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quarta-feira, outubro 19

 

Cristão sem causas

«A respeito de liberdade e tirania não é preciso dizer tanto ‘homo homini lupus’, que o homem é um lobo para o homem, quanto ‘homo homini agnus’, o homem é um cordeiro para o homem. Não foi o tirano que fez o escravo, mas o contrário. Foi um que se ofereceu para levar aos ombros o seu irmão, e não este que o obrigou a que aquele o levasse. Porque a essência do homem é a preguiça e, com ela, o horror à responsabilidade.» - Miguel de Unamuno em “A agonia do cristianismo”.

A título prévio, devo reconhecer aqui de novo que não sendo eu mais do que um simples engenheiro, ignorante e materialista, o meu pensamento sobre a vida, a fé e o mundo evolui muito consoante as minhas leituras do momento. Ora acontece que tenho andado a ler e reler alguns católicos borderline: Loisy, Simone Weil e mais recentemente Unamuno. Com este último encontrei uma estranha afinidade espiritual, que me preocupa um bocado. Daí que o seu livrinho “A agonia do Cristianismo” (que antes se deveria ter chamado Agonia no Cristianismo) me tem andado a acompanhar há meses, em viagens de avião, em almoços solitários, em noites de insónia. Mas vamos a isto, que não vai ser fácil.
Eu acredito em Deus, acredito que Ele nos enviou Cristo para que O conheçamos e possamos ser salvos. Sermos salvos, seja o que isso fôr. Mas salvos quem? Eu? Nós? Vós? Eles? Alguns? Todos? Eu sou dos que acredita que, pelo menos, podemos todos ser salvos. Mas não acredito tão tranquilamente na salvação do Mundo, nem da Humanidade, que é muito mais e muito menos do que o somatório de todos os que viveram, vivem e viverão neste mundo que nos foi dado. O mundo em que vivemos e a humanidade que somos são realidades transitórias, não eternas, e por isso não susceptíveis de serem salvas, acho eu. Já o Homem, criado à imagem semelhança de Deus, colocado transitoriamente na Terra para viver aqui e acabar por regressar a Ele, esse pode salvar-se, talvez reassumido a essência, substância, identidade ou lá o que seja (não sou hindu para saber distinguir conceitos tão subtis) de onde veio cada um de nós.
E lendo os Evangelhos, que são para uns a Palavra e para outros a Letra de Cristo, não consigo discernir, não consigo sequer neles sentir nada que seja uma promessa de salvação do mundo ou uma exigência de transformação da sociedade. O que sinto sim é uma exigência de transformação de cada um de nós, no íntimo dos nossos corações, porta única e estreita para a nossa salvação. Vejamos então.
Cristo aceita César naquilo que é de César; Cristo diz que pobres sempre os haverá, tal como os ricos, para os quais tão estreita é a porta da salvação; Cristo entrega-Se à autoridade do Sinédrio que julga, pune e se ofende em nome do Seu Pai; Cristo impede os seus de o defenderem pelas armas. Cristo veio então ao Mundo, não para o mudar mas para viver e ser morto em nome das regras desse Mundo.
Mas Cristo veio ao Mundo para muito mais do que isso: veio para nos transformar a nós todos, individualmente, intimamente. E essa transformação não é menos do que o seu mandamento novo: que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou. Não é amar o estranho como nos amamos a nós mesmos, pois isso pode ser também: amar-nos a nós mesmos como amamos o estranho, ou seja, pouco. Não, o mandamento novo é mesmo amar-nos uns aos outros como Ele nos amou, oferecendo aos outros a vida como ele ofereceu.
Ora um amor assim não é humano mas divino. Só quando, individualmente, sentimos misticamente a presença de Deus, não no vazio duma igreja ou duma Igreja, mas no outro que sofre à nossa frente, é que conseguimos amar assim. E só amando assim conseguimos transformar-nos. E um amor assim é, digam o que quiserem, um sentimento individualíssimo. Já vi paixões colectivas, nunca amores colectivos.
Mas deixemo-nos de reflexões delicodoces e passemos a filosofia barata, melhor dizendo, passemos ao meu ponto. Que é o seguinte: a humanidade (ou sociedade humana) segue leis semelhantes à tectónica de placas, que se manifestou tão tragicamente há uma semana no Paquistão. Tal como há placas continentais que empurram outras, provocando-lhes uma subdução destruidora, também há homens que dominam sobre outros que aceitam ou querem ser dominados. E isto é tanto mais verdade quando generalizamos de homens para grupos, de grupos para classes, de classes para tribos, de tribos para estados. Tal como a matéria, também o homem quanto mais se agrega mais se afasta da sua natureza essencial, a tal que acreditamos ser à imagem e semelhança de Deus. Da mesma forma que as infinitas combinações da matéria fazem aumentar ainda mais a entropia do universo criado, quanto maior e mais complexa fôr a sociedade humana mais facilmente ela se afasta do projecto de Deus para o Homem, pois mais diluída fica a natureza essencial de cada Homem. Concordo que a natureza gregária do Homem desenvolva a sua natureza mas tenho para mim que a infinita sobreposição de individualidades humanas abafa e degrada a natureza humana. Isto se não houver Alguém que intervenha. E já houve. Mas lá iremos.
Voltemos ao meu ponto, tentando ser mais claro: o Homem contém imagem e semelhança de Deus mas a Humanidade não, definitivamente. Usando terminologia judeo-cabalística, o que a Humanidade contém são centelhas da natureza divina, espalhadas por aí, em cada um de nós todos. Se calhar a expulsão do paraíso não é mais do que uma metáfora da transformação de Homem e Mulher em Humanidade. E ao desenvolver-se a Humanidade, o Homem, cada Homem, procurou adaptar-se a ela. Unamuno acreditou, e eu também acredito, que a pulsão dominante dos Homens em Humanidade é a preguiça e a desresponsabilização: não estando felizmente sozinhos queremos então que haja quem mande em nós e nos guie. «Não foi o tirano que fez o escravo, mas o contrário. Foi um que se ofereceu para levar aos ombros o seu irmão, e não este que o obrigou a que aquele o levasse.» Ainda não li “As origens do Totalitarismo” da Hannah Arendt, mas desconfio que não deve andar muito longe disto.
Quero pois insistir num ponto: não acredito na transformação da sociedade para se transformarem os Homens; acredito sim na transformação dos Homens para assim, talvez, se transformar a sociedade. E, como disse atrás, acredito que foi precisamente para isso, para transformar os Homens, mas cada Homem, que Deus nos enviou o Seu Filho.
Ora é precisamente por isso que, ao contrário de grande parte dos meus amigos da Terra, o meu cristianismo é apolítico, totalmente apolítico.
Volto a citar Unamuno, que era muito cristão e muito político, mas que não era definitivamente um cristão político nem um político cristão:
«A missão cristã não é resolver o problema económico-social, o da pobreza e da riqueza, o da partilha dos bens da terra; embora aquilo que redime o pobre da sua pobreza também redima o rico da sua riqueza, do mesmo modo que aquilo que redime o escravo redima também o tirano, e que é preciso acabar com a pena de morte para resgatar não o réu, mas o verdugo. Mas isto não é uma missão cristã. Cristo chama igualmente pobres e ricos, escravos e tiranos, réus e verdugos. Perante o fim do mundo, perante a morte, que significam pobreza e riqueza, escravidão e tirania, ser executado ou executar uma sentença de morte?»
Unamuno aqui não está a ser conformista, embora o possa parecer. Não, o que ele está a fazer é a tentar ser coerente com aquilo que a Palavra e Vida de Cristo são e não com aquilo que grande parte de nós gostaríamos que fossem. A coerência dele é uma coerência que resulta duma Fé profunda mas que é fonte dum também profundo sofrimento de crente: a tal agonia do cristianismo. Outra citação ajuda talvez a percebê-lo melhor:
«Mas como o cristão é um homem em sociedade, é um homem civil, é cidadão, poderá ele desinteressar-se da vida social e civil? Ah! A verdade é que a cristandade pede uma solidão perfeita; a verdade é que o ideal da cristandade é um Cartuxo que deixa pai e mãe e os irmãos por Cristo, e renuncia a constituir família, a ser marido e a ser pai. O que é impossível, se a estirpe humana tiver de continuar a existir, se a cristandade tiver de continuar a existir no sentido de comunidade social e e civil de cristãos, se a Igreja tiver de continuar a existir. E isto é a coisa mais terrível da agonia do cristianismo».
Confusos? Pois com certeza, também eu o estou. Só tenho algumas ideias claras. Uma é que o desejo de politização, no sentido de actuarmos ou apoiarmos a tentativa de transformação da sociedade, para extirpar as terríveis injustiças que a minam é uma coisa muito válida – apenas acontece que, muitas vezes, é desculpa para não fazermos por nossas mãos aquilo que é preciso fazer ao próximo que sofre ao nosso lado, outorgando essa nobre e incómoda missão a outrem, tão indefinido como só o Estado pode ser. Outra ideia clara é que a única coisa que podemos fazer enquanto cristãos é darmos testemunho Dele. E isso não pode ser menos do que entregarmos ao Outro a nossa vida ou uma boa parte dela. Só assim é que o Amor que Ele nos ensinou, nos pode transformar a nós, e transformar outros à nossa volta. Parece irrelevante e minúsculo mas conheço pouquíssimos capazes de o fazer.
E aí está a minha outra ideia clara: é que apesar de todas estas ideias claras eu tenho sido absolutamente incapaz de fazer algo que remotamente se pareça com isso. E que certamente, por mais tempo ainda, continuarei a sê-lo. Essa é que é a agonia do meu cristianismo.
Mas sou católico e um católico é sempre um cristão com esperança. E a esperança que tenho é a de que um dia eu e todos nos ofereçamos para levar aos ombros os irmãos que precisam e não aqueles que pretendemos agradar ou aplacar. E que em caso algum, salvo se muito precisarmos, eu e todos nos recusemos a que quaisquer irmãos nossos nos carreguem aos ombros. Para assim caminharmos lado a lado, como filhos do mesmo Pai.
E a Igreja?, perguntarão. Bom, a Igreja, conjunto de monjes e de frades, a Igreja corpo místico de Cristo mas também povo de Deus mas também organização e hierarquia, obrigada que está a durar até ao fim dos tempos, a Igreja essa sofre, mais ainda do que nós a agonia de Unamuno, que é mais não é do que uma luta, a luta entre a vida da Fé e a perenidade do testemunho.
Por isso ela nos dá a sua doutrina social, a sua caridade, a opção preferencial pelos pobres mas tem de reprimir e abafar a teologia de libertação. Tal como eu, a Igreja sendo cristã pode e deve ser política. Mas não enquanto Igreja de Cristo.

Chega por hoje, para não confundir os incautos nem a mim próprio. Mas este assunto dá pano para mangas, talvez o continue no Guia...

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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