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segunda-feira, novembro 21

 

“Desafios às religiões num mundo pluralista e desigual”

Por falta de tempo, outros serviços e obrigações se sobrepõem, não posso continuar o tema que iniciei na semana passada. Vou então, transcrever um artigo do Frei Betto, dominicano, publicada na agência Adital (http://www.adital.com.br/). Como largamente me identifico com o tema, aqui fica. Espero que disfrutem e sirva para melhor descobrirmos, crentes e não-crentes, que a nossa vida só adquire verdadeiro sentido, se for orientada para a cooperação, a solidariedade, enfim a comunhão.


“Uma das características da modernidade é o pluralismo religioso. Exige, da parte de todos nós, crentes e não-crentes, a virtude da tolerância. Deus não tem religião. A religião é expressão espiritual, cultural, litúrgica, de uma comunidade na sua relação com o transcendente. Com o fim do período medieval, encerrou-se também a possibilidade de uma determinada crença religiosa impor-se às demais através do poder político ou militar.
Ainda assim perduram em quase todas as religiões grupos fundamentalistas que alimentam preconceitos e discriminações em razão de diferenças teológicas, litúrgicas ou históricas. Negam o carácter laico do Estado e dos partidos políticos, e confundem evangelização com imposição, brandindo mais o anátema que o amor.
Jesus foi o mestre da tolerância religiosa. Jamais condicionou uma cura ou milagre à prévia adesão à sua fé. Engana-se quem pensa que, no tempo de Jesus, havia uma única religião num Deus único. Como hoje, predominava o mais eclético sincretismo. Antíoco Epífanes havia introduzido, em 167 a.C., a imagem de Dionísio no templo de Jerusalém (2 Macabeus 6,7). estavam vivas as religiões cananeias, asiáticas e greco-romanas, que contavam inclusive com adeptos hebreus. O imperador romano era deificado. Seu culto público havia sido regulamentado por Augusto.

Segundo o evangelho de João (4, 46-54), Jesus encontrava-se em Caná, na Galileia, quando foi abordado por “um funcionário real, que se encontrava em Cafarnaum”. E, ao contrário do centurião, que não se considerou digno de receber o Mestre em sua casa, em Caná o enfermo foi curado sem que Jesus fosse vê-lo. “Vai, teu filho vive”.
O centurião não quis que Jesus viesse a sua casa porque bem sabia que os judeus eram proibidos de entrar na casa dos pagãos. E Jesus ressaltou a fé daquele pagão, a ponto de exclamar: “Em Israel não achei ninguém que tivesse tal fé”. Do mesmo modo, curou a mulher cananéia (Mateus 15, 21-28) e repôs no lugar a orelha de Malco, servo do Sumo Sacerdote (João 18,10). Fez o gesto de amor sem pedir ao centurião, à mulher cananéia e a Malco que abandonassem as suas convicções religiosas.

Tolerância é a capacidade de aceitar o diferente. Não confundir com o divergente. Intolerância é não suportar a pluralidade de opiniões e posições, crenças e ideias, como se a verdade fizesse morada em mim e todos devessem buscar a luz sob o meu tecto.
Conta a parábola que um pregador reuniu milhares de chineses para pregar-lhes a verdade. Ao final do sermão, em vez de aplausos houve um grande silêncio. Até que uma voz se levantou do fundo: “O que o senhor disse não é a verdade”. O pregador indignou-se: “Como não é verdade? Eu anunciei o que foi revelado pelos céus!” O objectante retrucou: “Existem três verdades. A do senhor, a minha e a verdade verdadeira. Nós dois, juntos, devemos buscar a verdade verdadeira”.

Só os intolerantes se julgam donos da verdade. Todo o intolerante é um inseguro. Por isso, aferra-se a seus caprichos como um náufrago à tábua que o mantém à tona. Não é capaz de ver o outro como outro. A seus olhos, o outro é um concorrente, um inimigo. Ou um potencial discípulo que deve acatar docilmente as suas opiniões.

O tolerante evita colonizar a consciência alheia. Admite que, da verdade, ele apreende apenas alguns fragmentos, e que só pode ser alcançada por esforço comunitário. Reconhece no outro a alteridade radical, singular, que jamais deve ser negada.
O perfil do tolerante é descrito por Paulo no Hino ao Amor da 1ªcarta aos Coríntios (13, 4-7): “É paciente e prestativo, não é invejoso nem ostenta, não se incha de orgulho e nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, nem guarda rancor. Não se alegra com a injustiça e se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

Tolerância não é o sinónimo de tolice. O tolerante não desaba tempestade em copo d'água, e jamais cede quando se trata de defender a justiça, a dignidade e a honra, bem como o direito de cada um ter seus princípios e agir conforme a sua consciência. Desde que isso não resulte em opressão ou exclusão, humilhação ou morte.

Das intolerâncias, a mais repugnante é a religiosa, pois divide o que Deus uniu, incentiva disputas e guerras, dissemina ódio em vez de amor. Só o amor torna um coração verdadeiramente tolerante. Porque quem ama não contabiliza acções e reacções do ser amado e faz da sua vida um gesto de doação.


A vida, dom maior de Deus

Vivemos num mundo desigual, marcado por guerras e sofrimentos. Segundo a ONU, de seus 6,3 bilhões de habitantes, 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza. Há 824 milhões de pessoas sobrevivendo na insegurança alimentar, que provoca 24 mil mortes por dia.
Dos 30 países ricos membros da OCDE, para cada US$1 destinado à cooperação internacional, eles desembolsam US$10 para actividades militares. O dado é do Relatório do Desenvolvimento Humano, ONU/2005.

Em 2000 foram gastos em armamentos US$524 bilhões. Em 2003, pós-11 de setembro, US$642 bilhões. Aumento de 25%. E foi destinado à cooperação com as nações mais pobres apenas US$69 bilhões. Ou seja, 10% do que se aplicou em armas.

A vida é o maior dom de Deus. No Evangelho, duas perguntas são feitas a Jesus. A primeira, que nunca aparece na boca de um pobre, é: “Senhor, o que devo fazer para ganhar a vida eterna?” É o que interessa ao doutor da Lei na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10, 25-27) e ao homem rico (Marcos 10, 17-22). Os dois já tinham assegurado a vida terrena.

A segunda pergunta sempre aparece na boca dos pobres: “Senhor, o que fazer para ter vida nesta vida? A minha mão está seca e quero trabalhar; meu olho é cego e quero enxergar; meu filho está doente e quero-o com saúde; meu irmão está morto e rogo que o devolva à vida”. A quem pede vida na outra vida, Jesus responde com ironia e desafios. Aos que foram injustamente privados de condições de vida nesta vida, ele responde com misericórdia e bençãos.

Hoje, a morte ronda o mundo. Além do terrorismo e das guerras, da fome e das epidemias, da violência e das catástrofes naturais, ainda não somos capazes de ver no rosto de cada árabe, judeu, africano ou asiático, de cada criança da América Latina, de cada indígena ou negro, a imagem e semelhança de Deus.

Jesus veio até nós para “Que todos tenham vida e em abundância” (João 10,10). Eis a missão que nos desafia neste mundo plural e desigual: cultivar a tolerância e o diálogo inter-religioso; não fazer da diferença divergência; amar como Jesus amou, sem pedir atestado de convicção religiosa; erradicar as causas da fome e da pobreza; fazer com que o pão seja verdadeiramente nosso, e não só meu ou seu, para que o Pai possa sinceramente ser proclamado Pai-Nosso; e lutar pela paz, que jamais virá como resultado da imposição das armas, e sim como assinalou, há 2.800 anos, o profeta Isaías: só haverá paz como fruto da justiça (32,17).”

Maria da Conceição (
JARDIM DE LUZ)

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