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segunda-feira, setembro 12

 

Do inefável

Há uns dias tive com o Filipe Alves uma troca de posts que me parece interessante acerca dum texto de Ana Vicente sobre a vivência do cristianismo na Europa. No último dos seus textos, veio à baila uma questão que já tínhamos aflorado: se os cristãos acreditam na vida eterna, porquê preocuparmo-nos com os problemas mesquinhos dos nossos dias? Creio que na maior parte das questões estamos de acordo: não sendo uma doutrina política, o cristianismo procura que as pessoas pessoas vivam de forma mais humana entre si. E se acreditamos que há um Pai comum, então alguma coisa nos liga aos nossos irmãos -- a solidariedade (que é outro nome da caridade) torna-se um imperativo moral. Nisso estamos de acordo. O que está em causa é a mais a maneira como falamos do inefável, daquilo de que não se pode falar sem usar metáforas, do que é o próprio cerne da fé cristã: a vida eterna. E aí deixo só um ou dois reparos - que ninguém espere lições de escatologia escritas à pressa neste domingo à noite. Cito o trecho do Filipe que me motivou a escrever este texto, sem pretensões de resposta:
"A doutrina cristã baseia-se na crença na ressurreição e na vida eterna junto de Deus. Nesse sentido, esta existência terrena será meramente transitória, pois a verdadeira felicidade de um cristão não se encontra no mundo."

Começo por citar uma história, creio que foi contada pelo Frei Bento numa das suas crónicas. Para falar destas coisas da vida eterna, numa lição de catequese, a catequista diz ao menino: portanto, a vida eterna é quando tu morreres, o teu corpinho é posto num caixão e vai para debaixo da terra; e a tua alminha vai para o céu. O miúdo meio baralhado pergunta: e para onde vou eu? A dualidade corpo-alma que herdámos de Platão tem sido fonte de confusões diversas e, pior, do desprezo do corpo em contraposição à alma ou ao mundo das ideias. Quando falamos dessa verdade de fé difícil de mastigar que os cristãos chamam "ressurreição da carne", estamos a dizer isso mesmo: não é a nossa alma que se salva. Somos nós mesmos -- todos, por inteiro. Nesse sentido quando falamos de ressurreição estamos a falar de alguma coisa que abarca a pessoa toda, com toda a sua história, com toda a sua personalidade. Sabemos que a pessoa é sobretudo construção -- crescemos e tornamo-nos no que nos fazemos (sujeitos, obviamente ao que está à nossa volta). É a isso que chamamos liberdade: nós somos o que quisermos fazer de nós mesmos. E é tudo isso, toda essa história, que participa também no que acreditamos ser o conhecimento pleno de Deus. A nossa vida de hoje também participa na vida eterna junto de Deus. Podemos dizer que a nossa "existência terrena é transitória", já que é certo e sabido que o fim virá. Mas para mim aquilo a que chamo fé passa por acreditar que "não é para a morte que nascemos". Nesse sentido acredito que a separação definitiva entre as pessoas não terá a última palavra. Ou doutra forma, acreditamos que a existência terrena participa também na existência divina. Por isso não posso concordar quando se diz que "verdadeira felicidade de um cristão não se encontra no mundo". Repito o que disse noutro texto: a ressurreição não é uma recompensa de bom comportamento que receberemos individualmente no fim dos nossos dias. A ressurreição é viver tornando Cristo presente aqui e hoje, acreditando que no final não estamos condenados ao vazio, mas ao encontro pleno com Aquele que será tudo em todos.
A Igreja pregou durante muitos anos que fora dela não existia salvação. No Concílio Vaticano II reformulou essa ideia e disse sim que fora do mundo não há salvação:
«(A) vertente ético-social é uma dimensão imprescindível do testemunho cristão: há que rejeitar a tentação duma espiritualidade intimista e individualista, que dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da encarnação e, em última análise, com a própria tensão escatológica do cristianismo. Se esta tensão nos torna conscientes do carácter relativo da história, não o faz para nos desinteressarmos do dever de a construir. A tal respeito, continua sempre actual o ensinamento do Concílio Vaticano II: "A mensagem cristã não afasta os homens da tarefa de construir o mundo, nem os leva a desatender o bem dos seus semelhantes, mas, antes, os obriga ainda mais a realizar essas actividades".» (Carta Apostólica Novo Millenio Ineunte)

Por isso eu acarinho tanto a política e insisto em misturá-la com a religião. Um dos maiores testemunhos políticos dos nossos dias, Maria de Lurdes Pintasilgo, dedicou-se plenamente à polis por Um só motivo.

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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