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segunda-feira, setembro 19

 

Perante o exclusivismo

Num post anterior referi que o exclusivismo religioso não é um aspecto inerentes às religiões, mas sim uma atitude dos crentes em relação à religião e pode ter consequências nefastas no relacionamento humano. Essa atitude baseia-se no conteúdo de alguns excertos das Sagradas Escrituras. Nos parágrafos seguintes vou expor algumas reacções possíveis perante as atitudes exclusivistas dos cristãos.

A Autenticidade dos Textos
Questionar a autenticidade dos textos é talvez a mais comum (e a mais atraente!) das atitudes em relação ao exclusivismo. Há sempre quem argumente que esses textos foram adicionados às Escrituras originais. John Hick segue este tipo de argumentação e questiona se algumas passagens do Novo Testamento alguma vez teriam sido pronunciadas por Jesus Cristo[1]. Talvez por este tipo de argumentos ser frequentemente usado para questionar a pureza, a legitimidade e a autenticidade da própria religião cristã, nem sempre é levado a sério.
Sobre este assunto, a perspectiva baha'i é muito clara. 'Abdu'l-Bahá, numa conversa com um grupo de sacerdotes protestantes, em Paris, abordou o sentido dos textos e nunca questionou a sua autenticidade. Segundo as Suas palavras: "A nossa crença em Cristo é aquela que se encontra registada no Evangelho; no entanto, ao elucidamos este assunto não falamos literalmente"[2]. Também Shoghi Effendi afirmou que o Alcorão, a Bíblia e as Escrituras Baha'is podem ser considerados livros autênticos.[3]

A Representatividade dos Textos
Os textos que servem de base às atitudes exclusivistas poderão ser considerados os mais relevantes nas escrituras cristãs? Algumas comunidades cristãs (especialmente as de tendência mais conservadora) costumam extrapolar a importância dos textos exclusivistas e presumir que toda a Bíblia apenas contém textos deste género. Neste tipo de atitude enfatizam-se apenas alguns excertos das escrituras e atribui-se um carácter secundário aos restantes textos. Por exemplo, há que afirme que a mensagem do Evangelho está contida na expressão "o Filho único" (Jo 3:16) e que todo o texto deve ser encarado tendo esta expressão em mente.
Mas há também os teólogos cristãos que enfatizam os textos não-exclusivistas. O conceito judaico do Deus de Abraão soberano sobre todos os povos foi adoptado pelo Novo Testamento; um Deus e Pai de todos os povos, "a luz verdadeira que ilumina todos os homens"(Jo 1:9), que deseja que todos os homens sejam salvos (1 Tim 2:4), a quem "agrada" o que "põe em prática a justiça" (Act 10:35). Alguns chegam mesmo a argumentar que Mateus descreve Cristo como uma espécie de mediador entre Deus e a humanidade.
No Livro da Certeza, Bahá'u'lláh critica os sacerdotes muçulmanos que fazem leituras selectivas do Alcorão:

Que estranho! Estas pessoas, com uma mão, agarram-se àqueles versículos do Alcorão e àquelas tradições do povo da certeza que acham de acordo com suas inclinações e interesses e, com a outra mão rejeitam os versículos e tradições que são contrários aos seus desejos egoístas. "Acreditais, então, uma parte do Livro, e negais uma parte?" [4] Como poderíeis julgar o que não compreendeis?[5]
Com alguma facilidade se percebe que esta crítica é extensível a outras religiões. Assim, na minha interpretação pessoal dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, os cristãos que defendem crenças exclusivistas estão a distorcer os ensinamentos de Jesus, ao seleccionar e enfatizar alguns versículos em detrimento de outros.

A Interpretação dos Textos
Uma terceira atitude em relação ao exclusivismo é afirmar que este se baseia em interpretações incorrectas das escrituras. Um exemplo típico deste tipo de debate é a interpretação do versículo "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém chega ao Pai salvo através de mim." (Jo 14:6). Aqui os teólogos dividem-se entre os que consideram que esta afirmação se refere ao Jesus da história, e os que consideram que é uma referência ao Cristo da fé.
Pode-se argumentar que o Jesus do Evangelho de João é diferente do Jesus dos evangelhos sinópticos. "O Jesus de João é o Jesus da fé, o Jesus da imaginação da igreja dos primeiros tempos"[6], "de reflexão espiritual do que de fiabilidade histórica"[7] . É importante ter presente que o Evangelho de João se inicia com a encarnação do Verbo e não com o nascimento de Jesus. John Cobb, um teólogo protestante defensor do diálogo inter-religioso, argumenta que é o Verbo de Deus que fala na primeira pessoa nas páginas do Evangelho de João:

Afirma-se, assim, que o Verbo, que tinha encarnado em Jesus, é o Caminho, a Verdade e a Vida, e que ninguém chega ao Pai salvo através do Verbo. Isto não significa que o Verbo esteja presente e activo apenas em Jesus; no prólogo do Evangelho afirma-se que o Verbo era desde o início da Vida, e que esta vida era a luz verdadeira que ilumina toda a gente[Jo 1:9] [8]
"O Cristo que estamos a falar não é monopólio dos Cristãos, nem é um mero Jesus de Nazaré."[9] . Estamos assim na presença de um Cristo Eterno (distinto do Jesus histórico) que se manifesta em diferentes eras. Esta forma de interpretação dos textos exclusivistas é muito semelhante ao método baha'i de interpretação das Escrituras[10].

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NOTAS
[1] – Hick, Second Christianity, p.28
[2] - 'Abdu'l-Bahá on Christ and Christianity, pag. 8
[3] - Shoghi Effendi, citado em Lights of Guidance, nº 1033
[4] - Alcorão 2:85. Trata-se de uma acusação de Maomé aos Judeus e Cristãos do Seu tempo. No livro, Bahá'u'lláh mostra que esta acusação é agora aplicável aos próprios muçulmanos.
[5] - Kitáb-i-Íqán, parágrafo 181
[6] - Dialogue, pag. 16
[7] - Carpenter, Jesus, pag. 14
[8] - Cobb, Dialogue, pag. 16
[9] - Raimundo Pannikar, professor de religiões comparadas. Este autor afirma ainda que Cristo representa o centro de uma realidade, e que Rama e Khrishna são outros dos Seus nomes.
[10] – No livro Jesus Christ in Bahai Writings, Robert Stockman defende que, no Evangelho de João, quando Jesus fala na primeira pessoa, fá-lo na Sua condição de Manifestante de Deus e não na Sua condição humana.


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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