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terra da alegria |
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Segunda-feira, Fevereiro 28
Ecstatic ConfessionsI will sing of bareness a new song,
for true purity is without thought. Thoughts may not be there, so I have lost the mine: I am decreated. He who is unminded has no cares. My unevenness no longer causes me to err: I am as gladly poor as rich. I want nothing to do with images, I must stand free of myself: I am decreated. He who is unminded has no cares. Would you know how I escaped the images? I perceived the right unity in myself. That is right unity when neither weal nor woe displaced me: I am decreated. He who is unminded has no cares. Would you know how I escaped the mind? When I perceived neither this nor that in myself, save bare divinity unfounded. Then I could no longer keep silent, I had to tell it: I am decreated. He who is unminded has no cares. Since I am thus lost in the abyss I no longer whish to speak, I am mute. The Godhead clear has swallowed me into itself. I am displaced. Therefore the darkness delighted me greatly. Since I have thus come through to the origin, I may no longer age, but grow young. So all my powers have disappeared and have died. He who is unminded has no cares. Then whosoever has disappeared and has found a darkness is so rich without sorrow. Thus the dear fire has consumed me, and I have died. He who is thus unminded has no cares. ______________ Vou cantar da nudez uma nova canção, pois a verdadeira pureza é sem pensamento. Pensamentos não podem lá estar, assim perdi os meus: Sou descriado. Ele que está sem desígnio não tem anseios. A minha imperfeição não mais me faz errar: Tão alegremente sou pobre como rico. Não quero nada com imagens, tenho de estar livre de mim: Sou descriado. Ele quem está sem desígnio não tem anseios. Saberias como fugi às imagens? Percebi a unidade certa em mim. Essa é a unidade certa Quando nem receio nem desejo me desloca: Sou descriado. Ele quem está sem desígnio não tem anseios. Gostavas de saber como fugi à mente? Quando percebi nem isto nem aquilo em mim, salvo a nua divindade infundada. Então não mais pude ficar calado, tinha que contá-lo: Sou descriado. Ele quem está sem desígnio não tem anseios. Desde que estou assim perdido no abismo Mais não quero falar, sou mudo. A cabeça clara de Deus engoliu-me nele mesmo. Estou deslocado. Por isso a escuridão alegrou-me muito. Desde que assim cheguei ao origem, Não posso envelhecer mais, pois enoveço. Assim todos os poderes desapareceram e morri. Ele quem está sem desígnio não tem anseios. Pois seja quem fôr desapareceu E encontrou a escuridão é tão rico sem tristeza. Assim o fogo querido me consumiu, e morri. Ele quem está sem desígnio não tem anseios. Conheço esta cantilena, originalmente atribuida a Johannes Tauler, do livro Ecstatic Confessions de Martin Buber. Em 1909 o filósofo e teólogo judeu publicou (originalmente em alemão) uma colecção de testemunhos de experiências místicas de pessoas comuns, proveniente de tempos, culturas e religiões muito diversos. Buber optou deliberadamente por só incluir testemunhos que se manifestaram fora da produção teórica e dogmática das respectivas religiões, ficando assim de fora a maioria dos grandes místicos conhecidos, como Bodidharma, Hildegard von Bingen, Meister Eckhart, Bernard Clairvaux, Juan de la Cruz, Teresa d'Avila, e outros. Curiosamente (e felizmente) Rumi não ficou de fora... Também por esta lógica, a cantilena apresentada só está aqui por não ser de Tauler. (Johannes Tauler foi discípulo de Meister Eckhart, que no entanto conseguiu, ao contrário do seu mestre, evitar entrar em conflito com a hierarquia da Igreja Católica.) O livro é fascinante, pelos textos em si. Também o é por mostrar como a experiência espiritual pode assaltar pessoas sem conhecimento teórico, dogmático e sem observância de técnicas que fomentam o crescimento espiritual. E em terceiro lugar, por mostrar o que essas experiências relatadas, de tão diversos tempos, culturas e religiões, e tão distantes e por vezes desconhecedores das respectivas doutrinas ortodoxas, têm em comum! Para mim, esse comum é o essencial. Um livro sobre a experiência mística. Um livro profundamente ecuménico. Um livro para todos, ou, pelo menos, para a "imensa minoria", como a chamou Juan Ramon Jiménez. Lutz (QUASE EM PORTUGUÊS) Revolução Personalista III — interioridade e comunicaçãoTenho que voltar a pedir desculpas aos leitores, pela pouca produção que nesta semana se repete. Era minha intenção terminar hoje a série "Revolução Personalista", mostrando mais alguns traços do pensamento de Mounier. Pois parece que à terceira ainda não é de vez. Ficam mais alguns apontamentos do opúsculo "O Personalismo" transitando a conclusão para a próxima semana (a ver vamos).
Então hoje queria falar dum excerto em que se fala da "Conversão íntima": depois de apresentar a "existência incorporada" e "a comunicação" como marcas indeléveis da pessoa, Mounier fala da vida interior, da subjectividade, da intimidade pessoal. Mas adverte-nos logo que elas não são um contraponto à realidade 'exterior' ao homem — "a interioridade não é oposta ao movimento de comunicação, mas pulsão complementar". Sempre me fez muita confusão ouvir certos discursos muito intimistas, em que se falava de uma grande transformação interior, mas onde os frutos dessa transformação eram parcos. Mounier começa por falar de "O recolhimento", tradução hesitante de "le suir soi" usada por João Bérnard da Costa: «O homem pode viver como uma coisa. Mas, como não é uma coisa, uma tal vida apresentará sempre um aspecto de demissão (…). O homem do divertimento vive como que expulso de si, confundido com o tumulto exterior: assim o homem prisioneiro de seus apetites, funções, hábitos, relações, dum mundo que o distrai. Vida imediata, sem memória, sem projectos, sem domínio, e que é a própria definição de exterioridade, ou, à escala humana, de vulgaridade. A vida pessoal começa com a capacidade de romper contactos com o meio, de ripostar, de recuperar, para, através duma unificação tentada se constituir uma só. À primeira vista, este movimento é um movimento de fuga. Essa fuga não é senão um tempo dum complexo movimento. Se alguns ficam por aí e se agitam, é apenas porque interveio uma perversão. O importante não é a fuga, mas a conversão de forças. A pessoa só recua para depois saltar melhor. É nesta experiência fundamental que se fundam os valores de silêncio e de retiro. É importante que hoje chamemos para eles a atenção. As distracções da nossa civilização destroem o sentido do tempo livre, o gosto pelo tempo que corre, a paciência da obra que amadurece e vão dispersando as vozes interiores que dentro de pouco tempo, só os poetas e o homem religioso escutarão. O vocabulário do recolhimento (ripostar, recuperar) lembra-nos porém que ele é uma conquista activa, o oposto de uma ingénua confiança na espontaneidade e fantasia interiores. (…) No entanto, o movimento de meditação é também um movimento simplificador, e não complicação ou requinte psicológico. Atinge o centro da pessoa e atinge-o directamente. Nada tem a ver com a ruminação ou introspecção mórbidas. Um acto o compromete, um acto o conclui.» Depois deste trecho, Mounier escreve sobre "l'en soi" — traduzido de forma divergente mas acutilante para "o segredo". Aí explora qual a direcção deste movimento de interioridade — sendo que a pessoa não é uma coisa, que a pessoa é o não-inventariável, há uma certa dose de segredo e de pudor na vida pessoal. Continua a desenvolver essas ideias falando da intimidade. Deixa claro que essa dimensão do universo pessoal não pode servir para que nos desliguemos do mundo: «É preciso simplesmente que desmistifiquemos o privado, impedindo que este seja elevado à posição de defesa contra a vida pública. É a própria estrutura da vida pessoal que a isso nos obriga: a reflexão não é somente um olhar interior sobre mim e minhas imagens lançado; é também intenção, projecto de nós próprios. Não existe aquela árvore e uma imagem formada dentro de mim como dentro de uma caixa com o olhar da consciência na tampa. (…) A consciência íntima não serve de bastidores onde a pessoa entorpeça, é como a luz, presença secreta e no entanto irradiando para o mundo inteiro.» Adiante fala-se de gente que viveu a sua vida profundamente comprometida com o mundo 'exterior' e de como a sua caminhada foi reconhecida e chamada de 'interior': «Aquele que, descendo de si, se não deteve na calma dos primeiros abrigos, mas se decidiu a correr a aventura até ao fim, cedo se precipita para longe de qualquer refúgio. Artistas, místicos, filósofos, viveram por vezes até ao esgotamento esta experiência integral, muito curiosamente chamada 'interior', porque se lançaram para os quatro cantos do globo.» Falando ainda do mesmo, mas sobre outra perspectiva, discute-se adiante a dialética entre o ser e o ter, outra que sempre me fez alguma confusão e que tão facilmente ouvimos nos discursos moralistas: «Afirmar-se é, antes de mais, ter espaço. É pois preciso que não oponhamos demasiado o ter e o ser, como duas atitudes existenciais entre as quais fosse preciso escolher. Pensemos antes em dois pólos, no meio dos quais a existência está compreendida. Não é possível ser sem ter, embora nosso ser seja infinita capacidade de ter, não seja esgotável pelo que tem e o ultrapasse em muito pelo seu significado. (…) O idealismo moral é muitas vezes a procura de uma existência que mais nada pesaria; existência contra a natureza, que leva à falha ou à inumanidade.» Feita esta ressalva, Mounier é categórico: «O desenvolvimento da pessoa implica como condição interior um despojamento de si e de seus bens que despolariza o egocentrismo. A pessoa só se encontra quando se perde. A sua fortuna é o que lhe fica quando se despojou de tudo o que tinha — o que lhe fica na hora da morte.» E por fim chegamos à conclusão central, com que me despeço: «É preciso sair da interioridade para alimentar a interioridade. A pessoa é uma interioridade que tem necessidade de uma exterioridade. A palavra existir indica pelo seu prefixo que ser é expandir-se, exprimir-se. (…) É preciso que não desprezemos tanto a vida exterior: sem ela a vida interior tornar-se-ia incoerente, tal como, sem vida interior, aquela mais não seria que delírio.» Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS) Quarta-feira, Fevereiro 23
Em busca do cristianismo perdidoEste texto surgiu na sequência de um post do Lutz sobre o texto que aqui escrevi na semana passada ("Um texto simples em defesa da família").
Julgo que, em termos de senso comum, talvez a questão mais importante seja: "Para que serve a família?" Como já referi, julgo que ela serve para "fabricar felicidade". Pode-se fabricar felicidade através do exercício da autoridade? Um pai que impede uma criança de atravessar a rua no momento em que passa um carro estará a ter um comportamento autoritário ou prepotente? Toda a gente estará de acordo que a resposta é negativa. Mas trata-se sem dúvida de um comportamento em que uma das partes usa a autoridade, o poder e a força para impedir o comportamento de uma outra parte. Onde se encontra a fronteira entre a autoridade necessária e o autoritarismo? A limitação da liberdade da criança que se viu impedida de atravessar a rua em consequência desse exercício de autoridade, poder e força parece legítima. E quando os pais se sacrificam abstendo-se de ter comportamentos que lhes dão prazer porque estes são incompatíveis com a felicidade dos filhos, esta auto-limitação da liberdade é boa ou má? E a tradição? Numa família as crianças aprendem fundamentalmente por imitação. Por isso a tradição em si não é má nem boa. A tradição será boa quando sirva para aumentar a felicidade e má no caso contrário. Existem contudo situações em que certos modelos funcionais são tendencialmente mais aptos do que outros a produzir felicidade. Tendencialmente esses modelos são os chamados "tradicionais". Existem famílias que são fábricas de infelicidade? Sem dúvida que sim. Mas não convém tomar a nuvem por Juno. Tendencialmente uma família tradicional tende (eu sei que me estou a repetir mas é deliberado para sublinhar a ideia de tendência e não de que se trata de uma regra absoluta) a criar mais felicidade que uma família não tradicional. Por razões que seria complexo explicar aqui mas que se resumem à estrutura reprodutiva da espécie humana. A natureza ou Deus fizeram o homem de tal modo que uma estrutura familiar tradicional tem mais possibilidades de que os seres humanos que nascem e crescem no seu interior sejam mais aptos à sobrevivência e à felicidade. Adoptando um raciocínio darwinista: por isso (e talvez por outras razões, de ordem divina) ela existe com a força que tem. No sentido em que o Lutz fala na tradição (como algo intrinsecamente irracional, com regras por ela postuladas e axiomáticas que nunca podem ser avaliadas ou submetidas à crítica) esta é apenas a manifestação de um autoritarismo estúpido e prepotente. Mesmo no caso de um bébé de poucos meses que é impedido pela força pelos pais de ter um acidente grave, os pais deverão explicar-lhe mesmo que ele nada perceba (parece para rir mas penso mesmo assim) as razões para tal atitude. Por maioria de razão, julgo que toda e qualquer manifestação de autoridade (que deve ser progressivamente reduzida à medida que a criança cresce; porque a autoridade enquanto manifestação de força é algo que se deve evitar a todo o custo salvo em condições de absoluta necessidade) deve ser sempre exaustivamente explicada e debatida. Gostaria finalmente de sublinhar que se a família é uma fábrica de felicidade pelo modelo de entrega mútua entre os diferentes membros da família (embora centrada fundamentalmente na entrega dos pais relativamente aos filhos), no modelo cristão de família, essa entrega mútua dos seus membros é apenas o primeiro passo para a entrega aos outros; a família cristã deverá ser uma unidade de serviço aos outros (aos que estão dentro mas também e sobretudo aos que estão fora dessa família). Uma última palavra sobre algo que parece nada ter que ver com isto mas tem tudo: subscrevo a cem por cento a entrevista que João César das Neves deu ao Independente. Sei que não é politicamente correcto mas é imprescindível. Aliás não vi nenhuma crítica, nem que fosse simplesmente utilitarista, aos valores por ele defendidos. Não me parece que o que escrevi há uns tempos no meu blogue e que passo a citar seja incompatível com a defesa dos valores feita por César das Neves: "Seria útil que quem invoca, ataca ou distorce o cristianismo relativamente ao aborto, direitos dos homossexuais ou eutanásia, soubesse que os valores cristãos em jogo são, nomeadamente, o direito à vida, o respeito da dignidade humana, a proibição da discriminação, o desejo natural da felicidade (que é um desejo de origem divina - ver ponto 1718 do Catecismo da Igreja Católica). E que em matérias em que existam valores fundamentais em jogo, de aplicação prática por vezes contraditória, ou dificilmente compatíveis, o imperativo da proporcionalidade e do equilíbrio de valores é um dificílimo mas necessário exercício que deve ser feito sobretudo caso a caso à luz da consciência de cada um. Num quadro legal que não deixe quaisquer dúvidas quanto ao carácter fundamental desses valores." É que, o único valor absoluto e dogmático relativamente ao qual os cristãos devem ser fundamentalistas, o valor ao qual tudo se deve subordinar pois foi o único mandamento que Cristo nos deixou, é o amor. Timshel [TIMSHEL] Deus ex-machinaSeis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os, só a eles, a um alto monte. Transfigurou-se diante deles: o seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. Nisto, apareceram Moisés e Elias a conversar com Ele. Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Senhor, é bom estarmos aqui; se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Ainda ele estava a falar, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e uma voz dizia da nuvem: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o.» Ao ouvirem isto, os discípulos caíram com a face por terra, muito assustados. Aproximando-se deles, Jesus tocou-lhes, dizendo: «Levantai-vos e não tenhais medo.» Erguendo os olhos, os discípulos apenas viram Jesus e mais ninguém. Enquanto desciam do monte, Jesus ordenou-lhes: «Não conteis a ninguém o que acabastes de ver, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos.» (Mateus 17,1-9)
Disse-nos ontem o Evangelho do 2º Domingo da Quaresma (Lucas 9,28-36): Esta passagem da Transfiguração de Cristo, lida no 2º Domingo da Quaresma e referida na Bíblia em pelo menos mais dois trechos (Lucas 9,28-36 e 2ª Carta de Pedro 1,16-18), é um episódio que sempre me provocou alguma estranheza. Não pelo episódio em si mas pela projecção relativamente pequena que a Igreja lhe atribuiu no corpo da doutrina cristã. Não será certamente pela incerteza do episódio: vem mencionado em dois dos evangelhos e é referido por uma das testemunhas presenciais, Pedro. Também não o será pela falta de significado teológico: no final de contas revela-se aqui a três homens escolhidos e de uma forma sensível a natureza divina de Cristo. Talvez a importância menor que se dá a este episódio na doutrina e na liturgia da Igreja tenha paralelismo com a importância menor que Cristo também lhe quiz dar: no fim de contas deixou que ele ocorresse no cimo dum monte com apenas três testemunhas em vez de optar por uma manifestação espetacular perante a multidão. Imagine-se a sensação se esta manifestação de esplendor divino tivesse ocorrido durante o julgamento ou durante o calvário de Cristo! Mas não foi definitivamente assim que Deus quiz revelar a sua mensagem aos homens. Deus não deixou a vida de Cristo terminar à moda das tragédias gregas, recusou o clássico papel do “deus ex-machina”. Não, o que Deus quiz mostrar ao homens não foi o poder da sua magnificência mas a imensidade do seu amor por nós. Não resgatou espetacularmente o Seu Filho da Cruz mas deixou-o morrer lá, às nossas mãos, como se fosse qualquer um de nós. Em vez de nos ter deixado deslumbrados com a Sua grandeza, escolheu deixar-nos a imagem de Jesus que viveu absolutamente de acordo com a Sua Palavra. Escolheu deixar-nos perante o facto de o Seu Filho ter nascido e vivido no meio de nós, ter-nos oferecido a Palavra de Deus e ter sido rejeitado por isso. Definitivamente Deus não procura convencer a nossa inteligência mas procura, isso sim, converter o nosso coração. E converter significa transformar. Peço desculpa mas lá estou eu a insistir no significado central e transcendente da Paixão de Cristo: para mim o episódio furtivo da transfiguração não é mais do que mais um elemento para entendermos plenamente o significado da Paixão, para entendermos mais perfeitamente a relação que Deus quer ter connosco. Penso que não estou a inventar nada de novo. Aliás não deixa de ser interessante que a Igreja Ortodoxa valorize mais do que nós os católicos o episódio desta transfiguração “clandestina” de Jesus. Existe uma oração importantíssima na liturgia ortodoxa que diz isto mesmo. É o Kondákion: Tu transfiguraste-te sobre o Monte, ó Cristo, nosso Deus, revelando a tua glória aos teus discípulos,tanto quanto lhes era possível contemplá-la,a fim de que, quando te vissem crucificado, compreendessem que aceitaste livremente a tua Paixão,e anunciassem ao mundo que és, em verdade, o Esplendor do Pai. Amen, digo eu. José [GUIA DOS PERPLEXOS] A Páscoa - retratos de libertação![]() A festa. O domingo de Ramos festivo, colorido, que aqui se apresenta, é o contraponto a uma imagem sofrida que percorre as nossas ruas, durante a Semana Santa, um Senhor dos Passos, carregado de cores pesadas e madeiro inclemente, ou as cruzes que batemos e rogamos no peito. Mas esta Páscoa que vamos anunciando e preparando ao longo do tempo de jejum, é também tempo de nos fazer pensar sobre sinais preocupantes do nosso mundo. ![]()
Miguel Marujo [CIBERTÚLIA] O tio do Brás Cubas«Bem diferente era o tio cônego. Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes, contudo, não realçavam um espírito superior, apenas compensavam um espírito medíocre. Não era homem que visse a parte substancial da Igreja; via o lado externo, a hierarquia, as preeminências, as sobrepelizes, as circunflexões. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infração dos mandamentos. Agora, a tantos anos de distância, não estou certo se ele poderia atinar facilmente com um trecho de Tertuliano, ou expor, sem titubear, a história do símbolo de Nicéia; mas ninguém, nas festas cantadas, sabia melhor o número e casos das cortesias que se deviam ao oficiante. Cônego foi a única ambição de sua vida; e dizia de coração que era a maior dignidade a que podia aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observância das regras, frouxo, acanhado, subalterno, possuía algumas virtudes, em que era exemplar, - mas carecia absolutamente da força de as incutir, de as impor aos outros»
Machado de Assis, como os grandes mestres da literatura, não se limitou a escrever bem e de maneira saborosa, soube, de maneira exemplar, retratar os pequenos pormenores das fraquezas humanas e fazê-los encarnar numa personagem à medida dessas fraquezas. Fraquezas intemporais que vão encarnando em personagens verdadeiras de todas as épocas. E se este tio cónego das "Memórias póstumas de Brás Cubas" encaixa na perfeição em muitas dignidades eclesiais do nosso tempo (sendo certo que a beatice e a meticulosidade irritante se vai disfarçando com muitas máscaras: desde os ultraconservadorismos mais militantes até aos mais bolorentos progressismos, ou vice-versa…), o certo é que de há muito (de sempre?) que este género de personagenzinha secundária se instalou em qualquer meio onde seja possível satisfazer-se com as aparências de que vive a mediocridade. Os que preferem a sacristia ao altar, o lado externo ao substancial acabam por ter uma vidinha pacata, sem complicações. Os que arriscam aproximar-se da mesa do sacrifício, rejeitando a facilidade morna (cf. Ap. 3, 16) e segura dos regulamentos e preceitos encarreirados, acabam por levar as pancadas mais violentas da vida. Ouso pensar que acabam por ser os mais felizes. E depois, ninguém nasce predestinado para a sacristia ou para o altar, estão ambos ao alcance de todos: escolher entre o medíocre e o sublime. Rui Almeida [POESIA NA RUA] Reacção em cadeiaNuma sessão de discussão a que assisti e onde se discutia a questão da origem do universo numa perspectiva cristã, com relativa rapidez o criacionismo e o concordismo, a relação entre a ciência e a religião, Galileu e Kepler, Einstein ou os físicos cristãos contemporâneos, foram deixados para trás, pois o grupo de discussão, constituído na sua grande maioria estudantes do secundário, se mostrou mais interessado em discutir outros assuntos. Nada há de novo nisso. Nem sequer nas problemáticas levantadas. Quando a discussão corre hostes adolescentes e a temática é cristã, rapidamente, as questões passam para um quadro parecido com este: «porque é que o Padre diz o que disse na Missa?»; «porque é que não o deixa dizer fora dos locais de culto e evita a sua discussão?».
Estas questões concretizam-se de diversos modos e são um dos instrumentos que os jovens usam para justificar diversos graus de afastamento. Dito isto, uma primeira questão deve ser formulada: afastamento em relação a quê? – A Deus? – À religião? – À Igreja? – Ao sacerdote? – Entretanto, uma primeira constatação deve ser anotada: - há por vezes, muitas vezes, uma identificação difusa dos quatro elementos em jogo. Desta difusa identificação resultam complicações onde se encontra um acento de drama. Antes de tentarmos clarificá-lo, deixemos dito que o que dizemos é esquemático. Nesse esquema, vemos um processo de reacção em cadeia. O adolescente ao escutar o que o sacerdote diz no espaço de culto e fora dele, ao discordar, joga essa discórdia contra as bolas mais próximas no pano verde do bilhar. Joga a recusa contra a Igreja, contra a religião e por fim contra Deus. Por isso, é possível observar que algum hábito na recusa do que é dito e feito pelo sacerdote, torna o adolescente hábil no pôr em causa a Igreja, a afastar-se das problemáticas religiosas e a complicar a relação que pode ter com Deus. Ele sabe que há qualquer coisa neste processo que não está bem. Não somos naturalmente tolos e por isso sabemos que falta qualquer coisa na reacção em cadeia. Sabemos que a reacção em cadeia choca com algo que “ameaça” tornar-se ausente e que tal ausência será custosa. Dolorosamente custosa. Por isso, no meio de uma situação como esta, o adolescente tem tendência a fazer uma de duas coisas, ou as duas alternadamente. A manifestar uma imensa tristeza que se mostra no modo lamentoso como critica. A manifestar uma ira desmesurada que se mostra no modo como não é capaz de escutar seja o que for que o que possa ser dito para amenizar a sua reacção. Independentemente disto, parece que a causa próxima deste reacção passa pelo papel que o adolescente atribuiu ao mediador, o que deve merecer atenção e também a nossa atenção em próximas edições. Fernando Macedo [A BORDO] Segunda-feira, Fevereiro 21
Revolução Personalista (II e meio)Hoje, por falta de disponibilidade, vejo-me obrigado a interromper os textos sobre "O Personalismo", de Emmanuel Mounier. Ainda assim darei voz a Mounier, por isso pode-se dizer que este é mais meio texto da dita série. Escrevo em dia de eleições, pelo que o resultado de logo à noite ainda não é conhecido (embora haja fortes suspeitas). Por isso também não vou falar de política. Ou por outra: vou falar de política, mas não da política partidária cá da casa. Vou falar do amor, da sua dificuldade e da sua força, e dessa forma falarei de política. Como já alguém disse, politicamente sou apenas cristão — acredito num Deus de Amor. Assim, partilho convosco um episódio de "Os Irmãos Karamazov", de Dostoiévsky e um excerto de Mounier. Deixo as conclusões para o leitor.
Comecemos pela cena e respectivos personagens dum pequeno episódio, dos primeiros capítulos de "Os Irmãos Karamázov". O narrador dá-nos a conhecer uma mulher que vem pedir conselho e perdão a um stárets — uma mistura de sábio, ermita e profeta, sem entrar em grandes explicações. Diz-lhe ela que o seu problema é amar a humanidade em geral, mas ter repugnância ao seu semelhante. Que sente um forte amor universal mas que não consegue passar a barreira de cada pessoa concreta. Depois de algum diálogo, confessa ao sábio que estaria até disposta a abandonar tudo para ser enfermeira por essas terras fora, tratando tudo e todos, qual curadora geral da humanidade. Diz-lhe o velho stárets que conhecia caso semelhante. E fala-lhe num homem que dizia assim: "Nos meus sonhos, chego muitas vezes às ideias apaixonadas de servir a humanidade, se calhar, seria mesmo capaz de subir ao calvário pelas pessoas, se de repente isso fosse necessário; ao mesmo tempo sou incapaz de conviver com alguém no mesmo quarto mais de dois dias, digo-o por experiência. Mal alguém fica perto de mim, logo a sua personalidade me oprime o amor-próprio e me constrange a liberdade." O ancião começa por lhe dizer que talvez ela o faça apenas para receber louvores. Talvez até o seu arrependimento seja apenas uma esperança de ser exaltada por ele, pela sua profunda consciência e desejo de correcção. Depois diz-lhe várias coisas, que deve evitar a mentira, o desgosto pelos outros e por si mesma, e — mais importante — diz-lhe o seguinte: «Nunca desanime da sua própria fraqueza na busca do amor, e nem sequer tenha muito medo dos seus procedimentos menos bons. Lamento não poder dizer-lhe nada mais consolador, porque o amor vivo, em comparação com o amor sonhado, é uma coisa cruel e assustadora. O amor dos sonhos anseia por uma obra rápida, de satisfação imediata e aos olhos de todos. Aqui, é verdade, chega-se ao ponto de sacrificar a própria vida, só para que a obra não seja muito demorada, mas rápida, como no palco do teatro, e que toda a gente olhe e louve. Ora, o amor vivo é trabalho e paciência e, para alguns, toda uma ciência. Mas vaticino-lhe que, mesmo no momento em que vir, horrorizada, que não se aproximou do objectivo, apesar de todos os seus esforços, antes se distanciou ainda mais dele... profetizo-lhe que, nesse mesmo momento, alcançará de súbito o objectivo e verá claramente sobre si a força milagrosa do Senhor que sempre a amou e guiou.» Passemos directamente ao filósofo, do capítulo sobre 'O Afrontamento': «O amor é luta; a vida é luta contra a morte; a vida espiritual é luta contra a inércia material e o sono vital. A pessoa toma consciência de si própria, não no êxtase, mas numa luta de força. A força é um dos seus principais atributos; não a força bruta do poder ou da agressividade em que o homem renuncia a si próprio para imitar o choque material, mas a força humana, simultaneamente interior e eficaz, espiritual e manifesta. Os moralistas cristãos conferem à força esta dimensão total. O principal objectivo que lhe conferiam era a protecção contra os males corporais e sobretudo contra suprema derrocada corporal, a morte; a muitos falta coragem moral, muito simplesmente porque têm medo dos combates (...); muitos são cobardes por egoísmo e falta de imaginação. A vitória interior sobre a morte une estas duas zonas de energia. Uma pessoa só atinge a plena maturidade no momento em que opta por fidelidades que valem mais do que a vida. Debaixo da capa duma filosofia do amor e da paz, abrigou-se, sobre o conforto moderno e as piegas preocupações que este implica, um monstruoso desconhecimento destas verdades elementares. (...) A utopia dum estado de repouso e harmonia, 'reino de abundância', 'reino de direito', 'reino de liberdade', 'paz perpétua', é aspiração para que tende uma tarefa infinita e interminável; não a deixemos apagar-se num sonho pueril. » Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS) Quarta-feira, Fevereiro 16
Um texto simples em defesa da famíliaA prioridade fundamental do próximo governo deveria ser, do meu ponto de vista, a defesa da família. Também por razões de competitividade. Mas dessas já aqui falei em tempos num post intitulado "A competitividade".
A família deve-se defender porque ela constitui um valor em si mesmo. Uma verdadeira família é a mais eficiente e eficaz "fábrica de felicidade". Uma verdadeira família supõe condições subjectivas (mas não é dessas que vai tratar o presente texto) e condições objectivas. Uma família em que as necessidades elementares não se encontrem satisfeitas encontra-se ferida na sua dignidade mais profunda. Dificilmente essas condições objectivas permitem que ela se concretize como uma verdadeira família. Não digo que seja impossível mas é muito mais difícil. Todavia, por estranhas razões, a pergunta que mais me ocorre quando leio jornais é uma pergunta que parece nada ter que ver com o que acabei de constatar. A pergunta é seguinte: É a defesa da família incompatível com a defesa da justiça social? Esta pergunta parece absurda (e é absurda). Contudo, quando atentamos nas posições de certos partidos políticos, comentadores, analistas, movimentos de opinião, etc., etc. parece que, por razões obscuras, quem defende a família não pode defender a justiça social e quem defende a justiça social não pode defender a família. É assim que os chamados defensores da família e dos valores familiares quando emitem as suas opiniões quase nunca falam na justiça social e na luta contra a pobreza e as desigualdades sociais ou quando muito dedicam a estes temas apenas algumas palavras de conveniência enquanto se desdobram em longas ladainhas na defesa da família. E vice-versa. Aqueles que se lançam em longos discursos radicais de luta contra a pobreza e por uma maior justiça social tendem a esquecer-se da defesa da família e dos seus valores. Talvez a pergunta se deva colocar do modo exactamente oposto. É possível defender coerentemente e consequentemente a família e os valores familiares sem se defender com a mesma intensidade e radicalismo a justiça social e a luta contra a pobreza? É inútil sublinhar a importância de um ambiente familiar seguro, equilibrado e afectuoso desde o primeiro dia de vida do ser humano. É mais do que consensual entre os especialistas em desenvolvimento da personalidade que uma família com grande disponibilidade em termos de tempo, afecto e atenção é o factor mais importante na criação de felicidade. As crianças felizes irão ser tendencialmente pessoas estáveis, intelectualmente curiosas, com grande capacidade de trabalho. O pai, a mãe e os filhos numa relação equilibrada, afectuosa e responsável formam um verdadeiro "triângulo virtuoso", uma espécie "fábrica de felicidade". Se são necessárias condições subjectivas na construção desta fábrica, são igualmente necessárias condições objectivas. Se as necessidades físicas elementares de uma família não estiverem satisfeitas é muito mais difícil existir equilíbrio e afectividade. A justiça social e a luta contra a pobreza terão por isso que ser as bandeiras político-económicas de quem luta pela defesa da família e dos valores familiares. Diz o povo e bem: "casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão". É por isso que aqueles que defendem a família e os valores familiares devem ter o cuidado de defender com a mesma intensidade a justiça social e a luta contra a pobreza e as desigualdades sociais. Sublinho com maiúsculas: COM A MESMA INTENSIDADE. Mas, parece-me que dentro de algumas semanas será preciso estar particularmente atento para defender que a luta pela justiça social e contra a pobreza e as desigualdades sociais só é coerente e consequente num quadro cultural e comunicacional de defesa radical da família e dos valores familiares. Lutar pela família e pelos valores familiares com a mesma intensidade com que se luta pela justiça social e contra a pobreza e as desigualdades sociais. De novo: COM A MESMA INTENSIDADE. Timshel [TIMSHEL] Milagre que fezVaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, uma outra lhe sucede, mas a terra sempre subsiste. O sol nasce e se põe, e torna ao lugar donde partiu, renascedo daí. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos. Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar nem por isso transborda; os rios tonam ao mesmo lugar de onde saem, para tornarem a correr. Todas as coisas são difíceis, mais do que o homem pode explicar por palavras. A vista não se farta de ver, nem o ouvido se sacia de escutar. O que é o que foi? O mesmo que o que há-de ser. O que é o que se faz? O mesmo que o que se há-de fazer. Não há nada de novo debaixo do sol, e ninguém pode dizer: eis aqui está uma coisa nova, porque ela já houve nos tempos passados. Não há memória do que já foi; mas nem os nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles. Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém.
(início do Livro do Eclesiastes) Dizes tu, que escrevestes estas palavras e outras ainda, magníficas e tristes, que fostes Rei de Israel, talvez o próprio Salomão. Há quem diga de ciência certa que tu, que escreveste o livro, não foste Salomão mas sim alguém, talvez algum sacerdote do Templo, que achou por bem usar o nome dele para assim emprestar às palavras da sua própria sabedoria o prestígio do filho do Ungido. Ou talvez para o justificares a ele e, redourando a sua memória, o fazeres reentrar no plano Divino. Não sei nem me interessa. O que sei e me interessa é que te leio e releio há muitos anos e sempre que o faço me atormenta a ideia que as tuas palavras, sobretudo as primeiras, se aplicam de forma quase profética a um país que veio muito depois de ti, um país que, mesmo quando foi grande, foi sempre um país pequeno. Um país que, um pouco como o teu, já pensou ter um papel no plano de Deus, já pensou ser instrumento da Divina Vontade, já pensou ser o Quinto dos Impérios, com que tu talvez sonhaste. E que hoje se limita a pensar ser ainda objecto da especial benevolência do Deus que veneras por intercessão daquela que foi mãe do Seu Filho encarnado. Vou-me ficar por aqui, interrompendo este intróito tão melancólico quanto pretensioso, e melhor será dizer ao que venho aqui hoje. Fazer aquilo que alguns leitores me pedem e o mesmo que os meus amigos da Terra fazem e me interpelam: falar um pouco mais disto, do que se fala tanto por aí, de todo esse ruído, de Portugal a propósito da campanha alegre que o assola. É quando penso em Portugal que eu sinto dolorosamente os espinhos da descrença. E, crente que sou em Deus, lamento os que são ateus, pois a sua sua descrença Nele, como a minha descrença nisto, só pode ser fonte de tristeza e aridez. Eu vou explicar. Devo dizer que a minha descrença não é uma reacção epidérmica aos apagados dias de hoje nem aos preocupantes dias de amanhã. Não é uma rejeição ética e estética aos bisonhos protagonistas que dizem governar-nos ou pretendem vir a dizê-lo. Não me desanima a insanidade mitómana do Santana e os seus jogos pirotécnicos. Não me desanima a vacuidade asséptica do Sócrates e os seus jogos de sombras. Não me desanima a hipocrisia orgulhosa de si própria de Portas e os seus jogos de triunfo da vontade. Não me desanima a persporrência paternalista e puritana do Louçã e os seus jogos de salão. E não me desanima, antes pelo contrário, a surpreendente postura do camarada Jerónimo, surpreendente pela genuidade e coerência com um ideal, mesmo que caduco. Não, nada disso me desanima. Melhor dizendo, já nem é isso que me desanima. O que me provoca o desânimo e a descrença de que falei há pouco é a convicção, a constatação, de que este mal de que, em maior ou menor grau, todos nos queixamos, é um mal que vem do fundo da nossa identidade nacional e que vem de há muito, muito tempo. E qual é o mal? Hã? Qual é ele? E de quando vem? Vou até ele sem recorrer a bibliografia extensa e erudita. Basta-me pegar no livro de História e Geografia de Portugal do meu filho de 11 anos!!! Lá se conta que, na altura dos Descobrimentos, Portugal e sobretudo Lisboa se tornaram no mais importante entreposto comercial da Europa. Que aqui chegavam as especiarias, cujo proveitoso comércio era monopólio do Rei em vez de ser gerido por uma burguesia ascendente. Que os lucros obtidos eram sobretudo aplicados na aquisição de bens manufacturados à industriosa Europa do Norte, que enriquecia assim com a nossa riqueza. Ou em obras de aparato real, em faustos da corte. Que nada se investiu na indústria e ciência, com excepção da indústria naval e bélica e na ciência da cartografia. E que a sangria de homens para o Oriente desertificou o interior e quase fez desaparecer a agricultura. Conta-se que quando começou a implodir o nosso império do Oriente, veio então a riqueza do cultivo da cana de acúcar no Brasil, do qual tivemos durante largas décadas o monopólio europeu desse produto em consumo acelerado. Que veio então de novo a prosperidade, sobretudo do Rei monopolista e de alguns concessionários. Que mais uma vez, por não termos indústria e por não termos agricultura, toda essa riqueza voou para os países que nos forneciam de tudo: tecidos, artefactos, armas, ferramentas. Conta-se que, mais tarde, após a perda e recuperação da independência, tendo nós perdido o monopólio do açúcar, surgiu então nova benção divina: o ouro do Brasil. Que mineirámos, escavámos todo esse ouro, que trouxe de novo a prosperidade do Reino e sobretudo do Rei. E que esta enorme riqueza, não a investimos mas voltámos a gastá-la também toda, até à sua exaustão. Os faustos de D.João V, o Convento de Mafra, a mui célebre embaixada a Roma, tudo vaidade das vaidades! E continuámos sem indústria, sem agricultura, com o comércio entregue aos ingleses pelo pré-guterrista tratado de Methuen! Depois veio um interregno atípico com o Marquês de Pombal, que promovendo a industrialização e a formação duma burguesia que se visse, metendo os Ingleses na ordem, expulsando-os do Douro, conseguiu algo inédito: equilibrar a balança comercial da nação numa altura em que tinham já secado as fontes do ouro do Brasil. Foi sol de pouca dura: morrendo o Rei que ele tinha guardado no bolso, foi logo corrido e as coisas voltaram ao normal ripanço. Ficaram, contudo, algumas sementes que ainda perduram e sem as quais o estaminé já teria fechado. Entretanto acaba aqui a leitura do livro do meu filho. No fim do 2ºperíodo já vos poderei dizer mais qualquer coisa... Mas saltando para o séc.XIX, ainda com Brasil e mais tarde sem ele, lá nos fomos aguentando como pudemos. Porém, quanto ao funcionamento da coisa, basta ler Eça de Queiroz, apenas “As Farpas”, agora reeditadas, para vermos que isto, o Quinto Império, ontem como hoje, anda igualzinho: não se produz, não se fabrica, não se cultiva, não se cria riqueza e usamos o melhor da nossa inteligência na discussão de como a distribuír...Tivémos entretanto um novo ouro do Brasil, os fundos comunitários, e agora que vai acabar e já o consumimos quase todo, olhamos ansiosos à volta, à procura dum novo milagre. Para o qual já nem a Irmã Lúcia nos poderá valer. Melhor será ficar por aqui. Não quero ser acusado de derrotismo perigoso. Mesmo assim, estando nós em eleições não é o voto que recomendo: é o ex-voto, que será o meu. Não sei se conhecem mas é uma coisa parecida com isto: ![]() E que daqui a uns anos se possa escrever como ali: Milagre que Fez NªSª da Conceição, padroeira de Portugal, que istando ele em pirgo de bida, se peguou logo Valha-nos Deus! José [GUIA DOS PERPLEXOS] Vozes do deserto, tempo de PáscoaHá momentos em que apetece parar. Ser chamado ao deserto, para ouvir-Te falar ao nosso coração. Andamos embrenhados nos dias e nas noites, passamos apressados pelos outros na cidade, esquecemo-nos de olhar para Aquele que habita em nós.
Um amigo de alguns que por aqui passam (tantas vezes apressados) - esteve um ano no seu deserto. Viveu retirado num convento - dedicado à oração, à contemplação, ao encontro. Com os outros - e com Deus. No regresso dessa sua viagem, fez-se a anunciar que estava «de regresso». E com as suas palavras falou-nos ao coração, como o Senhor que seduziu a sua mulher (Oseias 2, 16). Sem e-mail, quase sem telefone, recebeu 134 cartas em dez meses. E escreveu muitas mais. Nós não lhe escrevemos tanto assim. Como não escrevemos mais para a morada desse ano, procurámos outras moradas no deserto para lhe dizer do quanto a sua travessia foi também a nossa. Despojado de sandálias, ele voltou constantemente à brisa, «[acolhendo] cada dia com a certeza da Páscoa!» Espartilhados entre a família, os amigos, a casa, o emprego, os transportes, os blogues, a espuma dos dias acaba por esconder a beleza da sarça ardente, da paixão que é a vida. Vamos lá fora olhar o céu, sentir a brisa suave. E amar. «Reconheço Deus na brisa suave, ao jeito de Elias, e na sarça ardente, como Moisés. Preciso da experiência da brisa suave para criar disponibilidade para a intensidade do fogo; preciso da paixão do fogo para que o desejo da brisa seja sempre maior e mais profundo.» Há dias, um outro amigo voltou de uns dias no deserto - físico, geográfico, ali a Sul, atravessado o estreito que marca dois mundos, uma fortaleza. E disse, por sms: «A imersão no deserto aprofunda o ser, alivia de todas as responsabilidades, liberta-nos do acessório.» E, provocando-nos: «Já cheguei». Há encontros na Páscoa assim. Com cartas de antigamente ou mensagens dos dias de hoje. Para celebrar este tempo de purificação. Apetece parar - e saborear. Miguel Marujo (CIBERTÚLIA) É melhor calar às vezesA minha recorrência na dissertação sobre o silêncio pode parecer uma bela obsessão, ou uma boa desculpa quando não tenho assunto… além de paradoxal.
Mas das questões susceptíveis de serem por mim tratadas aqui, em que tenho pensado nestes dias, todas me parecem gastas à partida, quando não supérfluas ou mesquinhas. Senão vejamos: Podia falar da polémica homilia de um respeitável padre da capital que foi transmitida pela rádio a um Domingo às oito da manhã, mas não faço ideia quais foram os termos exactos em que o dito reverendo se referiu ao acto eleitoral. Mais: fico com a sensação de que todo o país madrugou (por causa da Missa!!) no tal Domingo, menos eu… Podia falar das declarações (parece-me que com intenções piedosas) de um político, que achava negativas as consequências fiscais da nova Concordata, fazendo crer que os representantes da Igreja fizeram um mau negócio, mas não consigo sequer perceber o fundamento da questão… Podia falar da interrupção da campanha eleitoral invocando uma entidade metafísica para mim desconhecida até agora: a da providência-ou-deus-para-os-que-crêem-e-eu-creio que “quis” que a irmã Lúcia morresse (sem chegar aos 100 anos… hélas!) e na consequente declaração de luto nacional (há meses negado a duas mulheres, por sinal também católicas, reconhecidas internacionalmente, que foram – são – referências no testemunho cívico que deram e até exerceram altas funções no funcionamento da nossa democracia), mas seria barulho a acrescentar ao barulho já existente… Prefiro rezar e pedir sabedoria para saber o que fazer em cada momento e para não cair na tentação de fechar os olhos ao mundo que me rodeia. Rui Almeida (POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA) Segunda-feira, Fevereiro 14
O FerreiroHá algumas semanas publiquei no Povo de Bahá um pequeno resumo biográfico de Mírzá Abu'l-Fadl. Este homem descendia de uma conhecida família de teólogos e estudiosos islâmicos e seguiu essa tradição familiar. A sua carreira profissional como teólogo e professor evoluiu rapidamente; o seu prestígio era enorme.
Abu'l-Fadl já tinha conhecido alguns bahá’ís em Isfahan e em Teerão; envolveu-se em vários debates com eles e durante alguns anos ridicularizou-os. Todos os seus estudos em teologia especulativa e história da religião não lhe permitiam aceitar que pudesse ter aparecido uma nova religião, tal como defendiam os Bahá’ís.
Até ao dia em que teve um encontro com um ferreiro... Numa tarde de sexta-feira, Mírzá Abu'l-Fadl acompanhado de alguns mullás saiu da cidade para visitar um santuário nas vizinhanças da capital.... Mas aconteceu que um dos burros perdeu uma ferradura, e assim o grupo dirigiu-se ao ferreiro mais próximo pedindo ajuda. O ferreiro, Ustád Husayn-i-Na'-Band, analafabeto reconheceu Abu'l-Fadl e tentou meter conversa enquanto trabalhava: "Mullá, ouvi algumas das sagradas tradições[1] dos santos Imans mas tenho dificuldade em percebê-las. Pode ajudar-me? " Abu'l-Fadl concordou. O ferreiro prosseguiu: "Ouvi os mullás citar uma sagrada tradição sobre a misericórdia de Deus que é enviada com a chuva: dizem que cada gota de chuva contém um anjo de Deus que é enviado à terra. Esta tradição é verdade? " Abu'l-Fadl respondeu sem hesitar: "Sim" O ferreiro continuou: "Também ouvi que uma coisa sobre a impureza dos cães: há uma tradição sagrada que diz que os anjos não descem sobre casas onde existam cães. Isso é verdade?" Abu'l-Fadl respondeu afirmativamente. "Então se é assim", comentou o ferreiro, "a chuva não devia cair numa casa onde haja uma cão. Como é que a chuva quando cai, cai em toda a parte? " Abu'l-Fadl sentiu-se profundamente envergonhado e furioso; os seus companheiros tiveram de o acalmar. Disseram-lhe: "Esquece este bahá'í provocador". Anos mais tarde, Abu'l-Fadl descreveu aquele episódio como o ruir do seu conhecimento dogmático, consequência de uma aceitação literal e cega de verdades religiosas. Todo esse conhecimento acumulado durante vários anos não resistiu a um teste de senso comum feito por um homem analfabeto. ------------------------------------ NOTAS/LEITURAS [1] - Segundo Adib Taherzadeh, "a maioria das chamadas tradições do Islão Xiita são construções humanas e consistem em ditos triviais. No entanto, algumas são afirmações autenticas e poderosas dos Santos Imams e estão conforme o espírito do Alcorão" (The Revelation of Bahá'u'lláh, Vol III, pag. 93) Miracles & Metaphors, Mírzá Abu'l-Fadl
Marco Oliveira (POVO DE BAHÁ) Quarta-feira, Fevereiro 9
A profunda alegria da QuaresmaQuarta-feira de Cinzas. "Lembra-te que és pó..." - Aparentemente, tudo é como a mentalidade mais enraizada faz crer...
Mas o Evangelho que ouvimos neste dia diz: “Quando jejuardes perfumai a cabeça” (Mt, 6,17). Pode até parecer que Jesus nos convida a apostarmos num jogo de aparências, mas não. O perfume com que ungirmos as nossas cabeças nesta Quaresma há de ser resultado directo do supérfluo de que nos formos conseguindo libertar. O jejum não pode ser mero cumprimento de preceitos e regras mais ou menos arbitrários e feitos à medida de sentimentos de culpa ou de supostas necessidades espirituais e muito menos de alucinados favores que se prestam a Deus, nosso Senhor ou a outras entidades mais ou menos obscuras que vamos servindo. O jejum há de ser uma maneira de irmos habituando a nossa vontade à justiça e à rectidão. Há de ser ensinarmo-nos, a nós próprios e uns aos outros a vivermos com aquilo que temos, conforme as necessidades, nossas e dos que nos rodeiam. Há de ser aprendermos a partilhar e a saber aceitar o que os outros têm para connosco partilhar. Entendo a Quaresma como o tempo que a Igreja propõe para que todos, unidos em princípios básicos e cada um segundo a sua consciência e possibilidade, possamos reconhecer e prepararmo-nos para a realidade mais elevada da nossa fé: a morte e ressurreição de Jesus. A Quaresma não é, de modo nenhum, tempo de tristeza. É, antes, tempo de procurarmos na nossa vida aquilo que, de facto, nos faz felizes e nos permite ultrapassar as dificuldades. Tempo de reconhecermos a nossa fragilidade para descobrirmos de onde vem a nossa força, de recusarmos o que nos atrapalha para encontrarmos o que podemos partilhar com os outros. Creio que aquele perfume com que Cristo nos aconselha a perfumar a cabeça durante a época do jejum é o desafio para não nos fechemos em nós mesmos e que, da nossa vida se solte uma alegria capaz de contagiar os outros. Rui Almeida [POESIA NA RUA] Qual o modelo sócio-económico ideal que, do meu ponto de vista, poderá decorrer de uma concepção cristã da vida? (3)Nos meus anteriores posts sobre este assunto, discorri sobre situações ideais. Propunha-me neste último post especificamente dedicado a este tema reflectir sobre quais as opções que se abrem para um cristão na luta por uma sociedade justa nas condições actuais da economia mundial, isto é, quais os objectivos socio-económicos por que vale a pena lutar a nível nacional, isto é, ao nível de um só país (ou região com as mesmas regras), nas condições actuais de uma economia liberalizada em termos mundiais mas compartimentada por diferentes regulamentações sociais aplicáveis a nível nacional.
Todos ouvimos recentemente falar nas empresas têxteis portuguesas que vão deslocalizar para a China em consequência dos encargos sociais (nomeadamente salários particularmente baixos) serem lá muito mais vantajosos para uma produção competitiva. Com o desemprego que isso implica em Portugal. A curto prazo, tendencialmente, o crescimento económico parece ser afectado pela justiça social. Porque a natureza humana ainda funciona muito com base no estímulo material individual e porque os recursos disponibilizados para os pobres, para os doentes, para os idosos que vivem na miséria provocam menos crescimento económico do que se tivessem outra afectação. É possível, portanto, que, em determinadas circunstâncias, os encargos sociais e salariais afectem o crescimento económico e provoquem pobreza e desemprego, nomeadamente se todas as restantes variáveis permanecerem imutáveis. Todavia, talvez os efeitos benéficos de uma sociedade equilibrada impliquem um aumento da competitividade no médio prazo. Vamos contudo de momento imaginar que as únicas variáveis em equação possível eram o crescimento económico em alternativa à justiça social e vamos imaginar igualmente que os efeitos eram apenas o de que o aumento de uma das variáveis resultava na diminuição da outra. Imaginemos que no país A, em que se privilegiam políticas de crescimento económico em detrimento da justiça social, o indivíduo mais pobre tem um rendimento anual de 100 euros e o mais rico tem um rendimento anual de 1000000 euros. Imaginemos agora que no país B, em que se privilegiam políticas redistributivas que visam a justiça social em detrimento do crescimento económico, o indivíduo mais pobre tem um rendimento anual de 50 euros e o mais rico tem um rendimento anual de 100 euros. Nesta situação, como em toda e qualquer outra situação em que o indivíduo mais pobre dos países em que se privilegiam políticas de crescimento económico em detrimento da justiça social tenha as suas necessidades mais satisfeitas do que o indivíduo mais pobre dos países em que se privilegiam políticas redistributivas que visam a justiça social em detrimento do crescimento económico, é mais justo o sistema do país A (que visa fundamentalmente o crescimento económico) do que o sistema do país B (que visa fundamentalmente a justiça social). Mas esta parece-me a única situação (neste quadro teórico) em que é admissível para um cristão privilegiar o crescimento económico em detrimento da justiça social. Comos todos os homens são irmãos e iguais perante Cristo, qualquer política que seja indiferente perante a dignidade de alguns seres humanos (mesmo que muito poucos) é incompatível com o cristianismo. Aceitar que se privilegiem políticas de crescimento económico em detrimento da justiça social que conduzam a que existam pessoas (nem que seja apenas uma ínfima minoria) que tenham as suas necessidades menos satisfeitas do que se se privilegiassem políticas de justiça social em detrimento do crescimento económico é, parece-me, contrário a aspectos fundamentais da minha Fé. Felizmente que na realidade as coisas são mais fáceis. Como mostra o exemplo dos países nórdicos, é possível ser-se extremamente competitivo (a Finlândia é o país mais competitivo do mundo) com uma pesada carga fiscal. Parece que, por um lado, o efeito socialmente benéfico da solidariedade aumenta a eficácia e o rendimento das pessoas em sociedade e, por outro, a aposta noutras variáveis (educação, formação, capacidade de inovação, etc.) permite ultrapassar completamente a (na maioria das circunstâncias, falsa) oposição "justiça social/crescimento económico". Mas, repito: mesmo que assim não fosse, a um cristão exige-se que coloque critérios sócio-económicos morais que sejam o prolongamento da sua Fé à frente de uma pretensamente neutra eficácia económica. Timshel [TIMSHEL] O karma e a TrindadeNota: este texto, talvez o primeiro de uma série, escrevo-o influenciado por uma leitura ainda em curso: do livro “O Rei, o Sábio e o Bobo” de Shafique Keshavjee, editado pela Temas&Debates. Sob uma estrutura narrativa algo ingénua, o relato duma espécie de “olimpíadas” das religiões, para selecção da religião oficial dum reino imaginário, surge a imaginação dum diálogo inter-religioso tal como ele deveria verdadeiramente ser. Recomenda-se.
A Santíssima Trindade, em que nós católicos acreditamos mas em que tão pouco pensamos, é um conceito de Fé muito mais importante do que pode parecer. Permitam-me começar por uma citação do livro que acima referi: “Confessar Deus como Pai é reconhecer que Deus está para além de nós(...). Confessar Deus como Filho é reconhecer que Deus se aproxima de nós, que se torna visível e audível. Confessar Deus como Espírito é reconhecer que Deus vive dentro de nós, que nos transforma interiormente para que possamos reconhecer o irreconhecível. Deus é assim, simultâneamente, transcendência, presença e imanência; é simultâneamente infinito, próximo e interior.(...) Para nós cristãos, afirmar que Deus é Trindade (ou melhor, Tri-unidade) é assumir que ele não é homogéneo nem estático, visto que há exteriorização e síntese”. A leitura deste excerto fez-me recordar o meu percurso de reaprendizagem da Fé, ocorrido já em idade adulta, uns bons anos depois de a ter perdido. Contei já algures que o meu momento de reentrada na Fé ocorreu quando, numa missa (é verdade, nunca deixei de ir à missa...), me puz a ouvir pela enésima vez a parábola do filho pródigo. Foi nessa altura, em que finalmente tive ouvidos para escutar, que me dei conta de algo extrordinário: o nosso Deus, aquele em que acreditamos não é Senhor nem Potestade: é nosso Pai. Criou-nos à Sua imagem e semelhança e quer-nos como um pai quer sempre um filho: quer-nos de volta. Está sempre pronto a receber-nos de novo pois o Amor que nos tem é um amor paternal. Isto hoje parece-me simples mas, na altura, foi um momento epifânico. Uns anitos mais tarde, após uma primeira leitura integral do Evangelho de S.João, descobri verdadeiramente a natureza divina de Cristo. Até aí, fui pensando que a Sua natureza era um assunto menor comparativamente com a Sua Palavra. Lendo sobre a história da Igreja, sobre as polémicas infindáveis à volta dos mistérios da Sua encarnação, sobre o odium theologicum entre monofisitas e calcedónios, docetas e ebionitas, achava tudo isso estéril e irrelevante. Mas a leitura de João fez-me descobrir todo o sentido, toda a diferença que faz em se acreditar verdadeiramente que Jesus é o Filho de Deus, que encarnou entre nós para morrer às nossas mãos. A divindade de Cristo não a descobri na sua ressurreição mas na sua Paixão. E como ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos que ama (Jo, 15, 13), percebi então a medida incomensurável do Amor de Deus. Mas só muito mais tarde é que, no edifício da minha fé, a Trindade ficou completa. Só muito mais tarde descobri o sentido e a verdade do Espírito Santo. Durante muitos anos ele foi para mim uma mera figura de estilo. Um avatar invisível da presença de Deus entre nós. Só muito mais tarde, já não me lembro bem como, descobri que o Espírito Santo é a inteligência de Deus em nós. É aquilo que, como diz Keshavjee, “nos transforma interiormente para que possamos reconhecer o irreconhecível”. E também conhecer o incognoscível, aceitar o inaceitável e, por algumas vezes, muito raras, dizer o indizível. O Espírito Santo será para a esmagadora maioria dos crentes, mesmo aqueles que nele não creem, a única forma cognoscível de Deus se nos manifestar. Nós, aqueles a quem Deus não interpela directamentamente, podemos contudo ouvi-Lo por vezes no nosso coração, a consolar-nos, a avisar-nos, a desafiar-nos. Eu disse por vezes e é mesmo assim, pois a maior parte do tempo é pelo seu silêncio em nós que o Espírito Santo mais se faz sentir. E, tendo já explicado como cheguei à Trindade, chego agora ao karma, que não está ali no título por mera semelhança fonética com o Carmo. O karma, a causalidade universal dos hindus e dos budistas, tal como a samsara, o desenrolar das existências, são conceitos estranhos à teologia cristã, não tanto por estarem ausentes da Palavra de Cristo, mas por serem tão estranhos ao inconformista ambiente filosófico em que o cristianismo surgiu e se desenvolveu. Talvez por isso o problema da Teodicéia, do Mal nas nossas Vidas, afasta tantos cristãos da Fé e de Deus. Mas não vou aqui falar nisso porque me falta manifestamente a bagagem intelectual para tal questão filosófica. E também porque li algures que nos foi vedado o fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal. Não, o que eu queria dizer é que acredito sinceramente que Deus nosso Pai, não pode, não quer ou não cuida de impedir que o Mal estenda a sua mão e nos toque naquilo que possuímos ou mesmo nos nossos ossos e carne (cf. Livro de Job). E nesse domínio, como noutros, somos todos iguais perante Deus. Mas acredito que Deus nos quer ajudar quando o infortúnio entra nas nossas vidas. Fazendo-nos mais fortes, mais resistentes à adversidade, mais humildes perante essa mesma adversidade. Procura criar em nós mesmos, na nossa identidade interior, pontos onde nos podemos agarrar para resistir à corrente dos acontecimentos, para não nos deixarmos ir. E, esse é o meu ponto, acredito profundamente, que é através do Espírito Santo que Ele nos pode ajudar assim. Escutemo-Lo pois. Termino citando o que escreveu Edith Stein, cidadã alemã e judia, nascida em 1891, baptizada em 1922, freira carmelita em 1935, doutorada em Filosofia, morta nas câmaras de gás de Auschwitz em 1942, Santa Teresa Benedita da Cruz desde 1998. Costumava dizer: "só entende a transcendência da Cruz quem a transporta consigo". Escutemo-la também: Espírito Santo, ó doce luz, que me envolves e iluminas as trevas do meu coração, Tu guias-me como a mão de uma mãe. Tu és o círculo que me circunda e me encerra em si. Separada de Ti eu cairia no abismo do Nada do qual me elevaste até ao Ser. Estás mais perto de mim do que eu de mim mesma. Mas ainda assim és inacessível e incompreensível. Nenhum nome te pode conter, Espírito Santo, Amor Eterno. José [GUIA DOS PERPLEXOS] As morais não são todas iguais«Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu» (Evangelho segundo S. Mateus 5, 13-16). A campanha eleitoral em curso tem o condão de unir todos os portugueses numa só prece: que acabe depressa. Uma campanha eleitoral não é um lugar de reflexão, de apresentação de propostas, de confronto de ideias. É antes um tempo de folclore, de cenários, de gritarias e de soundbytes. Não é um espaço de democracia, mas da propaganda, do marketing. Quem faz uma boa campanha, apenas prova isso mesmo: que sabe fazer campanhas. Nada mais. Assim como quem ganha eleições, apenas prova que sabe ganhar eleições. O melhor vem depois. A crise da democracia, dos valores, da participação cívica também passa por esta época tonta, em que tudo soa a falso: os comícios, as frases arrebatadas, as bandeirinhas dos partidos, a deprimente alegria dos jovens - poucas coisa são mais tristes que ver um jovem a gritar pela sigla de um partido, como se de um clube de futebol se tratasse -, o contagiante cansaço dos almoços, dos beijos, das poses. Bem ou mal, os partidos são objecto das críticas de quem não consegue ver na política um serviço nobre à comunidade. Por desilusão ou comodismo, o atávico imobilismo português vira costas aos partidos, como se fossem «todos iguais» e sem descobrir o que de bom há no empenhamento na construção dos bem colectivo. Agora, a moda é criticar o tom moralista das propostas dos partidos. O combate à evasão fiscal é um moralismo; a denúncia dos vários peculatozinhos de quem está no poder é um moralismo; a tomada de posições sobre o aborto é um moralismo; a luta pela justiça social é um moralismo; falar-se na pobreza e nos pobres é um moralismo. Como se o moralismo, isto é a presença de uma moral ou uma ética no discurso político, fosse um mal. Não é. Pelo contrário: é um resquício de integridade de quem vê a política como um serviço em prol do bem comum. Tentar expurgar os "moralismos" de uma campanha eleitoral - e da política em geral - não é inocente. Corresponde a uma visão da política que se pretende neutra, pragmática e moderna, porque chegou já ao fim da História. Mas, sob a capa da eficiência e da moderação, está também presente uma ideologia. E uma moral. Ambas perigosas. Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA] Meter a mão na massa |
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terra da alegria. 2004. |
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