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quarta-feira, outubro 5

 

As causas da decadência dos povos peninsulares (1)

No outro dia estava eu a vasculhar o canto da estante da sala onde guardo todos os meu Eças e afins, à procura de releitura para serenar a alma. E eis que deparei com um livrinho, já velho e gasto, com o título acima escrito, a versão impressa daquilo que foi a célebre palestra de Antero de Quental, a primeira das célebres Conferências do Casino, cujo abrupto encerramento por ordem dum primeiro-ministro qualquer, que deixou apenas nome de rua, tanta celeuma provocou no Portugal de novecentos, tão longe de nós em idade, tão próximo de nós em qualidade.
Reli com gosto a tese de Antero, sobre as causas da espantosa decadência dos povos ibéricos, tão mais espantosa quanto mais era confrontada com o enorme desenvolvimento de então dos povos mais setentrionais, protestantes mas não só protestantes. Segundo Antero, que «era um génio e era um santo», essa decadência portuguesa e espanhola, contínua e irreversível desde o século XVII, era sobretudo resultante dos preversos efeitos do Concílio de Trento, que encontrou aqui na Península Ibérica um terreno muito mais arável do que na volátil França e na dura Áustria. Daí advieram uma debilitante influência clerical nos estados e nos povos, uma esterilizante educação da gentes e por aí adiante. Era também resultante do absolutismo, uma espécie particular de absolutismo plutocrata que, ao não concessionar a ninguém os gordos proveitos dos dois impérios, matou à nascença o desenvolvimento duma classe média burguesa que soubesse depender mais da sua própria iniciativa do que das mercês e munificências reais. Finalmente, era também resultante das duas formidáveis expansões imperiais, demasiado formidáveis para os recursos populacionais de ambos os povos, sobretudo dos nossos. E, talvez sobretudo, por ter habituado portugueses e espanhóis a ir buscar a riqueza na rapina ou no garimpo, em vez da indústria e do comércio. Mas fiquemo-nos por aqui quanto à tese de Antero.
Até porque passado quase um século e meio, a sua negra e sábia análise revela-se claramente caduca e ultrapassada. Pelo menos no que respeita à questão da peninsularidade, pois os povos reunidos na nação aqui ao lado encarregaram-se de demonstrar que a canga católica, a pesada herança autoritária e o saudosismo imperial não foram nem são impeditivos do tremendo salto de desenvolvimento que eles vêm dando de há 20 anos para cá.
E assim sendo, vemos ainda mais cruamente que o duro facto de afinal não termos saído da cepa torta não pode ser assacado ao voluntarismo de D. João II, à beatice de D. João III e à louca voragem despesista de D. João V. E, para não nos ficarmos apenas pelos Joões, não vale a pena queixarmo-nos das invasões francesas pois antes de aqui chegarem e depois de aqui de se irem, essa tropa fandanga assolou toda a Espanha. Nem vale a pena carpirmos as guerras civis pois nuestros hermanos também as tiveram mais numerosas e muito mais sangrentas, tiveram mesmo a guerra civil que é vista como a mãe de todas as guerras civis. Nem vale a pena relembrarmos o inefável António das Botas pois eles tiveram também o Francisco, o generalíssimo, muito mais bruto e mais bronco do que o nosso suavíssimo e imensamente cínico professor de Coimbra. E já que isto é um espaço católico, não vale também a pena falar do Cardeal Cerejeira, do Arcebispo Bispo Conde não sei de onde, nem da cumplicidade entre Igreja Católica e o Estado Novo. Os espanhóis tiveram isso e muito mais, pois foi uma cumplicidade fundada no sangue derramado na Guerra Civil. Nem vale a pena (e que me perdoe o meu avôzinho que está em Deus) falar do 25 de Abril e da enorme instabilidade que se arrastou por longos anos. Aqui ao lado, desde a morte de Franco até ao golpe falhado de Tejero Molina não foi pequena a instabilidade, acrescida como sempre do pesado tremendismo espanhol. É certo que nesses períodos loucos, aqui governados mais à esquerda, lá mais à direita, notaram-se algumas diferenças, talvez por lá se tenham agigantado mais grandes figuras, a começar pelo Rei, talvez por lá, para o mal e para o bem, as coisa tenha sido mais sérias e menos bufas.
Mas o facto evidente para quem tenha memória, é que quando em 1986, nos Jerónimos e na Moncloa, Portugal e Espanha foram admitidos ao reservado e providencial clube da CEE, estavam ambos em situações muito análogas: ambos de tanga, ambos lambendo feridas, ambos admitidos a bem da preservação da democracia e não por acrescentarem algo à economia dos grandes países que nos abriram os braços.
Eu sei que já cansa dizer e já cansa ouvir isto mas o facto é que passados quase 20 anos, olhando-se para os presentes estágios de desenvolvimento de Espanha e de Portugal, se percebe o quanto se enganou Antero ao colocar nos ombros de Portugal e nos ombros de Espanha a canga do mesmo atávico destino...
Como eu não sou nenhuma Ana Drago (abrenúncio!), não vou aqui falar aqui dos casamentos homossexuais nem do aborto nem doutras coisas fracturantes e, desculpem lá, não muito relevantes. Sou sim um homem prático e portanto é de coisas práticas que vou falar. Coisas práticas em que se cavou um abismo tremendo pelos lados da raia. Abismo que nos faz a nós portugueses recordar com alguma nostalgia os tempos em os pitorescos chapéus da GNR, do lado de cá, vigiavam os muito ridículos chapéus da Guardia Civil, do lado de lá.
Pois é a economia daquela gente, parece que já a 9ª do Mundo, a bater já às portas do nefando G8. Uma economia poderosa, aceleradíssima, que sustenta um Estado sem défice, governado por um socialista poético e que se pode dar ao luxo de o ser. Uma economia que eleva a Espanha no concerto das nações, a elevará certamente ao Directório Europeu, o dos 6 grandes, quando inevitavelmente ele fôr formado. Uma economia que se exporta para todo o Mundo mas que, à custa da persitente sabedoria dos seus governantes, uns após os outros, continua a alimentar-se de milhões e milhões e milhões de euros comunitários. E uma economia que, prova da Espanha ser verdadeiramente um país desenvolvido, se distribui não apenas em dividendos a accionistas satisfeitos. Daí um Sistema de Saúde invejável. Uma educação em franco progresso, sobretudo a universitária, que atinge hoje já patamares impensáveis para nós. Infraestruturas em progresso torrencial, quase demencial. Umas Forças Armadas prósperas e orgulhosas. E por cima de tudo isto, um modelo de desenvolvimento económico, que continua e perpassa pela alternância de governos de direita para governos de esquerda e que subjaz de uma certa ideia de Espanha. Uma ideia simples e que, mesmo com a excitação sempre latente e agora mais forte, das nações e nacionalismos, existe como existiu sempre na cabeça de todo o espanhol seja ele galego, basco, catalão ou lepero: a ideia grandiosa e grandiloquente de que arriba España!
Enfim, vai por lá uma grandeza...
E é com (mais) esta citação queirosiana, da bucolíssima “A cidade e as serras”, citação a que freudianamente recorro por sentir que tão pouco avançámos desde os tempos de Eça, que me interrompo por hoje, antes de passar à parte dura de escrever, a parte sobre porque é que para cá de Badajoz as coisas vão correndo tão mal, sem melhoria à vista. E, pior ainda, sobre aquilo que eu penso que vai acontecer.
Aproveito e deixo também passar as eleições autárquicas, onde certos 4 cavaleiros do apocalipse irão com certeza conseguir demonstrar que a culpa é irremediavel e inapagavelemente nossa. Nossa, de todos nós.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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