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quarta-feira, novembro 23

 

Lógica e vazio

Como tinha prometido a semana passada, esta semana tinha a intenção de aqui transcrever a carta do Cardeal Carlo Maria Martini que deu origem à carta escrita por Umberto Eco (da qual extraí o excerto publicado a semana passada). Ela parece-me contudo demasiado longa para um post e não consegui descobrir excertos que pudesse cortar sem danificar irremediavelmente o sentido e a força geral deste texto. Resolvi por isso colocar hoje aqui apenas a primeira parte dessa carta e para a semana colocar o resto dessa carta.


"Caro Eco,

eis-me com a pergunta que tinha em mente fazer-lhe já na última carta e que já lhe havia antecipado. Ela refere-se ao fundamento último da ética para um leigo, no quadro “pós-moderno”. Ou seja, concretamente: em que se baseia a certeza e imperatividade de seu agir moral que não pretende fazer apelo, para fundar o absolutismo de uma ética, a princípios metafísicos ou, de qualquer modo, a valores transcendentes ou sequer a imperativos categóricos universalmente válidos?

Em palavras mais simples (pois alguns leitores lamentaram-se comigo de que os nossos diálogos são demasiado difíceis), que razões dão para seu agir aqueles que pretendem afirmar e professar princípios morais que podem exigir o sacrifício da vida, mas não reconhecem um Deus pessoal?

Ou ainda: como posso chegar, prescindindo do apelo a um Absoluto, a dizer que não devo realizar certas acções de modo algum, a preço nenhum e que outras, no entanto, devem ser realizadas custe o que custar?

(...)

Certamente que eu gostaria muito que todos os homens e as mulheres deste mundo, mesmo aqueles que não crêem em Deus, tivessem claros fundamentos éticos para operar com rectidão e agissem em conformidade com eles.

Estou convencido também de que existem não poucas pessoas que agem com rectidão, pelo menos nas circunstâncias ordinárias da vida, sem fazer referência a um fundamento religioso da existência humana. Sei igualmente que existem pessoas que, mesmo sem acreditar num Deus pessoal, chegaram a dar a própria vida para não se desviarem de suas convicções morais. Mas não consigo compreender que justificação última dão para o seu agir.

É claro e óbvio que uma ética “laica” também pode encontrar e reconhecer, de facto, valores e normas válidos para uma recta convivência humana. Com efeito, é assim que nascem muitas legislações modernas. Mas para que o fundamento dos valores não sofra confusão ou incerteza, sobretudo nos casos limite, e eles não sejam compreendidos simplesmente como costumes, convenções, usos, comportamentos funcionais ou úteis ou necessidades sociais, mas assumam o valor de um absoluto moral propriamente dito, é necessário um fundamento que não esteja ligado a nenhum princípio mutável ou negociável.

E isto sobretudo quando não estamos no território das leis civis ou penais, mas andamos para além e entramos na esfera das relações interpessoais, das responsabilidades que cada um tem em relação a seu próximo, responsabilidades estas que vão para além da lei escrita e que se colocam na esfera da gratuidade e da solidariedade.

Ao interrogar sobre a insuficiência de um fundamento puramente humanista, não gostaria de perturbar a consciência de ninguém, mas apenas tentar compreender o que acontece por dentro, no nível das razões de fundo, também para que se possa promover uma colaboração mais intensa sobre temas éticos entre crentes e não crentes.

É sabido, de facto, que entre as grandes religiões se está construído um caminho comum de diálogo e de confronto, ainda nos seus primórdios, para a afirmação de princípios éticos partilhados por todos. Deste modo, pretende-se não apenas extirpar as raízes de qualquer conflito religioso entre os povos, mas também servir de maneira mais eficaz à promoção do homem. Mas mesmo com todas as dificuldades históricas e culturais que tal diálogo comporta, isso está sendo possível pelo facto de que todas as religiões têm, embora em modalidades diversas, um Mistério transcendente como fundamento de um agir moral. Assim, conseguiu-se individualizar uma série de princípios gerais e de normas de comportamento em que cada religião se pode reconhecer e com os quais pode cooperar num esforço comum, sem negar nenhuma de suas crenças. Efectivamente, “a religião pode fundamentar de modo inequívoco porque razão a moral, as normas e os valores éticos devem vincular incondicionalmente (e não apenas quando é cómodo) e, portanto, universalmente (para todas as pessoas qualquer que seja a sua classe ou raça). O humano é mantido exactamente porque é concebido como fundado no divino. Tornou-se claro que somente o incondicionado pode obrigar de maneira absoluta, somente o Absoluto pode vincular de maneira absoluta” (Hans Küng, Progetto per un’etica mondiale, Milão, Rizzoli, 1991, p. 116).

Seria possível um diálogo semelhante, sobre temas éticos, também na relação entre crentes e não crentes, em particular entre católicos e leigos? Tenho me esforçado para captar nas expressões de alguns leigos algo que seja válido como razão profunda, e de algum modo absoluta, de seu agir moral. Por exemplo, muito me interessou a razão que alguns usam para fundamentar o dever da proximidade e da solidariedade, mesmo sem recorrer a um Deus Pai e Criador de todos e a Jesus Cristo nosso irmão. Parece-me que eles se exprimem mais ou menos assim: o outro está em nós! Está em nós distinguir o modo como o tratamos, pelo fato de o amarmos, odiarmos ou de que nos seja indiferente.

Parece-me que para uma parte do pensamento laico este conceito do outro em nós revela-se como o fundamento essencial de qualquer ideia de solidariedade. Isso toca-me muito, sobretudo quando o vejo funcionar na prática para estimular obras de solidariedade até mesmo para com o distante, o estrangeiro.

Toca-me também porque, à luz das reflexões crentes de São Paulo sobre o único Corpo do qual todos somos membros (cfr. I Carta aos Coríntios, cap. 12 e Carta aos Romanos, cap. 12,), ele assume um forte realismo e pode ser lido como uma chave de fé cristã. Mas eu pergunto-me justamente se a leitura laica, que não tem esse fundamento de fundo, tem uma força de convicção iniludível e pode sustentar, por exemplo, o perdão aos inimigos. De facto, parece-me que, sem o exemplo de Jesus Cristo que da cruz perdoou aos seus crucificadores, mesmo as tradições religiosas se encontrariam em dificuldade sobre este último ponto. O que dizer então de uma ética laica?"

(continua na próxima semana)


Timshel [TIMSHEL]

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