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quarta-feira, setembro 21

 

O neoliberalismo, uma psicopatologia do crescimento afectivo

Uma das críticas mais recorrentes ao cristianismo é o de que se opõe ao reconhecimento e recompensa do mérito técnico. Quando manda tratar todos os homens como iguais e irmãos entre si. Com o imperativo da partilha e da justiça social.
Alguns chegam mesmo a acusar o cristianismo (e sobretudo o catolicismo) de factor de atraso na competitividade económica dos povos do sul da Europa (esquecendo contudo o caso da Irlanda).
O evangelho do domingo passado, nomeadamente, continha (mais uma) parábola significativa. O senhor que dava o mesmo dinheiro a todos os seus servos independentemente da quantidade de trabalho que cada um tinha produzido (numa antecipação de quase 2000 anos à formulação por Marx do princípio "de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades").
É óbvio que racionalmente pensamos automaticamente que tal mandamento é algo inviável na natureza humana actual. Tendencialmente, se as pessoas recebessem o mesmo dinheiro, quer se dedicassem ou não ao trabalho, cada vez menos gente trabalharia. E cada vez mais todos seríamos mais pobres. E se um certo tipo de pobreza voluntária é desejável de um ponto de vista cristão, não passa pela cabeça de ninguém que seja desejável, de um ponto de vista cristão, não se poderem tratar doenças ou não se poder ter uma alimentação adequada por escassez deliberada de recursos.
O cristianismo visa a felicidade do homem. E esta felicidade passa pela disponibilidade de recursos que permitam ao homem lutar contra a miséria, a fome e o sofrimento. E os recursos só existem se forem criados pelo trabalho do homem.
Ora, o reconhecimento do mérito e a recompensa do mérito, tal como uma salutar competitividade económica são, na actual fase de desenvolvimento da humanidade e da natureza humana, poderosíssimos meios de aumento dos recursos à disposição da humanidade.
Mas o cristianismo não pára aqui.
Um pai deve tratar os filhos por igual independentemente das suas capacidades. O seu amor deve ser idêntico. Deve mesmo disponibilizar mais recursos por aqueles dos seus filhos que tenham menos capacidades para tomar conta de si próprios.
Depois do reconhecimento do mérito e da recompensa do mérito vem o "dever ser". As leis divinas, a lei do Amor que manda disponibilizar, partilhar dos que mais têm para os que menos têm e que mais precisam.
Estas leis são um imperativo moral individual. Mas são também um imperativo moral social. As leis e o aparelho de estado existem para que a sociedade não seja uma selva onde vigora a lei do mais forte. As pessoas têm direito à propriedade e à segurança. Mas estes direitos são (ou deverão ser) o reflexo de um direito mais forte: o direito que todos os homens têm ao respeito pela sua dignidade enquanto pessoas. A igualdade entre todos os homens é igualmente um aspecto deste respeito pela dignidade da pessoa humana. Daí a necessidade de redistribuição dos recursos.
E enquanto as leis divinas, a lei do Amor que manda disponibilizar, partilhar dos que mais têm para os que menos têm e que mais precisam, não forem aceites moralmente por todos, têm de ser impostas com equilíbrio, proporcionalidade e bom-senso pelo Estado. A este cabe regular a actividade económica de modo a que os recursos sejam redistribuídos por todos os homens (especialmente por aqueles que mais precisam), pela totalidade da comunidade de homens que é a sociedade.
Por isso em tempos designei o neoliberalismo como uma etapa do desenvolvimento infantil. Em que o sujeito só pensa em si próprio. Quando cresce aprende a pensar no outro. Quando a criança não ultrapassa a fase do egocentrismo estamos no campo da psicopatologia do crescimento afectivo.

Timshel [TIMSHEL]

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