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quarta-feira, novembro 2

 

Acerca da alternativa

Não podemos estar continuadamente a reflectir sobre as nossas acções; se estivermos a reflectir sobre o movimento, por exemplo, uma acção trivial, os passos que damos, e essa reflexão for produtora de análise, é evidente que se estivermos permanentemente a dissecar os factores do passeio, há um sério risco de darmos um trambolhão. De modo análogo, mas talvez de modo mais angustiado, não podemos estar continuadamente a reflectir e menos ainda a pôr em causa os nossos princípios de acção. Se o marido estiver permanentemente a pôr em causa os princípios morais que norteiam o seu comportamento com a esposa, mesmo que as suas intenções sejam as melhores, por exemplo, procurar a melhor relação possível, há no ar um sério risco de divórcio. A começar porque mudando de posição valorativa de segundo para segundo, de hora para hora, tornará impossível a existência de um leque de expectativas de comportamento, suficientemente estável, necessário a qualquer relação. Por isso, há que parar. Quando o homem se aproxima de Cristo e lhe pergunta se amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo é o suficiente para garantir a vida eterna, a resposta é “é” e o conselho “faz”. No entanto, isso não invalida que se temos de parar, se parte da nossa vida se faz em paragem, não tenhamos ainda assim de caminhar. E que a reflexão e o questionamento não tenham uma função na nossa vida e que essa função não seja uma função que deva ser muito valorizada. Não invalida de igual modo que os momentos de crise, por muito dolorosos que sejam, não sejam muitas vezes os mais seminais.
Num trajecto místico, que aqui é apenas considerado como um indicador com interesse para uma análise dos nossos momentos pessoais, os seus três primeiros momentos dizem-nos que após o primeiro chamamento, somos obrigados a confrontar-nos com a nossa história. O que fizemos no passado e o que esse passado fez de nós. Somos obrigados a tomar consciência das tensões que nos percorreram e o modo como essas tensões ganharam corpo em nós. Obrigados a consciencializar o modo como essas tensões se cristalizaram em intenções, acções pessoais, situações em que fomos envolvidos. Esse momento é um tempo de crise. Porque a imagem adquirida que tínhamos do passado é subitamente dilacerada por uma série de intenções e de acções divergentes. Porque nos apercebemos no passado de um conjunto de intenções que seria difícil de supor. Porque o surgimento dessas intenções arrasta consigo a lembrança de actos que queríamos afastados da memória. O apelo confronta-nos então com aquilo que no passado dele nos afastou, confronta-nos também com aquilo que no passado o mascarou. Andando para trás, o apelo produz dissonância. Por isso, leva à crise, à dor, ao sofrimento. É um período de intensa dor. Mas também um período fecundo. Entretanto, não deixa de ser curioso, que se o momento seguinte é um momento de apaziguação, do lento retomar de novas rotinas nas intenções e nas práticas, o momento que se lhe segue é um momento que retoma de novo o reino da incerteza.
Tudo isto porquê? – Porque precisamos de ter consciência de que os momentos e os modos como nos avaliamos, como agimos, como avaliamos os que os outros pensam e fazem, grupos, associações e instituições, as Igrejas e a Igreja Católica é também caso, inserem-se num fluxo dinâmico. Que necessita de fases de abertura de destinos. Mas que necessita também de fases de paragem. Isto joga de algum modo contra a cultura do tempo que enfatiza a crise e também contra a cultura que faz da certeza, da solução e da estabilidade o que há que contrapor como alternativa.

Fernando Macedo [A BORDO]

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