<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, outubro 26

 

Amarás o teu próximo como a ti mesmo

Tal como num espelho. O outro sou eu. Eu também sou o outro. Um espelho que é uma medida infalível para descobrir se amamos ou não o nosso próximo.
A justiça cristã não é uma justiça retributiva. Jesus não disse: "Faz ao outro aquilo que ele te faz a ti". O que Jesus disse foi: o que tu querias que o outro te fizesse a ti, é isso que lhe deves fazer.
Julgo que foi Bernard Shaw que disse "Não faças aos outros aquilo que gostavas que eles te fizessem: os teus gostos podem não ser os deles". A frase tem piada mas não é essa a perspectiva do cristão. A perspectiva do cristão é: faz ao outro aquilo que ele mais necessita.
Jesus considerava o amor ao próximo como «o seu mandamento», aquele em que se resume toda a Lei. «Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei.» (João 15,12). O cristianismo é este mandamento do amor. Contudo, diz o padre Raniero Cantalamessa, quando se fala de amor ao próximo, pensa-se logo nas obras de caridade e nas coisas fazer pelo próximo: dar-lhe de comer, de beber, visitá-lo, em resumo, ajudar o próximo. Mas, se isto é um efeito do acto do amor, não é o amor. Antes da beneficência vem a bondade; ante de fazer o bem vem querer o bem.

A caridade muitas vezes é fingida pois na realidade é feita por simples ostentação, para passar por benfeitor, para ganhar o paraíso (como se Deus fosse um merceeiro), até por remorsos da consciência.
Mas seria um erro fatal contrapor o amor à caridade material, ou refugiarmo-nos nas boas disposições interiores para com os outros como desculpa para a própria falta de caridade activa e concreta.
Se encontras um pobre esfomeado tiritando de frio, dizia São Tiago, de que lhe serve que lhe digas "Pobrezinho, vai-te aquecer e comer alguma coisa!", se não lhe deres nada do que ele necessita? (os modernos liberais diriam: "O que estás aqui a fazer? Vai trabalhar, pá! Viva a liberdade empresarial!")
Diz São João: não amemos só com palavras mas também com obras. Não se trata portanto de desvalorizar as obras exteriores de caridade, mas fazer com que estas se fundamentem em amor e bondade verdadeiros.
A caridade de coração é algo que todos podemos exercitar e que é universal. Todos a podemos ter se tivermos vontade e a graça de Deus. Não é uma caridade que apenas alguns – os ricos e os saudáveis – possam dar e os outros – os pobres e os enfermos – receber. Todos podem dá-la e recebê-la. Para além do mais é concretíssima. Trata-se de começar a olhar com novos olhos as situações e as pessoas que vemos ou com quem vivemos. Com os olhos com que Deus nos olha: olhos de desculpa, de bondade, de compreensão, de perdão...
Quando isto acontece todas as relações mudam. Caem, como por milagre, todos os motivos de prevenção e de hostilidade que nos impedem de amar alguém e esta aparece como é na realidade: um ser humano amado por Deus, que sofre pelas suas debilidades e limitações (que surgem muitas vezes camufladas de agressividade e de violência). Como tu, como eu, como todos. É como se a máscara que as pessoas e as coisas tivessem colocado, caísse de repente e a pessoa e a situação aparecesse tal como verdadeiramente é.

Este texto foi baseado nas palavras do padre Raniero Cantalamessa tal como as li aqui . Se algo parece menos correcto tal se deve à minha tradução ou às pequenas adaptações ou modificações que introduzi aqui e ali.
Gostaria apenas de explicar uma frase aqui referida – "a justiça cristã não é uma justiça retributiva". A explicação é, parece-me, apenas esta: a justiça cristã é a justiça do amor infinito.

Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

Deus está no Outro

A conversão é uma mudança nas atitudes (uma revolução permanente, diriam uns), um virar das direcções do olhar, motivada pela fé de cada crente. Uma mudança interior que se reflecte num olhar para fora, numa dádiva. Porque se, para um cristão, Deus habita nas consciências de cada um, o lugar primário de Deus encontra-se no Outro, nas pessoas dos outros.
Diz-nos Jesus que «se estiveres para fazer a tua oferta no altar e te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão» (Mt 5, 23-24). E ensina-nos S. Paulo: «ninguém procure satisfazer os seus próprios interesses, mas os do próximo» (1 Cor 10,24).
E de entre os outros, em primeiro lugar, numa opção preferencial, como lhe chama a Igreja, estão os mais frágeis de todos: os pobres, os excluídos, as crianças: «de cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes» (Mt 25, 31-46).

Ou, de outra maneira: que diferença faz na minha vida, eu crer? E que diferença faz na vida do meu próximo? Se não faz nenhuma diferença, se olho mais para mim que para fora de mim, se "amo a Deus" mas tenho dificuldade em amar os homens, se ter fé não se manifesta nos meus actos, nas circunstâncias da minha vida, para que serve? Para um conforto espiritual? Para um estéril "conhecer-me a mim mesmo", para um refinar dos meus sentimentos? Para quê? Para quê?

No fundo, partilho a agonia do cristianismo de que falava o José na semana passada, sem o conseguir expressar com a mesma clareza. É que a mim, além das palavras, vai-me faltando a fé.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

(0) comments

segunda-feira, outubro 24

 

A Igreja e o Amor

Neste domingo, a Palavra coloca-nos no fundamento do que tem de ser a nossa relação com Deus e com o próximo; o Amor. (Mt 22, 34-40) As autoridades religiosas depois de verem Jesus a não cumprir leis que eles tinham como o superlativo da relação com Deus, por exemplo; o descanso no dia de sábado, onde não era permitido fazer nada, até os passos dados eram contados e tinham um limite. Era proibido cozinhar, ou fazer qualquer outra tarefa. Ajudar alguém necessitado era infringir a Lei. Jesus, com a clarividência dos profetas, ousou infringir essas regras ridículas e centrar-se no essencial: a atitude de amor filial a Deus e o amor solidário aos irmãos. Esta atitude teve como consequência a sua condenação e morte.

Dois mil anos decorridos do facto Jesus de Nazaré, não é menor o perigo de nos deixarmos enredar em legalismos que apenas nos servem de desculpa para o nosso imobilismo. Arranjamos muitas desculpas para não agir de forma solidária e empenhada na superação de muitos males que afectam o mundo em que vivemos. Uma das que se ouve com mais frequência é de que a Igreja actua apenas e só, para a salvação da alma. Pegando na palavra de Jesus: “... portanto o meu Reino não é deste mundo” (Jo 18, 36) encontramos argumento para defender a acção da Igreja apenas no campo espiritual. Não foi esse o modo de actuar de Jesus. O homem é indivisível na sua natureza, corpo e alma são o todo do seu ser.

Diz o documento do Concílio Vat. II, Gaudium et Spes, no seu proémio:
As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história.

E no capítulo II, nº 24:
Deus, que por todos cuida com solicitude paternal, quis que os homens formassem uma só família, e se tratassem uns aos outros como irmãos. Criados todos à imagem e semelhança daquele Deus que «fez habitar sobre toda a face da terra o inteiro género humano, saído dum princípio único» (Act. 17,26), todos são chamados a um só e mesmo fim, que é o próprio Deus.
E por isso, o amor de Deus e do próximo é o primeiro e maior de todos os mandamentos. Mas a Sagrada Escritura ensina-nos que o amor de Deus não se pode separar do amor do próximo, «...todos os outros mandamentos se resumem neste: amarás o próximo como a ti mesmo... A caridade é, pois, a lei na sua plenitude» (Rom. 13, 9-10; cfr. 1 Jo. 4,20). Isto revela-se como sendo da maior importância, hoje que os homens se tornam cada dia mais dependentes uns dos outros e o mundo se unifica cada vez mais
.

25. A natureza social do homem torna claro que o progresso da pessoa humana e o desenvolvimento da própria sociedade estão em mútua dependência. Com efeito, a pessoa humana, uma vez que, por sua natureza, necessita absolutamente da vida social (3), é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as instituições sociais.

32. Do mesmo modo que Deus não criou os homens para viverem isolados, mas para se unirem em sociedade, assim também Lhe «aprouve... santificar e salvar os homens não individualmente e com exclusão de qualquer ligação mútua, mas fazendo deles um povo que O reconhecesse em verdade e O servisse santamente» (13). Desde o começo da história da salvação, Ele escolheu os homens não só como indivíduos mas ainda como membros duma comunidade. Com efeito, manifestando o seu desígnio, chamou a esses escolhidos o «seu povo» (Ex. 3, 7-12), com o qual estabeleceu aliança no Sinai (14).


Esta índole comunitária aperfeiçoa-se e completa-se com a obra de Jesus Cristo. Pois o próprio Verbo encarnado quis participar da vida social dos homens. Tomou parte nas bodas de Caná, entrou na casa de Zaqueu, comeu com os publicanos e pecadores. Revelou o amor do Pai e a sublime vocação dos homens, evocando realidades sociais comuns e servindo-se de modos de falar e de imagens da vida de todos os dias. Santificou os laços sociais e antes de mais os familiares, fonte da vida social; e submeteu-se livremente às leis do seu país. Quis levar a vida dum operário do seu tempo e da sua terra.


A partir desta perspectiva, é claro que, cada cristão na assunção diária do seu baptismo, deve empenhar-se individualmente e em grupos de vária natureza – recreativos, sócio-caritativos, promotores da cultura e educação, apoio a emigrantes e excluídos de qualquer ordem, políticos, etc. – para a promoção do bem comum. É imensa a lista de possibilidades onde se pode estender a acção dos cristãos. Será sempre tida em conta a sua vocação e a sua possibilidade e disponibilidade de acção. No percurso de qualquer cristão é impossível não haver uma sintonia entre a sua pertença à Igreja e o compromisso diário de concretizar sinais claros da presença do Reino, já neste mundo. “Ninguém poderá afirmar: “Ei-lo aqui” ou “Ei-lo ali”, pois o Reino de Deus está entre vós.” (LC 17,21).

Deus, é um Deus que salva dentro da história, no meio das vicissitudes humanas. Assim, insistir numa fé privada, oferecer aos pobres e excluídos deste mundo apenas o consolo da salvação um dia depois da morte, é ser um contra-sinal do Reino. A Igreja que devemos construir, tem de ser uma Igreja comprometida com a salvação integral do homem e da humanidade no seu conjunto.
A comunhão eucarística que recebemos, é uma prefiguração do que há-de ser a “comunhão dos santos na Jerusalém Celeste
Acção de graças, trabalho, comunidade. Tudo isto implica uma morte. A acção de graças é a morte do meu instinto de propriedade. O trabalho é a morte da minha preguiça. A comunidade é a morte do meu individualismo. A morte está presente em tudo, mas ela é ao mesmo tempo ressurreição. Morrendo ao meu individualismo, preguiça, instinto de propriedade, passo para Cristo, torno-me mais Cristo, até me tornar totalmente Ele, depois dessa morte que é a morte final.” (François Varillon in Viver o Evangelho).

Deliberadamente, não falei uma única vez de libertação, (ops já falei), mas todo o amor é livre e libertador, senão não é Amor.


Maria da Conceição (
JARDIM DE LUZ)

(0) comments

Sondagem de opinião

Obtida na revista Le Monde des Religions. Clic na imagem para aumentar.





via Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

(0) comments

quarta-feira, outubro 19

 

Cristão sem causas

«A respeito de liberdade e tirania não é preciso dizer tanto ‘homo homini lupus’, que o homem é um lobo para o homem, quanto ‘homo homini agnus’, o homem é um cordeiro para o homem. Não foi o tirano que fez o escravo, mas o contrário. Foi um que se ofereceu para levar aos ombros o seu irmão, e não este que o obrigou a que aquele o levasse. Porque a essência do homem é a preguiça e, com ela, o horror à responsabilidade.» - Miguel de Unamuno em “A agonia do cristianismo”.

A título prévio, devo reconhecer aqui de novo que não sendo eu mais do que um simples engenheiro, ignorante e materialista, o meu pensamento sobre a vida, a fé e o mundo evolui muito consoante as minhas leituras do momento. Ora acontece que tenho andado a ler e reler alguns católicos borderline: Loisy, Simone Weil e mais recentemente Unamuno. Com este último encontrei uma estranha afinidade espiritual, que me preocupa um bocado. Daí que o seu livrinho “A agonia do Cristianismo” (que antes se deveria ter chamado Agonia no Cristianismo) me tem andado a acompanhar há meses, em viagens de avião, em almoços solitários, em noites de insónia. Mas vamos a isto, que não vai ser fácil.
Eu acredito em Deus, acredito que Ele nos enviou Cristo para que O conheçamos e possamos ser salvos. Sermos salvos, seja o que isso fôr. Mas salvos quem? Eu? Nós? Vós? Eles? Alguns? Todos? Eu sou dos que acredita que, pelo menos, podemos todos ser salvos. Mas não acredito tão tranquilamente na salvação do Mundo, nem da Humanidade, que é muito mais e muito menos do que o somatório de todos os que viveram, vivem e viverão neste mundo que nos foi dado. O mundo em que vivemos e a humanidade que somos são realidades transitórias, não eternas, e por isso não susceptíveis de serem salvas, acho eu. Já o Homem, criado à imagem semelhança de Deus, colocado transitoriamente na Terra para viver aqui e acabar por regressar a Ele, esse pode salvar-se, talvez reassumido a essência, substância, identidade ou lá o que seja (não sou hindu para saber distinguir conceitos tão subtis) de onde veio cada um de nós.
E lendo os Evangelhos, que são para uns a Palavra e para outros a Letra de Cristo, não consigo discernir, não consigo sequer neles sentir nada que seja uma promessa de salvação do mundo ou uma exigência de transformação da sociedade. O que sinto sim é uma exigência de transformação de cada um de nós, no íntimo dos nossos corações, porta única e estreita para a nossa salvação. Vejamos então.
Cristo aceita César naquilo que é de César; Cristo diz que pobres sempre os haverá, tal como os ricos, para os quais tão estreita é a porta da salvação; Cristo entrega-Se à autoridade do Sinédrio que julga, pune e se ofende em nome do Seu Pai; Cristo impede os seus de o defenderem pelas armas. Cristo veio então ao Mundo, não para o mudar mas para viver e ser morto em nome das regras desse Mundo.
Mas Cristo veio ao Mundo para muito mais do que isso: veio para nos transformar a nós todos, individualmente, intimamente. E essa transformação não é menos do que o seu mandamento novo: que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou. Não é amar o estranho como nos amamos a nós mesmos, pois isso pode ser também: amar-nos a nós mesmos como amamos o estranho, ou seja, pouco. Não, o mandamento novo é mesmo amar-nos uns aos outros como Ele nos amou, oferecendo aos outros a vida como ele ofereceu.
Ora um amor assim não é humano mas divino. Só quando, individualmente, sentimos misticamente a presença de Deus, não no vazio duma igreja ou duma Igreja, mas no outro que sofre à nossa frente, é que conseguimos amar assim. E só amando assim conseguimos transformar-nos. E um amor assim é, digam o que quiserem, um sentimento individualíssimo. Já vi paixões colectivas, nunca amores colectivos.
Mas deixemo-nos de reflexões delicodoces e passemos a filosofia barata, melhor dizendo, passemos ao meu ponto. Que é o seguinte: a humanidade (ou sociedade humana) segue leis semelhantes à tectónica de placas, que se manifestou tão tragicamente há uma semana no Paquistão. Tal como há placas continentais que empurram outras, provocando-lhes uma subdução destruidora, também há homens que dominam sobre outros que aceitam ou querem ser dominados. E isto é tanto mais verdade quando generalizamos de homens para grupos, de grupos para classes, de classes para tribos, de tribos para estados. Tal como a matéria, também o homem quanto mais se agrega mais se afasta da sua natureza essencial, a tal que acreditamos ser à imagem e semelhança de Deus. Da mesma forma que as infinitas combinações da matéria fazem aumentar ainda mais a entropia do universo criado, quanto maior e mais complexa fôr a sociedade humana mais facilmente ela se afasta do projecto de Deus para o Homem, pois mais diluída fica a natureza essencial de cada Homem. Concordo que a natureza gregária do Homem desenvolva a sua natureza mas tenho para mim que a infinita sobreposição de individualidades humanas abafa e degrada a natureza humana. Isto se não houver Alguém que intervenha. E já houve. Mas lá iremos.
Voltemos ao meu ponto, tentando ser mais claro: o Homem contém imagem e semelhança de Deus mas a Humanidade não, definitivamente. Usando terminologia judeo-cabalística, o que a Humanidade contém são centelhas da natureza divina, espalhadas por aí, em cada um de nós todos. Se calhar a expulsão do paraíso não é mais do que uma metáfora da transformação de Homem e Mulher em Humanidade. E ao desenvolver-se a Humanidade, o Homem, cada Homem, procurou adaptar-se a ela. Unamuno acreditou, e eu também acredito, que a pulsão dominante dos Homens em Humanidade é a preguiça e a desresponsabilização: não estando felizmente sozinhos queremos então que haja quem mande em nós e nos guie. «Não foi o tirano que fez o escravo, mas o contrário. Foi um que se ofereceu para levar aos ombros o seu irmão, e não este que o obrigou a que aquele o levasse.» Ainda não li “As origens do Totalitarismo” da Hannah Arendt, mas desconfio que não deve andar muito longe disto.
Quero pois insistir num ponto: não acredito na transformação da sociedade para se transformarem os Homens; acredito sim na transformação dos Homens para assim, talvez, se transformar a sociedade. E, como disse atrás, acredito que foi precisamente para isso, para transformar os Homens, mas cada Homem, que Deus nos enviou o Seu Filho.
Ora é precisamente por isso que, ao contrário de grande parte dos meus amigos da Terra, o meu cristianismo é apolítico, totalmente apolítico.
Volto a citar Unamuno, que era muito cristão e muito político, mas que não era definitivamente um cristão político nem um político cristão:
«A missão cristã não é resolver o problema económico-social, o da pobreza e da riqueza, o da partilha dos bens da terra; embora aquilo que redime o pobre da sua pobreza também redima o rico da sua riqueza, do mesmo modo que aquilo que redime o escravo redima também o tirano, e que é preciso acabar com a pena de morte para resgatar não o réu, mas o verdugo. Mas isto não é uma missão cristã. Cristo chama igualmente pobres e ricos, escravos e tiranos, réus e verdugos. Perante o fim do mundo, perante a morte, que significam pobreza e riqueza, escravidão e tirania, ser executado ou executar uma sentença de morte?»
Unamuno aqui não está a ser conformista, embora o possa parecer. Não, o que ele está a fazer é a tentar ser coerente com aquilo que a Palavra e Vida de Cristo são e não com aquilo que grande parte de nós gostaríamos que fossem. A coerência dele é uma coerência que resulta duma Fé profunda mas que é fonte dum também profundo sofrimento de crente: a tal agonia do cristianismo. Outra citação ajuda talvez a percebê-lo melhor:
«Mas como o cristão é um homem em sociedade, é um homem civil, é cidadão, poderá ele desinteressar-se da vida social e civil? Ah! A verdade é que a cristandade pede uma solidão perfeita; a verdade é que o ideal da cristandade é um Cartuxo que deixa pai e mãe e os irmãos por Cristo, e renuncia a constituir família, a ser marido e a ser pai. O que é impossível, se a estirpe humana tiver de continuar a existir, se a cristandade tiver de continuar a existir no sentido de comunidade social e e civil de cristãos, se a Igreja tiver de continuar a existir. E isto é a coisa mais terrível da agonia do cristianismo».
Confusos? Pois com certeza, também eu o estou. Só tenho algumas ideias claras. Uma é que o desejo de politização, no sentido de actuarmos ou apoiarmos a tentativa de transformação da sociedade, para extirpar as terríveis injustiças que a minam é uma coisa muito válida – apenas acontece que, muitas vezes, é desculpa para não fazermos por nossas mãos aquilo que é preciso fazer ao próximo que sofre ao nosso lado, outorgando essa nobre e incómoda missão a outrem, tão indefinido como só o Estado pode ser. Outra ideia clara é que a única coisa que podemos fazer enquanto cristãos é darmos testemunho Dele. E isso não pode ser menos do que entregarmos ao Outro a nossa vida ou uma boa parte dela. Só assim é que o Amor que Ele nos ensinou, nos pode transformar a nós, e transformar outros à nossa volta. Parece irrelevante e minúsculo mas conheço pouquíssimos capazes de o fazer.
E aí está a minha outra ideia clara: é que apesar de todas estas ideias claras eu tenho sido absolutamente incapaz de fazer algo que remotamente se pareça com isso. E que certamente, por mais tempo ainda, continuarei a sê-lo. Essa é que é a agonia do meu cristianismo.
Mas sou católico e um católico é sempre um cristão com esperança. E a esperança que tenho é a de que um dia eu e todos nos ofereçamos para levar aos ombros os irmãos que precisam e não aqueles que pretendemos agradar ou aplacar. E que em caso algum, salvo se muito precisarmos, eu e todos nos recusemos a que quaisquer irmãos nossos nos carreguem aos ombros. Para assim caminharmos lado a lado, como filhos do mesmo Pai.
E a Igreja?, perguntarão. Bom, a Igreja, conjunto de monjes e de frades, a Igreja corpo místico de Cristo mas também povo de Deus mas também organização e hierarquia, obrigada que está a durar até ao fim dos tempos, a Igreja essa sofre, mais ainda do que nós a agonia de Unamuno, que é mais não é do que uma luta, a luta entre a vida da Fé e a perenidade do testemunho.
Por isso ela nos dá a sua doutrina social, a sua caridade, a opção preferencial pelos pobres mas tem de reprimir e abafar a teologia de libertação. Tal como eu, a Igreja sendo cristã pode e deve ser política. Mas não enquanto Igreja de Cristo.

Chega por hoje, para não confundir os incautos nem a mim próprio. Mas este assunto dá pano para mangas, talvez o continue no Guia...

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

(0) comments

Portugal, Brasil, a mesma luta

Num momento de ofensiva do grande capital em Portugal, no Brasil e no resto do mundo, num momento em que o capitalismo mundial tenta impor o neoliberalismo como ideologia dominante que permita legitimar através de uma moral tecnocrática imanada de um «deus-eficiência» corporizado no mercado o crescente fosso entre os mais pobres e os mais ricos convém recordar algumas palavras das Comissões Justiça e Paz de Portugal e do Brasil. Recorde-se que estas Comissões foram criadas pelos Bispos das Igrejas Católicas em todo o mundo (as Comissões Justiça e Paz de Portugal e do Brasil foram criadas pelas Conferências Episcopais de cada um destes países).
A luta contra o grande capital é tanto mais urgente quanto as desigualdades se acentuam com o beneplácito e a complacência de governos democraticamente eleitos. Como dizia em Portugal um dos membros de uma organização de luta contra a pobreza, João José Fernandes: «Temos tantos debates sobre o Estado da Nação e nunca se refere o problema da pobreza e da desigualdade».

Comissão Justiça e Paz (Portugal):
"Não só a pobreza deve merecer a nossa atenção, constituindo também motivo de preocupação o facto de se saber que o livre jogo das forças económicas acentua as desigualdades na repartição do rendimento e da riqueza, o que coloca graves problemas aos poderes públicos e à sociedade em geral. Cabe aqui recordar o apelo da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que afirma expressamente: “Deus destinou a terra e tudo que ela contém ao uso de todos os homens e de todos os povos, de modo que os bens da criação devam afluir equitativamente às mãos de todos, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade.” (GS, 69)."
"A longo prazo, não se observa uma tendência geral na distribuição do rendimento disponível das famílias, desde os meados dos anos 70. No entanto, no período mais recente, ou seja, entre meados dos anos 80 e meados dos anos 90, as desigualdades de rendimentos reforçaram-se"
"O rendimento relativo das famílias monoparentais e dos membros das famílias sem trabalho é muito baixo e a situação destas pessoas degradou-se"
"se não houver uma opção clara, por parte dos poderes públicos e da sociedade em geral, por uma distribuição mais equitativa da riqueza e dos rendimentos, arriscamo-nos a continuar a assistir ao agravamento das desigualdades, com repercussões particularmente gravosas para os grupos mais vulneráveis da sociedade e com efeitos dramáticos sobre a coesão social."
"Particularmente negativas são as posições daqueles que, sob o argumento da eficiência económica, relegam para segundo plano as consequências sociais do funcionamento dos sistemas económicos, colocando dificuldades acrescidas à condução das políticas sociais."
"A construção de um modelo de fiscal mais justo torna-se por isso num imperativo ético, já não falando da maior racionalidade económica que lhe está associada, constituindo uma prioridade das políticas que visam uma repartição mais equitativa dos rendimentos e da riqueza. A este propósito, convém recordar que nem todos os cristãos estão conscientes das suas obrigações quanto ao cumprimento dos impostos, o que contraria a edificação de um sistema fiscal mais justo e atenta contra a solidariedade que é devida aos grupos mais vulneráveis e a obtenção de uma sociedade socialmente mais coesa."


Comissão Justiça e Paz (Brasil):
"Nas últimas eleições, com a esperança de realizar mudanças na política neoliberal que vinha sendo praticada desde 1990, o povo brasileiro elegeu o Presidente Lula. Até este momento, avaliamos que pouca coisa mudou e presenciamos um mandato cheio de contradições. De um lado, o governo seguiu com uma política econômica neoliberal, resultado de suas alianças conservadoras. De outro, adotou um discurso da prioridade social e uma política externa soberana e de aliança com as nações em desenvolvimento. A eleição do Lula reacendeu as esperanças na América Latina, e influiu de forma positiva em alguns conflitos políticos na região.
De olho nas eleições de 2006, as elites iniciaram, através dos meios de comunicação uma campanha para desmoralizar o governo e o Presidente Lula, visando enfraquecê-lo, para derrubá-lo ou obrigá-lo a aprofundar a atual política econômica e as reformas neoliberais, atendendo aos interesses do capital internacional.
Preocupados com o processo democrático e também com as denúncias de corrupção que deixaram o povo perplexo, vimos a público dizer que somos contra qualquer tentativa de desestabilização do governo legitimamente eleito, patrocinada pelos setores conservadores e antidemocráticos."


PS.: Soube recentemente que Portugal é o país da União Europeia (UE) onde os ricos são os mais ricos e os mais pobres são os mais pobres e que as 100 maiores fortunas portuguesas representam 17 por cento do Produto Interno Bruto e 20 por cento dos mais ricos controlam 45,9 por cento do rendimento nacional. Não sei como é o Brasil...

Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

segunda-feira, outubro 17

 

Sobre um post do Timshel

[Carta dirigida ao Timshel, em referência ao post sobre a adopção no quadro de um casamento homossexual. Publicado com autorização da autora.]

Li, há uma semana atrás, o texto contra o casamento entre homossexuais. No que respeita ao casamento pela Igreja, considero que cabe à Igreja decidir como achar por bem e, portanto, não me meto. É entre a Igreja e os seus fiéis. No que respeita ao casamento civil, se este é, como se diz, uma adaptação do Católico, pois, está muito bem, que não seja então concedido o casamento civil aos homossexuais, não tenho propriamente veia reaccionária.
Fiquei portanto sossegada, a aguardar a anunciada segunda parte, sobre a adopção por homossexuais. Ei-la aí e venho agora juntar-me à conversa.
Acontece que, se até posso concordar com a não permissão do casamento entre homossexuais, penso que lhes deve ser reconhecida a união de facto, ou algo do género, e que isso tenha, para todos os efeitos civis, estatuto equivalente ao do casamento.
E aqui discordo com o Timóteo, que nega o casamento entre homossexuais com o propósito de lhes impossibilitar a adopção - ainda que, da leitura do texto, me tenha ficado a suspeita de que o próprio Timóteo é capaz de discordar de si mesmo.
Diz-se: «(...) mais grave que a simples possibilidade jurídica de dois seres do mesmo sexo se poderem casar são as possibilidades que encerra uma tal medida. Se duas pessoas são casadas têm legitimidade para adoptar crianças no quadro do seu casamento».
E contradiz-se: «Gostaria de sublinhar que nada tenho contra a adopção de crianças por homossexuais. Se após uma análise atenta do candidato à adopção por parte da entidade avaliadora, esta chegar à conclusão que o candidato homossexual à adopção tem todas as condições de existência, maturidade, responsabilidade e equilíbrio psíquico para educar a criança num quadro de respeito pela sua formação integral e equilibrada e num quadro de afectividade que garanta a sua felicidade a longo prazo, o candidato homossexual à adopção não deve ser discriminado (...)».

Eu sei que o próprio afirmou não ter certezas absolutas sobre o tema, mas não deixa de me fazer confusão: para quê então uma espécie de campanha pelo não à adopção por homossexuais? (Ocorre-me agora, que talvez o que expus acima não seja contraditório, talvez o Timóteo pense que a hipótese formulada nunca se confirmará, que nunca, em caso algum, um candidato homossexual à adopção de uma criança possa ser melhor do que outros candidatos existentes. Será assim?)

Mas basta de rodeios, vamos ao que importa. E para começar, o mais fácil, o ponto em que concordo em absoluto com o Timshel: «o amor é o único valor absoluto».
Como é que a partir deste ponto comum podemos responder de maneira diferente à pergunta que ele mesmo colocou é que já não sei, porém a verdade é que se me colocarem a mim a pergunta que o Timshel formulou - «Imaginemos um casal homossexual modelo com grande estabilidade afectiva e que deseja educar uma criança nesse quadro. Porque razão se há-de impedir um tal casal de adoptar uma criança?» - Eu respondo: Por coisa nenhuma. E o espantoso é que o que me leva a dar essa resposta, é o mesmo motivo pelo qual o Timshel objecta à adopção por homossexuais: «O direito duma criança à felicidade».

Timshel, de acordo com a sua definição de família normal, essa "família normal" parece-me coisa rara e, sendo coisa rara, não poderá ser normal, uma vez que à noção de normal corresponde, como se sabe, aquilo que é mais frequente, usual. E aquilo em que baseia a sua noção de "família normal" tem que se lhe diga.
Quando diz que, pelo menos, 99,9% das famílias não são homossexuais, está, como diz a fazer uma suposição, mas há suposições e suposições e essa tem muito de arrojado. (O princípio da precaução também aí devia ter sido usado.) Não nos podemos esquecer das famílias monoporentais, com filhos menores, cujo orientação sexual do pai ou da mãe desconhecemos. Poderão, com certeza, ser uma minoria, mas 0,1% pode muito bem ser exagero. Contudo, nem é por isto que considero a sua "família normal" uma coisa rara, mas pelo seguinte.
Uma família, enquanto célula apta à reprodução da vida feliz, não é assim tão frequente quanto isso. Ou, pelo menos, falha demasiadas vezes nas condições desejáveis para a criação e educação de uma criança. Isso não acontece excepcionalmente, ao contrário do que diz. Há instituições que não podem acolher mais menores por sobrelotação. Há menores a cargo de familiares que não os pais, pelos mais variados motivos. Há os maus tratos-infantis escondidos. Porém, deixemos estes dois últimos para segundo plano, que não esses que são passíveis de ser adoptados.

O direito de uma criança à felicidade. O direito de uma criança a um espaço seu. O direito de uma criança a adultos disponíveis e atentos. O direito de uma criança a uma história lida antes de dormir. O direito de uma criança a ficar a chafurdar por 15 minutos na água morna da banheira. Há instituições que funcionam melhor do que outras, é certo, mas quero acreditar que todas fazem o seu melhor. No entanto, duvido de que esse melhor deixe as crianças mais perto da felicidade do que uma casa, uma casa própria, um quarto seu. Com dois pais, ou duas mães, que seja.
Quando falamos de adopção, estamos a falar do que é melhor para uma criança. À partida, um adulto homossexual não é mais irresponsável, nem menos capaz do que um heterossexual. Não permitir a adopção por homossexuais não é proteger as crianças, é proteger a "superioridade" heterossexual.

Quanto aos processos que prevê, por discriminação sexual a cada pedido de adopção negado, parece-me só mais uma acha para a fogueira. Não acredito que chovessem processos. Porém, neste aspecto, especulo tanto com o Timshel, confesso.
Agora, onde não vejo, de todo, sentido é no receio de «(...) abrir as portas à adopção por parte de casais homossexuais em moldes incontroláveis.» Se nem os heterossexuais podem adoptar em moldes incontroláveis! Seriam os tais processos a provocar isto? Sejamos sérios...
Mais, actualmente, quem tiver mais de 30 anos, pode adoptar individualmente. Há maneira de se analisar rigorosamente a orientação sexual do candidato ou temos uma lei que até pode aprovar a adopção por homossexuais, desde que individualmente?

Quanto ao resto, ao que não está no texto do Timshel, mas anda pela cabeça de muita gente, o resto são medos. Não é por uma criança ser criada por um casal homossexual que se vai tornar homossexual. Não é por uma criança ser criada por dois pais que vai perder a referência feminina e vice-versa. As crianças estão, cada vez mais, desde mais cedo, em contacto com outras crianças, com outros adultos - há os infantários, as escolas... E os casais homossexuais não conhecem só pessoas homossexuais, não se dão só com pessoas homossexuais.
A única coisa que uma criança tem a temer da possibilidade de adopção por um casal homossexual estável, é o preconceito de muitas pessoas face a essa possibilidade.

O único valor absoluto é o amor. Se o amor de duas pessoas homossexuais não pode gerar a vida, pode alimentá-la, cuidá-la, vivificá-la. Acredito que a vida não é gerada de uma vez para sempre, é um processo contínuo. Não basta o acto de procriar, é absolutamente necessário respirar e ajudar a respirar.
Para as crianças.

P.S. Tive, também, oportunidade de ler o que escreveu o José, no seu blog, sobre este mesmo tema. Sobre isso, quero lançar uma questão. O tal homossexual francês, crítico das reivindicações homossexuais, por considerar que não passavam de afirmações identitárias... Bem, até que ponto seria ele contra a adopção por homossexuais por motivos razoáveis, e até que ponto não seria essa manifestação uma afirmação identitária do próprio? Até que ponto não estaria ele à procura da aprovação e da aceitação da sua pessoa por parte dos heterossexuais? O proselitismo pode estar em qualquer lado.

Rute Mota

(0) comments

quarta-feira, outubro 12

 

O casamento homossexual (2): a adopção no quadro de um casamento deste tipo

Tal como referi no texto da semana passada, relativo ao casamento homossexual, hoje explico as minhas objecções à possibilidade de adopção por casais homossexuais.

Uma referência preliminar a dois posts do Lutz (este e este) que suscitaram um interessante debate sobre aquele tema.

Começo este texto da mesma maneira que comecei o da semana passada: nesta matéria, como em quase tudo, não tenho certezas absolutas. A única certeza absoluta que tenho deriva da Fé e assenta num axioma indemonstrável: o amor é o único valor absoluto. Vou portanto escrever aqui apenas o que me parece. Apenas.

Algumas das críticas (entres outras a da zazie e do ca) à minha posição apontavam para a ideia que ela não era sustentável de um modo absoluto. E estou de acordo com essa crítica.

A fundamentação da posição que exprimi reside algures no interior de um triângulo que tem como vértices, três tópicos: as leis da natureza, a vida, o amor (entendido este em sentido de radical, total e absoluta entrega ao outro). Compete ao homem, usufruindo da sua liberdade, com a ajuda de Deus, encontrar no interior desse triângulo o amor em sentido lato (que englobe também o sentido da proporcionalidade e um equilíbrio de bom-senso).

Não penso portanto que a solução para este tipo de problemas decorra de um edifício lógico perfeito, monumental e coerente.

Mas penso que o amor desempenha (ou deverá desempenhar) nesse triângulo virtuoso o papel preponderante.

E assim entro no tema desta semana: a adopção por homossexuais.

Começo pela conclusão: mais grave que a simples possibilidade jurídica de dois seres do mesmo sexo se poderem casar são as possibilidades que encerra uma tal medida. Se duas pessoas são casadas têm legitimidade para adoptar crianças no quadro do seu casamento.

Imaginemos um casal homossexual modelo com grande estabilidade afectiva e que deseja educar uma criança nesse quadro. Porque razão se há-de impedir um tal casal de adoptar uma criança?

Do meu ponto de vista, por uma simples razão. O direito duma criança à felicidade. Julgo que uma criança, qualquer criança tem direito a uma família normal. E quando digo "normal" estou-me a referir aos dois sentidos desta expressão. Em sentido estatístico: suponho que 99,9% (pelo menos) das famílias não são homossexuais. E em sentido funcional: uma família normal é uma célula que, pelo menos em abstracto, é apta à reprodução da vida. Da vida feliz.

É óbvio que o casal homossexual modelo de que falei atrás parece uma melhor escolha que uma família "normal" que tenha profundos desequilíbrios afectivos e emocionais. A sociedade apresenta numerosos exemplos de crimes horríveis cometidos sobre crianças no quadro de famílias de modelo "tradicional" ou "normal".

Mas será correcto legitimar a possibilidade de adopção por parte de casais homossexuais apenas porque existem situações excepcionais em que as famílias normais falham de modo brutal?

Existe ainda outra porta que se abre com a possibilidade de adopção por parte de casais homossexuais. Em nome do politicamente incorrecto, seria quase impossível no futuro a uma entidade encarregada de seleccionar candidatos à adopção recusar a um casal homossexual, por pior que fosse, a possibilidade adoptar uma criança. Existiriam chuvas de processos acusando tal entidade de discriminação sexual.

Gostaria de sublinhar que nada tenho contra a adopção de crianças por homossexuais. Se após uma análise atenta do candidato à adopção por parte da entidade avaliadora, esta chegar à conclusão que o candidato homossexual à adopção tem todas as condições de existência, maturidade, responsabilidade e equilíbrio psíquico para educar a criança num quadro de respeito pela sua formação integral e equilibrada e num quadro de afectividade que garanta a sua felicidade a longo prazo, o candidato homossexual à adopção não deve ser discriminado (a menos que existam a curto prazo candidatos ainda melhores - ou com uma estrutura familiar mais adequada; mas isso não seria discriminação pois todos os candidatos à adopção devem ser preteridos quando existam candidatos melhores).

De facto, a minha grande objecção "pragmática" ao casamento homossexual é precisamente a possibilidade que encerra de abrir as portas à adopção por parte de casais homossexuais em moldes incontroláveis.

Existe um princípio que se deve aplicar sempre que existem intervenções em sistemas complexos. É o chamado princípio da precaução.

Quando há fortes indícios de que algo pode ser nocivo e em caso de incerteza científica devem-se tomar as medidas de avaliação da situação e de precaução necessárias para evitar males irreversíveis.

É uma espécie de princípio do bom senso. Este princípio é sobretudo aplicado relativamente a medidas adoptadas em contextos humanos ou de novas tecnologias. No ambiente, por exemplo, pois o ambiente é o caso típico de um sistema complexo em que as consequências de certo tipo de acções são frequentemente imprevisíveis.

Um sistema ainda mais complexo do que o ambiente é o homem. Se existe sistema complexo em que o princípio da precaução deve ser aplicado de modo rigoroso é precisamente no que diz respeito ao homem.

Tanto mais que a gravidade potencial dos danos causados nesse sistema aumenta na razão inversa da idade do ser humano objecto dessas medidas.

Nas crianças.


Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

A procura do Verbo

Nota: devia hoje pôr aqui a continuação prometida do meu profano artigo da semana passada. Devia hoje dizer aqui coisas que levaram já à defenestração de pessoas importantes. Ora hoje não me apetece ser defenestrado nem me apetece dizer coisas catárticas sobre este país anárquico, acabado de saír dumas autárquicas. Ficará para a semana, entretanto procuremos um melhor assunto, um assunto sério.

Nós não somos cristãos por acreditarmos em Deus mas sim por acreditarmos que Deus encarnou entre nós, enviando o Seu Filho para viver connosco e para morrer às nossas mãos. Uma vida e uma morte com o fim único de nos salvar. Uma vida e uma morte para Deus se aproximar irremediavelmente de nós e para que nós nos possamos aproximar finalmente Dele.
A pessoa e divindade de Cristo, a sua vida entre nós e a sua morte por nós, são a centralidade absoluta da nossa fé cristã, são aquilo que a torna distinta das outras grandes religiões. A natureza humana e divina de Cristo, a Sua palavra, a Sua vida e talvez sobretudo a Sua morte afrontosa na Cruz, são escândalo e mistério para descrentes e para crentes doutras fés. Mas também para nós, cristãos e católicos que dizemos ser, Cristo é também escândalo e mistério. Todos nos acreditamos em Cristo mas muito poucos de nós O conhecem, O percebem e vivem verdadeiramente em Seu nome. Nós acreditamos que Ele é “o Messias, o Filho do Deus vivo” mas não percebemos exactamente qual é o alcance desse facto em que acreditamos.
Nos Seus últimos dias, Ele sofreu e morreu perante muitos mas apareceu ressuscitado perante pouquíssimos. Muitos viram-No agonizando, como se fosse um qualquer homem, e por assim O terem visto duvidaram Dele. Essa dúvida, essa incompreensão do sentido divino do Seu sofrimento, fez certamente também parte da Sua agonia. Apenas uns poucos viram-No ressuscitado e a esses é que a Sua majestade divina apareceu indubitável. Mas nós, que estamos aqui hoje, nós somos como os que estiveram no Calvário e a quem contaram depois a história da Sua ressurreição. A nossa fé é por isso uma fé baseada na esperança mas não é isenta da dúvida e por isso Cristo agoniza ainda hoje nos nossos corações. Daí que seja nossa obrigação, enquanto cristãos e enquanto filhos de Deus, partirmos decididamente à descoberta de Cristo, de tudo aquilo que Ele é verdadeiramente, por impossível que isso seja. Só assim nos descobriremos a nós próprios.
Não é fácil, não somos os primeiros nem seremos os últimos a tentar e, eventualmente, a falhar. Mesmo aqueles que viveram com ele não o conseguiram, mesmo o apóstolo Pedro:


Disse-lhes Jesus: E vós, quem dizeis que eu sou?
Respondendo Simão Pedro: Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo.
E respondendo Jesus, disse-lhe: bem-aventurado sejas, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne e o sangue quem to revelou, mas sim meu Pai que está nos céus.
Também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
E eu te darei as chaves do reino dos céus. E tudo o que ligares sobre a terra será ligado também nos céus, e tudo o que desatares sobre a terra será desatado também nos céus.
Então mandou aos seus discípulos que a ninguém dissessem que ele era o Cristo.
Desde então, começou Jesus a declarar a seus discípulos que convinha ir ele a Jerusalém e padecer muitas coisas dos anciãos e dos escribas, e dos príncipes dos sacerdotes, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia.
E, tomando-o Pedro de parte, começou a increpá-lo dizendo: Deus tal não permita, Senhor, não sucederá isto contigo.
Ele, voltando-se para Pedro, lhe disse: afasta-te de mim Satanás, que me serves de escândalo; porque não tens gosto das coisas que são de Deus mas das que são dos homens.
(Mt, 16, 15-23)


Num momento, Pedro tem a iluminação Daquilo que Jesus verdadeiramente é; no momento seguinte não consegue entender o que Isso verdadeiramente significa. Também nós entenderemos e deixaremos de entender e assim será sempre, pois tão grande é o Mistério de Cristo.


José [GUIA DOS PERPLEXOS]

(0) comments

segunda-feira, outubro 10

 

Que globalização?

Por estes dias, no meio de enxurradas de notícias que nos vão invadindo a vida, tomei particular atenção às que nos chegavam do norte de África, concretamente, das cidades de Ceuta e Melilla, onde perante a fronteira de arame farpado, agora elevada para seis metros, cidadãos africanos tentam a todo o custo passar para a Europa. Sobressai a violência a que se expõem, e é usada contra eles, para os impedir de tal acto, ilegal.

O mesmo acontece, noutra parte do mundo – na fronteira entre o México e os Estados Unidos da América. Não advogo que a solução seja abrir as fronteiras. Mas, também se vê, que não basta fechá-las. Este assunto tem de ser resolvido de forma global.

Num artigo, editado na agência Adital, Washington Araújo, jornalista brasileiro, reflecte sobre a globalização. Transcrevo as partes mais significativas, com sublinhados meus:


Fala-se muito de globalização. Para muitos, globalização significa algo criado pacientemente pelo grupo dos oito países mais desenvolvidos do mundo e, apressadamente, implementada pelos mesmos. Já para outros a globalização é boa enquanto meio de se manter o status quo: nações ricas continuarão mais ricas e nações pobres reduzidas à miséria absoluta. Mas, penso que a globalização tem outro desafio. O de globalizar utopias, valores humanos, coisas como solidariedade e senso de humanidade. É bem equivocada a ideia de nos contentarmos com uma globalização meramente económica, financeira, onde o capital, esse pária sem alma e sem pátria, possa ditar os fundamentos da ordem mundial que tanto ansiamos por contruir.
Especialistas e pessoas de bom senso e todos os que estudam as causas da pobreza estão cansadas de saber que investimentos em educação pública de qualidade, desempenham um papel essencial no combate a esse mal.
...Outras soluções passam pela admissão de um maior contingente de imigrantes de nações pobres nos países desenvolvidos e o fim dos subsídios agrícolas.
Lamentavelmente, mediadas como essas têm sido sistematicamente repudiadas pelas nações ricas e dificilmente serão postas em prática.
Quando entendemos que somos um planeta, um só povo? Que tudo está profundamente interligado, que o que afecta um país acaba afectando os demais?
Por outro lado, sabemos que a verdadeira globalização não deve tratar apenas de criar megacorporações financeiras, de facilitar o livre tráfego de produtos, bens e serviços.
Antes, o mundo precisa de uma globalização de rosto humano, onde o cidadão e a cidadã sejam o centro das atenções. Afinal, de que adianta termos todos os produtos à venda se não existe poder aquisitivo para comprá-los?
...Globalizem-se os sonhos e também as percepções de que a diversidade humana, longe de nos empobrecer, constitui as bases para o enriquecimento do nosso património humano, que, antes de tudo, é universal. A verdadeira globalização haverá de nascer da compreensão sólida de que somos cidadãos de um mesmo mundo, de uma mesma pátria comum, de uma única humanidade. Repensar os efeitos nocivos da globalização hoje em dia é algo inadiável. Uma questão de direito...planetário!


Na Palavra que escutámos ontem, nas nossas missas, demos conta que Deus tem um projecto de Vida e de felicidade para TODOS. O profeta (Isaías 25, 6-10a), descreve em que consiste o Reino dos Céus. Dele, não é excluído ninguém. Através do compromisso (diáriamente assumido), do nosso baptismo, cabe-nos fazer com que todos, a ele tenham acesso. O Reino, disse Jesus, está já presente no meio de nós. O Reino, é a libertação de todas as fomes do homem.

Maria da Conceição (JARDIM DE LUZ)

(0) comments

quarta-feira, outubro 5

 

Outubro sabático

Agora que o ano litúrgico toma forma para celebrarmos ao longo de meses a Vida, com o nascimento, e a Vida, com a morte e ressurreição - e que, mundanamente, se confunde com os ritmos escolares ou os ritmos de enxadas, com sementeiras-colheitas ou colheitas-sementeiras -, eu retiro-me por um mês. De férias, fora da época que os dias e os trabalhos aceitam como meses de férias. De férias. Ao encontro de amigos, velhos conhecidos, ou histórias de afecto cujos puzzles vou agora completar. Um roteiro para mais tarde contar, quem sabe.

Neste sabatismo na terra, lavro alguns conselhos de Outono, se me permitem a ousadia. Para tardes que definitivamente se ponham com ar outonal: frias, aconchegantes, castanhas... Que este tempo também baralha os ritmos de Deus.
São obras que, de um modo ou de outro, nos falam de Deus. Ou de amor. E de vida. Quem sabe se não volto a eles, eu próprio, depois das férias...

Zbigniew Preisner: este compositor polaco será porventura reconhecido pela sua trilogia «Bleu», «Blanc» e «Rouge», as bandas sonoras da trilogia (igualmente essencial) cinematográfica de Kieslowski, realizador prematuramente falecido. É dele que vos proponho a audição de três obras marcadamente espirituais: o já referido «Bleu», que parte do hino da Caridade de Paulo (numa proposta de "hino europeu"), mas também o anterior «La Double Vie de Véronique», uma outra banda sonora, de um filme igualmente essencial, de... Kieslowski. É esta união de esforços e trabalho entre os dois que resulta a homenagem póstuma de Preisner ao amigo falecido. «Requiem for my friend», é o nome óbvio que esconde uma gravação em que Deus parece esconder-se e desvelar-se em cada sopro, a cada momento...
Sob uma capa diferente, de dúvida e questionamento: «A Vida Depois de Deus», de Douglas Coupland, é um livro de pequenas histórias, para se fazerem acompanhar com ironia, mordacidade e encantamento. Deus já foi. Ou ainda é?
A filmografia de Kieslowski soube traduzir as angústias e as alegrias da fé (quem não se recordará desse monumento televisivo dos anos 80 que é «Decálogo»?!), com a música de Preisner somos transportados para uma proximidade com Deus. Uma manifestação humana. Para vidas como as nossas, depois de deus.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

(0) comments

As causas da decadência dos povos peninsulares (1)

No outro dia estava eu a vasculhar o canto da estante da sala onde guardo todos os meu Eças e afins, à procura de releitura para serenar a alma. E eis que deparei com um livrinho, já velho e gasto, com o título acima escrito, a versão impressa daquilo que foi a célebre palestra de Antero de Quental, a primeira das célebres Conferências do Casino, cujo abrupto encerramento por ordem dum primeiro-ministro qualquer, que deixou apenas nome de rua, tanta celeuma provocou no Portugal de novecentos, tão longe de nós em idade, tão próximo de nós em qualidade.
Reli com gosto a tese de Antero, sobre as causas da espantosa decadência dos povos ibéricos, tão mais espantosa quanto mais era confrontada com o enorme desenvolvimento de então dos povos mais setentrionais, protestantes mas não só protestantes. Segundo Antero, que «era um génio e era um santo», essa decadência portuguesa e espanhola, contínua e irreversível desde o século XVII, era sobretudo resultante dos preversos efeitos do Concílio de Trento, que encontrou aqui na Península Ibérica um terreno muito mais arável do que na volátil França e na dura Áustria. Daí advieram uma debilitante influência clerical nos estados e nos povos, uma esterilizante educação da gentes e por aí adiante. Era também resultante do absolutismo, uma espécie particular de absolutismo plutocrata que, ao não concessionar a ninguém os gordos proveitos dos dois impérios, matou à nascença o desenvolvimento duma classe média burguesa que soubesse depender mais da sua própria iniciativa do que das mercês e munificências reais. Finalmente, era também resultante das duas formidáveis expansões imperiais, demasiado formidáveis para os recursos populacionais de ambos os povos, sobretudo dos nossos. E, talvez sobretudo, por ter habituado portugueses e espanhóis a ir buscar a riqueza na rapina ou no garimpo, em vez da indústria e do comércio. Mas fiquemo-nos por aqui quanto à tese de Antero.
Até porque passado quase um século e meio, a sua negra e sábia análise revela-se claramente caduca e ultrapassada. Pelo menos no que respeita à questão da peninsularidade, pois os povos reunidos na nação aqui ao lado encarregaram-se de demonstrar que a canga católica, a pesada herança autoritária e o saudosismo imperial não foram nem são impeditivos do tremendo salto de desenvolvimento que eles vêm dando de há 20 anos para cá.
E assim sendo, vemos ainda mais cruamente que o duro facto de afinal não termos saído da cepa torta não pode ser assacado ao voluntarismo de D. João II, à beatice de D. João III e à louca voragem despesista de D. João V. E, para não nos ficarmos apenas pelos Joões, não vale a pena queixarmo-nos das invasões francesas pois antes de aqui chegarem e depois de aqui de se irem, essa tropa fandanga assolou toda a Espanha. Nem vale a pena carpirmos as guerras civis pois nuestros hermanos também as tiveram mais numerosas e muito mais sangrentas, tiveram mesmo a guerra civil que é vista como a mãe de todas as guerras civis. Nem vale a pena relembrarmos o inefável António das Botas pois eles tiveram também o Francisco, o generalíssimo, muito mais bruto e mais bronco do que o nosso suavíssimo e imensamente cínico professor de Coimbra. E já que isto é um espaço católico, não vale também a pena falar do Cardeal Cerejeira, do Arcebispo Bispo Conde não sei de onde, nem da cumplicidade entre Igreja Católica e o Estado Novo. Os espanhóis tiveram isso e muito mais, pois foi uma cumplicidade fundada no sangue derramado na Guerra Civil. Nem vale a pena (e que me perdoe o meu avôzinho que está em Deus) falar do 25 de Abril e da enorme instabilidade que se arrastou por longos anos. Aqui ao lado, desde a morte de Franco até ao golpe falhado de Tejero Molina não foi pequena a instabilidade, acrescida como sempre do pesado tremendismo espanhol. É certo que nesses períodos loucos, aqui governados mais à esquerda, lá mais à direita, notaram-se algumas diferenças, talvez por lá se tenham agigantado mais grandes figuras, a começar pelo Rei, talvez por lá, para o mal e para o bem, as coisa tenha sido mais sérias e menos bufas.
Mas o facto evidente para quem tenha memória, é que quando em 1986, nos Jerónimos e na Moncloa, Portugal e Espanha foram admitidos ao reservado e providencial clube da CEE, estavam ambos em situações muito análogas: ambos de tanga, ambos lambendo feridas, ambos admitidos a bem da preservação da democracia e não por acrescentarem algo à economia dos grandes países que nos abriram os braços.
Eu sei que já cansa dizer e já cansa ouvir isto mas o facto é que passados quase 20 anos, olhando-se para os presentes estágios de desenvolvimento de Espanha e de Portugal, se percebe o quanto se enganou Antero ao colocar nos ombros de Portugal e nos ombros de Espanha a canga do mesmo atávico destino...
Como eu não sou nenhuma Ana Drago (abrenúncio!), não vou aqui falar aqui dos casamentos homossexuais nem do aborto nem doutras coisas fracturantes e, desculpem lá, não muito relevantes. Sou sim um homem prático e portanto é de coisas práticas que vou falar. Coisas práticas em que se cavou um abismo tremendo pelos lados da raia. Abismo que nos faz a nós portugueses recordar com alguma nostalgia os tempos em os pitorescos chapéus da GNR, do lado de cá, vigiavam os muito ridículos chapéus da Guardia Civil, do lado de lá.
Pois é a economia daquela gente, parece que já a 9ª do Mundo, a bater já às portas do nefando G8. Uma economia poderosa, aceleradíssima, que sustenta um Estado sem défice, governado por um socialista poético e que se pode dar ao luxo de o ser. Uma economia que eleva a Espanha no concerto das nações, a elevará certamente ao Directório Europeu, o dos 6 grandes, quando inevitavelmente ele fôr formado. Uma economia que se exporta para todo o Mundo mas que, à custa da persitente sabedoria dos seus governantes, uns após os outros, continua a alimentar-se de milhões e milhões e milhões de euros comunitários. E uma economia que, prova da Espanha ser verdadeiramente um país desenvolvido, se distribui não apenas em dividendos a accionistas satisfeitos. Daí um Sistema de Saúde invejável. Uma educação em franco progresso, sobretudo a universitária, que atinge hoje já patamares impensáveis para nós. Infraestruturas em progresso torrencial, quase demencial. Umas Forças Armadas prósperas e orgulhosas. E por cima de tudo isto, um modelo de desenvolvimento económico, que continua e perpassa pela alternância de governos de direita para governos de esquerda e que subjaz de uma certa ideia de Espanha. Uma ideia simples e que, mesmo com a excitação sempre latente e agora mais forte, das nações e nacionalismos, existe como existiu sempre na cabeça de todo o espanhol seja ele galego, basco, catalão ou lepero: a ideia grandiosa e grandiloquente de que arriba España!
Enfim, vai por lá uma grandeza...
E é com (mais) esta citação queirosiana, da bucolíssima “A cidade e as serras”, citação a que freudianamente recorro por sentir que tão pouco avançámos desde os tempos de Eça, que me interrompo por hoje, antes de passar à parte dura de escrever, a parte sobre porque é que para cá de Badajoz as coisas vão correndo tão mal, sem melhoria à vista. E, pior ainda, sobre aquilo que eu penso que vai acontecer.
Aproveito e deixo também passar as eleições autárquicas, onde certos 4 cavaleiros do apocalipse irão com certeza conseguir demonstrar que a culpa é irremediavel e inapagavelemente nossa. Nossa, de todos nós.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

(0) comments

O casamento homossexual (1)

Antes de entrar no texto propriamente dito, convém previamente indicar que nesta matéria não tenho certezas. Aliás como em todas as outras. A única certeza absoluta que tenho deriva da Fé e assenta num axioma indemonstrável: o amor é o único valor absoluto.
Vou portanto escrever aqui apenas o que me parece. Apenas.

O desejo natural da felicidade é um desejo de origem divina que Deus colocou no coração do homem (Catecismo da Igreja Católica, ponto 1718).
Embora o casamento seja um contrato de direito civil, ele é a imanência de uma lei natural por um lado e pelo outro, de uma lei divina, a lei do amor.
Não existe amor sem vida. A vida e o amor são as condições do caminho para a felicidade. Se a vida é uma condição natural - que nos foi oferecida por Deus -, o amor é um mandamento de Deus - que o homem pode ou não aceitar.
O casamento homossexual não visa à reprodução da vida. Dir-me-ão que em muitas outras situações o casamento heterossexual pode não visar à reprodução da vida.
Pode mas não deve. Um casamento em que um homem e uma mulher decidem não ter filhos, não em virtude de uma qualquer impossibilidade física mas em virtude de uma decisão voluntária que tem apenas em vista o seu próprio prazer, é, parece-me, um pecado ainda maior que um casamento homossexual.
Porque um homossexual pode ter a sua capacidade de autodeterminação e escolha sexual fortemente limitada por razões genéticas ou ambientais. O que não acontece com um homem e uma mulher que decidem livre e voluntariamente não dar continuidade à vida.
Uma escolha imoral feita por pessoas mais livres parece-me mais condenável que uma escolha imoral feita por pessoas menos livres.

Dir-me-ão: mas qual é o problema de aplicar as regras de um contrato de direito civil a uma relação homossexual? Nenhum. Por isso discordo dos sectores da Igreja que atacaram a proposta de Prodi de proteger juridicamente com as regras do casamento pessoas que vivam juntas. Desde que não assuma a designação de "casamento". Por isso discordo da lei espanhola recentemente aprovada que legaliza expressamente os casamentos homossexuais.

Outro argumento a favor dos casamentos homossexuais reside no respeito pela dignidade dos homossexuais que seria afectada se lhes não fosse permitido o casamento. Não me parece existir proporcionalidade entre a necessidade de respeito pela dignidade dos homossexuais que seria hipoteticamente realizada através do casamento e a violação da lei natural que representaria chamar «casamento» a uma união que não tem como fim e objectivo a reprodução da vida.
É que o sistema jurídico é um dos mais importantes reflexos e agentes do sistema de valores que norteia uma sociedade. E, nos sistemas de valores de uma sociedade, o caminho da falta de respeito pela vida humana conduziu sempre a horrores inimagináveis antes de se começar esse caminho.

Na próxima semana tenciono colocar aqui a segunda parte deste texto. As minhas objecções à possibilidade de adopção por casais homossexuais.

Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

Da mentira

Estamos em campanha eleitoral. Das piores campanhas eleitorais que me lembro – e a última para as eleições legislativas já foi suficientemente má: do "menino guerreiro" ao homem que nos garantiu que não iria aumentar os impostos, tivemos de tudo. Agora, como o que está em causa são mais razões práticas de administração doméstica das localidades e menos ideologias e concepções da Política, a luta pelos votos desce a níveis mais rasteiros. Não é apenas a inquietante supressão da vergonha, de auto-crítica, de noção do ridículo, do amor-próprio e da dignidade dos candidatos que se prestam a palhaçadas. É também a clubite partidária num espaço em que – diz-se – o que conta são as pessoas (gostava de ouvir a razão que leva os boys dos partidos a considerar o candidato que não conhece mas é do seu partido, à distante junta de freguesia x, melhor que outro candidato qualquer que também não conhece mas é do partido ao lado), a verborreia vazia, que mata qualquer significado das palavras, e os despojos do fim de festa, a sensação de tristeza e inutilidade de tudo aquilo.
No entanto, o mais grave é que parecemos todos aceitar a mentira como a regra deste jogo que devia ser dos mais nobres – a contenda por ideais, princípios e valores para a gestão da coisa pública, do bem comum. Em nenhuma outra actividade, em nenhum outro tipo de relações humanas, nos permitimos deixar impune esta traição à palavra dada. Não aceitamos a mentira aos amigos, aos familiares, aos colegas de trabalho, às empresas, aos clientes, aos desconhecidos com quem temos de lidar. Por que razão achamos natural e justificamos as mentiras dos que se propõem servir um cargo público? Porque criamos (mais) um campo de suspensão da moral nestas relações tão importantes?

Diz Alasdair MacIntyre (After Virtue - A Study in Moral Theory, Gerald Duckworth & Co., London, 1981) que perdemos um meio de assegurar racionalmente o acordo moral na nossa cultura. O imperativo categórico kantiano, expressão máxima do Iluminismo, dizia-nos: age sempre segundo uma máxima que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal, age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na de qualquer outro, sempre simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio, e que a vontade se possa considerar a si mesma como constituindo simultaneamente por intermédio da sua máxima uma legislação universal. Mas esta formulação da lei moral não pode ser uma proposição universalizável, na medida em que ela poderá validar com igual sucesso máximas triviais ou mesmo imorais. E, assim, desde o fracasso do projecto iluminista, que ficámos sem um background sustentador da moral.
Coube à religião, durante muito tempo, fornecer essa referência externa, esse suporte da moral, e o Iluminismo, embora ferindo as religiões tal como as conhecíamos, não foi capaz de fornecer um sustento à moral. Após a falência do Iluminismo, e como consequência, ganhou terreno a doutrina que sustenta ser todo o julgamento moral não mais do que uma expressão de preferência, reflectindo atitudes e sentimentos, e cujas proposições não são, portanto, nem verdadeiras nem falsas: é o emotivismo. É neste ponto em que estamos. Daí que muitos defendam convictamente que é irrelevante a consciente mentira de Sócrates sobre o não aumento dos impostos, pois, na realidade, não havia alternativa e todos concordam com o seu aumento.

O que tem isto a ver com a Terra da Alegria? Tem tudo, pois o que está em causa é o projecto de humanidade que tentamos seguir ou, mais humildemente, aquilo que pensamos que o homem é, o conceito de homem entendido como tendo uma natureza e função essenciais. Ora, desde o fracasso do iluminismo que se fracturou a concepção de homem que esteve presente nos nossos espíritos desde Aristóteles: homem tal como é, o homem tal como poderia ser se compreendesse a sua natureza essencial, e a ética como o instrumento que permite ao homem passar de um estado ao outro.
Hoje em dia isto soa a grego aos nossos ouvidos. Agora tudo se adulterou. A própria noção de Bem foi enfraquecida. Para Aristóteles, chamar boa a uma coisa era dizer que essa coisa servia perfeitamente o propósito para a qual era geralmente requerida. Mas a partir do momento em que a noção teleológica de natureza humana desapareceu, deixou de ser possível tratar os julgamentos morais como afirmações factuais.
Hoje subordinamos a moral à eficácia, a dados mensuráveis num determinado momento, aferíveis num lapso de tempo concreto. Ontem já passou e a manhã será outro dia. Daí que, nas campanhas de circo dos nossos politiquinhos, a dignidade da palavra dada seja um corpo estranho. Como a moral, a dignidade pressupõe uma coluna vertebral, um estado vertical com uma qualquer referência espacial. Mas na ausência de um propósito, de um objectivo último, o que é verdade hoje é mentira amanhã. E, assim, é sempre mentira.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

(0) comments

segunda-feira, outubro 3

 

Coisas soltas sobre a fé

Este texto é uma recolha de coisas escritas sobre a fé, devidamente citadas, comentadas e apreciadas, complementadas com alguns excertos da "Janela do (In)visível", do Pe. Anselmo Borges (ed. Campo das Letras).

a fé não é um sentimento
«A Fé não se confunde com acreditar em Deus. No início, toda a gente acreditava! Ninguém colocava em causa a existência de Deus. Mas, Jesus dizia: "Homens de pouca Fé". A dificuldade estava em ter com Deus uma relação de confiança, em ter Fé.
A Fé não é um sentimento. Por vezes, não sentimos a presença de Deus, ficamos "vazios". Mesmo nessas alturas é possível confiar. A Fé está relacionada com a busca do sentido da vida, a partir da relação com Jesus.
» (Zé Maria Brito)
Há uma frase que me arrepia: "Naquele momento senti Deus" ou "senti que Deus me respondeu", ou outra coisa parecida. Deus não se possui, não se sente. A fé não é um sentimento. É a acreditar que há um sentido na nossa existência e procurar segui-lo. Por isso tem razão Simone Weil quando diz que entre «duas pessoas que não fizeram a experiência de Deus, a que o nega está provavelmente mais perto dele do que a que o afirma». Quem acha que possui Deus, esquece o essencial.
E voltando ao Zé Maria: «O essencial da Fé é a convicção de ser amado, é experimentar que a minha vida faz sentido porque sou amado e tenho uma missão. Isto pode implicar dar sentido ao absurdo, ao que humanamente não faz sentido nenhum.»

se Deus não existisse
O Timshel costuma dizer que o importante não é ter a certeza que Deus existe (quem poderá tê-la?) mas agir como se Deus existisse. Anselmo Borges propõe uma reflexão próxima: e se Deus não existir mesmo?
«E se os crentes andarem enganados? Se precisamente no instante da morte lhes fosse revelado que não há Deus? O filósofo Auguste Valesin respondeu que não se arrependeria de ter acreditado, que tanto pior para o universo se não tem um sentido último, que afinal o mal não está em nós termos acreditado que Deus existe, mas em Deus por não existir. A mesma resposta deu a filósofa e mística Simone Weil: não se arrependeria por ter acreditado, pois "Deus é o bem" e, orientando assim a vida, "nenhuma revelação no momento da morte pode provocardesgosto" ou arrependimento.

da oração
Num texto clarividente e acutilante, já de há algum tempo, o Carlos Cunha dizia o seguinte, falando da sua relação com Deus:
«A minha relação com Deus passa sempre ao lado d'Ele. É colateral. (...) Claro, há a oração. Mas mesmo nos momentos mais intensos de oração, individual ou comunitária, nunca senti que Deus estava pessoalmente perto de mim, a escutar-me. Talvez esteja, mas nunca houve qualquer feed-back da parte d'Ele. Admito, no entanto, que o conteúdo das minhas orações não O comova particularmente. E também não sou muito bom a ler sinais. Nunca percebi o que Ele me quer dizer. Na verdade, acho que não me quer dizer nada de especial. Caso contrário dizia.»
E voltando ao P.e Anselmo Borges:
«Muitas vezes, crentes e não crentes queixam-se de que Deus deve estar surdo. Mas ainda bem que Deus não ouve as nossas orações, pois frequentemente só pedimos disparates. Em vez de pedir o Espírito Santo, como Jesus mandou, pedimos a Deus o triunfo do nosso egoísmo e o abate dos nossos adversários; honra, glória e riqueza para nós, e os outros que fiquem na miséria e sejam nossos servos. (...) Com a ladainha das nossas petições, quereríamos manter-nos na preguiça, continuar infantis e colocar Deus pura e simplesmente à nossa disposição e serviço...
Afinal, Deus dá-nos tudo o que é bom, e rezar é agradecer e louvar e preparar-se para receber o que Deus tem para nos dar... Rezar é ficar à escuta do que Deus no silêncio tem para nos dizer. Rezar não é a tentativa idólatra de converter Deus ao nosso desejo, mas tentarmos nós próprios converter-nos ao desígnio de Deus, que consiste na liberdade digna e na dignidade fraterna de todos os homens.
Rezar é fazer a paz dentro de nós e lembrar o essencial e olhar para o Infinito e ver o Divino em todas as coisas e contemplar a Presença viva de Deus no mais íntimo de nós e no rosto de cada homem e mulher...
»

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

(0) comments

Olhares sobre a Igreja. Evangelização e Eucaristia

Na Carta Pastoral , A Igreja na Cidade, no seu ponto número 10, D. José Policarpo, refere-se a um estudo que situa a Polónia e Portugal como os países da União Europeia onde a fé religiosa, concretamente a fé em Deus, tem uma maior expressão. E a seguir, enuncia os principais dados, em percentagens, que definem as atitudes do ponto de vista da fé.
Ao lermos os dados, e eles são facilmente detectáveis, a discrepância entre aqueles que um dia receberam o sacramento do baptismo e os que se reunem todos os domingos para celebrar a Eucaristia, é enorme.


Sendo o sacramento da Eucaristia o centro da vida de um cristão, temos de nos sentir fortemente interpelados, para a necessidade urgente, de focarmos a evangelização para a vivência participativa deste sacramento. Porque, mesmo, os que todos os domingos se reunem na sua paróquia ou noutro local para participar na Eucaristia, o fazem de forma inconsequente. É sinal disso, a falta de cuidado em estar presente logo no início da celebração. É muitas vezes visível a falta de atenção na escuta da Palavra. E a Palavra que é alimento para uma vida plena, e mais centrada em Jesus Cristo é escutada de forma inconsequente. Há um contraste entre a fé que se professa e a vida que se vive.

Acreditar em Jesus Cristo é acreditar no que Ele acreditava. É fazer as obras que Ele fazia.
Não podemos deixar de pensar e comparar a relação entre a quantidade de crentes baptizados e que se afirmam católicos, e o facto de sermos um país onde a corrupção, a fuga aos impostos, a fraca participação cívica, têm fortes expressões.


Logo no início do cristianismo, S. Paulo na 1ª Cor 11,20-21, interpela os cristãos sobre a forma como vivem a Eucaristia: “Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis. Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague.”

Estamos a terminar de celebrar o ano dedicado à Eucaristia. De entre algumas iniciativas mais ou menos visíveis, houve uma intensificação no cuidado com o rito. Nas paróquias, aconteceram alguns momentos mais intensivos de oração diante do Santíssimo Sacramento em exposição solene. Os frutos dessas acções só Deus o saberá. Mas como diz Jean Corbon no seu livro “A fonte da Liturgia”: “A adoração sem metánoia (arrependimento e conversão) do coração seria uma hipocrisia, mas uma conversão sem êxodo em direcção ao amor do Pai seria uma ilusão moralizante e desanimadora. A conversão é teologal, e a adoração é um regresso à vontade do Pai. Se esse movimento é celebrado na verdade e na fé, começamos a ser transfigurados; já não somos apenas espectadores de uma teofania, mas a nuvem envolve-nos: a epifania de Cristo torna-se nossa, a da Igreja.”


Diz-nos ainda o mesmo autor sobre a Eucaristia: “Uma vez porém que, ao longo de toda a liturgia divina, o Espírito Santo nos fez viver o acontecimento da Páscoa de Jesus, devemos estar atentos ao que Ele vai viver connosco após a celebração. Tendo-nos tornado Igreja, havemos de vivê-la como Kenose do Espírito Santo. Ao dom do amor que é sempre fiel deverá corresponder a verdade da caridade que o Espírito derrama em nossos corações.”

É grande o desafio que se coloca à Igreja. Para nós, cristãos leigos, não basta ficarmos à espera das mudanças que a hirarquia ouse promover. É necessário, que amemos cada vez mais o sacramento da Páscoa do Senhor, o testemunhemos na nossa vida a ponto de ela se tornar interpelação para os outros que ainda não descobriram esta riqueza da nossa fé.


Maria da Conceição (
JARDIM DE LUZ)

(0) comments

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?