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quarta-feira, novembro 9

 

Islamismo? Ou ateísmo?

Os acontecimentos em França interpelam-nos. O que se passa na cabeça daqueles milhares de jovens? O que se passou na sua vida até este momento?

O
Zé Filipe, num momento particularmente feliz, lembrou-se de colocar aqui na segunda-feira passada a tradução da declaração dos bispos franceses a respeito deste acontecimentos.

Os bispos questionam-se: "Devemos interrogar-nos sobre o que pode estar na génese de tal espiral de violência nas nossas zonas de grande densidade populacional. A urbanização recente, as dificuldades em encontrar emprego entre os jovens, a instabilidade na vida familiar são frequentemente evocadas. Porém, parece-nos que a repressão e a incitação ao medo colectivo não são uma resposta à altura destas tensões dramáticas da nossa sociedade."

Num momento em que Lisboa é a capital da Nova Evangelização, convém lembrar as palavras do Cardeal-Patriarca a este propósito: "Para evangelizar é preciso aprender a amar".

E para amar é preciso compreender. É isso que fazem os bispos franceses. Eles (ao contrário dos iluminados neoliberais da nossa praça que sabem as soluções para tudo) interrogam-se e interrogam-nos.

Embora a realidade social do que se passa em França tenha muitos pontos em comum com o que se passa noutros pontos da Europa e não seja de excluir portanto que o fenómeno alastre não deixa de ser curioso que o fenómeno, até agora (salvo pequenos incidentes esporádicos em Berlim e Bruxelas cuja origem não foi possível determinar com exactidão), se tenha circunscrito ao interior das fronteiras francesas.

Porque razão as pessoas oriundas dos mesmos meios e das mesmas comunidades que vivem do outro lado da fronteira, na Suiça, na Itália, na Bélgica, no Luxemburgo, na Alemanha não se incendiaram também?

O
Lutz já aventou algumas explicações ao nível do urbanismo e da integração no espaço urbano.

Numa televisão vi um especialista em criminologia referir que, dado o alto nível de violência a que se chegou nesses bairros degradados, é absolutamente necessário intervir simultaneamente ao nível da prevenção e da repressão, e isso exige dinheiro para se construir um sólido sistema de informações bem estruturado e integrado nessas comunidades. Um serviço de informações que permita intervenções preventivas de modo a impedir a ocorrência de actos criminosos e um serviço de informações que permita um repressão eficaz e perfeitamente limitada aos agentes criminoso (a expressão que ele utilizou foi "microcirurgia"…).

Mas, por detrás de todas estas explicações que radicam numa estrutural falta de fundos para apoiar estas comunidades, existe um estado de espírito muito próprio da França e que está ligado à falta de fundos e à indiferença subjacente a esta falta de fundos para as questões sociais mais gritantes. É o neoliberalismo na sua forma mais perversa, aquela em que o neoliberalismo se mistura com o corporativismo e o proteccionismo: existe dinheiro do estado para tudo e para todos menos para aqueles que mais precisam.

A França é o paraíso do laicismo. Uma verdadeira ilha no meio de países que conseguem aliar, normalmente de modo bastante proporcionado, a igreja, a sociedade e o estado.

Em França a religião do Estado é o ateísmo e a filosofia deste estado é (consequentemente) o relativismo moral. Este relativismo moral, que no início apareceu com boas intenções, apenas como uma forma de tolerância, impregnou venenosamente de um modo lento mas sistemático o estado e as consciências. A indiferença, a consequência mais óbvia e frequente do relativismo moral, tornou-se o comportamento dominante: toda a gente com responsabilidade e poder para mudar aquele estado de coisas se esteve nas tintas.
O ateísmo e o seu irmão gémeo, o relativismo moral, foram o estrume que adubou a indiferença, a demissão e o cinismo. Este estrume permitiu o vicejar florescente de uma cultura tipicamente francesa de xenofobia, de arrogância, de autoritarismo, de pedantismo, de pretensiosismo e de profundo desprezo por tudo o que não seja chic e cheio de dinheiro.

Nesta crise total de valores em que o ateísmo e o relativismo moral enterraram o estado e a sociedade franceses, a legitimidade moral foi substituída pela legitimidade do poder dos lobbies e das corporações. O actual "estado social" francês não tem nada a ver com a protecção aos mais desfavorecidos mas com proteccionismos aberrantes. É por isso que ao lado do neoliberalismo mais selvagem se encontra na sociedade francesa um pseudo-estado-social feito para proteger os mais fortes (aliás este tipo de neoliberalismo proteccionista e corporativista encontra-se também muito enraizado nos EUA).

Os discursos dentro da Igreja que visam a menorizar a luta ideológica contra o relativismo em nome do combate individual pela felicidade do nosso irmão esquecem que o homem é um animal social que vive numa comunidade que se organiza politicamente. E quando se esquece o combate político, o combate individual quotidiano e concreto pela felicidade do nosso irmão pode tornar-se muito mais difícil. Os dois combates são igualmente importantes.

Diziam-me os meus pais quando eu era pequeno que, se não me educassem, mais tarde seria a vida a "educar-me" pela pior maneira. E só se educa realmente com amor. Numa família como numa sociedade. Quando não existiu amor, mais tarde ou mais cedo estamos no reino da força (mesmo que enquanto medida de auto-defesa). É por isso que acho completamente despropositado da parte da esquerda francesa vir agora insurgir-se contra o estado de urgência e o recolher obrigatório que foi declarado. Agora, meus amigos, já é tarde de mais. Se não fosse a democracia a impôr estas medidas, seria num futuro bem próximo a extrema-direita que as implementaria de um modo muito mais irracional.

A pergunta que dá o título a este post tem portanto uma resposta simples. Qualquer destas crenças (ou qualquer crença), quando não inspirada no amor e pelo amor é fonte de violência (directa ou indirecta).


Timshel [TIMSHEL]

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