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segunda-feira, setembro 5

 

Exclusivismo

Os ensinamentos básicos das religiões pretendem ajudar as pessoas a encontrar um significado e um conjunto de valores para orientar as suas vidas; paralelamente, algumas confissões e instituições religiosas costumam reclamar para si um estatuto de exclusividade, como se fossem detentora da "verdadeira revelação" e o "único caminho possível" para a salvação (ou libertação). No mundo actual, onde a globalização e o multiculturalismo são inevitáveis, estas pretensões de exclusivismo religioso devem ser equacionadas. Inevitavelmente algumas doutrinas antigas deverão ser reformuladas para ter em conta que há vários caminhos para chegar a Deus.
Podemos enumerar algumas consequências negativas das atitudes exclusivistas. A primeira é a divisão; as pessoas ficam catalogadas como "nós" e "os outros", os "salvos" e os "condenados". A segunda consequência é o obstáculo que se cria à cooperação e diálogo inter-religioso. A terceira consequência verifica-se quando as pretensões exclusivistas se combinam o poder político, económico e militar, gerando tensões e conflitos na sociedade. Não é de admirar que Hans Kung há mais de uma década tenha afirmado que a paz entre as religiões é um pré-requisito para a Paz Mundial[1]. 'Abdu'l-Bahá declarou que a crença de que uma religião é única que agrada a Deus que os seguidores das outras estão condenados por Deus e privados da Sua graça é a principal causa de preconceito religioso[2]. É importante não esquecer que a religião, ao reclamar exclusividade ou superioridade, é frequentemente usada para validar e intensificar conflitos humanos. A quarta consequência está na cristalização das principais diferenças teológicas entre as religiões, tornando-as sistemas de crença aparentemente irreconciliáveis entre si.

Podemos encontrar tendências exclusivistas em praticamente todas as religiões; no Judaísmo deparamo-nos com o conceito de "povo eleito"; no Islão sustenta-se que a revelação divina terminou pois Maomé foi o Selo dos Profetas (Alcorão 33:40) e advoga-se a superioridade do Islão em relação a outras religiões, porque os livros sagrados dos cristãos e dos judeus foram corrompidos (Alcorão 4:45-46).
No Cristianismo, os conceitos exclusivistas mais notórios são a encarnação (a essência de Deus encarnou na pessoa de Jesus Cristo) e a ideia de que a história sagrada chegou ao fim com a revelação de Jesus. E vários versículos bíblicos são invocados na tentativa de sustentar estes conceitos: Jesus é o Mediador entre Deus e a humanidade (1 Tim 2:5), não há outro nome pelo qual as pessoas se possam salvar (Act 4:12), Jesus é o Filho Unigénito (Jo 1:14) e ninguém chega ao Pai salvo através d’Ele (Jo 14:6). Estes, e outros versículos, costumam ser usados para justificar que Jesus foi o último Profeta, que nos deixou os ensinamentos definitivos, que Ele é a encarnação da Divindade e que a Sua revelação nos proporcionou o derradeiro acesso à vontade de Deus.
Alguns teólogos cristãos e especialistas em religiões comparadas, preocupados com a questão do exclusivismo, argumentam que a autenticidade dos textos é questionável; outros preferem dizer que o exclusivismo se baseia em interpretações incorrectas das escrituras, defendendo que se deve ter em conta o texto não é uma verdade histórica absoluta, mas um mero testemunho de fé, vivida num contexto histórico, social e cultural totalmente diferente dos nossos dias. O estilo de linguagem também varia conforme o autor e os destinatários dos textos.

É importante ter presente que o exclusivismo não é uma característica inerente às religiões, mas sim uma atitude em relação aos ensinamentos de uma religião. Os seus alicerces assentam frequentemente na interpretação literal de metáforas e simbolismos existentes nos Livros Sagrados. Na própria religião baha'i, algumas palavras de Bahá'u'lláh podem suscitar aspirações exclusivistas:
"Homem algum poderá obter a vida eterna, a não ser que abrace a verdade desta Revelação inestimável, maravilhosa e sublime."[3]
É verdade que não existe uma doutrina - ou teologia - baha’i exclusivista. Mas uma interpretação literal destas palavras poderia sugerir que para os baha’is, a salvação depende do reconhecimento de Bahá'u'lláh como Mensageiro de Deus. No entanto, isto seria uma contradição com outros ensinamentos do fundador da religião baha’i. Como poderia uma tal interpretação ser compatível com outros excertos das escrituras baha'is onde se declara que os seguidores de outras religiões também atingem a salvação? [4]
Ao ler esta frase de Bahá'u'lláh, devemos ter presente que as Suas escrituras dão uma maior ênfase à salvação colectiva do que à salvação individual; Ele mesmo declarou que a Sua Missão era "a salvação dos povos e raças da terra"[5]. Assim podemos entender que Bahá'u'lláh não tem pretensões exclusivistas sobre a salvação individual, mas que a salvação social da humanidade depende da adopção dos princípios da sua religião.

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NOTAS
[1] - Kung, Christianity and World Religions, p. 440-443
[2] – Paris Talks, p. 45-46
[3] - Selecção dos Escritos de Baha'u'llah, XCII
[4] - Recordo algumas das palavras de Bahá'u'lláh e de 'Abdu'l-Bahá: "Abençoado o homem que se volveu para Ele (Cristo) "; Maomé é a "Arca da Salvação"; o Alcorão é "o Caminho para todos os que estão nos céus e todos os que estão na terra".
[5] - Selecção dos Escritos de Baha'u'llah, CXV


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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