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quarta-feira, novembro 16

 

A palavra a um ateu: "uma ética natural — respeitada na profunda religiosidade que a anima"

Julgo que já aqui mencionei em tempos um debate entre o Cardeal Carlo Martini o ateu (ou agnóstico?) Umberto Eco. Foi através do Zé Filipe que descobri esse texto fundamental. O que se encontrava em causa nesse debate era a possibilidade da existência de uma moral não religiosa. Num debate ocorrido em Janeiro de 2004 entre o então Cardeal Ratzinger e Jürgen Habermas esse tema voltou de novo à baila embora de um modo mais periférico. Pessoalmente considero o debate entre o Cardeal Martini e Umberto Eco foi mais interessante que este último.

Por um feliz acaso, tive ocasião de reler a última carta desse debate num livro que recentemente me passou pelas mãos ("Cinco escritos morais" de Umberto Eco).

Passo em seguida um excerto dessa carta escrita por Umberto Eco.

Para a semana espero colocar aqui a carta do Cardeal Carlo Maria Martini que deu origem a esta resposta de Umberto Eco.

"Mas diz que, sem o exemplo e a palavra de Cristo, a toda a ética laica faltaria uma justificação de fundo que tenha uma força de convicção iniludível. Para quê tirar ao laico o direito de se valer do exemplo de Cristo que perdoa? Procure, Carlo Maria Martini, para bem da discussão e do confronto em que acredita, aceitar nem que seja por um só instante a hipótese de que Deus não existe: que o homem aparece na Terra por um erro do desastrado acaso, entregue à sua condição de mortal, não só, mas condenado a ter disso consciência, e seja portanto imperfeitíssimo entre todos os animais (e permita-me o tom leopardiano desta hipótese). Este homem, para encontrar a coragem de esperar a morte, tornar-se-ia necessariamente animal religioso, e aspiraria a construir narrações capazes de lhe fornecerem uma explicação e um modelo, uma imagem exemplar. E entre as muitas que consegue imaginar — umas fulgurantes, outras terríveis, outras pateticamente consoladoras — atingindo a plenitude dos tempos tem a certa altura a força, religiosa, moral e poética, de conceber o modelo do Cristo, do amor universal, do perdão aos inimigos, da vida oferecida em holocausto para a salvação dos outros. Se eu fosse um viajante provindo de longínquas galáxias e me encontrasse perante uma espécie que soube propor este modelo, admiraria subjugado tanta energia teogónica, e julgaria esta espécie miserável e infame, que cometeu tantos erros, redimida só pelo facto de ter conseguido desejar e crer que tudo isso seja a verdade.

Abandone agora a hipótese e deixe-a a outros: mas admita que se Cristo fosse só o objecto de um grande conto, o facto de este conto poder ter sido imaginado e desejado por bípedes implumes que só sabem que nada sabem, seria igualmente miraculoso (miraculosamente misterioso) que o facto de o filho de um Deus real se ter realmente encarnado. Este mistério natural e terreno não deixaria de perturbar e enobrecer o coração de quem não crê.

Por isso considero que, nos seus pontos fundamentais, uma ética natural — respeitada na profunda religiosidade que a anima — poderá encontrar-se com os princípios de uma ética assente na fé na transcendência, que não pode deixar de reconhecer que os princípios naturais foram esculpidos no nosso coração com base num programa de salvação. Se permanecerem, como decerto permanecerão, margens não sobreponíveis, não será diferente do que acontece no encontro entre religiões diferentes. E nos conflitos de fé deverão prevalecer a caridade e a prudência.


Timshel [TIMSHEL]

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