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quarta-feira, novembro 30

 

As raízes do amor

Passo a transcrever a segunda parte da carta do Cardeal Carlo Maria Martini que deu origem à resposta de Umberto Eco de onde foi extraído o excerto aqui colocado há duas semanas. Recorde-se que a primeira parte da carta do Cardeal Carlo Maria Martini a Umberto Eco foi aqui publicada a semana passada.


"Reconheço, portanto, que existem muitas pessoas que agem de maneira eticamente correcta e que muitas vezes realizam actos de elevado altruísmo sem ter ou dar-se conta de ter um fundamento transcendente para seu agir, sem ter como referência nem um Deus criador, nem o anúncio do Reino de Deus com suas consequências éticas, nem a morte, a ressurreição de Jesus Cristo e o dom do Espírito Santo, nem sua promessa de vida eterna: com efeito, é deste realismo que eu deduzo a força daquelas convicções éticas que gostaria, em minha debilidade, que fossem sempre a luz e a força de meu agir. Mas quem não faz referência a estes ou a princípios análogos, onde encontra a luz e a força para operar o bem não apenas em circunstâncias fáceis, mas também naquelas que colocam as forças humanas à prova até seu limite e, sobretudo, naquelas que as colocam diante da própria morte?

Por que o altruísmo, a sinceridade, o respeito pelos outros, o perdão dos inimigos são sempre um bem e devem ser preferidos, mesmo ao preço da própria vida, a comportamentos contrários? E como fazer para decidir com certeza, nos casos concretos, o que é altruísmo e o que não é? E se não há um grande fundamento último e sempre válido para tais comportamentos, como é praticamente possível que estes sejam sempre prevalentes, que sejam sempre vencedores? Se mesmo aqueles que dispõem de argumentos fortes para um comportamento ético têm dificuldades para agir em conformidade com eles, o que dizer daqueles que só dispõem de argumentos fracos, incertos e vacilantes?

Tenho dificuldades em distinguir como uma existência inspirada nestas normas (altruísmo, sinceridade, justiça, solidariedade, perdão) pode sustentar-se a longo prazo e em qualquer circunstância se o valor absoluto da norma moral não está fundado em princípios metafísicos ou em um Deus pessoal.

É muito importante que exista um terreno comum a leigos e crentes no plano da ética, para que possam trabalhar juntos para a promoção do homem, para a justiça e para a paz. É óbvio que o apelo à dignidade humana é um princípio que funda um sentir e um operar comuns: nunca usar o outro como instrumento, respeitar em qualquer caso e sempre a sua inviolabilidade, considerar sempre cada pessoa como realidade indisponível e intangível.

Mas aqui também, a um certo ponto, pode-se perguntar qual seria o fundamento último destes princípios. O que funda, de facto, a dignidade humana senão o facto de que cada ser humano é uma pessoa aberta para algo de mais alto e maior do que ela própria? Só assim se pode impedir que ela fique circunscrita a termos estritamente mundanos e garantir-lhe uma indisponibilidade que nada pode colocar em questão.

Tenho, portanto, multa vontade de aprofundar tudo o que possa permitir uma acção comum entre crentes e não crentes no plano da promoção da pessoa. Mas sei também que, quando não há acordos sobre os princípios últimos, antes ou depois, em particular quando se trata de casos limite e problemas fronteiriços, sucede algo que mostra que existem divergências de fundo. A colaboração torna-se, então, mais difícil e muitas vezes emergem juízos éticos contrastantes sobre pontos nodais da vida e da morte.

Como fazer então? Proceder juntos com modéstia e humildade sobre os pontos em que há acordo, esperando que não surjam razões de diferença e atrito? Ou buscar, juntos, aprofundar as razões pelas quais há efectivamente acordo sobre pontos gerais — por exemplo sobre os temas da justiça, da paz, da dignidade humana — de modo que se atinja as razões não ditas que estão por trás das escolhas quotidianas e nas quais se revela, nesse momento, a não coincidência de fundo, ou, talvez, a possibilidade de ir além de cepticismos e agnosticismos, em direcção a um “Mistério” no qual confiar, pois deste confiar nasce também a possibilidade de fundar um agir comum para um mundo mais humano?

É sobre este tema apaixonante que gostaria de ler as suas reflexões. De facto, a discussão de problemas éticos particulares leva sempre, no final, às perguntas sobre os fundamentos. Parece-me, portanto, que vale a pena interrogarmo-nos também sobre temas como este para trazer ao menos um pouco de clareza sobre aquilo que cada um pensa e para compreender melhor o ponto de vista do outro."


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