os velhinhos de Weimar, não quero comprometer-me com estas pessoas que sofrem hoje na minha cidade. Ir conhecê-los, falar com eles, ajudá-los - dá trabalho, exige tempo e entrega contínua. Pois é. Ainda tenho muito que aprender com Buchenwald. Helena Araújo (DOIS DEDOS DE CONVERSA) Dar a quem pedeNos tempos que correm, torna-se frequente ouvir muitas pessoas dizerem que recusam dar esmolas a pedintes. Algumas dizem que preferem contribuir para alguma instituição de caridade, onde sabem que o seu dinheiro será “bem empregue”. Outras afirmam que dar esmolas a pedintes e “arrumadores” os habitua à mendicidade, quando o que eles “precisam é de trabalhar”.
Ainda consigo compreender que estas afirmações partam de pessoas alheias à Igreja. Mas fico muito preocupado quando são cristãos a falar assim – em especial, jovens da minha geração ou mais novos, como tenho ouvido frequentemente. Vivemos numa sociedade que, em nome do relativismo moral, tudo “perdoa” às pessoas – mentiras, vaidades, invejas, traições, falsidades e egoísmos -, mas que não lhes perdoa o facto de não poderem, não souberem ou não quererem produzir riqueza. Na nossa sociedade do consumo e das maravilhas da técnica, alguém que não trabalhe torna-se indigno de compaixão, sendo votado ao mais atroz dos ostracismos. Em relação ao primeiro argumento acima apresentado, o daquelas pessoas que se recusam a dar dinheiro a pedintes por estes alegadamente o gastarem em vícios, devo dizer que me parece extremamente falacioso. Imaginemos um “arrumador” toxicodependente que, ao longo de um dia de mendicidade, recolhe 75 euros (estimativa minha). Dessa quantia, certamente que a maior parte será dispendida na dose diária de droga. Mas um toxicodependente também precisa de comer, e é nisso que devemos pensar quando lhe damos esmola. Estaremos a dar-lhe dinheiro para se alimentar e não para se drogar. Além de que, ao recusarmos-lhe esmola, por mais parca que seja, estaremos a empurrá-lo para a criminalidade. E é nosso dever, enquanto cristãos, tudo fazer no sentido de que um irmão nosso não caia em desespero, pois caso contrário poderemos vir a ser também responsáveis pelas loucuras que ele cometer. Evidentemente que todos os cristãos devem contribuir com donativos para instituições de caridade. Todavia, quantas vezes não será isso uma forma de “alívio de consciência”? Não será isso uma maneira de dizer: “já contribuí com a minha parte e agora que essas instituições os ajudem”? Imagine o caro leitor que, de um momento para o outro, uma catástrofe natural, uma guerra ou uma qualquer perturbação económica e política o atira a si e aos seus para o mais absoluto estado de necessidade. Imagine que tudo o que o hoje possui, o fruto do seu trabalho e das suas poupanças, se perde nessa inesperada e inglória convulsão. Imagine também, caro leitor, que todo o seu mundo se desmorona e que, de um dia para outro, passa a depender da caridade alheia. Como se sentiria o leitor se, erguendo as mãos junto de um camião carregado de ajuda humanitária, o repelissem com pontapés, recusando-lhe auxílio e aconselhando-o a trabalhar para sobreviver? Numa situação dessas, como se sentiria o leitor se lhe visse negada a mais pequena ajuda por parte de outra pessoa? Quero com isto ilustrar que, no mundo incerto e perigoso em que vivemos, todos estamos sujeitos a caírmos um dia na mais abjecta das misérias. Hoje são os “arrumadores” que se encontram nessa triste situação, mas amanhã poderemos ser nós. Devemos por isso pensar duas vezes antes de repelirmos um irmão que passa necessidades, evitando fazer julgamentos morais. Até porque seremos julgados exactamente na medida em que julgarmos os outros. O segundo argumento referido, segundo o qual dar esmolas a pedintes e “arrumadores” os habitua à mendicidade, parece-me igualmente falso. Evidentemente, melhor que lhes dar o peixe, será ensiná-los a pescar; mas um homem com fome consegue pescar? Conseguirá uma pessoa que não tem dinheiro para se alimentar e para se vestir decentemente, regressar ao convívio da sociedade, encontrar emprego e começar a trabalhar? Pode um homem que se encontra no fundo de um escuro poço, envolto nas densas trevas do desespero, construir uma escada para dele sair, se não for nisso ajudado por quem se encontra fora? Além disso, quantas pessoas que se recusam a dar-lhes o peixe os procuram ensinar a pescar? Por ter lavado as mãos, Pôncio Pilatos não foi menos culpado que Caifás. Quando damos esmola a um miserável, estamos a entregar-lhe apenas o que lhe pertence. Todos têm direito a sobreviver de forma digna, independentemente de quererem ou não trabalhar. A dignidade do Homem deve estar acima de qualquer teoria económica, direito à propriedade ou código moral. A economia, o direito e a moral devem ter como fundamento a promoção e defesa da dignidade humana, e não o oposto. Caso contrário, servirão apenas para perpetuar a dominação de uns sobre outros, bem como para defender os privilégios dos primeiros em detrimento dos segundos. Filipe Alves (RESPUBLICA) O Dezembro em que não houve NatalQuando entrei no monte Athos, o primeiro mosteiro onde fiquei foi no Gregoriou. Fui levado por um velho, chamado Kostas. Adoptou-me desde que passei do mundo para o monte da Virgem, como lhe chamam. Ali, a igualdade não vinga e as mulheres não entram, nem virgens nem das outras. Nem fêmeas de qualquer espécie: galinhas, ou mulas não têm entrada. As mulas lá, são machos. É assim há mais de mil anos e os monges que vivem no Athos pretendem manter a tradição, mesmo que isso lhes custe uma menor, ou mesmo extinção, de ajudas comunitárias para restauro dos mosteiros e sketae. Numa lojinha logo à entrada, depois de ter mostrado o Diamoneterion (licença para entrar), comprei pão e azeitonas. Umas azeitonas que só vi à venda na Grécia e na Bulgária. São grandes como abrunhos, pretas e enrugadas como velhas. Também são salgadas. Para acompanhar as azeitonas, comprei pão, branco e gigante. Tudo a conselho do Kostas.
Quando cheguei ao Gregoriou, bebi um raki (aguardente anisada), comi uns lokumi (doces que também são conhecidos por turkish delights, mas que os gregos dizem ser gregos) e bebi um café turco (que os gregos dizem ser grego). É hábito e dá ânimo contra o frio intenso e o cansaço das caminhadas. Lá é tudo a subir por caminhos coleantes, de cabras (bodes, nesta geografia específica, visto serem proibidas as fêmeas), com vista para o mar, o mesmo para onde Egeu arremessou o seu desesperança juntamente com a sua vida, naquele dia em que o seu filho Teseu se esqueceu de arregaçar a vela preta. Assisti às primeiras missas que são longas, mais de duas horas, cheias de incenso e cânticos. Pessoas como eu, não passam da primeira sala: as igrejas estão divididas em três espaços, para ouvintes, catecúmenos e fiéis. À antiga. No refeitório também me punham numa mesa à parte. O anagnosta lia qualquer coisa num grego que eu não compreendo enquanto a comida (às vezes com peixe, mas sempre sem carne) era servida juntamente com o bom vinho do Athos, pisado por pés monásticos. É famosa a qualidade do vinho do Santo Monte. - Por que motivo fico aqui à entrada, longe de toda a gente? - Tipiko - respondiam-me, que quer dizer que é a tradição daquele mosteiro, é assim desde que ali se pôs a pedra angular. O velho Kostas (era assim que ele se referia a si próprio) traduzia-me o que eu não percebia, apontava o que eu não via e aconselhava-me sobre o que eu não vislumbrava. Vai todos os anos peregrinar para o Monte, durante um mês, com pão, bordão, azeitonas e muita reza. Era um homem com uns setenta anos, de barba branca. Tinha sido actor, tinha fugido para a Austrália por ter arreliado a ditadura e tinha voltado. Hoje tinha uma loja de antiguidades em Atenas, e já não pensava muito em Brecht. Um dia lá representou uma coisita, a pedido. Via-se que tinha paixão. Falava uma série de línguas com fluência. Lá fora, no mundo, era Natal. O calendário do Athos é o antigo, sem a correcção do calendário gregoriano. Cristo nascia dez dias mais tarde no Monte Athos. Nessa altura os monges preparavam-se para o jejum e isso não era bom augúrio. Haveria menos refeições. Outro dos mosteiros onde estive foi no de S. Paulo. Lá conheci um rapaz com uns vinte e tal anos que me disse que o Deus dos católicos não era o verdadeiro Deus, era uma mentira. Prosseguiu dizendo mal do papado, e a discussão instalou-se entre outros contendores. Não pode haver dois deuses, um falso e um verdadeiro, isso seria um maniqueísmo; pode sim senhor; não pode não senhor, isso quer dizer que o Deus único não é único. -Para onde vais a seguir? – perguntou-me o rapaz. -Vou para a Macedónia. -A Macedónia é aqui, nós é que somos macedónios, nós é que descendemos de Alexandre. Os outros são eslavos. -Então se não vou para a Macedónia, para onde é que vou? -Não sei, para Skopje. -Skopje é a capital da Macedónia. -A Macedónia é aqui. Donde é que vens? -De Istambul. -De Constantinopla –corrigiu ele. E nessa altura, eu já concordava com tudo. Ele, tinha ido ao Monte para falar com um eremita. Existem três tipos de monges, no Monte: os cenobitas (que vivem nos grandes mosteiros muralhados e segundo regra conjunta), os que vivem nas sketae (que vivem em casas agrupadas como numa pequena aldeia, onde há entreajuda mas não há regra comum) e os eremitas (que vivem isolados em casas modestas ou grutas). O rapaz queria saber se deveria casar-se. O monge, uma espécie de oráculo pítico, aconselhou-o a deixar a rapariga: ela só queria o dinheiro dele. Isto confessou-me o rapaz, como uma alcoviteira teria feito. Nessa noite era preciso acordar para pôr comida num saco de plástico, pois não haveria nada para comer durante o dia. O Kostas acordou-me para ir buscar o que me corresponderia para me encher o bucho, mas a minha preguiça venceu-me. De manhã, quando acordei, tinha um saco com comida à cabeceira, posto pelo velho Kostas e um bilhete. Dizia que iria visitar um eremita seu amigo e que me desejava boa sorte. Quando saí desse mosteiro foi com o rapaz da tarde anterior e com mais outros dois gregos. -Cristóvão Colombo era grego-dizia-me um, que era professor. Eu, concordava com tudo. O mau tempo acabou por fazer das suas e não fui aceite no mosteiro para onde me tinha dirigido. Tive de voltar para trás. Chovia e fazia um frio difícil de suportar. Tinha as botas molhadas. Quando voltei ao mosteiro de S. Paulo lá estava o Kostas. Disse-me logo com grande entusiasmo que eu teria de ir ver o amigo, falar com ele. -Falas francês? -Safo-me. E lá fomos nós, para perto do mosteiro de Dionisiou (onde haveriamos de pernoitar), conhecer o anacoreta, outrora escritor de alguma fama na Grécia, agora eremita no Athos. Subimos um monte até à sua cabana. A vista era esplêndida e o Kostas enquanto admirava a paisagem soltava traques sonoros. Ventava e granizava. O eremita era grande e gordo, nariz tuberculiforme, avermelhado, e a semelhança com a ideia que fazemos do Pai Natal não era só sugestão da época. Sentámo-nos junto ao fogo e ficámos calados. O Kostas abanava o corpo, sibilando umas rezas. Depois falou-se de arte, da sua vida anterior e de livros. Dos seus e dos outros. Fiquei cheio com a conversa calma. Falou-me de Silouane e do seu discípulo Sophrone, teólogos que admirava. Numa das bibliotecas do mosteiro de Simonopetra (o mais dramático dos mosteiros) haveria de encontrar um livro do primeiro autor, em inglês, e li-o duma assentada, acompanhado por lokumis e café turco (que os gregos dizem ser grego). Este café é temperado com cardamomo, vem cheio de borras e tem um cheiro santo. O Kostas era como um guia turístico. Insistiu que era preciso ver os ícones e falar com quem os pinta: lá fomos às oficinas duns monges, aprender a diferença entre período russo e período grego, o que era preciso para pintar, como se fazem as cores. Acabámos a dormir numa skete ali perto. A de Sta. Ana. Lá, numa das casas, estava um louco furioso. Tinha saído da prisão há pouco e tinha ido peregrinar. Foi a primeira vez que conheci um louco furioso, e até o achei muito calmo. Vestia como um pobre, mas vestia bem: um pea jacket (casaco da marinha) com uma camisa de pescador por baixo, de cores alaranjadas. À noite, o Kostas pôs a cama dele a trancar a porta do nosso quartito e sentou-se nela a rezar. Um louco furioso pode fazer muito bem ao espírito: O Kostas passou toda a santa noite com as contas na mão a baloiçar o corpo para trás e para a frente. Passados uns dias era altura de sair do Athos, a minha licença estava a expirar, os não-ortodoxos não podem lá ficar mais do que determinado tempo. Procederam-se às despedidas. Fui para o porto, e percebi que não havia barcos. Estava preso no Monte devido ao mau tempo. Enquanto esperava o barco - que não haveria de aparecer -, conheci Alexandros, monge austríaco. Enquanto comia o resto do pão com azeitonas que tinha comprado no dia em que cheguei ao Monte, o monge falava da sua vida. Tinha vivido numa gruta da Síria durante uns vinte anos. Noutra gruta em Israel tinha vivido uns quinze e agora tinha uma cabana no Monte. Fartava-se de vilipendiar os judeus e gabava-se de falar com os animaizinhos todos, especialmente com uma salamandra. Aquecia-a nas mãos, dizia ele, enquanto conversava com ela. Graças a estas informações esópicas passei a chamá-lo Branca de Neve, que também falava com os bichos. Falei-lhe de mim. Passados uns dias, o tempo estava melhor e foi possível sair do Athos. O Natal no mundo exterior já tinha acontecido, mas no Monte ainda não, por isso, nesse ano, não tive Natal. Atravessei a Macedónia (apesar dos gregos acharem que a Macedónia não é um país), a Albânia, a Bósnia, a Croácia e a Eslovénia. Quando cheguei a Lisboa tinha um embrulho no correio, trazia uma morada do Monte Athos, com um cognome: «Sagrado Monte Athos, aeroporto para o Céu». Era do Alexandros, o Branca de Neve. Como tinha trocado uma ou outra palavra em romeno com um noviço que estava com ele, o monge ficou com a impressão que eu era fluente na língua. Por isso, dentro do embrulho, vinham umas fotocópias, em romeno, embrulhadas numa toalha de mesa com motivos natalícios, do livro que ele tinha escrito. Chamava-se o manuscrito: «A invulgar história da minha vida». Na contracapa, escrito a vermelho, convidava-me para me converter à fé ortodoxa, tornar-me noviço e viver com ele, pois assim poder-me-ia «ajudar a responder às minhas muitas questões sobre a Fé e sobre Deus». Termina com: «apesar do silêncio ser a minha mais amada linguagem, bem como a doce fala dos meus pássaros da floresta». Conheci muitos monges, mas o que me pareceu mais santo, pelo que me foi dado experimentar, foi o velho Kostas, que nunca mais vi e que não era monge. «Não tenho coragem para me dedicar totalmente a Deus», dizia ele, e recusava elogios apontando para os monges do Monte: «Eles é que têm coragem». Eu, por mim, acho que há muitas maneiras de ser intrépido, e o Kostas foi do mais parecido que vi com um santo. Para ser santo é preciso muito mais coragem que para ser monge no Monte Athos. No fundo, é como nesse ano não ter tido Natal. Lá por a festa me ter escapado, não quer dizer que Cristo não tenha nascido. Afonso Cruz (ALERTA AMARELO) Quarta-feira, Maio 4
Cálculo IntegralA Pública deste Domingo, dia 1º de Maio, trazia uns artigos interessantes sobre o trabalho nos dias de hoje. Num desses artigos falava-se de pessoas que tinham optado bruscamente por drásticas interrupções, desvios e transformações das suas carreiras profissionais. Uma dessas pessoas, um engenheiro de 27 anos que parou tudo o que tinha começado para regressar à estaca zero, iniciando um curso de Psicologia, disse uma coisa que me ficou a morder as canelas: disse ser um “calculista que cometeu um erro de cálculo”. Coisa lixada, realmente.
Há gente que se deixa ir pela vida, ao sabor da maré, ao virar do vento. Há gente que fica à espera que aquilo que entende merecer lhe seja entregue, porque eles merecem. Há gente, muita gente, que não descortina sequer muito bem o que pretende da vida, indo atrás de luzes em movimento ou, o que é muito pior, deixando-se ficar onde está por já nada esperar dela. E depois há a gente que pensa meticulosamente naquilo que quer da vida, que mede bem o caminho, que avalia bem o peso da sua bagagem, que avança logo que decide avançar, que doseia o esforço e procura saber onde estão os abrigos. É gente que segue os trilhos mas que sai deles se tem a certeza dum atalho. É gente que prevê, que vigia, que se controla a si mesmo e quer controlar os acontecimentos. É gente que procura descortinar padrões para poder tomar as melhores decisões. É gente que mede as palavras e procura por detrás dos olhares. São os calculistas. O seu prolongado esforço de introspecção torna-os egocêntricos. A confirmação dos seus cálculos torna-os auto-suficientes. A sua auto-suficiência esteriliza-os. Alguns deles, os que tem mais sucesso nos seus cálculos, esses chegam mesmo a quererem tudo. Tudo o que a vida lhes pode dar e tudo o que eles podem dar à vida. Para isso chegam a enxertar de novo em si próprios qualidades que a sua terrível vontade há muito secou. São os que procuram na multiplicação das facetas a fuga ao tédio da previsibilidade. São também os que descobriram as vantagens práticas da humanidade e da simpatia. E se é no seio dos calculistas que são gerados os mais convictos ateus, aquela subespécie pode até descobrir as vantagens que lhe traz a Fé. Estes calculistas são verdadeiramente aqueles que decidem comer da maçã que lhes oferece a bíblica serpente. O orgulho, fonte de todo o mal, é indissociável da sua condição. E Deus, que é Grande, castiga-os. Melhor dizendo: Deus, que é Pai, corrige-os infalivelmente. Sempre. Como? De duas maneiras. A primeira é confundi-los, fazendo-os errar os cálculos. E, realmente, nada é mais pungente do que um calculista que cometeu um erro de cálculo. Mas há ainda aqueles que brincam a desafiar Deus, aqueles que pelo menos em certa altura das suas vidas, sabem que ainda não se enganaram. A esses, Deus, na sua infinita sabedoria, reserva-lhes algo muitíssimo pior do que o desengano: o anti-clímax. Há até quem morra disso, dessa imensa surpresa de se descobrir que tudo o que se conseguiu, tudo o que se obteve dos preciosos cálculos, é tão enormemente insatisfatório, tão absurdamente insuficiente, tão estranhamente sem sentido. Esse anti-clímax, esse vertiginoso vazio, prova magnificamente a transcendência divina. E prova também que, aos olhos Dele, somos todos iguais. Acreditem que sei perfeitamente do que estou a falar. José [GUIA DOS PERPLEXOS] Plans are daydreaming and this is an absolute measure of a manAs primeiras páginas da Bíblia descrevem a abundância exuberante do mundo criado, afirmando que tudo aquilo de que o homem pode ter necessidade lhe foi concedido, a fim de que possa levar uma vida digna de uma criatura feita à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26). Por conseguinte, não é possível que, no mundo, milhões de pessoas vivam subalimentadas ou sofram de fome. A terra é capaz de lhes oferecer o necessário e, portanto, a causa da escassez dos alimentos deve ser procurada noutra parte.
No Livro do Génesis, Deus entrega a criação nas mãos do homem (cf. 1, 26 e 28); portanto, é nesta direcção que devemos olhar, se quisermos compreender as desordens actuais. Veio a faltar uma gestão equitativa dos bens da criação, com uma evidente desigualdade na partilha dos recursos. Não. Não sou eu que fui o autor dos parágrafos antecedentes. Também não foi Leonardo Boff ou Frei Betto. Foi o Papa João Paulo II em 3 de Novembro de 2001. É certo que foi uma frase proferida no domingo passado pelo Santo Padre Bento XVI que me fez recordar estes parágrafos. Disse Bento XVI: "as condições laborais devem ser cada vez mais respeitadoras da dignidade humana". E só é possível que as condições laborais sejam mundialmente respeitadoras da dignidade humana se existir uma redistribuição de recursos ao nível mundial. Existe uma alternativa económica cristã ao modelo actual de globalização. Uma globalização que não se faça à custa das pessoas pobres (dos países ricos, pelo efeito da deslocalização, e dos países pobres, por efeito da sobre-exploração). Uma globalização que não resulte em favor das classes possidentes e dos exércitos (dos países ricos e dos países pobres). É possível uma globalização mundialmente regulada que permita a transferência de recursos das grandes riquezas mundiais de modo a que, em todo o mundo, existam os recursos necessários que permitam que as condições laborais sejam, em todo o mundo, respeitadoras da dignidade humana. Como escreveu São José Maria Escrivá: "Um homem ou uma sociedade que não reaja diante das tribulações ou das injustiças e se não esforce por as aliviar, não é um homem ou uma sociedade à medida do amor do Coração de Cristo." (Cristo que passa, 167) Timshel [TIMSHEL] Bento XVI, uma hipóteseTese: "A partir de um ou vários pressupostos, é possível construir um mundo dogmático (como é o caso do mundo neo-liberal ou do mundo marxista), de uma grande beleza e coerência. Neste tipo de mundos, existem respostas peremptórias para tudo e tudo é de uma solidez magnífica, recheada de detalhes que contribuem para a imponência do edífico. Mas o cristianismo não é só lógica. O cristianismo tem subjacente a lógica do amor. E essa é incompatível com a lógica das inumeráveis grandes, pequenas e pequeninas certezas absolutas." [Timshel]
Antítese: "Aos nossos ouvidos, o sopro era outro - e, creio, aos ouvidos não apenas de católicos ditos progressistas, mas a ouvidos mais "conservadores" de pessoas simples, que prefeririam eventualmente um Papa menos frio, mais próximo das pessoas - como foi o bom João XXIII ou o afectuoso João Paulo II." [Miguel] Síntese: "Receber o Espírito Santo não significa, portanto, ser objecto de um contecimento mágico, pelo contrário: trata-se da abertura interior à mensagem e, portanto, a Deus e ao seu Cristo crucificado, permitindo assim que o Espírito de Deus e de Cristo Jesus se apodere de nós. Crer no espírito Santo, no Espírito de Deus e de Cristo Jesus, implica crer no Espírito da liberdade. Porque, como diz Paulo, “onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2 Cor 3, 17): liberdade de culpa, da lei e da morte; liberdade na Igreja e no mundo; liberdade para agir, para amar, para viver com paz, justiça, alegria, esperança e gratidão. E isto, apesar de todos os obstáculos e coacções existentes na Igreja e na sociedade, apesar de todas as deficiências e fracassos. No entanto, sei que nesta liberdade do Espírito posso encontrar sempre valor, apoio, força e consolo, tal como foram encontrados por inúmeros anónimos nas suas grandes e pequenas decisões, medos, perigos, ânsias e esperanças." [Hans Kung, por Rui Almeida] Hipótese: podemos baralhar estes três excertos - ou os textos completos de onde eles vêm, publicados aqui na semana passada - dando-lhes outra ordem (outra tese, outra antítese, outra síntese, não se ofendam os meus confrades), para perceber que os caminhos da Igreja de Cristo, nos dias de hoje, nos dias de Bento XVI, compõem-se de múltiplas possibilidades. Mas, afinal, os caminhos desta Igreja sempre foram assim: portas que se abrem com cuidado, outras que se fecham com estrondo. Mas, sempre o disse, em especial a amigos meus não-crentes: é-me fácil apresentar-me como um católico "liberal" ou "progressista" ou "não-conservador", conforme gostos e públicos, mas mais difícil é ser Igreja também nesta Igreja. Daí o grito simples enunciado no nome do Movimento Nós Somos Igreja... Podíamos acrescentar (como fiz, num comentário à eleição de Bento XVI) nós também somos Igreja. E, por entre as brumas das dúvidas, podemos afirmar que ao também ser Igreja nesta Igreja estamos afinal a assumir a possibilidade de com todos construir um outro mundo melhor. E desta vez, sublinho-o, o todos é inclusivo dos meus irmãos cristãos, católicos, apostólicos, romanos. Miguel Marujo [CIBERTÚLIA] Segunda-feira, Maio 2
O futuro da Igreja 2Dois dias antes da eleição de Bento XVI escrevi aqui sobre o futuro da comunidade crente. Não para fazer futurologia mas simplesmente para partilhar os meus anseios e preocupações sobre o Papa que então ia a votos e o que a sua eleição implica. Meio a brincar meio a sério, disse que a eleição do Cardeal Joseph Ratzinger seria um "cenário pouco católico". Por algum motivo, no domingo depois da eleição, Frei Bento Domingues formulou exactamente o pedido de que o novo Papa fosse católico – preocupado com a totalidade da humanidade, capaz de fazer a síntese entre unidade e diversidade, líder de uma Igreja que se pensa a partir dos homens e mulheres dos nossos dias, a partir das suas "alegrias e esperanças, angústias e tristezas ".
No seu texto de ontem Frei Bento adverte contra os riscos de fazer cenários em matéria de religião, já que as mutações demográficas por si só podem trazer mudanças imprevistas. Então sem futurologias, deixo apenas três comentários, agora que a poeira (ou o fumo) da eleição começa a assentar. A primeira coisa que queria dizer foi bem formulada pelo próprio Frei Bento e tem a ver com os comentários feitos sobre a (des)intervenção do Espírito Santo no Conclave: «O Espírito Santo não foi fechado à chave para a eleição do Papa nem assinou a acta da eleição. No entanto, acolhido ou rejeitado, o Espírito Santo – com o Pai e o Filho – é para a fé católica o habitante mais cosmopolita e bem disfarçado. Seria muito estranho – embora sem substituir as suas qualidades e os seus defeitos – que Ele se tivesse mantido alheio às tarefas dos cardeais eleitores que invocaram a sua divina assistência! Essa confiança que os católicos depositam no voto dos cardeais não serve para nos alhearmos dos tempos que virão. Nem nos impede de dizer que não concordamos por isto ou por aquilo. É também isso que Bento Domingues diz de seguida: «Parece-me fundamental que os cató1icos não abandonem o espírito crítico nem se furtem a colaborar generosamente com Bento XVI para que a Igreja cató1ica seja a pátria de todos os que são movidos pelo Espírito do Ressuscitado (...)".» A segunda coisa que queria dizer e que já foi dita noutras alturas é que a Igreja é muito mais que o Papa. De novo Frei Bento, no texto de ontem: «Diante de tanta propaganda tonta em torno de Bento XVI e dos medos projectados do passado para o futuro, importa não esgotar a esperança cristã com a autoridade de humanos eleitos por seres humanos, segundo regras e processos estabelecidos por alguns deles. Seria cair no pecado da idolatria.» Eu defendi abertamente um perfil diferente para o novo Papa, sabendo o reduzido valor da minha opinião. E se subscrevo inteiramente o voto de D. Manuel Martins de que "agora que foi eleito Papa, tenho esperança que morra o cardeal para aparecer em pleno o Bento XVI", não o digo com a ingenuidade de quem espera um corte entre a mundividência do Perfeito e do novo bispo de Roma. O mesmo homem estará a ocupar um lugar diferente. Dou-lhe o benefício da dúvida: não espero dele apenas mais do mesmo. No meu último texto dei voz ao P.e Anselmo Borges e ao seu pedido de convocação de um novo concílio ecuménico, que devolvesse a autonomia às comunidades locais e que impulsionasse um "Parlamento das Religiões". As perspectivas actuais parecem distantes desse cenário. Não foi um João XXIV que saiu do conclave. Foi Bento XVI – o ilustre cardeal e teólogo brilhante, o sábio enciclopédico de dois mil anos de teologia e história, o académico tímido sem o charme do seu antecessor. A falta de charme só me agrada. Como já disse, a Igreja não é só o Papa, nem deveria ser tanto o Papa. Mas para perceber melhor este homem que está agora à frente da Igreja vale a pena ler o artigo de George Weigel, biógrafo de João Paulo II, onde é traçado o seu perfil a partir dos dois Bentos que o inspiraram: o Papa Bento XV e o próprio São Bento. O monasticismo ocidental fundado por este último permitiu que o fim da civilização clássica não significasse a perda da cultura clássica mas a sua transformação. Foi a fusão de Jerusalém, Atenas e Roma que permitiu uma nova realização civilizacional a que hoje chamamos de "Ocidente". De facto, quando olhamos para as civilizações perdidas do passado, podemos estar gratos: a cultura clássica podia ter tido o destino dos Maias. O novo Papa tem uma preocupação clara de que o Ocidente possa voltar a passar por um período de trevas: «Num tempo em que a falta de vontade e o relativismo conduziram a um clima cultural frígido e sem alegria, escreveu MacIntyre, o mundo não está à espera de Godot, mas de outro – e sem dúvida muito diferente – S. Bento. O mundo tem agora um novo Bento. Podemos ter a certeza que ele nos desafiará a todos para a nobre aventura humana para a qual não há melhor nome do que santidade.» Não tenho dúvidas que Bento XVI nos desafiará para essa aventura da santidade. Porém, encontrar novas formas de dizer Deus implica que a própria Igreja tenha a coragem de mudar o que a impede de se mostrar mais fielmente como a face do Ressuscitado aos homens e mulheres de hoje. E aí os prognósticos são menos animadores, como já disse acima. Timothy Garton Ash usa palavras duras: «Os ateus devem saudar a eleição do Papa Bento XVI [e de facto fizeram-no]. Porque este teólogo da Baviera idoso, académico, conservador, sem carisma, de certeza que apressará precisamente a descristianização da Europa que procura contrariar. No termo do seu papado, a Europa pode outra vez ser tão não-cristã como era quando São Bento fundou a sua pioneira ordem monástica, os beneditinos, há quinze séculos. Europa Cristã: de Bento a Bento. R.I.P. – descansa em paz. A Europa é hoje o mais secular dos continentes. O fenómeno do último Papa disfarçou a tendência.» Paradoxalmente, este prognóstico que assusta muitos católicos vai precisamente no sentido de um texto do próprio Joseph Ratzinger, datado de 1971, escrito ainda antes da sua nomeação para bispo. É dum livro editado pela Vozes chamado "Fé e Futuro": «Da crise actual, uma Igreja emergirá amanhã que terá perdido muito. Será uma Igreja pequena e terá de começar do início. Já não será capaz de encher muitos edifícios construídos nos seus tempos áureos. Ao contrário do que aconteceu até hoje, ela apresentar-se-á muito mais como uma comunidade de voluntários. Como pequena comunidade, ela exigirá muito mais a iniciativa de cada um dos seus membros e certamente reconhecerá novas formas de ministério e criará cristãos com uma formação sólida que serão chamados à presidência da comunidade. O normal cuidado das almas estará a cargo de pequenas comunidades em grupos sociais com alguma afinidade. Isto será atingido com esforço e exigirá muito empenho. Tornará a Igreja pobre e numa Igreja dos pobres e humildes. Tudo isto exigirá tempo. Será um processo lento e doloroso.» É um texto próximo de um outro, mais belo e optimista, de Karl Rahner, que uma vez citei. Coincidem ambos com Garton Ash nesse aspecto: voltaremos a ser uma Igreja pequena, desafiada a ser profética num mundo cada vez mais complexo, dinâmico e secularizado. Junto-me a Bento XVI no grito de João Paulo II: não devemos ter medo! Uma nota final para dar os parabéns à Terra da Alegria e sobretudo aos seus fundadores! Também os blogs são um local interessante de discussão e vivência da fé e sobretudo de diálogo. Ad moltos annos! Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS) Quarta-feira, Abril 27
O Livro da SelvaLet´s start a catholic blog!
Cleared of beatific literature! We want something red blooded, loud and pure, reeking with stark and fearlessly obstinate but really clean. Get what we mean? And let´s not spoil it. Let´s make it serious, something authentic but delirious. You know, something genuine, like tears in a shrine. Graced with guts and gutted with Grace! Squeeze your thoughts and open your faith! (adaptado de e.e. cummings aqui por este vosso amigo) Quando há um ano e picos andávamos a pensar naquilo que iria ser a Terra da Alegria, encontrei num livro da editora Cavalo de Ferro uma adaptação de um poema de e.e.cummings sobre a “publishing house” que aqueles editores quiseram, e muito bem, fazer. Numa súbita inspiração fiz eu também a minha adaptação desse poema aplicado àquilo que eu, o Carlos, o Fernando, o Rui, o Tim e o Miguel queríamos fazer da Terra da Alegria: um blogue católico e não beato, turbulento mas limpinho, heterodoxo mas não relativista, sério mas aberto ao delírio, e acima de tudo, genuíno e autêntico. Um pouco mais tarde, surgiu a excelente ideia de abrirmos a participação a outros bloggers, católicos e não católicos, crentes e não crentes, mas nos quais reconhecíamos qualidades que rareiam tanto mais quanto são necessárias: honestidade intelectual, espírito aberto, atenção pelo outro. E foi assim que se criou a edição que é de 2ª feira mas de 1ª qualidade, com o Lutz, o Zé Filipe, o Marco, o Vítor Vicente, o Afonso Cruz, a Marvi, o Porfírio, o Bernardo Motta, a Milene Fernandes, o Zé Maria Brito e outros ainda, mais ocasionais. Ao fim dum ano, de 88 edições, de mais de 300 artigos, não faço a mínima ideia de qual seja a projecção que a Terra da Alegria alcançou na blogosfera. Nem ela me interessa sequer, até porque suspeito que não seja muita. Não, ao fim deste tempo todo, aquilo que me deu e dá verdadeiramente gozo é a Terra ter sido sempre um espaço de liberdade espiritual, de originalidade literária, de unidade e diversidade, de amizade e divertimento. Nunca nos tomámos excessivamente a sério e penso que também nunca ninguém nos tomou... Mas em todo o caso penso que o programa inicial foi cumprido e renovo hoje para mim e os meus colegas aquelas palavras: graced with guts and gutted with Grace, squeeze your thoughts and open your faith! E agora que termino esta epístola congratulatória, justo é referir aqui a inspiração que fez começar: os Animais Evangélicos do Tiago Cavaco y sus muchachos. Bom seria que eles voltassem... José [GUIA DOS PERPLEXOS] Os porcos satisfeitosCamus nos "Cadernos" cita Stuart Mill: "Mais vale ser Sócrates descontente do que um porco satisfeito".
No seu primeiro discurso após ter sido eleito Papa, Bento XVI afirmou que: "dirijo-me a todos, mesmo aos que seguem outras religiões ou que simplesmente procuram uma resposta às perguntas fundamentais da existência e ainda não a encontraram. A todos me dirijo com simplicidade e afecto, para assegurar que a Igreja quer continuar a tecer com eles um diálogo aberto e sincero, à procura do verdadeiro bem do homem e da sociedade." Será possível prosseguir um diálogo aberto, sincero e profícuo se estivermos cheios de milhares de certezas absolutas? Uma mundivisão cheia de certezas, certezas grandes, pequenas e pequeninas, cheia de respostas peremptórias para todas as questões, é um bom terreno para o diálogo? E as perguntas cuja complexidade exige uma resposta caso a caso em que a consciência de cada um, obedecendo a princípios sólidos, deveria escutar sobretudo a voz de Deus com vista a estabelecer o equilíbrio e a proporcionalidade entre valores conflituantes? Milhares de grandes e pequenas certezas, sérias, solenes e graves correspondem a uma mundivisão totalitária na qual não há espaço para o diálogo, uma mundivisão totalitária, sectária, na qual existe tanto amor como aquele que existia quando se queimavam vivos os nossos irmãos em Cristo. Em nome da luta contra o pecado. A ditadura do fundamentalismo é tão perigosa como a ditadura do relativismo. O espaço da Fé é também um espaço de dúvidas. Só não tem dúvidas quem tem uma fé absoluta nos apetites e nos interesses do seu eu. Apenas esse tipo de fé é compatível nas pessoas com absoluta ausência de dúvidas. E as dúvidas não existem neste tipo de pessoas porque elas têm uma bússola de uma precisão admirável que aponta sempre para o seu ego. Estão sempre satisfeitos pois nunca têm dúvidas. O único mandamento que Cristo nos deixou foi o mandamento do Amor ("O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros como eu vos amei", Jo 15 12)". Ele só nos deu este mandamento. É apenas a esta ordem que devemos obedecer. Basta-nos essa certeza transcendental, fundamental e axiomática porque de origem divina. E mais algumas (poucas) certezas que decorrem dessa. Depois, é só agir em conformidade: amar, dialogar e partilhar. A partir de um ou vários pressupostos, é possível construir um mundo dogmático (como é o caso do mundo neo-liberal ou do mundo marxista), de uma grande beleza e coerência. Neste tipo de mundos, existem respostas peremptórias para tudo e tudo é de uma solidez magnífica, recheada de detalhes que contribuem para a imponência do edífico. Mas o cristianismo não é só lógica. O cristianismo tem subjacente a lógica do amor. E essa é incompatível com a lógica das inumeráveis grandes, pequenas e pequeninas certezas absolutas. É difícil o equilíbrio entre as certezas e as dúvidas? É. Cada um tem que procurar esse equilíbrio. A incapacidade de aceitar dúvidas e a necessidade de viver num mundo cheio de certezas corresponde com frequência a uma personalidade imatura e perturbada. Os mais fragilizados têm direito a viver num mundo de certezas, muitas e inflexíveis. Os outros têm o dever de procurar escutar a voz de Deus. E a Igreja Católica, normalmente, é um excelente meio de transmissão desta voz, embora por vezes seja necessário estar com atenção para que um certo ruído ou um certo número de interferências não afectem a escuta. E o principal ruído que me parece poder afectá-la nos tempos actuais é não perceber que o homem precisa de valores e precisa de amor. E que este equilíbrio se alcança com bom-senso e sentido da proporcionalidade e não com fundamentalismos desproporcionados. Timshel [TIMSHEL] Que significa crer no Espírito Santo, no Espírito de Deus?A propósito do conclave, muitos trouxeram à baila a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Disseram-se muitos disparates, sobretudo para tentar pôr a ridículo uma realidade que é para nós cristãos fundamento indispensável para a consolidação da nossa Fé, bem como orientadora de toda a nossa acção. Lembrei-me, por isso, de traduzir (a partir da edição espanhola das Ediciones Cristandad) um pequeno excerto da obra "¿Existe Dios?" ("Existiert Gott?" no original, datado de 1978) do teólogo Hans Kung:
«Que significa para o homem de hoje crer no Espírito Santo, no Espírito de Deus? Significa aceitar com simplicidade e confiança que, pela fé, Deus se pode fazer presente no meu interior, que, enquanto força e poder de graça, pode conquistar o meu interior, o meu coração, o meu próprio eu. E esta fé permite-me afirmar confiadamente que o Espírito de Deus não é um espírito escravizante: é o Espírito de Cristo Jesus exaltado à direita de Deus, o Espírito de Jesus Cristo. E porque é exaltado à direita de Deus, Jesus é pelo Espírito, o Senhor vivente, o Determinante para a comunidade eclesial e para cada cristão. Partindo deste critério concreto eu posso examinar e discernir os espíritos: nenhuma hierarquia, nenhuma teologia e nenhum movimento entusiasta que pretenda apelar ao “Espírito Santo” prescindindo de Jesus, da sua palavra, comportamento e destino pode alegar a seu favor o Espírito de Cristo Jesus. Nesse momento chega ao seu limite toda a obediência, todo o assentimento e toda a cooperação. Deste modo, então, crer no Espírito Santo, no Espírito de Cristo Jesus, significa saber que o Espírito Santo nunca é – e isto tem que se ter hoje muito em conta, dados os múltiplos movimentos carismáticos e pneumáticos – uma possibilidade do homem, mas sempre força, poder e dom de Deus. Não é o espírito profano do homem, das épocas, da Igreja, do ministério, do entusiasmo; é sempre o Espírito santo de Deus, que sopra onde quer e quando quer, que não se deixa instrumentalizar para justificar uma autoridade absoluta de magistério e governo, uma teologia dogmática carente de fundamento, um fanatismo piedoso ou uma falsa segurança na fé. Ninguém – seja bispo, professor, padre ou secular – “possui” o Espírito. Mas todos o podem pedir em qualquer altura (…) Receber o Espírito Santo não significa, portanto, ser objecto de um acontecimento mágico, pelo contrário: trata-se da abertura interior à mensagem e, portanto, a Deus e ao seu Cristo crucificado, permitindo assim que o Espírito de Deus e de Cristo Jesus se apodere de nós. Crer no espírito Santo, no Espírito de Deus e de Cristo Jesus, implica crer no Espírito da liberdade. Porque, como diz Paulo, “onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2 Cor 3, 17): liberdade de culpa, da lei e da morte; liberdade na Igreja e no mundo; liberdade para agir, para amar, para viver com paz, justiça, alegria, esperança e gratidão. E isto, apesar de todos os obstáculos e coacções existentes na Igreja e na sociedade, apesar de todas as deficiências e fracassos. No entanto, sei que nesta liberdade do Espírito posso encontrar sempre valor, apoio, força e consolo, tal como foram encontrados por inúmeros anónimos nas suas grandes e pequenas decisões, medos, perigos, ânsias e esperanças. O Espírito da liberdade é, pois, o Espírito do futuro que me orienta a mim e orienta todos os homens para diante, não a um porvir consolador, mas a um presente comprometido no mundo de cada dia até que chegue a consumação final, da qual, pelo Espírito, já temos uma garantia (2 Cor 1, 22). Porque é neste Espírito que ponho a minha confiança, posso fundadamente – com respeito pela Igreja – não crer na Igreja, mas sim no Espírito de Deus e de Cristo Jesus dentro desta Igreja de homens: posso crer que existe a Igreja (credo sancta ecclesiam). E, porque fundo a minha confiança neste Espírito, posso dizer serenamente: creio no Espírito Santo.» Rui Almeida [POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA] Louvor de pouca alegriaA esperança anima a fé. Ou a fé anima a esperança. Por estes dias, não sei o que me anima. Há frases, há gestos, há entrelinhas que nos querem dizer que o Papa Bento XVI enterrou Joseph Ratzinger. Eu próprio desejo acreditar...
Mas há coisas que não se esquecem - e, por entre a ambiguidade do percurso do prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, sobra a perplexidade de se apostar num homem que claramente criou obstáculos ao diálogo. Mais (pode parecer um detalhe, mas não é): os ateus, no seu diário bloguístico, gritaram mesmo "Vitória!" - e, quase que se podia rematar como no conto infantil, "vitória, vitória, acabou-se a história". Outro aspecto: há quem relate que a solução cardinalícia de Ratzinger foi para evitar uma aposta ainda mais conservadora. Por enquanto, é prematuro fazer essa leitura (faltará mais um pouco para se conhecerem os segredos do conclave), mas a ser assim seria um sinal de total surdez do Espírito Santo. Aos nossos ouvidos, o sopro era outro - e, creio, aos ouvidos não apenas de católicos ditos progressistas, mas a ouvidos mais "conservadores" de pessoas simples, que prefeririam eventualmente um Papa menos frio, mais próximo das pessoas - como foi o bom João XXIII ou o afectuoso João Paulo II. Exagero no meu cepticismo, podem criticar-me. Mas ter-me-á dado esperanças para pensar de modo diferente o cardeal Ratzinger? Não. Agora é diferente, voltam a repisar-me: sim, Bento XVI terá de fazer a síntese, quando antes pisava apenas os terrenos da tese ou da antítese. Mas, no momento certo, Bento XVI vencerá o Ratzinger que fechou portas ou acolherá o Ratzinger que dialogou com Jurgen Habermas? E eu? E nós? Quem queremos acolher? Quem ouviremos? A dúvida instalou-se, por culpa do Espírito Santo. Miguel Marujo [CIBERTÚLIA] Quarta-feira, Abril 20
Deus cuidaHá um provérbio chinês que diz que quando alguém aponta para a Lua, os sábios prestam atenção ao astro celeste e os néscios embasbacam-se com o dedo de quem aponta.
É o que me ocorre no contexto destes dias em que, sucessivamente, milhões se angustiaram com a saúde do Papa e depois com a sua morte e agora se agitam na expectativa de saber quem vai ser o seu sucessor. Lado a lado ou misturadas surgem em cena as profecias de Malaquias e de Nostradamus e as análises político-estratégicas, as explicações teológicas e o perfil dos cardeais, as antecipações e os disparates, as certezas absolutas e as anedotas, as apostas e as exigências, o protesto pelo exagero noticioso e o protesto contra esse protesto... Por cá, a avaliar pelo número de padres a comentar e a explicar, ficámos a perceber que a crise das vocações afinal não é tão grave. Entre televisões, jornais, internet e conversas de café vai-se dizendo tudo. Inevitável na era da comunicação, dirão alguns. Sim, talvez seja. Mas para nós, cristãos, católicos, que reconhecemos na figura do Papa, aquele que torna visível a nossa unidade em Jesus Cristo, torna-se perigoso embarcar (ainda que pelos “melhores” motivos) neste mediatismo desarvorado. Por muito que amemos o Papa, o fundamento da nossa Fé está em Jesus Cristo e será para Ele que deveremos orientar a nossa atenção, a fim de podermos concretizar na nossa vida o testemunho de caridade e justiça que d'Ele vem. Parece-me, no entanto, que algum benefício poderá vir dessa explosão de exigências, manifestações e desejos, como seja o facto de se darem a conhecer muitas das sensibilidades de dentro da Igreja e também o de nos apercebermos as diferentes visões que têm de nós a partir “de fora”. Disso o novo Papa, seja ele quem for, terá que ter consciência e, ao mesmo tempo, zelar para que não se percam os fundamentos da Fé que é a de todos nós e que ele terá que servir acima de tudo, independentemente do seu carácter, ideias ou convicções pessoais. Assim Deus o ajude e ilumine. Rui Almeida [POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA.] Ser cristão é estar sempre do lado dos mais fracosFazei tudo por Amor. - Assim não há coisas pequenas: tudo é grande.
"Caminho", São José Maria Escrivá, ponto 813 Embora tenha rezado afim de que o Espírito Santo iluminasse a escolha dos cardeais, o Espírito Santo não poderia falhar. E não falhou. Não acredito muito na tese de que existem dentro da Igreja Católica correntes progressistas e correntes conservadoras. Por uma razão simples. O único mandamento que Cristo nos deixou foi o mandamento do Amor. A título de exemplo, um dos cardeais, Dionigi Tettamanzi, dos quais se dizia ser um poderoso "papabile" pois seria o mais conotado com uma organização supostamente de direita, o "Opus Dei" é também aquele cardeal que em 2001, durante a cimeira do G-8, em Génova, defendeu os protestos anti-globalização e tem produzido discursos de grande radicalismo em defesa dos pobres e dos marginalizados (aliás, para quem ache que a Opus Dei tem de ser de direita chamo, de novo a título de exemplo, a atenção para a ministra socialista Ruth Kelly do governo de Tony Blair). Quando se fala em luta contra a globalização não se está obviamente a dizer que se devem manter proteccionismos imorais que apenas servem para continuar a manter a pobreza no mundo. Fala-se em luta contra a globalização selvagem. A globalização selvagem é a actual globalização sem regras fiscais, sociais e ambientais. A actual globalização selvagem não permite regras que levem a cabo uma redistribuição dos mais ricos do mundo (estejam essas pessoas no ocidente ou no oriente) para os mais pobres do mundo (estejam essas pessoas no ocidente ou no oriente). Os países mais pobres do mundo não se podem permitir "luxos" de leis de protecção social ou com elevados salários mínimos quando têm gente a morrer à fome. Tal só será possível se existirem recursos financeiros, transferidos das grandes fortunas mundiais, que permitam garantir estes direitos aos mais pobres do mundo. Do mesmo modo, a actual globalização selvagem não permite regras que levem a cabo uma idêntica protecção ambiental nos países mais ricos do mundo e nos países mais pobres do mundo. Porque os países mais pobres do mundo não se podem permitir "luxos" ambientais quando têm gente na miséria. De novo, tal só será possível se existirem recursos financeiros, transferidos das grandes fortunas mundiais, que permitam garantir estes direitos aos mais pobres do mundo. Mas, com políticas fiscais uniformes e fortemente progressivas em todo o mundo seria possível proteger os mais fragilizados e pobres do mundo (no ocidente ou no oriente) sem que isso fosse feito à custa dos mais pobres do ocidente (ou do oriente) ou à custa do ambiente. Seriam efectivamente os ricos do mundo (estejam eles a viver nos EUA ou em Angola) a pagar a crise. Enquanto não for conseguida esta desejável uniformização, o capital mundial vai andar a farejar as zonas mais desregulamentadas do mundo. O processo não é novo. Na revolução industrial, antes de serem impostas políticas igualitárias e de segurança social, o capital também se aproveitava da falta de regulamentação uniforme para impôr horários de trabalho de 14 e 16 horas por dia. Exige-se, em termos de política mundial, políticas equivalentes às políticas nacionais levadas a cabo pela social-democracia há umas dezenas de anos atrás. No campo dos valores morais, a defesa de impostos elevados sobre as grandes riquezas mundiais afim de que seja possível combater a pobreza no mundo ou a luta contra o aborto são simplesmente duas facetas desta "ideologia" que é o amor. O amor é algo mais, de muito mais, que uma simples ideologia. Ele é um mandamento de ordem pessoal. É algo que tem que ser vivido quotidianamente, segundo a segundo, na vida de cada cristão. Mas o homem é um ser social. A um cristão, tal como a qualquer cidadão, não é indiferente a forma como a sociedade e o estado se organizam pois estes representam o homem a agir em comunidade. E nessa comunidade existem pobres e fragilizados. E um cristão deve colocar como objectivo primordial, da sua acção individual mas também da sua acção em comunidade, os mais fracos e os mais desprotegidos. É por isso que o combate à pobreza ou a luta contra o aborto são apenas duas facetas ("ideológicas") do amor. E, em Portugal, a luta contra o aborto vai estar de novo na ordem do dia graças àqueles que não compreendem que a dignidade humana é para ser respeitada na sua integralidade, nomeadamente na sua dimensão socio-económica, mas não se limita àqueles que têm completa autonomia. Diria mesmo que, pelo contrário, aqueles que têm mais capacidade têm o dever de estar atentos aos menos capazes. É sempre o mesmo velho princípio comunista: "de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades". Aplicado no contexto da legalização do aborto é evidente que este princípio ordena que os que têm possibilidade de matar os mais fracos, em vez de os matarem, os ajudem a sobreviver. É que, como dizia anteontem o actual Papa: "Estamos a avançar para uma ditadura de relativismo que não reconhece nada como certo e que tem como objectivo central o próprio ego e os próprios desejos". Timshel [TIMSHEL] O Papãoi) Talvez ofendido pelas orações dos católicos que lhe pediam o que é seu dever de ofício, o Espírito Santo iluminou os corações e a razão dos cardeais eleitores do Papa com uma luz antiga. Enquanto muitos esperavam uma moderna luz de presença, daquelas que se colocam no quarto das crianças para as iludir e afugentar os papões, eis que o conclave tira da cartola o coelho mais temido pelos católicos e mais esperado pelos apostadores e pelos que odeiam a Igreja: Joseph Ratzinger. No fundo, toda a gente está satisfeita. Os católicos porque têm Papa, outros porque ganharam a aposta e outros ainda porque não têm que se esforçar muito para implicar com o seu bombo da festa preferido. E, depois de um hiato de 17 dias, o mundo volta a ter alguém infalível.
ii) São prematuras as críticas ao novo Papa Bento XVI. Muitos dizem que a Igreja escolheu um Papa conservador, retrógrado e avesso à modernidade, ao capitalismo e ao relativismo. Ainda que todos estes piropos se venham a reconhecer como verdadeiros (o que só abonava em seu favor), são atirados precocemente. O homem ainda não tem um dia de pontificado e já é elogiado desta maneira! Não me parece justo. Se há cargo que mereça o estado de Graça, este é um deles. iii) Viva o Papa! (vocês sabem do que eu estou a falar) Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA] Segunda-feira, Abril 18
A Noite que RiComo se de uma falha imperdoável no cadastro se tratasse, diziam-me: «Tens de ler o Nuno Bragança pá». Eu limitava-me a contorcer o rosto no esgar de quem pergunta porquê. «O tipo escreveu sobre a noite de Lisboa, os bêbedos, as pegas, os jogadores, todos os marginais que povoavam as zonas subterrâneas da cidade. Um dos livros, só para teres uma ideia, descreve uma directa ─ aliás, chama-se Directa.» A esta campanha de marketing não oficial, devo assumir, eu caí que nem o patinho que ouve um cisne contar (ou cantar) como passou de pato feio para cisne esbelto. «Mas o Nuno Bragança já morreu, certo?» perguntava eu, que sempre cultivei um interesse mórbido e masoquista em saber como morreram os posterizados com que me identifico/am. «Claro! De tanto beber deu-lhe o badagaio». Aqui eu, hiper hipocondríaco, gelei, lembrando-me das grades de cerveja e espirituosos-com-gelo-se-faz-favor que meti goela dentro pela vida fora. Para dizer a verdade, eu já esperava que fosse esta a morte deste artista e que sabê-lo iria convocar um mal-estar infernal (percebem agora porque invoquei o ismo forjado a partir do Masoch?!). «Queres um conselho?» insistiam «Começa por A Noite e o Riso. É um clássico do princípio dos anos 70». «Parece-me ser um escritor com muitas pontas por onde se pegar» rematava eu, entusiasmado do pénis à cabeça.
Sob o (mau) disfarce de Henry Killer, rabisquei no meu muro de lamentações, que é como quem diz no meu primeiro blog, qualquer coisa como «o mercado livresco português é parco de guiões de cinema». A Bebiana, sempre solícita a escoar-me lágrimas, baba e ranho, mas também a acompanhar-me em afogar lágrimas na cervejola, numa só maleta, trouxe-me Hiroshima Meu Amor e Índia Song da Marguerite Duras. Como quem não quer parecer querer a coisa, entre o toma-lá-dá-cá, espetou-me com um livro cuja capa poderia levar qualquer atrasado mental a lançá-lo para um amontoado de literatura erótica. Eis a natureza com literatura: uma mulher nua, um cocktail, fichas e cartas de jogo, tudo encimado por NUNO BRAGANÇA A NOITE E O RISO. Explicou-me, no mesmo tom não-didáctico com que me deu aulas de História no liceu, que não se tratava dum texto escrito com os olhos na tela mas que o trouxera por achar se tratar da minha cara chapada. Para quem desconhece o meu processo de selecção de leituras convém aqui fazer um parêntese sob a forma de parágrafo. Todos os livros que chegam às minhas mãos ─ e estão constantemente a chegar e partir, embora o tráfego de partidas seja menos congestionado ─ são postos na estante e enfileirados segunda a ordem de chegada. Só abro excepção aos livros escritos por amigos meus. A Noite e o Riso, por mais que o bichinho da curiosidade mo pusesse à frente dos olhos, teve que navegar por águas antes navegadas, as águas de bacalhau, e esperar que chegasse a sua vez de saltar para a minha cabeceira. Posso adiantar que gostei, que meu deu vontade de rir e de zuca-andor para a noite ─ e quando o universo dum livro nos impele a querer conhecê-lo directamente e transpor a mediação enciclopédica que o próprio nos oferece, bom, nesse caso, devemos tirar o chapéu e tudo o resto para termos intimidade com o autor. Mas já lá vamos… Eis que o Rui Almeida mete o nariz nesta história para a qual as suas fossas nasais pareciam não ser chamadas. Não me recordo onde, quando, a que propósito, não me recordo de nada e nada me importo com isso, mas estou agora a ver e ouvir o Rui revelar-me, ainda antes de eu desfolhar e ser desflorado por A Noite e o Riso, que o Nuno Bragança era católico ─ repito: o Nuno Bragança era católico, sim, era católico, sim passeava-se, embriagado que nem um cacho, pelo Intendente, sim era viciado no jogo, sim colaborou na Seara Nova e no Tempo e o Modo, sim VV convence-te de que uma coisa são os anjos (não têm sexo), outra a guarda (têm cacetete), e outra os católicos (têm, como tu, a virtude no meio das pernas). Esta revelação abriu-me a boca de espanto, mas não me impôs abstinência de espécie nenhuma. Faço da promiscuidade uma prática viva ─ uma prática a que dou vivas hips e hurras. Não se constituiu qualquer complexo em ler o Nuno Bragança (afinal, ainda há umas semanas atrás, eu havia lido o Hitler!). Gosto de visitar os bordéis culturais todos, de privar com as putas que por lá param e parem, os chulos que lhes sugam o tétano e a pachacha. Merecem-me igual, ou vá lá que um homem não é de pau, idêntica atenção e curiosidade. Não respeito nenhum, porque sou inflexível no meu sentido igualitário. Até gostava de encontrar alguém digno do meu respeito. A sério, o meu desrespeito por tudo e por todos não é um capricho. Nem para comigo próprio, eu que, como dizia o poeta, sou vil e reles, adopto uma atitude diferente. Adiante que estou a ficar sem papel [Sic]. A estrutura de A Noite e o Riso, conforme atestado em uníssono pelo pregão dos críticos literários, é revolucionária ─ íssima, íssima, para voltar a parafrasear o poeta que todos menos os seus contemporâneos, especialmente os seus vizinhos, o reconhecem como tal. Numa primeira e apressada leitura, não se vislumbra elemento conectivo entre os três, digamos, capítulos ─ e mesmo dentro destes, usemos agora um termo rebuscado para casarmos a grosseria com a erudição e fecundarmos um monstrinho de duas cabeças contraditórias, sub capítulos também não é imediatamente visível a ligação, senão ao leitor que se apaixona por este romance (perdoem-me os senhores experimentalistas e sugirem um sinónimo em experimentalês se faz favor) à primeira vista. Concentre-se no segundo capítulo, o do meio, logo o virtuoso. Cada parte está baptizada (e aqui começa a dar o cheiro a catolicismo) com o nome duma personagem do livro ─ uma pega, um bêbedo, um companheiro de tertúlia. Como a própria bíblia! O Nuno Bragança, não deixando de ser um escritor de vanguarda, um rupturista, diz e cumpre que das fontes originais do pensamento ocidental também bebe. Mas não se pense que se furtou ao efeito estonteante da mistura. Ele quis apanhá-la, à séria e à francesa. Todas as rábulas, ainda que contadas em timbre moral, ecoam a terminologia e a mundovisão surrealista, a prosa decalcada das vivências próprias da beat generation, a náusea e a ambulante condição de estrangeiro do existencialismo, a ideologia marxista. Hoje o Nuno Bragança pouco fala aos ouvidos, encerados por abelhas aberrantes, diga-se de passagem, das novas gerações de literatos (Outro Nuno, o Moura, escreveu qualquer coisa como os poetas seniores continuam a empatar e as esperanças não encontram soluções de ataque). Compreendo em parte porque se trata dum autor que peca (lá estamos a ser católicos) por ter uma escrita e um universo datados, como o gin tónico do Mário Henrique Leiria (datados, repito, mas não fora do prazo, pelo que toca a ler). Esta Lisboa já não existe. O Cesariny, n`Autografia, lamenta que «Lisboa morreu e nem lhe fizeram o enterro». Cada vez conheço mais mortos que deviam dar razão ao HP Lovecraft, provando aos de carne que os de osso podem voltar. Vitor Vicente [O ANIMADOR DESANIMADO] O futuro da Igreja«Annuntio vobis gaudium magnum: Habemus Papam!»
Assim será anunciada ainda hoje ou dentro de pouco tempo a eleição do novo Bispo de Roma. A expectativa é grande não só pela notoriedade e impacto que teve o antecessor do futuro Papa, João Paulo II, mas sobretudo pela situação delicada que vive a Igreja e o cristianismo no início do século XXI. Para a minha geração o Papa sempre aquele homem austero e carismático vindo da Polónia, que vimos envelhecer fiel às suas convicções, mesmo àquelas em que nem todos nos revíamos. Conhecemos já pouco do "atleta da fé" e só percebemos o significado dessa expressão nestes últimos anos onde João Paulo II mostrou que ser velho não é motivo suficiente para deixar de ser "atleta". É a primeira vez que vamos ver um novo Papa. Quem vier terá de reinventar a seu jeito o lugar de sucessor de Pedro. E isso não pode deixar de criar expectativas quanto ao futuro. Os cenários são diversos e têm vindo a sofrer alterações que tornam imprevisível o resultado. Mais fácil é prever quem não será eleito. O nome do cardeal Ratzinger, inicialmente afastado das listas dos mais prováveis, aparece de novo na corrida, fazendo antever cenários pouco católicos. Inicialmente lançou-se a hipótese de um Papa vindo da África. Depois das intervenções do cardeal nigeriano Arinze essa hipótese foi posta de lado. Veio a possibilidade de um latino-americano ou de um europeu que fizesse a ponte com os outros continentes. O cardeal patriarca português foi destacado entre o colégio de cardeais como capaz de fazer essa ponte. D. José Policarpo aparece especialmente bem considerado pelos seus pares. O "Inimigo Público" já anunciou que o patriarca de Lisboa passou dois dias sem fumar, para se habituar aos hábitos vaticanos. Humor à parte, não é para escolher um Papa que aqui estou. Tal função é-me interdita, apesar de estar entre os baptizados do sexo masculino teoricamente elegíveis. Queria sim deixar uma breve reflexão sobre o futuro. Foi o próprio D. José que, numa das entrevistas antes do "black-out" episcopal disse o seguinte: «O que nos apaixona e nos deve preocupar é o futuro da Igreja. Ela está no tempo. O que o Espírito Santo nos pede é coragem para discernir caminhos nessa realidade imensa que é a Igreja no mundo contemporâneo.» Falemos então do futuro e de tudo o que está para lá das portas do Vaticano, já que, como bem disse Bento Domingues ainda com Karol Wojtyla vivo, a Igreja não é só o Papa. Eventualmente nem devia ser tanto o Papa como tem sido, mas isso são outras discussões que Hans Küng e o Movimento Internacional Nós Somos Igreja não se coibiram (e bem) de trazer para a discussão, em tempo de balanços e orbituários. Os desafios mais evidentes que a pós-modernidade coloca à Igreja são fáceis de elencar: discutir as normas disciplinares que impedem aos casados e às mulheres a presidência das comunidades eclesiais; repensar a moral sexual e a estranha divergência doutrinal quanto aos contraceptivos naturais e artificiais; assumir definitivamente os direitos humanos como património e prática da Igreja; dar mais liberdade doutrinal e pastoral às Igrejas locais e liberdade de investigação aos teólogos; criar mecanismos de governo mais democráticos para a própria Igreja; avançar no diálogo ecuménico sem os tiques autoritários da "Dominus Iesus"; reflectir a sério sobre os desafios que as novas realidades familiares colocam. É apenas uma lista rápida, limitada e incompleta que mereceria uma reflexão e apresentação mais cuidadas, mas para já fica apenas o seu elenco. Estas questões são algumas das que facilmente colocam católicos contra católicos. Vasco Pulido Valente dizia há dias que "a Igreja Católica aceitou sempre a heterogeneidade e até sempre se alimentou dela". Porém reconhecia que "as tensões são neste momento invulgares". No seu jeito pessimista antevia "divisões radicais". O próximo Papa terá nas mãos esse fardo pesado de conseguir manter a unidade da Igreja entre os que querem mudanças e os que as não desejam. Nunca vi o confronto como um mal, desde que feito com diálogo e honestidade intelectual, com capacidade de escuta e negociação, com a caridade de quem espera contribuir para descobrir a verdade e com a humildade de quem se sabe limitado. Por isso não me assusta que a sua discussão seja tomada a sério pelo Papa que virá. Assusta-me sim que o não seja. Presidir à diversidade que é a Igreja é arte em que não sou versado, pelo que admito que possa não estar certo. Mesmo assim parece-me que vale a pena deixar uma nota. Creio que o surgimento destas questões não é fruto da cultura hedonista da nossa sociedade ou do facilitismo light com que se adere à religião à la carte, ou ainda pior que isso, de algum ataque cerrado à Igreja por misteriosas forças anti-clericais como acham alguns comentadores e organizações. A encruzilhada em que a comunidade crente se encontra hoje foi certeiramente descrita por vários comentadores nos últimos dias. Foi o próprio Vasco Pulido Valente que no meio do seu infindável pessimismo disse ontem, no "Público": «Na essência a dificuldade da Igreja é a seguinte: a biotecnologia criou uma civilização única na história. O poder do indivíduo sobre o seu próprio corpo, ainda inconcebível, por exemplo em 1950, transformou radicalmente o valor do sexo, o papel da mulher na sociedade, a visão da vida e a natureza da morte. Esta realidade não desaparece por exortação ou vontade da Igreja e, se a Igreja a ignorar acaba fatalmente na irrelevância. Não se trata agora, como antes, de aceitar a ciência, o liberalismo, a democracia, o estado laico ou mesmo a exegese bíblica. Por muito hiperbólica que pareça a expressão, a Igreja está hoje perante um "homem diferente".» (sublinhado meu) As questões polémicas que enumerei não são colocadas na mesa por relativismo moral, falta de formação catequética, vontade de divergir ou fraqueza de fé. Elas impõem-se-nos porque estamos de facto perante um "homem novo". E já agora perante uma "mulher nova" também. Esta constatação não é novidade. Já Yves Congar, padre conciliar do Vaticano II e um dos principais teólogos dinamizadores do movimento ecuménico realçava: «o Concílio viu-se acompanhado e sobretudo seguido de uma mutação sócio-cultural cuja amplitude, radicalidade, rapidez, de carácter global, não tem equivalente em nenhuma época da história». Frei Bento Domingues explicita: «Na fase pós-conciliar levantaram-se muitas questões que o Vaticano II não pôde prever: abandono maciço da Igreja por parte da juventude, secularização acelerada das sociedades mais avançadas da Europa, procura de libertação nos países do Terceiro Mundo, reivindicações da mulher, desenvolvimentos tecnológicos, armamento nuclear, destruição da natureza, etc. Se para alguns a culpa dos males da Igreja vinha dos meios progressistas, nos anos 80, o grande teólogo jesuíta Karl Rahner fazia outra leitura: na Igreja actual reina um conservadorismo excessivo que não está de acordo com o espírito do Concílio. As autoridades eclesiásticas de Roma dão a impressão de favorecer um medroso regresso aos bons velhos tempos. Penso que estamos a viver o Inverno dessa Igreja em que continuamos a escutar a palavra de Deus e a receber a sua graça.» Os pedidos de mudança não são marginais nem vêm de alas radicais. São vozes credenciadas que pedem mudanças na Igreja. Ainda assim, não é esse o principal fundamento que encontro para a necessidade de renovação na organização e dinâmica da Igreja. Onde salta à vista a necessidade de uma comunidade crente mais profética, que consiga ser uma voz transportadora de sentido, de anúncio da Boa Notícia é, paradoxalmente, nas multidões que seguiram João Paulo II. Digo-o insuspeitamente: não gosto de multidões e posso perfeitamente subscrever a frase de Bénard da Costa e dizer que este não é o meu Papa. Porém, é inegável que Karol Wojtyla conseguiu, com o seu carisma pessoal, simultaneamente cativar multidões e aproximar-se tocando de um modo particular cada pessoa com a sua serenidade, com o seu olhar terno, com a sua afabilidade. "Paradoxalmente, a atracção por este homem era pessoal, mas tinha uma tradução multitudinária", diz-nos António Marujo no seu texto certeiro em que explica "Afinal Qual é a Força deste Homem?": «A "geração Wojtyla" mostrou ainda, aqui em Roma, que a relação das pessoas com o fenómeno religioso já não se limita às paredes das igrejas ou dos templos: os modos como se vive a fé são cada vez mais plurais – e pessoais. Por isso é possível ver igrejas semi-vazias e milhões a cantar na hora da morte de João Paulo. E mesmo, entre eles, crentes de outras religiões ou descrentes que acreditam neste homem concreto.» Este Papa de que nos despedimos conseguiu exprimir a fé de forma tocante para tantos e tantas que nunca ouviram falar da Congregação para a Doutrina da Fé, de muitos que dizem como o filósofo Gianni Vattimo: «O meu Papa é, creio, o de muitos – crentes ou não – que o admiram e decisivamente o amam, sem partilhar muitas posições doutrinais que seria difícil chamar evangélicas». O desafio com que a Igreja se confronta é transformar esse jeito pessoal carismático numa mudança de fundo: encontrar novas formas de dizer Deus hoje. Não só pelo lado afectivo, emotivo ou estético, que tanto sucesso têm hoje, mas também pelo lado racional, questionando preceitos e normas que mostram pouco o rosto libertador de Cristo nos dias de hoje. Isto não é apenas uma mudança de regras ou uma alteração "interna" da Igreja: é ter a coragem de escancarar as portas da Igreja a um mundo que mudou muito e está ainda numa fase de mudança acelerada. Nas palavras de um dos nossos bispos, é preciso que a Igreja tenha a coragem de deixar que seja o mundo a marcar-lhe a agenda. Sobre isto mesmo saiu também ontem no "Público" um texto notável do P.e Anselmo Borges, professor de Filosofia da Religião na Universidade de Coimbra, onde coloca com a sua habitual clareza e frontalidade várias questões importantes para o período "Depois de João Paulo II". Depois de falar nos grandes desafios que se colocam ao próximo Papa conclui pela necessidade óbvia da convocação de um novo Concílio: «Para reavivar a esperança e redefinir o lugar da Igreja no mundo no início de um novo milénio, pode esperar-se a convocação de um novo Concílio, o Vaticano III, sendo legítimo perguntar: porque é que as várias Igrejas cristãs irmãs (ortodoxas e protestantes) deveriam ser excluídas de participar, se fosse essa a sua vontade, neste Concílio autenticamente ecuménico? Ao contrário do que pensam alguns, o Concílio não terá como tarefa fundamental dar orientações uniformes para toda a Igreja no mundo inteiro, mas pelo contrário, fazer tomar consciência de que se impõe garantir, nos vários domínios – doutrinal, moral, litúrgico, jurídico – uma real autonomia às Igrejas locais, nacionais, regionais, continentais.» Dito isto Anselmo Borges consegue ser ainda mais profético: «Seria desejável que esse Concílio estimulasse a reunião do que poderíamos chamar um Parlamento das Mundial das Religiões, também com representantes dos não crentes, onde se debatessem os problemas candentes da Humanidade e de humanidade para o futuro da Humanidade: os direitos e deveres de todos os homens, questões de bioética, a globalização, a natureza, o ambiente, a protecção da biodiversidade, as novas tecnologias, a economia, nomeadamente a problemática Norte-Sul e, mais concretamente o futuro do continente africano, o diálogo inter-religioso e inter-cultural, uma relação nova com o Mistério e a Transcendência.» Podemos esperar tudo isto do próximo Papa, ainda por cima quando é ventilada a possibilidade de termos uma mão de ferro ao volante da Igreja nos próximos anos? Como alguém disse de João Paulo II: "ele veio da Polónia – um verdadeiro golpe do Espírito Santo". O mesmo pode acontecer daqui a algumas horas, quando ouvirmos "Habemus Papam", um verdadeiro golpe do Espírito Santo. Assim seja: venha João XXIV. Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS] Quarta-feira, Abril 13
Quando a medicina não explicaFoi há 12 anos. A 10 de Abril, noite de vigília pascal, a Maria foi baptizada – e eu assumi o compromisso de ser seu padrinho. Quinze dias antes, a criança era apresentada à comunidade e os padrinhos disseram ao que iam, o que era aquilo (para eles) de ser padrinho (e madrinha). Não me recordo do que disse. Mas ainda hoje, na família, se recorda uma blague em que disse que esperava que fosse a Maria a tomar conta do padrinho – e não o contrário. Fica sempre bem: sorrisos na assistência. E anos depois a recordação das palavras.
Ainda hoje me pergunto o que será isso de ser padrinho. Não o godfather, o il padrino de memórias cinéfilas: uma personagem temida, autoritária, que distribui benesses ou misericórdia (e tiros de misericórdia, quando a linha é ultrapassada). O padrinho é antes o amigo, o companheiro – mas também alguém que deve estar disponível para conhecer o outro, neste caso, a afilhada. "Conhecer" (julgo que já aqui o disse) é uma palavra que esconde a riqueza do seu significado – co-nascer, "nascer com", que é como quem diz crescer lado-a-lado com o outro. Longe de memórias cinéfilas. Por estes dias, ouvimos a multidão que chorava a partida de João Paulo II pedir a sua santificação. Um homem bom acaba por merecer assim o reconhecimento dos anónimos. E logo dois bispos, para atestarem da sua santidade, anunciaram-se testemunhas de milagres. Aqui, hesito. Não preciso de milagres, de curas inexplicáveis, para poder dizer como era bom aquele homem. A santificação – e nisso este longo pontificado "baralhou" demasiado as coisas, beatificando e santificando "apressadamente" muitos homens e mulheres (e, coisa inédita, duas crianças) – devia ser antes um percurso de conhecer a vida e obra desses homens e mulheres. Talvez assim olhássemos para eles como verdadeiros exemplos, e não como alguém a quem se recorre nas aflições – para as benditas promessas. Não ironizo: a ladainha dos santos estará cheia de bons exemplos. Mas, para confirmar esses exemplos, não serve a vida – sublinha-se antes o milagre das promessas, como se a oração e a devoção pudessem ser moeda de troca para a nossa vida – e para o reino dos céus. O homem bom que foi Karol Wojtyla pode vir a ser santo. Eu, por mim, gostava que na sua proclamação se ouvissem palavras como… "naquela comunidade, um milagre aconteceu: a guerra acabou, a paz venceu, seguindo o apelo deste homem bom". Para isto, sim, a medicina não tem explicação. Miguel Marujo [CIBERTÚLIA] O Senhor da Boa Morte«Hoje pretendo apenas acrescentar isto: que cada um de nós tem de ter sempre presente a perspectiva da sua própria morte. E tem que estar pronto a apresentar-se a si próprio perante Deus, Senhor e Juíz mas simultaneamente Pai e Redentor. Eu também terei continuamente isso em consideração, consagrando o meu momento decisivo à Mãe de Cristo e da Igreja – a Mãe da minha esperança.
Uma vez mais, eu desejo consagrar-me totalmente à Graça de Deus. Ele decidirá quando e como eu terei de terminar a minha vida terrena e o meu ministério pastoral. Na vida e na morte: Totus Tuus, Maria Imaculada! Aceitando a morte, mesmo agora que seja, eu espero que Cristo me conceda a Graça para a passagem final, noutras palavras, a minha Páscoa. Peço-lhe também que Ele faça com que a minha morte seja útil para a mais importante causa que procurei servir: a salvação dos homens e mulheres, a salvaguarda da família humana e, através dela, de todos os povos e nações.» (do testamento de João Paulo II, trecho escrito de 24 Fevereiro a 1 Março de 1980, tradução minha) Lendo estas palavras que o Papa escreveu para si próprio, intimamente, em 1980, antes ainda do atentado de 81, numa altura em ele respirava uma saúde e vigor poderosos e magnéticos, quando lhe chamavam ainda o atleta da Fé, não consigo evitar um arrepio, um sentimento de pasmo e admiração. Aqueles que durante a longa doença e dolorosa agonia do Papa, duvidaram das razões que o levaram a vivê-las publicamente e determinadamente, até ao fim, aqueles que duvidaram mesmo de ser do próprio Papa a vontade em levar a sua cruz à vista de toda a gente, as palavras acima revelam eloquentemente o seu engano. Engano compreensível, direi eu, pois estamos todos desabituados de uma tão grandiosa coerência, uma coerência demonstrada duas longas décadas depois daquelas palavras terem sido escritas. Mesmo para quem, como eu, nunca duvidou da grandeza sobre-humana dum calvário oferecido como exemplo, estas palavras surpreendem. Surpreendem por revelar de forma tão clara a transcendência do sentido da atitude de João Paulo II no ocaso da sua vida e do seu ministério. Surpreendem também porque, mesmo para quem crê, é sempre uma surpresa ver uma prece ser tão completamente atendida. Uma prece que começa por ser entrega e aceitação e acaba por ser um extraordinário e desmesurado pedido: o de que a sua própria morte, tal como a de Cristo, seja útil para a salvação dos homens e mulheres, a salvaguarda da família humana e, através dela, de todos os povos e nações! E assim foi de facto! Um pontificado marcante e riquíssimo, em que parece tudo ter acontecido e tudo ter sido dito, um pontificado polémico mas tão inovador, um pontificado que pareceu ser o arquétipo do triunfo da vontade dum homem excepcional, tudo isso se apequenou perante o período final e terminal, também algo nunca antes visto, em que um grande do Mundo renuncia a vontade própria para aceitar incondicionalmente que também nele se faça segundo a vontade do Pai, exclusivamente segundo a vontade do Pai. E do mesmo modo que de Cristo o mundo reteve sobretudo a Sua Paixão, também deste Papa serão sobretudo recordados os anos derradeiros, os seus rictus de dôr, a fragilidade gritante com que se arrastava em visitas pastorais extenuantes, aquele desespero tocante que deixou entrever da sua janela, ao não conseguir pronunciar aquele último Angelus. E sobrepondo-se a todo esse sofrimento, uma determinação terrível em lhe resistir, uma força imparável que, no meio da multidão, o impelia inexoravelmente para o seu Gólgota. E foi assim, cumprindo a sua própria escritura, feita 25 anos antes, que ele teve a sua morte, uma boa morte pois, como ele desejara, foi certamente útil a milhões de crentes e também a não crentes. Tão simplesmente porque nos recordou que, acreditando-se ou não na eternidade, e mais do que fazer parte da vida, a morte não lhe retira significado, antes acrescenta-o. E ao fazê-lo, a morte, o sofrimento, a adversidade, são vencidos perante a grandeza da vida e da condição humana oferecidas por Deus. João Paulo II, na sua coerência joanina de acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e de acreditando, ter tido a vida em seu nome, conseguiu assim também ele aquilo que mais queria: ser útil para a salvação de nós todos. José [GUIA DOS PERPLEXOS] A Santíssima TrindadeNa passada semana, como alguns leitores deste blogue certamente terão notado, o texto que aqui escrevi foi em grande parte baseado nos pontos 1814 a 1829 do Catecismo da Igreja Católica. E o episódio referido na última frase foi de facto escrito por S. Siluane, um monge que viveu nos séculos XIX e XX.
Hoje continuo em torno de textos escritos por outrém. No início do livro "Até onde se pode ir?", de David Lodge, aparece a seguinte citação do livro de Hans Küng, "Ser Cristão": "O que sabemos? Porque existem as coisas? Porque não é o nada? O que deveríamos fazer? E fazemos assim porquê? Somos responsáveis porquê e perante quem? O que podemos esperar? Porque estamos aqui? Qual a razão de tudo? O que nos dará coragem para vida e coragem para a morte?" Como é sabido, na Santíssima Trindade reúnem-ses três Pessoas divinas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo cujas características fundamentais penso poder esumir do seguinte modo: o Pai é a fonte de toda a santidade, o Filho é o mediador de toda a salvação, e o Espírito Santo é Aquele que anima e sustenta o caminho do homem para a plena e definitiva comunhão com Deus. Passemos à heresia. O Pai é a teoria, a ideia, o mandamento. O Filho é o exemplo, a prática, o comportamento. Se as relações entre estes dois parecem óbvias (como a relação entre qualquer pai e qualquer filho) já o Espírito Santo me parece mais estranho. Se não é o mistério, é pelo menos um mistério. Lembro-me de um episódio. Julgo que é de um outro livro de Lodge, "Pensamentos secretos". A corrida dos barquinhos de papel (ou seriam patos de plástico?). Cada concorrente escreve o seu nome num barquinho de papel. Depois largam-se os barquinhos de papel num ribeiro, algumas dezenas de metros a montante de um local que se convenciona chamar meta. É um belo exemplo de teoria do caos: as variáveis são imensas, correntes, obstáculos, ventos, etc. O acaso conduz um à vitória, alguns são de qualquer modo bem sucedidos pois passam a meta, outros afundam-se ou ficam encalhados. Vamos pensar que o Espírito é o acaso pois a necessidade decorreria do material, isto é, o determinismo seria apenas a sequência lógica de encadeamentos físicos, materiais. Por definição todo o devir seria necessário. Tal como num encadeamento em dominó. Como aqueles desenhos gigantescos compostos de milhões de peças de dominó em que caindo a primeira em cima da segunda e esta em cima da terceira e assim sucessivamente se dá origem a um movimento que parece eterno e em que a última peça a cair é apenas o resultado da queda da primeira peça uns tempos antes. Se o Espírito é acaso então o Espírito pode ser mau ou pode ser Santo. É por isso que não basta invocar o Pai e o Filho. Os barquinhos deveriam chegar todos à meta. Independentemente do acaso (das capacidades e das religiões de cada barco, por exemplo). Para isso é preciso o Pai, o Filho e o Espírito Santo Lembro-me de uma das últimas homilias que ouvi. Qualquer coisa como os três tipos de crentes: os que acreditaram em Cristo desde o princípio sem ser preciso verem, os que como São Tomé só depois de verem acreditaram, e aqueles que só acreditaram depois de verem Cristo ressuscitado a partir e a distribuir o Pão, os discípulos de Emaús (Lucas 24, 30-35). Talvez por isso, a propósito da Santíssima Trindade disse João Paulo II: "O inteiro desenvolvimento da revelação divina está orientado para a manifestação do Deus-Amor, do Deus-Comunhão." O livro "Até onde se pode ir?", o tal livro escrito por David Lodge em 1980 que começa com a citação de Küng acima referida, acaba do seguinte modo: "Enquanto escrevia este último capitulo, o Papa Paulo VI morreu e foi eleito papa João Paulo I. Antes que pudesse dactilografá-lo, já João Paulo I morrera e lhe sucedera João Paulo II, o primeiro papa não italiano dos últimos quatrocentos e cinquenta anos; polaco, poeta, filósofo, linguista, atleta, homem do povo, homem do destino, escolhido de forma dramática, imediatamente popular — mas teologicamente conservador. Uma Igreja em mudança aclama um papa que, manifestamente, acha que já chega de mudanças. E agora o que irá acontecer? Está tudo em aberto, o futuro é incerto, mas será interessante ficar atento. Adeus, leitor!" Timshel [TIMSHEL] Trinta e três dias…
Se o pontificado de João Paulo II foi um dos mais longos da História, o do seu antecessor imediato foi um dos mais curtos. Parecerá inoportuno, neste momento, falar de João Paulo I, mas parece-me que os 33 dias em que Albino Luciani ocupou a cadeira de Pedro poderão ajudar a perceber muito do que se passou nos 26 anos que se seguiram. Luciani escolhe dois nomes (o que já pode ser significativo: foi o primeiro papa a usar um nome composto), como forma de tornar presentes os seus dois próximos antecessores (João XXIII e Paulo VI), os papas do Concílio Ecuménico Vaticano II, sendo significativo o facto de o seu sucessor ter mantido a mesma opção. Mas o grande gesto desse papa foi ter definitivamente posto de lado a tríplice tiara e o trono pontifício, símbolos ambíguos do poder temporal do Sumo Pontífice. Pouco depois de eleito envia uma mensagem radiofónica a todos os fiéis, em que traça o programa para o seu pontificado. Nos seis pontos que faz questão de assinalar estão bem visíveis as prioridades da Igreja desde então: “- Queremos continuar a dar prosseguimento à herança do Concílio Vaticano II […], vigiando para que nenhum impulso, talvez generoso mas irreflectido, tergiverse os seus conteúdos e significados, nem forças paralisantes ou tímidas afrouxem o magnífico impulso de renovação e de vida; - queremos conservar intacta a grande disciplina da Igreja na vida dos sacerdotes e dos fiéis […], e para esse fim levaremos avante a revisão do Código de direito Canónico […]; - queremos recordar à Igreja inteira que o seu primeiro dever é a o da Evangelização […]; - queremos continuar o esforço ecuménico, que consideramos o máximo lema dos nossos predecessores imediatos, vigiando com uma fé imutável, com esperança invencível e com amor indeclinável para que se realize o grande mandato de Cristo: Que todos sejam um (Jo 17, 21) […]; - queremos prosseguir com paciência e firmeza o diálogo sereno e construtivo que […] Paulo VI estabeleceu como fundamento e programa de acção […]; - queremos, enfim, favorecer todas as iniciativas louváveis e boas que possam tutelar e incrementar a paz neste mundo conturbado”. (1) Mas depois da sua morte surgiram relatos de confidências que vão mais longe e permitem perceber que Luciani pretendia tornar a Igreja mais humilde e mais coerente com o testemunho evangélico. O seu pensamento passava por assumir os pecados que tinham levado às separações dos cristãos, à inquisição ou aos massacres de índios e à escravatura, pela reconciliação com o povo Judeu (referiu inclusivamente a vontade de “convocar uma representação de bispos de todo o mundo” para o efeito), passava ainda por “defender o lugar que é devido à mulher na comunidade humana e na comunidade eclesial” e por reabilitar muitos dos eclesiásticos que “passaram por provas amargas” por causa do rigor disciplinar da Igreja por via do Santo Ofício. (2) Convém também rever o modo como este homem propôs a abertura da Igreja ao mundo. Na sua primeira audiência geral, afirmou: “Quando era bispo, estive muito perto daqueles que não acreditavam em deus e fiquei com a ideia de que muitas vezes lutam não contra Deus, mas contra a ideia errada que têm de Deus. Quanta misericórdia é necessário ter! Também devem tê-la esses mesmo que erram… Temos que aceitar-nos como somos.” (3) Mas há uma afirmação que se torna pertinente por estes dias: “Tenho a impressão que de que a figura do papa é por demais exaltada. Há um certo risco de cair no culto da personalidade, o que eu não quero de modo algum… Passaram pouco mais de cem anos sobre a queda do poder temporal dos papas, caso contrário, também eu, presentemente, seria um papa-rei com exércitos armados e, talvez, com uma polícia para defender os bens, as terras e os palácios do papa. Como teria sido bonito se o papa tivesse renunciado espontaneamente ao poder temporal! Deveria tê-lo feito antes. Agradeçamos ao Senhor que assim o quis e assim o fez”. (4) (1) Radiomensagem Urbi et Orbi de 27 de agosto de 1978 (online, a versão original em italiano), conforme citada na biografia João Paulo I, O Papa do sorriso, de Andrea Tornielli e Alessandro Zagrando (edição brasileira da editora Quadrante, São Paulo, 2000 – distribuído em Portugal por Rei dos Livros). (2) Referências e citações conforme as feitas por Luigi Accattoli em Quando o Papa pede perdão (Paulinas, Lisboa, 1998). O Autor insere um capítulo intitulado “Luciani tinha um projecto”, em que assume como fonte única um livro do jornalista Camillo Bassotto, que recolheu depoimentos de dois sacerdotes muito próximos de João Paulo I. (3) Audiência geral de 6 de Setembro de 1978 (online, a versão original em italiano), conforme citada em O Papa do sorriso. (4) Citado em Quando o Papa pede perdão. Por um lado, pelo outroDisse aqui na Terra Varqa Jalali: «Vivemos portanto numa sociedade em mutação, e a religião não escapa a esse fenómeno. Por um lado, vemos que a religião – na acepção comum do termo – perde importância, e as taxas de participação em serviços religiosos é cada vez menor (para dados relativos a Portugal, ver por exemplo dados no Inquérito pós-eleitoral de 2002, ou bem como inquéritos anteriores). Esse padrão é igualmente perceptível nos comentários que se ouve de as religiões provocam guerras (e para isso nem precisamos de ir ao Médio Oriente, tendo vários exemplos na própria Europa), ou de desconfiança em relação à "religião organizada". Mas por outro, parece sobressair a necessidade de uma vivência religiosa por parte das pessoas. Os dados de um recente estudo em Portugal, realizado em 1999, são particularmente elucidativos. Assim, se apenas metade dos inquiridos participava em serviços religiosos pelo menos uma vez por mês, 82% das pessoas considerava-se religiosa; 93% acreditava em Deus; para a maioria destas, Deus tinha "muita importância" nas suas vidas; e 71% afirmou que orava e meditava.»
Pensando apenas em termos cristãos. Se pensarmos no que nos é dito por este excerto e se o fizermos através de um esquema simplista, podemos ter o seguinte esquema: a religião como um dado espaço instituído – dogmas, prática codificada – dotado de uma certa especificidade que permite identificá-lo, como espaço Católico, Baptista, Anglicano, outro; religião como um dado espaço não instituído constituído por todos aqueles que acreditam em Cristo. Durante muito tempo pensou-se que o segundo espaço pura e simplesmente não existia, porque era de algum modo coincidente com o primeiro. Que todo o religioso cabia todo no Católico. Ou, mais tarde, que o espaço Católico, Anglicano, Baptista, outro, cobriam diversas fatias do espaço religioso. Ora, hoje, parece que tal não se verifica. Que não podemos excluir do religioso alguém que acredita em Deus e que no seu dia a dia completa a ligação não com um espaço de dogmas e de práticas instituídas mas com aqueles que andam à sua volta. Familiares, colegas de trabalho, amigos, membros de diversas associações de boa vontade. O que pode trazer a necessidade de pensar a relação que deve ser estabelecida entre o espaço instituído e o espaço não instituído, pensar como articular o espaço instituído – dogma, prática codificada – com uma realidade que neste momento lhe é estranha. Num primeiro momento, isto poderia passar por renovar o espaço instituído de modo a torná-lo de novo atractivo para aqueles que dele se afastaram. Num segundo momento, isto poderia passar pela afirmação de que o espaço instituído está bem, mais ou menos bem, e que o problema acaba por ser daqueles que habitam fora dele. E que por isso não há grande coisa a fazer. Se esta última opção perfilha alguma indiferença – legítima ou não é outra questão –, ela, de algum modo, aponta, anuncia – de mesmo sinal, de sinal diferente da hipótese anterior, é outra questão – uma última alternativa. A coexistência do espaço instituído com o espaço não instituído, numa relação marcada quer pela tolerância, quer pela crítica, quer pela legitimidade da independência. Fernando Macedo [A BORDO] |
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terra da alegria. 2004. |
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