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quarta-feira, novembro 9

 

Retrato de um crente que precisa de lições de triciclo.

Podia dizer de um carro. Que tem quatro rodas. Mas penso que três já chegavam, já poderiam chegar para pôr cobro ao desequilíbrio que sente sempre que anda em cima das pernas.

Não sei até onde pode ir um retrato. Sobretudo quando o retrato tem zonas de sombra sem conta. A começar porque se trata de fazer um retrato de um crente.

- As coisas podiam ser simples. Existir a Igreja, física, de pedra, betão e aço, os homens, aquilo em que acreditam. E de cima a baixo, de lado a lado, das lajes do chão às telhas do tecto, do homem de cima ao de baixo, em todos de cima e em todos de baixo, existir uma característica que desse unidade e solidez. Numa palavra: era simples se a Igreja fosse um corpo único, perfeitamente delimitado, sem fissuras, nem divergências. Mas não é.

O crente que aqui se retrata é aquele que se senta ao sábado ou ao domingo no banco da Igreja, que ouve, que se levanta, se ajoelha, reza e depois, sai. Arrependido. Comungando ou não.

- Retratar um crente é uma fonte de problemas. A começar porque um crente é um homem de fé e a fé se tem algo que pode ser retratado, por exemplo, o comportamento do paralítico, no Novo Testamento, há algo na fé, aquilo que se passa no interior do homem de fé que não vem à luz com palavras.

– Repare-se que há dois caminhos para a salvação: a fé: a tua fé te salvou; a obra: é o caso do samaritano; é o caso das palavras no meio de Mateus 25,31-46: «Então, os justos vão responder-lhe: "Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?" E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: "Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes."»

O que se passa na hora em que o crente está na Missa? – Temos tendência a usar um argumento contra o homem, para pôr em causa o empenhamento do homem religioso. Usa como razões o não cumprimento do que se propõe na vida quotidiana. Numa certa linguagem, diz-se: os valores que professa não são postos em prática. O que diz e o que anuiu na Missa não é posto em prática fora do espaço sagrado. – Mas e o que se passa na Missa? O que pode levar a acusação a pensar no templo? O que poderá ter a ver com o que se passa na Missa? Com o que se habitua a fazer na Missa?

O nosso crente não participa na hierarquia da Igreja; isto é: não é padre, nem é bispo, nem cardeal. Papa. Não participa nos diversos grupos, nas diversas associações que gravitam em torno da estrutura hierárquica. Grupos de assistência social, obras de beneficência, de oração. Outros. É numa palavra: uma ovelha. Com um adjectivo bíblico: uma ovelha perdida. Desgarrada.

- Pedro sozinho negou Cristo três vezes. Jesus sentiu necessidade que tivéssemos companhia. Por isso, enviou o Espírito Santo. O que faria o Papa sozinho? O grande místico São João da Cruz sem a comunidade dos irmãos?

- Penso que se percebe a necessidade da comunidade. Penso que há necessidade de perceber as funções da comunidade. Aqui, a função, a dimensão, da ajuda é fundamentalíssima. Sem a ajuda da comunidade, a palavra que o crente ouve, perde-se. Perde pelo menos força nos efeitos. Batemos vezes sem conta com o chicote nas costas, porque não somos capazes de ser fiéis a Cristo. Por vezes, com razão. Outras nem tanto: se não somos capazes de sermos fiéis, se somos fracos na fé, muitas das vezes isso acontece porque não temos apoio.

Pois é: pode haver quem diga que não devíamos ter necessidade de apoio. De sermos homens feitos e de barba rija. Mas não: somos bebés; criaturas fracas; ou frágeis; em todo o caso, carentes de apoio. Não o temos: trememos.

Não deveria por isso a Missa ser uma hora em que a ajuda deveria ser posta em prática? Não devia sentir o nosso crente que se ajoelha e que reza, logo ali, essa ajuda? – Como? – É pedir muito: não devia sentir o crente a permanência da ajuda? – Como?

Há sem dúvida, como na política presidencial, a necessidade de um magistério de influência da Igreja sobre a sociedade. Há, sem dúvida, um magistério de imaginação a ser executado dentro da Igreja. É preciso encontrar as fórmulas para que a comunidade funcione como uma comunidade de ajuda. Se é preciso uma “Revolução Cultural” para que cada um perceba a necessidade da ajuda, é preciso uma “Revolução da Imaginação” para que essa ajude se torne concreta.

Isto é: são precisas fórmulas concretas. Almoços, jantares, festas de anos, se não o triciclo, pelo menos aulas de condução de triciclos.


Fernando Macedo [A BORDO]

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