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quarta-feira, outubro 5

 

Da mentira

Estamos em campanha eleitoral. Das piores campanhas eleitorais que me lembro – e a última para as eleições legislativas já foi suficientemente má: do "menino guerreiro" ao homem que nos garantiu que não iria aumentar os impostos, tivemos de tudo. Agora, como o que está em causa são mais razões práticas de administração doméstica das localidades e menos ideologias e concepções da Política, a luta pelos votos desce a níveis mais rasteiros. Não é apenas a inquietante supressão da vergonha, de auto-crítica, de noção do ridículo, do amor-próprio e da dignidade dos candidatos que se prestam a palhaçadas. É também a clubite partidária num espaço em que – diz-se – o que conta são as pessoas (gostava de ouvir a razão que leva os boys dos partidos a considerar o candidato que não conhece mas é do seu partido, à distante junta de freguesia x, melhor que outro candidato qualquer que também não conhece mas é do partido ao lado), a verborreia vazia, que mata qualquer significado das palavras, e os despojos do fim de festa, a sensação de tristeza e inutilidade de tudo aquilo.
No entanto, o mais grave é que parecemos todos aceitar a mentira como a regra deste jogo que devia ser dos mais nobres – a contenda por ideais, princípios e valores para a gestão da coisa pública, do bem comum. Em nenhuma outra actividade, em nenhum outro tipo de relações humanas, nos permitimos deixar impune esta traição à palavra dada. Não aceitamos a mentira aos amigos, aos familiares, aos colegas de trabalho, às empresas, aos clientes, aos desconhecidos com quem temos de lidar. Por que razão achamos natural e justificamos as mentiras dos que se propõem servir um cargo público? Porque criamos (mais) um campo de suspensão da moral nestas relações tão importantes?

Diz Alasdair MacIntyre (After Virtue - A Study in Moral Theory, Gerald Duckworth & Co., London, 1981) que perdemos um meio de assegurar racionalmente o acordo moral na nossa cultura. O imperativo categórico kantiano, expressão máxima do Iluminismo, dizia-nos: age sempre segundo uma máxima que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal, age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na de qualquer outro, sempre simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio, e que a vontade se possa considerar a si mesma como constituindo simultaneamente por intermédio da sua máxima uma legislação universal. Mas esta formulação da lei moral não pode ser uma proposição universalizável, na medida em que ela poderá validar com igual sucesso máximas triviais ou mesmo imorais. E, assim, desde o fracasso do projecto iluminista, que ficámos sem um background sustentador da moral.
Coube à religião, durante muito tempo, fornecer essa referência externa, esse suporte da moral, e o Iluminismo, embora ferindo as religiões tal como as conhecíamos, não foi capaz de fornecer um sustento à moral. Após a falência do Iluminismo, e como consequência, ganhou terreno a doutrina que sustenta ser todo o julgamento moral não mais do que uma expressão de preferência, reflectindo atitudes e sentimentos, e cujas proposições não são, portanto, nem verdadeiras nem falsas: é o emotivismo. É neste ponto em que estamos. Daí que muitos defendam convictamente que é irrelevante a consciente mentira de Sócrates sobre o não aumento dos impostos, pois, na realidade, não havia alternativa e todos concordam com o seu aumento.

O que tem isto a ver com a Terra da Alegria? Tem tudo, pois o que está em causa é o projecto de humanidade que tentamos seguir ou, mais humildemente, aquilo que pensamos que o homem é, o conceito de homem entendido como tendo uma natureza e função essenciais. Ora, desde o fracasso do iluminismo que se fracturou a concepção de homem que esteve presente nos nossos espíritos desde Aristóteles: homem tal como é, o homem tal como poderia ser se compreendesse a sua natureza essencial, e a ética como o instrumento que permite ao homem passar de um estado ao outro.
Hoje em dia isto soa a grego aos nossos ouvidos. Agora tudo se adulterou. A própria noção de Bem foi enfraquecida. Para Aristóteles, chamar boa a uma coisa era dizer que essa coisa servia perfeitamente o propósito para a qual era geralmente requerida. Mas a partir do momento em que a noção teleológica de natureza humana desapareceu, deixou de ser possível tratar os julgamentos morais como afirmações factuais.
Hoje subordinamos a moral à eficácia, a dados mensuráveis num determinado momento, aferíveis num lapso de tempo concreto. Ontem já passou e a manhã será outro dia. Daí que, nas campanhas de circo dos nossos politiquinhos, a dignidade da palavra dada seja um corpo estranho. Como a moral, a dignidade pressupõe uma coluna vertebral, um estado vertical com uma qualquer referência espacial. Mas na ausência de um propósito, de um objectivo último, o que é verdade hoje é mentira amanhã. E, assim, é sempre mentira.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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