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quarta-feira, novembro 30

 

As raízes do amor

Passo a transcrever a segunda parte da carta do Cardeal Carlo Maria Martini que deu origem à resposta de Umberto Eco de onde foi extraído o excerto aqui colocado há duas semanas. Recorde-se que a primeira parte da carta do Cardeal Carlo Maria Martini a Umberto Eco foi aqui publicada a semana passada.


"Reconheço, portanto, que existem muitas pessoas que agem de maneira eticamente correcta e que muitas vezes realizam actos de elevado altruísmo sem ter ou dar-se conta de ter um fundamento transcendente para seu agir, sem ter como referência nem um Deus criador, nem o anúncio do Reino de Deus com suas consequências éticas, nem a morte, a ressurreição de Jesus Cristo e o dom do Espírito Santo, nem sua promessa de vida eterna: com efeito, é deste realismo que eu deduzo a força daquelas convicções éticas que gostaria, em minha debilidade, que fossem sempre a luz e a força de meu agir. Mas quem não faz referência a estes ou a princípios análogos, onde encontra a luz e a força para operar o bem não apenas em circunstâncias fáceis, mas também naquelas que colocam as forças humanas à prova até seu limite e, sobretudo, naquelas que as colocam diante da própria morte?

Por que o altruísmo, a sinceridade, o respeito pelos outros, o perdão dos inimigos são sempre um bem e devem ser preferidos, mesmo ao preço da própria vida, a comportamentos contrários? E como fazer para decidir com certeza, nos casos concretos, o que é altruísmo e o que não é? E se não há um grande fundamento último e sempre válido para tais comportamentos, como é praticamente possível que estes sejam sempre prevalentes, que sejam sempre vencedores? Se mesmo aqueles que dispõem de argumentos fortes para um comportamento ético têm dificuldades para agir em conformidade com eles, o que dizer daqueles que só dispõem de argumentos fracos, incertos e vacilantes?

Tenho dificuldades em distinguir como uma existência inspirada nestas normas (altruísmo, sinceridade, justiça, solidariedade, perdão) pode sustentar-se a longo prazo e em qualquer circunstância se o valor absoluto da norma moral não está fundado em princípios metafísicos ou em um Deus pessoal.

É muito importante que exista um terreno comum a leigos e crentes no plano da ética, para que possam trabalhar juntos para a promoção do homem, para a justiça e para a paz. É óbvio que o apelo à dignidade humana é um princípio que funda um sentir e um operar comuns: nunca usar o outro como instrumento, respeitar em qualquer caso e sempre a sua inviolabilidade, considerar sempre cada pessoa como realidade indisponível e intangível.

Mas aqui também, a um certo ponto, pode-se perguntar qual seria o fundamento último destes princípios. O que funda, de facto, a dignidade humana senão o facto de que cada ser humano é uma pessoa aberta para algo de mais alto e maior do que ela própria? Só assim se pode impedir que ela fique circunscrita a termos estritamente mundanos e garantir-lhe uma indisponibilidade que nada pode colocar em questão.

Tenho, portanto, multa vontade de aprofundar tudo o que possa permitir uma acção comum entre crentes e não crentes no plano da promoção da pessoa. Mas sei também que, quando não há acordos sobre os princípios últimos, antes ou depois, em particular quando se trata de casos limite e problemas fronteiriços, sucede algo que mostra que existem divergências de fundo. A colaboração torna-se, então, mais difícil e muitas vezes emergem juízos éticos contrastantes sobre pontos nodais da vida e da morte.

Como fazer então? Proceder juntos com modéstia e humildade sobre os pontos em que há acordo, esperando que não surjam razões de diferença e atrito? Ou buscar, juntos, aprofundar as razões pelas quais há efectivamente acordo sobre pontos gerais — por exemplo sobre os temas da justiça, da paz, da dignidade humana — de modo que se atinja as razões não ditas que estão por trás das escolhas quotidianas e nas quais se revela, nesse momento, a não coincidência de fundo, ou, talvez, a possibilidade de ir além de cepticismos e agnosticismos, em direcção a um “Mistério” no qual confiar, pois deste confiar nasce também a possibilidade de fundar um agir comum para um mundo mais humano?

É sobre este tema apaixonante que gostaria de ler as suas reflexões. De facto, a discussão de problemas éticos particulares leva sempre, no final, às perguntas sobre os fundamentos. Parece-me, portanto, que vale a pena interrogarmo-nos também sobre temas como este para trazer ao menos um pouco de clareza sobre aquilo que cada um pensa e para compreender melhor o ponto de vista do outro."


Timshel [
TIMSHEL]

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Em defesa do relativismo [notas para uma provocação]

Alinhei mentalmente por estes dias algumas ideias em defesa do relativismo, uma óbvia provocação aos meus companheiros da Terra, para quem peço a indulgência. Ao leitor, mais ou menos ocasional, rogo paciência ou pelo menos a indiferença, perante o amontoado de nomes feios...

- Gostava de viver uma igreja sem celibato.
- Gostava de viver uma igreja com as mulheres também no altar a celebrar como presbíteras.
- Gostava de viver uma igreja em que o sexo não é crime ou pecado.
- Gostava de viver uma igreja em que a secularização não é inimiga.
- Gostava de viver uma igreja em que todos são iguais perante Deus, independentemente de género, raça ou orientação sexual.
- Gostava de viver uma igreja que pega no megafone para protestar contra salários de miséria ou a pobreza das arcadas e que não abra a boca só porque um crucifixo caiu da parede ou a barriga é de todos.
- Gostava de viver uma igreja que rejeita o abuso sexual de menores, mas não tem medo de entregar os que prevaricam ou pecam, sem confundir com a homossexualidade, que é de outro reino.
- Gostava de viver uma igreja que é deste mundo, sem medo de se parecer demasiado com este mundo.
- Gostava de viver uma igreja que é de homens e mulheres.
- Gostava de viver uma igreja que não expulsa os que rezam de modo diferente ou que afasta quem não caminha na procissão das velas.
- Gostava de viver uma igreja que fosse Igreja.

Miguel Marujo [
CIBERTÚLIA]

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segunda-feira, novembro 28

 

Ser Igreja – um desafio permanente! (parte 2)

Retomo o tema, e trago à reflexão mais algumas pistas para irmos descobrindo o caminho de “ser Igreja”. Sabendo que - “o caminho são os passos que damos”.

A partir do século IV depois de Cristo, a Igreja que antes se reunia nas catacumbas para escapar à perseguição do império romano, cede lugar à Igreja das massas, que se reune em grandes templos, e celebra liturgias pomposas.

O Concílio Ecuménico Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII (1962-1965) foi um marco decisivo e importante para que a Igreja retomasse a sua missão, a fidelidade ao Evangelho (Boa Nova) que liberta e traz vida plena para todos. A reforma litúrgica, foi um dos aspectos mais visíveis. Saliento como ponto marcante o uso do vernáculo na liturgia e o acesso à Palavra. A leitura da Bíblia que estava vedada ao comum dos crentes, passou a estar disponível e acessível. Mas ainda hoje, há uma devoção acentuada em relação à comunhão das Espécies Eucarísticas, que a Igreja promove com festas litúrgicas como o “Corpo de Deus”, as procissões do “Santíssimo Sacramento”, as “Exposições do Santíssimo Sacramento”, mas uma desvalorização em relação à Palavra proclamada. Em cada Eucaristia, alimentamo-nos com o “Pão Sagrado” mas também, de igual modo, da Liturgia da Palavra. É uma única e mesma “refeição”.

Não consigo deixar de pensar, de cada vez que participo em alguma celebração litúrgica, sobretudo, na celebração da Eucaristia, como todo aquele ritual, me parece despropositado, excessivo, nada de acordo com o simples rito de partir o pão com que Jesus Cristo instituiu a Eucaristia.
Na Ceia, Jesus com um grupo de amigos, fora do Templo, comporta-se como verdadeiro pai de família. Antes de começarem a refeição, lava os pés dos irmãos. Celebram a Páscoa segundo o rito judaico. O ambiente é de intimidade, partilha, comensalidade. Era uma reunião familiar, onde não havia sacerdote.
Como será possível trazer para o nosso “ser Igreja” estas características de fraternidade, de proximidade que caracterizavam as primeiras comunidades?
Em primeiro lugar creio que é fundamental uma conversão efectiva de cada cristão e da Igreja no seu todo. Há que aprofundar o sentido do Baptismo e da co-responsabilidade de todos no caminhar da Igreja. Cada baptizado tem de ser incentivado, a perceber e viver o sentido de pertença à Igreja – a família dos amigos íntimos de Cristo – e não a instituição a que por tradicionalismo se adere, ou não se tem a coragem de rejeitar.

O modelo paroquial, rural, em que o prior assume o percurso e o rumo de cada comunidade, está esgotado. Pelas características de mobilidade, culturais, familiares das pessoas que habitam no perímetro territorial da paróquia. Há necessidade urgente de descobrir outras formas de organização das comunidades. A pastoral tem de estar cada vez mais ao serviço das pessoas, sobretudo, dos mais frágeis e desprotegidos, quer pela doença, solidão, fragilidade material, ou qualquer outra. A pastoral de cada comunidade tem de se inserir em diálogo com toda a estrutura humana que a envolve, aberta ao diferente, aos que não crêem, aos que têm outra forma de expressar a fé, aos que lutam pela justiça e pela dignidade de cada homem.
O modelo de comunidade em que tudo se “espera do prior”, onde ele se assume como o único responsável pela condução da evangelização, onde os “fiéis leigos” são apenas meros colaboradores desresponsabilizados do anúncio da Boa-Nova do Reino, tem de ceder o lugar à “comunidade viva”; onde cada um com os seus carismas próprios se entrega com generosidade e, por sua vez, se “alimenta” da partilha de todos.

Em alguns países, sobretudo, da América Latina, têm aparecido como forma de estrutura de comunidade; as chamadas “CEB's” (Comunidades Eclesiais de Base). E o que são as CEB's? São como o nome indica pequenos grupos de pessoas que se reunem para pensar juntos a sua realidade à luz da Palavra de Deus e encontrar caminhos de superar tudo o que impede as pessoas de viver do melhor modo possível. Onde juntos se descobrem os meios de superar todos os obstáculos materiais, e não só, para “que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10b)

Os bispos latino-americanos reunidos em Puebla em 1979, dizem que as CEB's “converteram-se em centros de evangelização e de motores de libertação e desenvolvimento” (nº96). E os bispos do Brasil lembram que “ no constante esforço de actuar, reflectir e celebrar, as CEB's são uma alternativa de educação para os que buscam uma sociedade nova, onde o individualismo, a competição e o lucro cedem lugar à justiça e à fraternidade” (nº40)


Maria da Conceição (JARDIM DE LUZ)

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quarta-feira, novembro 23

 

Lógica e vazio

Como tinha prometido a semana passada, esta semana tinha a intenção de aqui transcrever a carta do Cardeal Carlo Maria Martini que deu origem à carta escrita por Umberto Eco (da qual extraí o excerto publicado a semana passada). Ela parece-me contudo demasiado longa para um post e não consegui descobrir excertos que pudesse cortar sem danificar irremediavelmente o sentido e a força geral deste texto. Resolvi por isso colocar hoje aqui apenas a primeira parte dessa carta e para a semana colocar o resto dessa carta.


"Caro Eco,

eis-me com a pergunta que tinha em mente fazer-lhe já na última carta e que já lhe havia antecipado. Ela refere-se ao fundamento último da ética para um leigo, no quadro “pós-moderno”. Ou seja, concretamente: em que se baseia a certeza e imperatividade de seu agir moral que não pretende fazer apelo, para fundar o absolutismo de uma ética, a princípios metafísicos ou, de qualquer modo, a valores transcendentes ou sequer a imperativos categóricos universalmente válidos?

Em palavras mais simples (pois alguns leitores lamentaram-se comigo de que os nossos diálogos são demasiado difíceis), que razões dão para seu agir aqueles que pretendem afirmar e professar princípios morais que podem exigir o sacrifício da vida, mas não reconhecem um Deus pessoal?

Ou ainda: como posso chegar, prescindindo do apelo a um Absoluto, a dizer que não devo realizar certas acções de modo algum, a preço nenhum e que outras, no entanto, devem ser realizadas custe o que custar?

(...)

Certamente que eu gostaria muito que todos os homens e as mulheres deste mundo, mesmo aqueles que não crêem em Deus, tivessem claros fundamentos éticos para operar com rectidão e agissem em conformidade com eles.

Estou convencido também de que existem não poucas pessoas que agem com rectidão, pelo menos nas circunstâncias ordinárias da vida, sem fazer referência a um fundamento religioso da existência humana. Sei igualmente que existem pessoas que, mesmo sem acreditar num Deus pessoal, chegaram a dar a própria vida para não se desviarem de suas convicções morais. Mas não consigo compreender que justificação última dão para o seu agir.

É claro e óbvio que uma ética “laica” também pode encontrar e reconhecer, de facto, valores e normas válidos para uma recta convivência humana. Com efeito, é assim que nascem muitas legislações modernas. Mas para que o fundamento dos valores não sofra confusão ou incerteza, sobretudo nos casos limite, e eles não sejam compreendidos simplesmente como costumes, convenções, usos, comportamentos funcionais ou úteis ou necessidades sociais, mas assumam o valor de um absoluto moral propriamente dito, é necessário um fundamento que não esteja ligado a nenhum princípio mutável ou negociável.

E isto sobretudo quando não estamos no território das leis civis ou penais, mas andamos para além e entramos na esfera das relações interpessoais, das responsabilidades que cada um tem em relação a seu próximo, responsabilidades estas que vão para além da lei escrita e que se colocam na esfera da gratuidade e da solidariedade.

Ao interrogar sobre a insuficiência de um fundamento puramente humanista, não gostaria de perturbar a consciência de ninguém, mas apenas tentar compreender o que acontece por dentro, no nível das razões de fundo, também para que se possa promover uma colaboração mais intensa sobre temas éticos entre crentes e não crentes.

É sabido, de facto, que entre as grandes religiões se está construído um caminho comum de diálogo e de confronto, ainda nos seus primórdios, para a afirmação de princípios éticos partilhados por todos. Deste modo, pretende-se não apenas extirpar as raízes de qualquer conflito religioso entre os povos, mas também servir de maneira mais eficaz à promoção do homem. Mas mesmo com todas as dificuldades históricas e culturais que tal diálogo comporta, isso está sendo possível pelo facto de que todas as religiões têm, embora em modalidades diversas, um Mistério transcendente como fundamento de um agir moral. Assim, conseguiu-se individualizar uma série de princípios gerais e de normas de comportamento em que cada religião se pode reconhecer e com os quais pode cooperar num esforço comum, sem negar nenhuma de suas crenças. Efectivamente, “a religião pode fundamentar de modo inequívoco porque razão a moral, as normas e os valores éticos devem vincular incondicionalmente (e não apenas quando é cómodo) e, portanto, universalmente (para todas as pessoas qualquer que seja a sua classe ou raça). O humano é mantido exactamente porque é concebido como fundado no divino. Tornou-se claro que somente o incondicionado pode obrigar de maneira absoluta, somente o Absoluto pode vincular de maneira absoluta” (Hans Küng, Progetto per un’etica mondiale, Milão, Rizzoli, 1991, p. 116).

Seria possível um diálogo semelhante, sobre temas éticos, também na relação entre crentes e não crentes, em particular entre católicos e leigos? Tenho me esforçado para captar nas expressões de alguns leigos algo que seja válido como razão profunda, e de algum modo absoluta, de seu agir moral. Por exemplo, muito me interessou a razão que alguns usam para fundamentar o dever da proximidade e da solidariedade, mesmo sem recorrer a um Deus Pai e Criador de todos e a Jesus Cristo nosso irmão. Parece-me que eles se exprimem mais ou menos assim: o outro está em nós! Está em nós distinguir o modo como o tratamos, pelo fato de o amarmos, odiarmos ou de que nos seja indiferente.

Parece-me que para uma parte do pensamento laico este conceito do outro em nós revela-se como o fundamento essencial de qualquer ideia de solidariedade. Isso toca-me muito, sobretudo quando o vejo funcionar na prática para estimular obras de solidariedade até mesmo para com o distante, o estrangeiro.

Toca-me também porque, à luz das reflexões crentes de São Paulo sobre o único Corpo do qual todos somos membros (cfr. I Carta aos Coríntios, cap. 12 e Carta aos Romanos, cap. 12,), ele assume um forte realismo e pode ser lido como uma chave de fé cristã. Mas eu pergunto-me justamente se a leitura laica, que não tem esse fundamento de fundo, tem uma força de convicção iniludível e pode sustentar, por exemplo, o perdão aos inimigos. De facto, parece-me que, sem o exemplo de Jesus Cristo que da cruz perdoou aos seus crucificadores, mesmo as tradições religiosas se encontrariam em dificuldade sobre este último ponto. O que dizer então de uma ética laica?"

(continua na próxima semana)


Timshel [TIMSHEL]

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Como será isso de cativarmos o Outro



"- Não posso brincar contigo, disse a raposa. Ainda ninguém me cativou.
- Ah! desculpa, disse o principezinho.
Mas depois de ter reflectido, acrescentou:
- O que quer dizer «cativar»?"

A raposa deixou-o suspenso e desviou a conversa. Ele insistia, o que quer dizer? Ela por fim respondeu.

"-É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa «criar laços...».
- Criar laços?
- Isso mesmo, disse a raposa. Para mim não passas ainda de um rapazinho muito parecido com cem mil rapazinhos. E não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Para ti sou apenas uma raposa semelhante a cem mil raposas. Mas, se me cativares, teremos necessidade um do outro."

E destas conversas brotaram outras conversas. O texto é (re)conhecido: «O Principezinho», de Antoine de Saint-Exupéry, numa tradução que manteve o termo «cativar». Como será isso de cativarmos então o Outro? Tendo necessidade dele, como ele de nós. Na semana passada, perguntava-me se seria pelas ruas de Lisboa, de velas e senhora de branco, que o faríamos. Mantenho as dúvidas, mas porventura o Outro pode ter essa necessidade. O mais difícil, já se sabe, é encontrar um caminho comum. "Vem e segue-Me." Sim, mas os escolhos encontram-se caminhando.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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segunda-feira, novembro 21

 

“Desafios às religiões num mundo pluralista e desigual”

Por falta de tempo, outros serviços e obrigações se sobrepõem, não posso continuar o tema que iniciei na semana passada. Vou então, transcrever um artigo do Frei Betto, dominicano, publicada na agência Adital (http://www.adital.com.br/). Como largamente me identifico com o tema, aqui fica. Espero que disfrutem e sirva para melhor descobrirmos, crentes e não-crentes, que a nossa vida só adquire verdadeiro sentido, se for orientada para a cooperação, a solidariedade, enfim a comunhão.


“Uma das características da modernidade é o pluralismo religioso. Exige, da parte de todos nós, crentes e não-crentes, a virtude da tolerância. Deus não tem religião. A religião é expressão espiritual, cultural, litúrgica, de uma comunidade na sua relação com o transcendente. Com o fim do período medieval, encerrou-se também a possibilidade de uma determinada crença religiosa impor-se às demais através do poder político ou militar.
Ainda assim perduram em quase todas as religiões grupos fundamentalistas que alimentam preconceitos e discriminações em razão de diferenças teológicas, litúrgicas ou históricas. Negam o carácter laico do Estado e dos partidos políticos, e confundem evangelização com imposição, brandindo mais o anátema que o amor.
Jesus foi o mestre da tolerância religiosa. Jamais condicionou uma cura ou milagre à prévia adesão à sua fé. Engana-se quem pensa que, no tempo de Jesus, havia uma única religião num Deus único. Como hoje, predominava o mais eclético sincretismo. Antíoco Epífanes havia introduzido, em 167 a.C., a imagem de Dionísio no templo de Jerusalém (2 Macabeus 6,7). estavam vivas as religiões cananeias, asiáticas e greco-romanas, que contavam inclusive com adeptos hebreus. O imperador romano era deificado. Seu culto público havia sido regulamentado por Augusto.

Segundo o evangelho de João (4, 46-54), Jesus encontrava-se em Caná, na Galileia, quando foi abordado por “um funcionário real, que se encontrava em Cafarnaum”. E, ao contrário do centurião, que não se considerou digno de receber o Mestre em sua casa, em Caná o enfermo foi curado sem que Jesus fosse vê-lo. “Vai, teu filho vive”.
O centurião não quis que Jesus viesse a sua casa porque bem sabia que os judeus eram proibidos de entrar na casa dos pagãos. E Jesus ressaltou a fé daquele pagão, a ponto de exclamar: “Em Israel não achei ninguém que tivesse tal fé”. Do mesmo modo, curou a mulher cananéia (Mateus 15, 21-28) e repôs no lugar a orelha de Malco, servo do Sumo Sacerdote (João 18,10). Fez o gesto de amor sem pedir ao centurião, à mulher cananéia e a Malco que abandonassem as suas convicções religiosas.

Tolerância é a capacidade de aceitar o diferente. Não confundir com o divergente. Intolerância é não suportar a pluralidade de opiniões e posições, crenças e ideias, como se a verdade fizesse morada em mim e todos devessem buscar a luz sob o meu tecto.
Conta a parábola que um pregador reuniu milhares de chineses para pregar-lhes a verdade. Ao final do sermão, em vez de aplausos houve um grande silêncio. Até que uma voz se levantou do fundo: “O que o senhor disse não é a verdade”. O pregador indignou-se: “Como não é verdade? Eu anunciei o que foi revelado pelos céus!” O objectante retrucou: “Existem três verdades. A do senhor, a minha e a verdade verdadeira. Nós dois, juntos, devemos buscar a verdade verdadeira”.

Só os intolerantes se julgam donos da verdade. Todo o intolerante é um inseguro. Por isso, aferra-se a seus caprichos como um náufrago à tábua que o mantém à tona. Não é capaz de ver o outro como outro. A seus olhos, o outro é um concorrente, um inimigo. Ou um potencial discípulo que deve acatar docilmente as suas opiniões.

O tolerante evita colonizar a consciência alheia. Admite que, da verdade, ele apreende apenas alguns fragmentos, e que só pode ser alcançada por esforço comunitário. Reconhece no outro a alteridade radical, singular, que jamais deve ser negada.
O perfil do tolerante é descrito por Paulo no Hino ao Amor da 1ªcarta aos Coríntios (13, 4-7): “É paciente e prestativo, não é invejoso nem ostenta, não se incha de orgulho e nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, nem guarda rancor. Não se alegra com a injustiça e se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

Tolerância não é o sinónimo de tolice. O tolerante não desaba tempestade em copo d'água, e jamais cede quando se trata de defender a justiça, a dignidade e a honra, bem como o direito de cada um ter seus princípios e agir conforme a sua consciência. Desde que isso não resulte em opressão ou exclusão, humilhação ou morte.

Das intolerâncias, a mais repugnante é a religiosa, pois divide o que Deus uniu, incentiva disputas e guerras, dissemina ódio em vez de amor. Só o amor torna um coração verdadeiramente tolerante. Porque quem ama não contabiliza acções e reacções do ser amado e faz da sua vida um gesto de doação.


A vida, dom maior de Deus

Vivemos num mundo desigual, marcado por guerras e sofrimentos. Segundo a ONU, de seus 6,3 bilhões de habitantes, 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza. Há 824 milhões de pessoas sobrevivendo na insegurança alimentar, que provoca 24 mil mortes por dia.
Dos 30 países ricos membros da OCDE, para cada US$1 destinado à cooperação internacional, eles desembolsam US$10 para actividades militares. O dado é do Relatório do Desenvolvimento Humano, ONU/2005.

Em 2000 foram gastos em armamentos US$524 bilhões. Em 2003, pós-11 de setembro, US$642 bilhões. Aumento de 25%. E foi destinado à cooperação com as nações mais pobres apenas US$69 bilhões. Ou seja, 10% do que se aplicou em armas.

A vida é o maior dom de Deus. No Evangelho, duas perguntas são feitas a Jesus. A primeira, que nunca aparece na boca de um pobre, é: “Senhor, o que devo fazer para ganhar a vida eterna?” É o que interessa ao doutor da Lei na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10, 25-27) e ao homem rico (Marcos 10, 17-22). Os dois já tinham assegurado a vida terrena.

A segunda pergunta sempre aparece na boca dos pobres: “Senhor, o que fazer para ter vida nesta vida? A minha mão está seca e quero trabalhar; meu olho é cego e quero enxergar; meu filho está doente e quero-o com saúde; meu irmão está morto e rogo que o devolva à vida”. A quem pede vida na outra vida, Jesus responde com ironia e desafios. Aos que foram injustamente privados de condições de vida nesta vida, ele responde com misericórdia e bençãos.

Hoje, a morte ronda o mundo. Além do terrorismo e das guerras, da fome e das epidemias, da violência e das catástrofes naturais, ainda não somos capazes de ver no rosto de cada árabe, judeu, africano ou asiático, de cada criança da América Latina, de cada indígena ou negro, a imagem e semelhança de Deus.

Jesus veio até nós para “Que todos tenham vida e em abundância” (João 10,10). Eis a missão que nos desafia neste mundo plural e desigual: cultivar a tolerância e o diálogo inter-religioso; não fazer da diferença divergência; amar como Jesus amou, sem pedir atestado de convicção religiosa; erradicar as causas da fome e da pobreza; fazer com que o pão seja verdadeiramente nosso, e não só meu ou seu, para que o Pai possa sinceramente ser proclamado Pai-Nosso; e lutar pela paz, que jamais virá como resultado da imposição das armas, e sim como assinalou, há 2.800 anos, o profeta Isaías: só haverá paz como fruto da justiça (32,17).”

Maria da Conceição (
JARDIM DE LUZ)

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quarta-feira, novembro 16

 

A palavra a um ateu: "uma ética natural — respeitada na profunda religiosidade que a anima"

Julgo que já aqui mencionei em tempos um debate entre o Cardeal Carlo Martini o ateu (ou agnóstico?) Umberto Eco. Foi através do Zé Filipe que descobri esse texto fundamental. O que se encontrava em causa nesse debate era a possibilidade da existência de uma moral não religiosa. Num debate ocorrido em Janeiro de 2004 entre o então Cardeal Ratzinger e Jürgen Habermas esse tema voltou de novo à baila embora de um modo mais periférico. Pessoalmente considero o debate entre o Cardeal Martini e Umberto Eco foi mais interessante que este último.

Por um feliz acaso, tive ocasião de reler a última carta desse debate num livro que recentemente me passou pelas mãos ("Cinco escritos morais" de Umberto Eco).

Passo em seguida um excerto dessa carta escrita por Umberto Eco.

Para a semana espero colocar aqui a carta do Cardeal Carlo Maria Martini que deu origem a esta resposta de Umberto Eco.

"Mas diz que, sem o exemplo e a palavra de Cristo, a toda a ética laica faltaria uma justificação de fundo que tenha uma força de convicção iniludível. Para quê tirar ao laico o direito de se valer do exemplo de Cristo que perdoa? Procure, Carlo Maria Martini, para bem da discussão e do confronto em que acredita, aceitar nem que seja por um só instante a hipótese de que Deus não existe: que o homem aparece na Terra por um erro do desastrado acaso, entregue à sua condição de mortal, não só, mas condenado a ter disso consciência, e seja portanto imperfeitíssimo entre todos os animais (e permita-me o tom leopardiano desta hipótese). Este homem, para encontrar a coragem de esperar a morte, tornar-se-ia necessariamente animal religioso, e aspiraria a construir narrações capazes de lhe fornecerem uma explicação e um modelo, uma imagem exemplar. E entre as muitas que consegue imaginar — umas fulgurantes, outras terríveis, outras pateticamente consoladoras — atingindo a plenitude dos tempos tem a certa altura a força, religiosa, moral e poética, de conceber o modelo do Cristo, do amor universal, do perdão aos inimigos, da vida oferecida em holocausto para a salvação dos outros. Se eu fosse um viajante provindo de longínquas galáxias e me encontrasse perante uma espécie que soube propor este modelo, admiraria subjugado tanta energia teogónica, e julgaria esta espécie miserável e infame, que cometeu tantos erros, redimida só pelo facto de ter conseguido desejar e crer que tudo isso seja a verdade.

Abandone agora a hipótese e deixe-a a outros: mas admita que se Cristo fosse só o objecto de um grande conto, o facto de este conto poder ter sido imaginado e desejado por bípedes implumes que só sabem que nada sabem, seria igualmente miraculoso (miraculosamente misterioso) que o facto de o filho de um Deus real se ter realmente encarnado. Este mistério natural e terreno não deixaria de perturbar e enobrecer o coração de quem não crê.

Por isso considero que, nos seus pontos fundamentais, uma ética natural — respeitada na profunda religiosidade que a anima — poderá encontrar-se com os princípios de uma ética assente na fé na transcendência, que não pode deixar de reconhecer que os princípios naturais foram esculpidos no nosso coração com base num programa de salvação. Se permanecerem, como decerto permanecerão, margens não sobreponíveis, não será diferente do que acontece no encontro entre religiões diferentes. E nos conflitos de fé deverão prevalecer a caridade e a prudência.


Timshel [TIMSHEL]

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segunda-feira, novembro 14

 

Os acontecimentos no Outono de 1989

Recentemente tive acesso a um texto escrito pelo pastor da Nikolaikirche em Leipzig, Christian Führer, que referi no Dois Dedos de Conversa a propósito do 9 de Novembro, e decidi agora traduzir, porque vale a pena conhecer esta experiência.



Os acontecimentos no Outono de 1989.


A iniciativa "Nikolaikirche – aberta para todos" tornou-se no Outono de 1989 uma realidade que nos surpreendeu a todos. Acabou por reunir pessoas de toda a antiga RDA: pessoas que queriam sair do país e curiosos, críticos do regime e membros da Stasi, funcionários da Igreja e membros da SED, cristãos e não cristãos – todos eles reunidos sob os braços abertos do JESUS CRISTO crucificado e ressuscitado.
Tendo em conta a realidade política entre 1949 e 1989, a fantasia não bastava para imaginar uma situação destas. No entanto, era a realidade. Exactamente 450 anos depois da introdução da Reforma em Leipzig, 176 anos depois da Batalha das Nações perto de Leipzig – era de novo em Leipzig.
A partir de 8 de Maio de 1989 a Polícia começou a controlar e bloquear as ruas que davam acesso à Nikolaikirche. Mais tarde, passaram a controlar até as saídas da autoestrada, que chegavam a ser bloqueadas na hora em que decorria a Oração para a Paz. Os organismos estatais aumentaram a pressão para acabar com a Oração para a Paz, ou ao menos para a realizar nos arredores da cidade. Segunda-feira após segunda-feira havia capturas ou “transportes” ligados a esta iniciativa. No entanto, o número de participantes crescia de tal modo que os 2.000 lugares da igreja não eram suficientes.
E assim chegámos àquele 9 de Outubro decisivo.

Que dia!
O Exército, os piquetes de luta, a Polícia e os agentes em civil da Stasi tinham sido convocados, criando um cenário de agressão assustador. Mas o primeiro impulso já tinha sido dado no dia 7 de Outubro, data do 40º aniversário da RDA.
Nesse dia, durante 10 horas, pessoas de uniforme bateram em pessoas desarmadas e que não se defendiam, e levaram-as em camiões para outros lugares. Centenas delas foram amontoadas em estábulos de cavalos, em Markkleeberg. Também tinha sido publicado oportunamente um artigo no jornal, afirmando que era finalmente altura de acabar com a contra-revolução, „com armas na mão, se necessário for.”
Era essa a situação no dia 9 de Outubro.

Além disso, tinham sido convocados 1.000 membros da SED para se sentarem na Nikolaikirche. Às duas da tarde, já 600 deles estavam na igreja.
Tinham uma tarefa a cumprir, tal como os habituais e numerosos visitantes que eram membros da Stasi. Mas o que ninguém planeou, aquilo em que ninguém pensou: estas pessoas estavam expostas à palavra e aos efeitos do Evangelho!

Sempre achei muito positivo que todos estes membros da Stasi ouvissem as Bem-Aventuranças do sermão da montanha, segunda-feira após segunda-feira. Em que outro lugar teriam oportunidade de as ouvir?
E assim, todas estas pessoas, e entre elas os camaradas da SED, ouviram o Evangelho de JESUS, ESSE que elas não conheciam, numa igreja com a qual não tinham nada a ver.
Ouviam sobre JESUS,
que dizia: "Felizes os pobres!" e não: Quem tem dinheiro é feliz.
que dizia: "Ama os teus inimigos!" e não: Destrói os que se te opõem.
que dizia: "Os primeiros serão os últimos!" e não: Fica tudo como está.
que dizia: "Quem entrega a sua vida e a perde, há-de ganhá-la!" e não: Sede cautelosos.que dizia: "Vós sois o sal!" e não: Vós sois a nata.
Assim decorreu esta Oração para a Paz, no meio de um silêncio e uma concentração incríveis.
Pouco antes do final, antes da benção do Bispo, foi ainda lido o texto do professor Masur e de outros, que apoiava o nosso apelo de não violência.
A comunhão numa situação tão ameaçadora, a unidade entre Igreja e Cultura, Música e Evangelho, também foi muito importante. A Oração para a Paz terminou com a benção do Bispo e a interpelação insistente para a não-violência.
E quando nós, mais de 2.000 pessoas, saímos da igreja – nunca hei-de esquecer este momento -, havia dezenas de milhares à nossa espera lá fora, na praça. Tinham velas nas mãos. E quando se carrega uma vela, precisa-se das duas mãos. Temos de cuidar da luz, impedir que ela se apague. É impossível segurar simultaneamente numa pedra ou num cacete.
E o milagre aconteceu.
O ESPÍRITO de não-violência de JESUS alcançou as massas e tornou-se um poder material e pacífico. Os membros do Exército, dos piquetes de luta e da Polícia foram incluídos, integrados nas conversas, e retiraram-se.
Foi uma noite no ESPÍRITO do nosso SENHOR JESUS, porque não houve vencedores nem vencidos, ninguém triunfou sobre os outros, ninguém perdeu a face.
Havia apenas um extraordinário sentimento de alívio.
O movimento de não-violência durou apenas algumas semanas, e no entanto conduziu à queda da ditadura ideológica e do partido.
"ELE derruba os poderosos do seu trono e eleva os humildes" -
"Deve acontecer não pelo exército ou pela força, mas segundo o MEU ESPÍRITO, diz o SENHOR".
Foi essa a experiência que fizemos. Milhares nas igrejas. Centenas de milhares no centro da cidade.
Nem um vidro partido. A experiência incrível do poder da não-violência.

Sindermann, que fazia parte do comité central da SED, disse pouco antes da sua morte:“Tínhamos planeado tudo. Estávamos preparados para tudo. Excepto para velas e orações.”
As Orações para a Paz continuam. Um grupo “Esperança para os que querem sair do país” já não é necessário. Em compensação, é cada vez mais urgente um “Esperança para desempregados”, pelo que foi criada na Nikolaikirche uma Iniciativa para Pessoas sem Trabalho.
A Nikolaikirche continua a ser o que era: uma casa de JESUS CRISTO, uma casa de esperança, um refúgio e uma célula de mudança.

Pastor Christian Führer.

Helena Araújo (DOIS DEDOS DE CONVERSA)

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Ser Igreja – um desafio permanente!

O Fernando, na passada Quarta-feira, pedia “um triciclo” que nos ajudasse a percorrer o caminho da fé. Posteriormente, na caixa de comentários do blogue a-bordo, dialogávamos sobre a necessidade, de se estruturar a Igreja de outros modos, pois o actual sistema “piramidal”, massificado, não serve. Questionava o Fernando com um caso muito prático e comum: “Imaginemos que um crente – ovelha citadina perdida -, se depara com uma situação pessoal de grande desespero; não conhece o padre, nem os grupos da paróquia; telefona a quem?”
A questão não se coloca, só e apenas, num caso de necessidade de apoio, de ajuda. No comum caminho da fé, como o Fernando diz no texto da Terra, precisamos de “pontos de apoio”. O percurso do nosso compromisso cristão, tem ao mesmo tempo duas dimensões -elas entrelaçam-se -, a pessoal e a comunitária. Cada uma, impulsiona e depende, da outra.
Esta, tem sido uma reflexão que eu faço continuamente e de algum tempo para cá ; porque sendo baptizada, fazendo parte de uma comunidade concreta, sinto e testemunho as dificuldades de “ser Igreja”. Cada vez, me convenço mais que, qualquer mudança, não será uma evolução tranquila – é preciso romper de forma decisiva, a acomodação, a inércia vigentes – a história da Igreja está repassada da dimensão profética, e é isso que, devemos resgatar para o tempo presente.

Tivemos por estes dias, em Lisboa, o ICNE - Congresso Internacional para a Nova Evangelização -, sobre ele, não me posso pronunciar muito, porque o meu acompanhamento do mesmo foi à distância, apenas pelas notícias que me chegaram através das agências noticiosas e alguns ecos, poucos, na comunidade a que pertenço. No entanto, a minha avaliação destes actos, corresponde ao que o Manuel no seu blogue “
palombella rossa” escreve:
Pensar a evangelização como destinada à conversão do mundo descrente e como privilégio de cristãos cientes da imensidão da sua fé, é um tremendo equívoco. São os cristãos os primeiros a precisar de se reconverter permanentemente à radicalidade do Evangelho e a fazê-lo em diálogo com este mundo. Amando-o e não ensinando-o.”
Este meu apontamento sobre o Congresso, serve apenas, para manifestar que não me iludo com o mediatismo de algumas acções, pelo número de congressistas, enfim, pela visibilidade mediática que a Igreja Católica, teve por estes dias. Porque no concreto das comunidades, continua-se o mesmo ritmo rotineiro de alguns ritos religiosos, desligados da vida e do compromisso com o Evangelho.

Vamos então, tentar dar resposta à interpelação do Fernando.
A Igreja, nasce no dia de Pentecostes, quando um punhado de discípulos desorientados e confusos, reunidos em casa, sentiram a força do Espírito Santo e tomando consciência da sua missão, irromperam a anunciar a Boa-Nova do Reino. (Act 2,1-4) ; (Mt 28,19)
A partir desse movimento, os seguidores de Jesus começaram a reunir-se em suas casas onde “Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações” (Act 2, 42), “Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum.” (Act 2, 44) “Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração.” (Act 2, 46).
Este modo de viver, conviver, partilhar, escutar, aproximar, não passou despercebido a muita gente que, começou a aderir ao projecto de Jesus. “Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo.E o Senhor aumentava, todos os dias, o número dos que tinham entrado no caminho da salvação” (Act 2, 47).
Nos primeiros tempos da Igreja, os discípulos continuavam a frequentar o Templo, mas ao mesmo tempo reuniam-se em suas casas:
“... dirigiu-se a casa de Maria, mãe de João Marcos, onde numerosos fiéis estavam reunidos a orar” (Act 12,12)
A casa de cada um, é assim, o local de encontro para as primeiras comunidades cristãs. É no convívio fraterno, intímo da casa, que se alimenta e anima a Fé dos primeiros cristãos.
Sabemos, os próprios textos bíblicos nos contam, que nem tudo era harmonia. Os problemas existiam; as divisões, as invejas, as calúnias, preconceitos... Encontramos Paulo, nas diversas cartas pastorais, umas vezes a louvar, outras a reagir fortemente e a exortar à mudança de comportamentos das diversas comunidades.

Passaram-se os anos, a Igreja cresceu, era necessária uma estrutura que sustentasse a sua universalidade e foi cada vez mais, hierarquizando-se. Durante estes dois mil anos, viveu períodos de professia, de testemunho, de martírio, mas também muitos momentos de legitimação de poderes bem temporais, de sistemas injustos, de conveniências humanas adversas ao Evangelho.
O Concílio Vaticano II, pretendeu que a Igreja olhasse para si mesma, se reavaliasse e tornasse ao que é o seu fundamento – sacramento de Cristo. Para isso, é necessário que cada cristão descubra na prática do seu baptismo que, ser membro da Igreja, não é uma tarefa para os fins de semana, para quando apetece, para quando e onde convém. Que dentro da Igreja, não há tarefas com maior ou menor dignidade, que o compromisso da missão não é só para alguns que se dizem para isso vocacionados. Que o compromisso de construir a Igreja não é exclusivo da hierarquia. Precisamos também, de descentralizar a vida da Igreja, apenas da celebração dos sacramentos. Temos cristãos que entram na Igreja, apenas em três ou quatro momentos chave da vida – baptismo, casamento e no funeral – e nos intervalos, fazem umas peregrinações aos diversos locais de culto, que a Igreja tem fomentado por esse mundo fora.

E isto já vai tão longo, que vou ficar por aqui. Como quase sempre se faz, perdi-me a identificar os problemas. Para a próxima vou tentar trazer alguns antídotos. Não tenho, como é óbvio, soluções dentro da manga, apenas comungo de alguma reflexão que se faz por aí, quase sempre à margem de quem detém o poder de decidir, mas que são vozes válidas, porque de certeza animadas pelo Espírito que, não está cativo de ninguém.

Maria da Conceição (
JARDIM DE LUZ)

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quarta-feira, novembro 9

 

Islamismo? Ou ateísmo?

Os acontecimentos em França interpelam-nos. O que se passa na cabeça daqueles milhares de jovens? O que se passou na sua vida até este momento?

O
Zé Filipe, num momento particularmente feliz, lembrou-se de colocar aqui na segunda-feira passada a tradução da declaração dos bispos franceses a respeito deste acontecimentos.

Os bispos questionam-se: "Devemos interrogar-nos sobre o que pode estar na génese de tal espiral de violência nas nossas zonas de grande densidade populacional. A urbanização recente, as dificuldades em encontrar emprego entre os jovens, a instabilidade na vida familiar são frequentemente evocadas. Porém, parece-nos que a repressão e a incitação ao medo colectivo não são uma resposta à altura destas tensões dramáticas da nossa sociedade."

Num momento em que Lisboa é a capital da Nova Evangelização, convém lembrar as palavras do Cardeal-Patriarca a este propósito: "Para evangelizar é preciso aprender a amar".

E para amar é preciso compreender. É isso que fazem os bispos franceses. Eles (ao contrário dos iluminados neoliberais da nossa praça que sabem as soluções para tudo) interrogam-se e interrogam-nos.

Embora a realidade social do que se passa em França tenha muitos pontos em comum com o que se passa noutros pontos da Europa e não seja de excluir portanto que o fenómeno alastre não deixa de ser curioso que o fenómeno, até agora (salvo pequenos incidentes esporádicos em Berlim e Bruxelas cuja origem não foi possível determinar com exactidão), se tenha circunscrito ao interior das fronteiras francesas.

Porque razão as pessoas oriundas dos mesmos meios e das mesmas comunidades que vivem do outro lado da fronteira, na Suiça, na Itália, na Bélgica, no Luxemburgo, na Alemanha não se incendiaram também?

O
Lutz já aventou algumas explicações ao nível do urbanismo e da integração no espaço urbano.

Numa televisão vi um especialista em criminologia referir que, dado o alto nível de violência a que se chegou nesses bairros degradados, é absolutamente necessário intervir simultaneamente ao nível da prevenção e da repressão, e isso exige dinheiro para se construir um sólido sistema de informações bem estruturado e integrado nessas comunidades. Um serviço de informações que permita intervenções preventivas de modo a impedir a ocorrência de actos criminosos e um serviço de informações que permita um repressão eficaz e perfeitamente limitada aos agentes criminoso (a expressão que ele utilizou foi "microcirurgia"…).

Mas, por detrás de todas estas explicações que radicam numa estrutural falta de fundos para apoiar estas comunidades, existe um estado de espírito muito próprio da França e que está ligado à falta de fundos e à indiferença subjacente a esta falta de fundos para as questões sociais mais gritantes. É o neoliberalismo na sua forma mais perversa, aquela em que o neoliberalismo se mistura com o corporativismo e o proteccionismo: existe dinheiro do estado para tudo e para todos menos para aqueles que mais precisam.

A França é o paraíso do laicismo. Uma verdadeira ilha no meio de países que conseguem aliar, normalmente de modo bastante proporcionado, a igreja, a sociedade e o estado.

Em França a religião do Estado é o ateísmo e a filosofia deste estado é (consequentemente) o relativismo moral. Este relativismo moral, que no início apareceu com boas intenções, apenas como uma forma de tolerância, impregnou venenosamente de um modo lento mas sistemático o estado e as consciências. A indiferença, a consequência mais óbvia e frequente do relativismo moral, tornou-se o comportamento dominante: toda a gente com responsabilidade e poder para mudar aquele estado de coisas se esteve nas tintas.
O ateísmo e o seu irmão gémeo, o relativismo moral, foram o estrume que adubou a indiferença, a demissão e o cinismo. Este estrume permitiu o vicejar florescente de uma cultura tipicamente francesa de xenofobia, de arrogância, de autoritarismo, de pedantismo, de pretensiosismo e de profundo desprezo por tudo o que não seja chic e cheio de dinheiro.

Nesta crise total de valores em que o ateísmo e o relativismo moral enterraram o estado e a sociedade franceses, a legitimidade moral foi substituída pela legitimidade do poder dos lobbies e das corporações. O actual "estado social" francês não tem nada a ver com a protecção aos mais desfavorecidos mas com proteccionismos aberrantes. É por isso que ao lado do neoliberalismo mais selvagem se encontra na sociedade francesa um pseudo-estado-social feito para proteger os mais fortes (aliás este tipo de neoliberalismo proteccionista e corporativista encontra-se também muito enraizado nos EUA).

Os discursos dentro da Igreja que visam a menorizar a luta ideológica contra o relativismo em nome do combate individual pela felicidade do nosso irmão esquecem que o homem é um animal social que vive numa comunidade que se organiza politicamente. E quando se esquece o combate político, o combate individual quotidiano e concreto pela felicidade do nosso irmão pode tornar-se muito mais difícil. Os dois combates são igualmente importantes.

Diziam-me os meus pais quando eu era pequeno que, se não me educassem, mais tarde seria a vida a "educar-me" pela pior maneira. E só se educa realmente com amor. Numa família como numa sociedade. Quando não existiu amor, mais tarde ou mais cedo estamos no reino da força (mesmo que enquanto medida de auto-defesa). É por isso que acho completamente despropositado da parte da esquerda francesa vir agora insurgir-se contra o estado de urgência e o recolher obrigatório que foi declarado. Agora, meus amigos, já é tarde de mais. Se não fosse a democracia a impôr estas medidas, seria num futuro bem próximo a extrema-direita que as implementaria de um modo muito mais irracional.

A pergunta que dá o título a este post tem portanto uma resposta simples. Qualquer destas crenças (ou qualquer crença), quando não inspirada no amor e pelo amor é fonte de violência (directa ou indirecta).


Timshel [TIMSHEL]

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Retrato de um crente que precisa de lições de triciclo.

Podia dizer de um carro. Que tem quatro rodas. Mas penso que três já chegavam, já poderiam chegar para pôr cobro ao desequilíbrio que sente sempre que anda em cima das pernas.

Não sei até onde pode ir um retrato. Sobretudo quando o retrato tem zonas de sombra sem conta. A começar porque se trata de fazer um retrato de um crente.

- As coisas podiam ser simples. Existir a Igreja, física, de pedra, betão e aço, os homens, aquilo em que acreditam. E de cima a baixo, de lado a lado, das lajes do chão às telhas do tecto, do homem de cima ao de baixo, em todos de cima e em todos de baixo, existir uma característica que desse unidade e solidez. Numa palavra: era simples se a Igreja fosse um corpo único, perfeitamente delimitado, sem fissuras, nem divergências. Mas não é.

O crente que aqui se retrata é aquele que se senta ao sábado ou ao domingo no banco da Igreja, que ouve, que se levanta, se ajoelha, reza e depois, sai. Arrependido. Comungando ou não.

- Retratar um crente é uma fonte de problemas. A começar porque um crente é um homem de fé e a fé se tem algo que pode ser retratado, por exemplo, o comportamento do paralítico, no Novo Testamento, há algo na fé, aquilo que se passa no interior do homem de fé que não vem à luz com palavras.

– Repare-se que há dois caminhos para a salvação: a fé: a tua fé te salvou; a obra: é o caso do samaritano; é o caso das palavras no meio de Mateus 25,31-46: «Então, os justos vão responder-lhe: "Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?" E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: "Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes."»

O que se passa na hora em que o crente está na Missa? – Temos tendência a usar um argumento contra o homem, para pôr em causa o empenhamento do homem religioso. Usa como razões o não cumprimento do que se propõe na vida quotidiana. Numa certa linguagem, diz-se: os valores que professa não são postos em prática. O que diz e o que anuiu na Missa não é posto em prática fora do espaço sagrado. – Mas e o que se passa na Missa? O que pode levar a acusação a pensar no templo? O que poderá ter a ver com o que se passa na Missa? Com o que se habitua a fazer na Missa?

O nosso crente não participa na hierarquia da Igreja; isto é: não é padre, nem é bispo, nem cardeal. Papa. Não participa nos diversos grupos, nas diversas associações que gravitam em torno da estrutura hierárquica. Grupos de assistência social, obras de beneficência, de oração. Outros. É numa palavra: uma ovelha. Com um adjectivo bíblico: uma ovelha perdida. Desgarrada.

- Pedro sozinho negou Cristo três vezes. Jesus sentiu necessidade que tivéssemos companhia. Por isso, enviou o Espírito Santo. O que faria o Papa sozinho? O grande místico São João da Cruz sem a comunidade dos irmãos?

- Penso que se percebe a necessidade da comunidade. Penso que há necessidade de perceber as funções da comunidade. Aqui, a função, a dimensão, da ajuda é fundamentalíssima. Sem a ajuda da comunidade, a palavra que o crente ouve, perde-se. Perde pelo menos força nos efeitos. Batemos vezes sem conta com o chicote nas costas, porque não somos capazes de ser fiéis a Cristo. Por vezes, com razão. Outras nem tanto: se não somos capazes de sermos fiéis, se somos fracos na fé, muitas das vezes isso acontece porque não temos apoio.

Pois é: pode haver quem diga que não devíamos ter necessidade de apoio. De sermos homens feitos e de barba rija. Mas não: somos bebés; criaturas fracas; ou frágeis; em todo o caso, carentes de apoio. Não o temos: trememos.

Não deveria por isso a Missa ser uma hora em que a ajuda deveria ser posta em prática? Não devia sentir o nosso crente que se ajoelha e que reza, logo ali, essa ajuda? – Como? – É pedir muito: não devia sentir o crente a permanência da ajuda? – Como?

Há sem dúvida, como na política presidencial, a necessidade de um magistério de influência da Igreja sobre a sociedade. Há, sem dúvida, um magistério de imaginação a ser executado dentro da Igreja. É preciso encontrar as fórmulas para que a comunidade funcione como uma comunidade de ajuda. Se é preciso uma “Revolução Cultural” para que cada um perceba a necessidade da ajuda, é preciso uma “Revolução da Imaginação” para que essa ajude se torne concreta.

Isto é: são precisas fórmulas concretas. Almoços, jantares, festas de anos, se não o triciclo, pelo menos aulas de condução de triciclos.


Fernando Macedo [A BORDO]

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segunda-feira, novembro 7

 

Declaração de D. Jean-Pierre Ricard

Declaração de D. Jean-Pierre Ricard, arcebispo de Bordéus, presidente da Conferência Episcopal Francesa.

Reunidos em Lourdes em Assembleia plenária, os bispos de França exprimem a sua viva preocupação perante os actos de violência e dedestruição que acontecem, há vários dias, em muitos dos nossos grandes aglomerados populacionais. Grupos de jovens defrontam-se, durante a noite, com as forças da ordem e provocam o medo entre as pessoas. As imagens dos média dão a estes eventos uma forte repercussão na opinião pública e criam desconfianças entre os diferentes estratos da população.
Devemos interrogar-nos sobre o que pode estar na génese de tal espiral de violência nas nossas zonas de grande densidade populacional. A urbanização recente, as dificuldades em encontrar emprego entre os jovens, a instabilidade na vida familiar são frequentemente evocadas.
Porém, parece-nos que a repressão e a incitação ao medo colectivo não são uma resposta à altura destas tensões dramáticas da nossasociedade. Deixem-nos sublinhar todo o trabalho que é feito quotidianamente por muitas associações e instituições com o objectivo de criar laços de solidariedade para uma vida colectiva fraternal. Muitos não baixam os braços. As escolas, as diversas instâncias de formação, os educadores, os animadores sociais devem sentir-se apoiados por todos. Sabemos ainda como pode ser preciosa a presença de pequenas comunidades religiosas nas cidades. É vital abrir às novas gerações, muitas vezes desesperançadas, um futuro de liberdade, de dignidade e de respeito pelo outro.


Lourdes, Sábado, 5 de Novembro de 2005.

enviado por Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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quarta-feira, novembro 2

 

À escuta

"Ahmed Harb, escritor, crítico literário e catedrático palestiniano de Ramallah, propôs oficialmente a nomeação do escritor israelita Sami Michael para o Nobel da Literatura (...)"

Em entrevista ao diário Haaretz, Ahmed Harb diz ter ficado «profundamente impressionado com a escrita de Sami Michael» que, na sua opinião, tem influenciado não só leitores israelitas mas também palestinianos e árabes a compreender o destino que partilham no Médio Oriente. «Com os seus romances, lavrados por um mestre, Sami Michael granjeou uma audiência israelita, palestiniana e internacional. Como escritor palestiniano tenho a honra de recomendar calorosamente Sami Michael para o Nobel da Literatura», escreveu o professor Ahmed Harb na carta enviada à Academia de Estocolmo. Ainda na entrevista ao Haaretz, Harb adianta: «Para mim, a literatura está acima de qualquer conflito, por mais difícil e complexo que seja. Talvez seja apropriado encarar a minha carta como uma missiva de paz para ambos os lados».
Confrontado com a sua nomeação para o Nobel feita pelo académico palestiniano, Sami mostrou-se profundamente comovido: «Apetece-me beijá-lo. Ele está a tomar um risco enorme ao fazer esta recomendação. Seres humanos generosos como Harb são a mais importante indicação de que temos aliados do outro lado (...)»

Sami Michael estudou literatura árabe e psicologia na Universidade de Haifa e recebeu um doutoramento honorário da Universidade Hebraica de Jerusalém. Ao todo, escreveu 11 romances em árabe e hebraico – o primeiro dos quais publicado em 1973 –, abordando em todos eles complexas relações interligadas entre judeus e árabes, cristãos e muçulmanos, nacionalistas e comunistas, homens e mulheres, em Bagdade e em Israel.
Politicamente, Sami Michael identifica-se com a ala esquerda do Partido Trabalhista e há décadas que juntou a voz ao grupo de intelectuais israelitas no movimento pela paz." (sinais... - rua da judiaria)

«Na Igreja devíamos ser assim. Com muito mais silêncio de acolhimento do que com doutrina pronta-a-servir. Com muito mais disponibilidade para limpar as lágrimas de quem sofre do que certezas para catalogar os comportamentos. Com muito mais amor do que código» (o essencial - palombella rossa)

Timshel [TIMSHEL]

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Acerca da alternativa

Não podemos estar continuadamente a reflectir sobre as nossas acções; se estivermos a reflectir sobre o movimento, por exemplo, uma acção trivial, os passos que damos, e essa reflexão for produtora de análise, é evidente que se estivermos permanentemente a dissecar os factores do passeio, há um sério risco de darmos um trambolhão. De modo análogo, mas talvez de modo mais angustiado, não podemos estar continuadamente a reflectir e menos ainda a pôr em causa os nossos princípios de acção. Se o marido estiver permanentemente a pôr em causa os princípios morais que norteiam o seu comportamento com a esposa, mesmo que as suas intenções sejam as melhores, por exemplo, procurar a melhor relação possível, há no ar um sério risco de divórcio. A começar porque mudando de posição valorativa de segundo para segundo, de hora para hora, tornará impossível a existência de um leque de expectativas de comportamento, suficientemente estável, necessário a qualquer relação. Por isso, há que parar. Quando o homem se aproxima de Cristo e lhe pergunta se amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo é o suficiente para garantir a vida eterna, a resposta é “é” e o conselho “faz”. No entanto, isso não invalida que se temos de parar, se parte da nossa vida se faz em paragem, não tenhamos ainda assim de caminhar. E que a reflexão e o questionamento não tenham uma função na nossa vida e que essa função não seja uma função que deva ser muito valorizada. Não invalida de igual modo que os momentos de crise, por muito dolorosos que sejam, não sejam muitas vezes os mais seminais.
Num trajecto místico, que aqui é apenas considerado como um indicador com interesse para uma análise dos nossos momentos pessoais, os seus três primeiros momentos dizem-nos que após o primeiro chamamento, somos obrigados a confrontar-nos com a nossa história. O que fizemos no passado e o que esse passado fez de nós. Somos obrigados a tomar consciência das tensões que nos percorreram e o modo como essas tensões ganharam corpo em nós. Obrigados a consciencializar o modo como essas tensões se cristalizaram em intenções, acções pessoais, situações em que fomos envolvidos. Esse momento é um tempo de crise. Porque a imagem adquirida que tínhamos do passado é subitamente dilacerada por uma série de intenções e de acções divergentes. Porque nos apercebemos no passado de um conjunto de intenções que seria difícil de supor. Porque o surgimento dessas intenções arrasta consigo a lembrança de actos que queríamos afastados da memória. O apelo confronta-nos então com aquilo que no passado dele nos afastou, confronta-nos também com aquilo que no passado o mascarou. Andando para trás, o apelo produz dissonância. Por isso, leva à crise, à dor, ao sofrimento. É um período de intensa dor. Mas também um período fecundo. Entretanto, não deixa de ser curioso, que se o momento seguinte é um momento de apaziguação, do lento retomar de novas rotinas nas intenções e nas práticas, o momento que se lhe segue é um momento que retoma de novo o reino da incerteza.
Tudo isto porquê? – Porque precisamos de ter consciência de que os momentos e os modos como nos avaliamos, como agimos, como avaliamos os que os outros pensam e fazem, grupos, associações e instituições, as Igrejas e a Igreja Católica é também caso, inserem-se num fluxo dinâmico. Que necessita de fases de abertura de destinos. Mas que necessita também de fases de paragem. Isto joga de algum modo contra a cultura do tempo que enfatiza a crise e também contra a cultura que faz da certeza, da solução e da estabilidade o que há que contrapor como alternativa.

Fernando Macedo [A BORDO]

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Quando os vivos santificam os finados

Da janela da sala vê-se uma ténue luz por entre os ciprestes. Queimam-se as velas derradeiras deste dia de todos os santos, no cemitério dos Prazeres, que o feriado e a tradição popular fazem de memória, celebração e comemoração dos mortos. Afinal, o dia dos finados de amanhã transplanta-se para o dia em que se glorificam santos e santas. Os mortos, homens e mulheres, todos e todas, são assim santificados, por calendário, numa subversão eventualmente inconsciente - de vitória da vida sobre a morte. Uma ressurreição da festa. E os vivos que julgam apenas cuidar dos mortos, acabam por cuidar da celebração da sua vida. Na memória dos amigos e familiares mortos lembramos sempre os momentos de alegria, raramente nos recordamos da tristeza, dificilmente se festejam as angústias. Por isso, toda a alegria deve ser festejada - não condenada.
Da aparelhagem ouvem-se os sons da terra que deus sonhou: Johnny Cash canta o repertório de hinos religiosos de um livro da sua mãe, no disco 4 da absolutamente imperdível caixa "Unearthed" (à venda na net, que por cá já há muito esgotou). Cash gravou estes temas já marcado por um cancro, que à medida que avançava lhe debilitava a voz e engrandecia a vida. E é de vida, que esta voz à beira da morte, canta. É de vida que se sonha, com estes temas. Afinal, a mãe sempre lhe ensinou que a música é uma coisa festiva. «I'll just sing 'em, me and my guitar, simple, no adornment, knowing that God loves music and that music brings hope for a better tomorrow», escreve Cash.
A música deste dia pode ser também um Requiem - mas lembrando que a festa da vida celebra-se sobre a morte. Assim os vivos santificam os finados.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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Judaísmo (experiência de um católico)

Quem, como eu, se interessa pela poesia portuguesa e procura conhecê-la nas suas raízes e primórdios, não pode ficar indiferente às suas profundas marcas judaicas, ao longo dos séculos, de Bernardim a João Miguel Fernandes Jorge, passando por Camões ou por Pessoa. De modos ocultos e sub-reptícios, a poesia assinala o que foi sendo a sociedade e o lugar dos judeus ao longo da nossa História: presença continuada e activa, apesar dos ataques e perseguições.
Mas, mais do que a poesia, foi a figura de dois papas que me levou a simpatizar e a querer conhecer melhor o judaísmo.
No “Diário Íntimo” (editado pela Moraes em 1964 e pela Paulus em 2000), João XXIII revela a profunda simpatia pelo povo Judeu, não deixando margem para espanto para o facto de ter suprimido da liturgia de Sexta-Feira Santa a expressão “pérfidos judeus” e introduzido um texto de quase louvor. Também João Paulo II tinha particular afecto pelos Judeus (além de alguns dos seus textos auto-biográficos e até de alguns documentos oficiais é de grande interesse a “Carta a um Amigo Judeu” de Gian Franco Svidercoschi, editada em 1994 pela Rei dos Livros), referindo-se a eles por várias vezes como “os nossos irmãos mais velhos”, em referência à herança de fé comum e, em muitos pontos, ainda partilhável.
Mais recentemente, o surgimento (fez agora dois anos) da Rua da Judiaria foi, para mim, um modo de aprofundar nesse exercício de convívio intercultural e inter-religioso. Mesmo com as minhas limitações de conhecimentos, a forma afectuosa do blog de Nuno Guerreiro, permitiu-me aproximar-me um pouco mais da realidade do judaísmo.
Reconhecendo as diferenças e factores de separação e divisão, nomeadamente as questões teológicas e doutrinais (apesar de o cristianismo ter nascido no seio do judaísmo, o que os divide é inconciliável), acredito que é possível e desejável uma sã convivência, assim o queiramos e nos saibamos respeitar e aprender uns dos outros.
Não quero, por isso, deixar passar um trecho que considero de grande importância, da mensagem do Cardeal-Patriarca para o Congresso da Nova Evangelização, que ocorrerá em Lisboa, entre 5 e 13 deste mês:
«Longamente dominada por muçulmanos, nela [cidade de Lisboa] sempre habitaram cristãos e judeus, numa experiência única de convivência e tolerância. Esta tem de continuar a ser uma nota constitutiva da fisionomia cultural de Lisboa, na imensa variedade da sua população actual».

Rui Almeida [POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA.]

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